Foi deitar achando que não estava bem. Olhou para a esposa ao lado, dormindo; despediu-se dela em silêncio, fechou os olhos e partiu rumo ao desconhecido umbral que divide os mundos. Abriu e fechou os olhos dezenas de vezes, tantas quantas foram as que olhou para o relógio.
Levantou-se em pelo menos quatro ocasiões, saiu pelo corredor até o quarto das crianças, passou pelo banheiro e voltou a deitar-se. Estava agoniado, mas o sono chegou.
Acordou com alguém batendo insistentemente na porta do quarto escuro. Tropeçou em algo, bateu a canela numa quina, o rosto foi de encontro à parede até perceber uma tênue luminosidade por entre as frestas da porta. Ao abrir, uma mulatinha de sorriso cínico e voz esganiçada mandou-o apressar-se. Olhou para o interior do quarto e percebeu que era um muquifo de chão batido.
Procurou um local para a ablução matinal e aí deu conta de que estava num vestido de estopa, solto; ao levar a mão à região genital, deparou-se com o órgão feminino. Deu um grito e desmaiou. Acordou com água no rosto e tapas da mulatinha, ajoelhada sobre seu corpo, chamando-o de “putinha histérica”. Olhou para ela e, ao estender as mãos para contê-la, ela caiu sobre seu peito e sussurrou: “Eu amo você. Por favor, não faça mais isto.” Beijaram-se demoradamente, sem pudor e sem limites.
Ao levantar-se, olhou de outra forma para a moça. Só então descobriu-se totalmente no corpo de mulher.
Saíram dali com muita pressa, por algum motivo grave, e ao atravessarem a viela fétida, escorregou no esgoto que escorria pela vala central, rodou o corpo leve no ar e bateu a cabeça numa enorme pedra no canto da estreita passagem. Acordou numa enfermaria lotada de homens feridos e mutilados, com gritos pavorosos e um cheiro de putrefação nauseante. Lembrava-se apenas das ordens do líder do seu grupo quando entraram em Ásculo, sob o comando de Pirro.
Tateou o corpo e percebeu que estava sem as pernas; pelo corte, deviam ter sido amputadas por gangrena. Lembrou-se de Milena, sua amada esposa, por quem jurara amor eterno no oráculo de Zeus em Dodona — Milena… Milena… até que não mais a chamou.
Mergulhou num túnel densamente iluminado, cilíndrico e acelerado. Acordou completamente suado, sem ar, e só acalmou quando deparou-se com sua esposa ajoelhada ao seu lado, com olhar tenso, afagando-lhe o rosto e pedindo calma.
Trocaram um olhar tão apaixonado, tão repleto de amor que ele levou as mãos ao rosto dela e disse: “Milena, eu te amo…” Só viu o vulto de algo vindo em sua direção e, novamente, mergulhou num turbilhão de vozes, sons e calor. Enquanto navegava pelas palavras ditas, malditas e bem-ditas, virou-se a tempo de ainda ver seu corpo sendo velado pela família e por alguns poucos amigos. O jeito era acomodar-se e esperar para ver onde aquela condução o levaria desta vez.
É isto aí!

Uauuu! Curiosidade e expectativa foi causando-me esta maravilhosas leitura
ResponderExcluirObrigado pelo carinho, Enide!
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