terça-feira, 15 de julho de 2014

Melhor não saber





Alô? Queria falar com a Dalvinha.





Dalvinha? 





Sim, Dalvinha. Você é o pai dela?





Pai da Dalvinha? Não, deve haver um engano, meu nome é Arnaldo e Dalva é minha esposa.





Esposa? Arnaldo? Olha, desculpa, liguei errado, desculpa, hem!





Não, não, espera. Você ligou para qual número?





Bem, liguei para o que ligo sempre, 39.99.15.80.69





Então! Este é o número daqui de casa. Hoje fiquei com as crianças, por que a Dalva foi ao médico.






Crianças? Vocês têm filhos?





Sim, dois meninos. Olha, será que você poderia encontrar comigo. Pode ficar tranquilo, não tenho armas, não sou violento, pode levar quem você quiser, pode ser até na sua casa.





Humm, não sei. Estranho isto daí, mas aqui em casa não dá, por causa da minha esposa, a Carminha, sabe, ela pode achar isto tudo muito esquisito.





Entendo. Pode ser na Praça de Alimentação do Shopping, seis horas da tarde? Está cheio, muita gente, muitos seguranças, e se desistir, vá embora, pois não precisa se identificar. Tomamos um chopp ou dois e conversamos. Estarei com uma camisa azul claro e paletó azul marinho. Sou alto, tenho um e oitenta e cinco, pouco calvo. Estarei em frente ao Chopp na Brasa, aquele do melhor Chopp da cidade. Te aguardo lá hoje, às 18 horas, ok?





Certo, estarei lá.





No Shopping:





Olá, Arnaldo?!





Olá, sente-se. Moça, dois chopps. Posso saber seu nome?





Armando, mas pode me chamar de Armandinho.





Prefiro Armando. Olha, veja estas fotos e confira se a sua Dalvinha é a minha Dalva.





Sim, é ela mesma.





Diga, Armando - moça, mais dois chopps - como pode uma mulher fria como a Dalva ter um amante?





Fria? Arnaldo, Dalvinha é um vulcão em erupção.





Mas ela é chata, sem conteúdo, sobre o que conversam?





Sem conteúdo? Discutimos de Física Quântica à Deleuze; falamos de política, religião e esportes.





Dalva? - moça, mais dois chopps... Será que ela tem dupla personalidade?





Com certeza não, Arnaldo, ela é uma mulher maravilhosa. Tudo bem que eu não sabia que era casada, com filhos e com um marido tão gente fina.





Sabe, Armandinho - moça, mais dois chopps, meu avô foi corno, meu pai foi corno e eu sempre sonhei em manter a tradição, sabe? Aquilo mexia muito comigo, e como a Dalvinha era uma natureza morta na cama, na sala e na cozinha, eu já tinha até me conformado em não ser corno, entende? Mas aí, você, uma pessoa comum, casado, nem feio nem bonito, vai e realiza este meu desejo com uma perfeição acadêmica. Armandinho, você não sabe como estou feliz. Estou orgulhoso da Dalvinha!





Desde aquele dia, Carminha passou a achar o marido estranho. Armandinho nunca mais procurou por Dalvinha, perdeu o elã, o encanto, a saga da paixão proibida. Ficou arrasado. Começou a ser um marido monogâmico, fiel, mas sem graça, sem sal, meio que esquisito. Passou a ter uma estranha vontade de ser corno...





É isto aí!








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