quinta-feira, 28 de maio de 2015

O realismo fantástico da política tupynambá (incorporando o personagem)




2º Ato, Cena 1





Marreta, você só tem que entrar pelo lado direito, aí vem andando furtivamente em diagonal até o centro, onde está marcado, volte-se para a platéia, abaixe a cabeça, faça uma expressão de dor, leve a mão esquerda ao peito e a direita à testa, e caminhe com dificuldade até o segundo ponto marcado, em linha reta, e pare, solte os braços, e ainda de cabeça baixa, olhe para o público com um sorriso sarcástico.



E você, Manezinho, vem andando descontraidamente da esquerda em diagonal até o centro, onde está marcado, volte-se para a platéia, abaixe a cabeça, faça uma expressão de fome, leve a mão direita sobre o estômago e a esquerda à boca, e caminhe desconfiado até o segundo ponto marcado, em linha reta, e pare, solte os braços, e ainda de cabeça baixa, olhe para o público com um sorriso simplório.



Neste momento a sonoplastia emitirá um som de peido, alto e facilmente identificado. Então um olhará desconfiado apontando o dedo para o outro e voltam ao ponto de entrada do cenário, pelo mesmo trajeto, em passos rápidos. Entenderam? Agora façam.



Mas o que é isto? É para um entrar pela direita, e outro pela esquerda. Qual o problema de vocês? É uma crítica de valores. Venham separados, um pela direita e outro pela esquerda. Tem nada disto de se cumprimentarem no centro e caminharem juntos. 





Corta - Mas que merda é esta? Tudo bem, você entrou pela direita, mas não é para fazer movimentos em círculo. Faça a diagonal para o centro. É uma metáfora, entendeu? Me-tá-fo-ra. O que não está entendendo? E você? De onde tirou esta ideia de que pode vir de costas da esquerda até o centro? Acha que assim ninguém percebe? Tem que fazer parecer que o caminho está livre, que é parte natural do processo que está ligando os dois pontos, entendeu?





Parem tudo, voltem e recomecem. Pombas, Manezinho, não é para ficar no centro com olhar ameaçador à direita. Nem mesmo mandei você, Marreta, voltar de onde veio depois da cara feia do Mané. Simples assim, cumpram o script. 





Mas que palhaçada é esta agora? Tira já estes óculos escuros de mafioso. Onde já se viu isto? E este colarinho imenso? Venha da direita para o centro sem máscara, sem esconder o rosto, apenas venha. E você, Mané? Tira esta merda desta camiseta regata com bolsa pochete. Voltem lá e se arrumem.





Puta que os pariu, de onde tiraram este rebolado para fazer a diagonal? E este boá no pescoço dos dois? Parecem duas vedetes da chanchada. E você, anda normal, caralho, nor-mal. E você, o que é este pó branco no nariz? Eu falei que isto não vai dar certo nunca, mas os patrocinadores... Bem, recomecem.



Incorporem o personagem, sintam o poder na mão dos dois, se odeiam e se completam. Penetrem fundo na história. Vocês agora são a personificação do texto. Tirem do fundo da alma todos os seus sentimentos. Isto, muito bem, Excelente. Que sarcasmo realista. Isto, mostrem que incorporaram os personagens. Agora o olhar e ... puta merda.. que cheiro é este? Vocês se borraram simultaneamente quando chegaram na frente do povo? Caramba - isto é realismo fantástico...





É isto aí!










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