domingo, 11 de janeiro de 2015

Dúvida razoável




Senhores jurados, Meritíssimo, sou inocente. Tudo começou quando nasci. Morava no Paraíso, daí um Anjo abruptamente pegou-me, trazendo meu corpo miúdo e nu a esta terra desolada. Ao aqui chegar, pequeno, indefeso, estranho a tudo, passei a  ser dependente de um casal esquisito, que me chamava de filho






Ohhhhh - vaias - gritos! 

- Silêncio!!! Silêncio. Prossiga.







Como está escrito naquele livro daquele pessoal, sou imagem e semelhança do Criador. Assim, ao me ver libertado do mal da maçã, que dominou minha vida, deduzi que todos os meus crimes estavam perdoados, pois estava perdido e fui encontrado.





Ohhhhh - blasfêmia, calúnia, pecador... Silêncio!!! 

- Mais uma manifestação e esvazio a sala. Prossiga.





Bem, daí resolvi processar o mal que me habitava em vinte e cinco milhões de reais, por tudo que manifestou em mim, e também, pela omissão, processo ao Criador que me deu o livre arbítrio e não me impediu de pecar, roubar, matar, molestar, etc e tal. Também a ele peço vinte e cinco milhões de reais de indenização.





Mas o senhor está abrindo um processo contra o Estado e contra a sua igreja?





Exatamente, sim e não, e neste caso a minha solicitação é que o Estado pague pelo prejuízo causado nesta peleja do bem contra do mal, e para isto rogo pela Responsabilidade Civil Subjetiva, já que a teoria da irresponsabilidade estatal que prevalecia nos Estados absolutistas não existe em um Estado de Pleno Direito. Quanto à Igreja, não é verdade, meu processo é direto com a Diretoria Celestial.





O senhor é louco?







Não, Meritíssimo, mas como a teoria da responsabilidade civil subjetiva está ancorada
em três alicerces: a culpa, o dano e o nexo causal, eu como sou vítima de um dano celestial e humano, rogo por esta indenização, pois aqui mesmo demonstrei a culpa do ofensor e o nexo causal entre a conduta daquele e o dano a mim promovido.







O senhor tem parentes próximos a quem o estado deve orientar uma tutela?





Não, Meritíssimo, sou filho único, e quando meu pai morreu, eu devia uma fortuna a ele, mediante uma dívida moral na qual acordamos em cem milhões de reais, desta forma passei a ser credor de mim mesmo, e agora quero receber pelo menos 50% deste crédito para me ajudar a ter uma vida razoável neste vale de lágrimas.





Mas neste caso a dívida é automaticamente anulada. Não se pode processar a si mesmo.





A mim mesmo não, mas existe o outro em mim, cuja tutela cabe ao Estado e a outra ao Criador. 





Processo suspenso até que o Outro e Deus venham depor.





Meritíssimo, não pode fazer isto, não pode. Eu tenho a procuração do Outro, eu protesto...




É isto aí!

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