terça-feira, 14 de julho de 2015

O abismo dos caminhos cruzados.






Abismo - Edmilson Costa


Santo Deus, murmurou Ditinha, nua, suada e esbaforida sobre um desconfortável colchão mole daquele motel barato. Beijou-o gostosamente e deram-se em pele, pelos e poros.





Você é um sonho se compondo no meu corpo, é um anjo me revelando a vida, um presente dos céus sugando meus seios, disse acariciando um enebriado Olavinho Cambraia, desconhecido até a hora que o destino os uniu naquela tarde.





Estava no ponto de ônibus e uma chuva repentina despedaçou o céu sem controle ou aviso. Não tinha para onde correr e viu um homem desesperado, preso ao cinto de segurança do carro que navegava na avenida. Foi ao seu encontro, salvou-o e pronto - os olhares se perpetuaram. Sem perceber, fugindo do temporal, entraram no velho hotel de frente para a quase fatalidade.





Olavinho era rico, casado, monogâmico convicto, empresário bem sucedido, conhecia o mundo, falava três idiomas além da língua pátria e tinha uma tristeza no olhar a perder de vista. Ditinha era uma mulatinha pobre, casada, que procurava emprego naquela tarde. No calor dos abraços, beijaram-se, aqueceram-se, entrelaçaram-se até a exaustão.





Amanheceram agarrados sem desejarem se largar. Foi então que ele deu por conta de que estava sem carteira, sem celular e sem noção de onde se encontrava. Ela o puxou sem pudor, beijou-o sem pressa e o prendeu entre suas coxas. Nunca traíra o marido em dezessete anos de casamento e agora estava ali, apaixonadamente vadia. Depois de intensas horas de volúpia total, tirou da bolsa o dinheiro do aluguel, pediram a conta, pagou e foram enfrentar cada um o seu destino. 





No calor da paixão, não se preocuparam como nomes, endereços, contatos, nada... Em suas percepções de felicidade, confiaram no destino.





Olavinho buscou-a incessantemente por anos a fio e ela, uma mulata cada vez mais triste, conflitou-se pelo pecado, pela traição, pelo desejo, pelos solavancos e depredações que alucinam o corpo, a mente e a alma, amou-o em verdade o máximo que conseguiu, mas por pouco tempo, quando por não ter mais forças de entender os caminhos cruzados da vida, optou por um atalho que desse fim àquela agonia. 





É isto aí!


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