sexta-feira, 11 de julho de 2014

Carminha e Armandinho - Voo cancelado




Abri os olhos e vi uma mulher lindíssima, com perfume de suave fragrância, sentada ao meu lado, no fim do corredor de um imenso jato, destes trans-oceânicos, com três assentos nas janelas e quatro no meio do corredor.



A aeromoça falava com a voz sussurrante, semelhante à destas locutoras sensuais, com aquela entonação angelical, calmante e elucidativa:





"Sejam bem-vindos a bordo. Observem o número de seu assento no
cartão de embarque. Por medidas de segurança, acomodem as bagagens de mão nos
compartimentos acima de seus assentos e as que não couberem, abaixo da poltrona
a sua frente".







Voltei a atenção à mulher do lado, e meio que embriagado, me achando esquisito, sei lá, questionei onde eu estava e o que fazia ali. Como parei naquele avião? Olhou-me com olhar de ternura, sorriu candidamente e me deu um delicioso beijo na boca.



Enquanto isto a aeromoça prosseguia com sua fala: 





"Informamos que por determinação do Departamento de Aviação
Celestial - DAC é proibida a utilização a bordo de qualquer aparelho eletrônico
emissor de energia eletromagnética, principalmente telefones celulares que
deverão permanecerem desligados".





Fiquei sem fôlego, empurrei delicadamente a mulher, e trêmulo acenei para a aeromoça - Moça, moça... quero falar com alguém que me explique isto... moça, pelo amor de Deus... 




A aeromoça continuou a falar enquanto um anão ia tirando a sua roupa:



"A partir deste momento, está liberado o uso de laptops,
jogos eletrônicos, câmeras de vídeo e outros aparelhos não emissores de energia
eletromagnética. Os telefones celulares deverão permanecer desligados durante
todo o voo. No aparelho de televisão à sua frente passará o filme "Minha vida, meus defeitos, qualidades e virtudes", que explicará a todos, de maneira didática como vieram parar neste voo".






Para tudo, gritei pulando da cadeira. Vocês estão todos loucos. Isto aqui é um hospício. Tenho uma bomba na maleta e eu vou apertar este botão e ela vai explodir se não me explicarem o que se passa.





Gritaria geral, todos em pânico, até que uma voz lá no fundo despertou minha atenção - Armandinho... ôôi Armandinho... para com isto... vem cá pra trás que te explico tudo.





Olhei procurando a dona daquela voz, que trazia lembranças estranhas... cruzei os olhos aos dela. Era Gláucia, meu primeiro, único e verdadeiro amor. Namoramos na faculdade, mas eu pobre, ela muito rica, eu feio, ela linda, fugi do seu corpo mas habitou no meu coração e sequestrou minha alma nestes últimos quarenta anos.





Fui andando lentamente, era ela. Gláucia estava ali!! Meu Deus, estava linda!! Meu coração acelerava, Gláucia... Gláucia... puxa vida, eu velho, acabado, e ela linda, com aquele mesmo sorriso... Gláucia... ao aproximar, deu-me um abraço como nunca fora mais abraçado... Gláucia, eu... (comecei a chorar)... eu... te (chorava sem parar) ... Gláucia ... eu te ... eu te ...





De repente ela deu um passo para trás e começou a socar meu peito violentamente, mais violento ainda, ainda mais forte e eu percebi que ouvia uma outra voz - volta Armandinho, volta... foi quando dei conta que estava dentro de uma ambulância, eu acho, e um homem imenso estava batendo no meu peito. Olhei para o lado e Carminha, aflita, segurava a minha mão.





Fixei-me nela, lágrima rolando, corpo dolorido, sorriu pra mim meio sem querer, olhei mais firme ainda. Agora está tudo bem, disse. Você foi socorrido a tempo.





Que merda, Carminha, tinha que avacalhar com todo este alarde meu voo, logo hoje?





É isto aí!




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