sábado, 6 de junho de 2015

Mercinha da Lanterna Azul






Olá gente, meu nome é Clover, e eu gosto de ser chamado assim mesmo Clô-vér. Ok? Muito bem, todos na marcação. Gente, presta atenção. Este é o primeiro ensaio da dramaturgia que têm em mãos. E vê lá, hem. Todos já leram o roteiro? Alguma pergunta? 





Pois não, Robertinho? Gente, para quem não conhece, este é o Robertinho, cujo pai é o chefe do serviço de de ..., como dizer, bem, isto, distribuição e controle de tráfego, digamos assim, aqui na nossa comunidade e é o patrocinador desta peça.





(todos batem palmas para o Robertinho)





Seu Clover, veja bem, só uma dúvida, aqui. O senhor mencionou algo sobre ler o roteiro. Roteiro não é aquele sujeito que a gente paga para mostrar as atrações turísticas quando a gente viaja? Eu não vejo nenhum aqui.





(todos têm risos discretos e olhar de espanto)





Robertinho, aquele denomina-se "Guia Turístico". Roteiro é a peça propriamente dita escrita pelo dramaturgo, e nós estamos aqui reunidos em nome do seu pai, nosso grande benfeitor (palmas de todos) para transformarmos este roteiro numa peça teatral.





(todos olham em direção ao Robertinho, que não olha para ninguém.)





Gente, façam igual ao Robertinho, se tiverem dúvidas, parem o ensaio e perguntem. É assim que se faz. Parabéns Robertinho (palmas para o Robertinho). Então vamos lá, atenção na ordem de fala e não se preocupem com a cenografia, pois ela ainda está em fase de implantação. 





Seu Clover, desculpe, mas eu não estou entendendo uma coisa aí que o senhor falou e eu acho, por favor, não me leve a mal, eu acho e só acho mesmo que estas palavras aí que o senhor falou são de baixo calão.





Quem perguntou?





Eu, aqui atrás, meu nome é Regina Gulla, com dois eles, viu gente? Dois eles, não vão confundir, hem... risos só dela.





Regina Gulla, gente, o pai da Regina Gulla é o dono agência de segurança, digamos assim, aqui da nossa comunidade e foi ele quem levantou, digamos assim, todas as roupas e figurinos que vão ser utilizados na peça (todos aplaudem a Regina). Então, Regina, quais são as palavras que você sentiu ou percebeu serem de baixo calão?





Seu Clover, é minha formação, sabe, sou muito educada e minha família é muito religiosa. Uma é esta aí, gente nem sei se vou conseguir falar... dra...dra...dramaturgo e a outra é, ai meu Deus, deve ser até pecado repetir o nome... mas é esta tal de cenografia.




Bem, Regininha, posso te chamar assim? Obrigado. Bem, Regininha, o que você entende quando falo Dramaturgia e Cenografia?





(Vermelha, tremendo, gaguejando e com olhos mareados) Bem, seu Clover, é para responder mesmo? Todo mundo já sabe. 




Pode falar, Regininha, você está só entre amigos.





Ah, seu Clover, está bem. Dramaturgia não é aquele negócio onde todo mundo come todo mundo e Cenografia não é quando filmam isto e vendem o filme?





(Ohhhhh! Uns seguram o riso, outros ficam estupefatos)





Regininha, alguém te ensinou errado, minha filha. Olha só, vou escrever aqui no quadro a palavra Cenografia, que vem do grego "skenográphos". Viu? Ela ser refere ao cenário desde a montagem até a realização do evento e Dramaturgia, do grego "Dramatourgia" e ela, a dramaturgia, não está relacionada somente ao texto teatral, ela está presente em toda obra escrita para as artes cênicas. Entendeu?





Agora entendi, Seu Clover, muito obrigada.





E aproveitando, agradeça ao seu pai pelas roupas e, claro, pela segurança do espetáculo (palmas de todos para o pai da Regininha).





Bem, já que tiramos todas as dúvidas importantes...





Seu Clover, seu Clover...





Quem chamou?





Aqui, Zequinha do Gás.





Pois não?





Seu Clover, o que significa esta coisa de "Artes cênicas"?





Escuta aqui, Zequinha, você é quem?





Sou filho da Mercinha da Lanterna Azul ...





Ah! A Mercinha da Boite?





Isto mesmo, seu Clover, o senhor conhece a minha mãe?





O suficiente para saber que você é um tremendo de um filho de uma puta desinformado, agora cala a boca, volte-se para a sua insignificância na pirâmide social, que vamos começar logo o ensaio, por que a sua mãe, Zequinha, não quis dar nada de graça para mim, ouviu, Zequinha? Ela não quis dar nada de graça para... ajudar na peça, digamos assim.







É isto aí!







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