terça-feira, 26 de maio de 2015

Histórias do coração - Eu te amo para sempre!




Era apaixonado, destes que esperavam um simples olhar para sentir-se contemplado. Ela era a mais linda, a mais rica e a mais charmosa menina da escola. Eu carregava seus livros, fazia seus trabalhos, assinava seu nome na lista de presença e ficava ali, suspirando a espera de que alguma coisa espetacular acontecesse entre nós naquela pequena e pacata cidadezinha do interior.





Concluímos o segundo grau e ela sumiu, de forma que nunca mais a vi, bem como sua família, pois mudaram todos para a capital, segundo Tia Geninha, que sabia tudo o tempo todo. No baile ela me beijou de forma inesperada. Foi meu primeiro beijo na boca, de uma maneira singular, sem saber onde fazer o que com os braços ou com a língua. Ficamos abraçados uma eternidade e aí disse adeus.





Trinta e dois anos depois estava viajando a negócios e pernoitei no interior de São Paulo, rumo ao Paraná, quando tive uma imensurável e terrível dor de dente. A cidadezinha é uma estância climática, muito bonita, mas pequenina, sem muitos recursos de atendimento à saúde. Liguei para a recepção do hotel  e pedi ajuda, pois a sensação de sofrimento era insuportável.





Passados longos dez minutos, um táxi surgiu e encaminhou-me a uma casa muito bonita, imensa, nos arredores da cidade. O motorista disse que o hotel já havia contactado a dentista, e que logo iria me atender, e que ela já tinha este hábito de receber turistas em caso de emergência. Fui andando meio desconfiado, mas aí as luzes foram acesas e uma idosa surgiu na porta, perguntou se eu era a pessoa indicada pelo hotel, respondi que sim, mandou-me entrar e esperar pois a doutora já iria me atender.





Enquanto esperava, vi seu nome  nos quadros da parede, além de fotos da minha cidade natal, rostos conhecidos, velhos amigos, etc. Aquilo me anestesiou. Iria vê-la e de repente tudo era ansiedade. Era ela, minha musa, meu amor, minha metade, a razão dos meus dias na Terra. Fechei os olhos e senti seu perfume, seus cabelos longos, castanhos e cacheados, seus braços de princesa, suas pernas perfeitas, sua boca de carmim, tudo isto agora deveria se transformar no instante mágico do encontro com minha alma gêmea.





Ouço passos, são dela, sei que são pois são passos de uma deusa. Começo a suar e tremer todo o corpo. Lágrimas caem, acho que vou beijá-la assim que... espera aí. Você é a dentista?





- Sim, disse uma mulher horrorosa, rosto desfigurado por plásticas, seios turbinados com silicone, cabelo escorrido, meio vermelho, meio abóbora, com raízes brancas aparentes, dentes amarelados por nicotina, cheiro de perfume barato, jaleco imundo e ensebado, colocado por sobre uma camisola transparente que denunciava uma desproporção entre altura e largura, onde a calcinha tinha um furo sobre a primeira dobra da coxa esquerda. Pernas com varizes geográficas e uma sandália rasteirinha com pom-pom lilás compunham o conjunto. 





A dor voltou para meu desespero. Levou-me ao consultório, que na penumbra e pela dor, julguei ser uma pocilga sem nenhuma capacidade de suportar uma mínima visita de agentes sanitários, e talvez pela falta de um raio-x, foi martelando dente por dente até atingir a fonte do problema. Urrei aos céus. Explicou-me que se tratava de um possível processo infeccioso, e que apenas iria abrir para diminuir a pressão do abcesso, de maneira que pudesse prosseguir viagem até um centro maior e cuidar da causa. O problema era que não teria como anestesiar pois a área estava muito inflamada.





Perguntei o preço, e determinei que fizesse o que deveria ser feito. Logo ao iniciar a incisão, senti um jato de pus saindo seguido de outro e outro e não sei mais quantos. O cheiro na sala ficou insuportável. Ela foi alvo da trajetória na roupa, no cabelo, no rosto e eu, devido ao odor e dor, tive uma forte ânsia seguida de vômito aos seus pés, desmaiando em seguida.





Acordei de manhã numa confortável cama de um estranho quarto grande e  limpo. Ela entrou, perguntou se estava bem, se ainda doía. Examinou a área com espéculo, apalpou a região e ficou ali me olhando com aqueles olhos estrábicos rasos. Disse que ligou para o hotel pedindo umas roupas minhas e o rapaz que as trouxe ajudou-a a me trocar e me deitar. Foi muito atenciosa, verificou tudo, e me mostrou um banheiro, onde pude lavar o rosto e me recompor. Na saída, estava sentada à mesa, onde um café da manhã farto e variado nos aguardava. Foi então que muito educadamente falou:





- Eu tive a impressão de que conhecia você desde a hora que chegou.





- É, pode ser, viajo muito, talvez a gente tenha se visto por aí, mas tenho um rosto comum.





-  Não. Seus olhos. Eu conheço você, mas não consigo ainda ligar os fatos. Nós já nos vimos, tenho certeza. De onde você é?





-  Eu? Moro no Rio de Janeiro.





- Não foi isto que perguntei, mas sim onde nasceu?





- Ah, quer saber isto (esta velha está me cercando). Bem, nasci no Dobrado do Onça, no interior de Minas.





- Olha só, eu morei lá. Tenho até umas fotos na entrada do consultório. Meu pai era médico naquela região e quando terminei o segundo grau ele resolveu mudar para São Paulo. Agora me lembrei de você.





- Sério? Lembrou de mim?





- Sim, mas você não mudou muito, ficou mais velho ainda, mas sem dúvidas, pela sua idade aparente só poderia ser meu professor de Português, não é isto? Engraçado, ficou muito mais velho do que eu poderia imaginar...rs





- Mais velho é a... é a... não deu prazo para terminar. Ela levantou de sobressalto e me deu o segundo beijo das nossas vidas, aquele que esperei por décadas e eu... hummm... gostei.





- Seu bobo, você acha que eu não te reconheci? Sempre soube que voltaríamos a nos encontrar...





E foi assim que aquela pequena cidade do interior paulista virou minha rota de trajeto pelo menos uma vez por mês, por uns dois anos, até que resolvi ficar por lá para sempre.





É isto aí!







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