quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Analista da Pitangueira e o Mal de Plasvinstki




Love in an Elevator 


Sabe, doutor, estou me sentindo como uma das coisas mais estranhas e bizarras que poderia supor existirem. Meus batimentos cardíacos estão descontroladamente acelerados, acompanhados por uma sudorese intensa, seguida por falta de apetite e insônia.



Fale mais sobre isto...



Ando agitado, impaciente, irritado, nervoso, e com um sorriso ridículo na face. Além disto, quando entro no elevador, me sinto andando nas nuvens.



Elevador... nuvens... interessante. Prossiga!





Assim que desço das nuvens, trafego agitado pelo ambiente de trabalho, mas ao retornar ao elevador e deparar com aquela moça ruiva da qual sequer sabia o nome e desconhecia sua existência até poucos dias atrás é meu bálsamo e delírio. Meu conflito, e a minha dor.





Entendo. E como se deu este fato? Consegue explicar como tudo começou?





Bem, tudo começou quando, ao chegar atrasado ao serviço, o elevador estava fechando as portas. Uma mão feminina interrompeu o processo, permitindo que entrasse. Bastou um agradecimento e um bom dia no ambiente lotado. Então ocorreu um olhar de cumplicidade para aquela musa estonteante e um suave toque involuntário das nossas mãos. Naquele mesmo instante ela entrou nos meus intermitentes pensamentos, nos sonhos, nas fotos, nas vitrines, nos rostos anônimos das moças nas ruas, esquinas, bares e clubes. Frequentou cada célula da minha existência, invadiu minh'alma de forma cândida e ao mesmo tempo abrupta. É grave, doutor?





Bem, até aqui parece um caso clássico de Plasvinstki.





Pla... o que? Isto é mortal?





Não, é apenas uma coisa ainda a ser definida, daí um nome indefinido. Bem, e como ela era?





Ela era linda, perfeita, maravilhosa, fantástica, exuberante, charmosa, elegante, gostosa, enfim, era a minha vida exposta em uma face feminina. Ela era a diva do meu destino. No segundo dia, estava lá, com o mesmo sorriso e mais linda do que a versão anterior.  Ao terceiro dia dos sintomas agudos do desejo invasivo, tomei coragem, comprei uma dúzia de rosas rosas, uma caixa de bombons finos, e caminhei para o altar da comunhão dos sentimentos.



Altar da Comunhão dos Sentimentos? Interessante isto... prossiga!



Cheguei propositadamente atrasado, para encontrá-la num elevador vazio. Por alguma razão acreditava que ela estaria lá. E estava. Ela é quem abriu a porta, afastando-as com suas mãos de seda. Avancei sobre seu corpo e amamos entre o térreo e o quarto andar, sem escrúpulos ou privações.





Sei. Prossiga.





Então, a partir daí nos entregávamos em frenesi todos os dias até que numa manhã cheguei, não vi suas mãos abrindo as portas e tudo estava vazio, e nunca mais a vi. Entrei em pânico. Fiquei dias sem coragem de trabalhar, sob os cuidados de mamãe.



Sua mãe... sei... prossiga.



Ao retornar à rotina, tomei a coragem de ter notícias da moça. Ninguém sabia dela, nem mesmo o RH, as outras colegas de trabalho, a recepcionista, nada. Não sabiam e nunca souberam que tal moça existiu. Não constava de nenhuma contratação ou estágio. O que o senhor acha, doutor?





Após ser acometido do Mal de Plasvinstki, esteve por dias longe da realidade, dentro de um conteúdo clássico de previsibilidade deste mal. E ai, como conseguiu superar esta dor? 





Esta é a parte estranha. Não consegui. Solicitei na segurança o vídeo do dia que a conheci. Vi toda a cena de pessoas entrando no elevador, inclusive eu, e mais ninguém. No corredor do quarto andar, as câmeras nunca flagraram nenhuma mulher desconhecida, ou parecida com a descrição que dei.





Entendo, e quando se recuperou, retornou ao trabalho ou continuou fugindo?





Pois é, doutor, foi tudo muito sinistro. Eu, de fato, quis fugir para o além, mas meu chefe esteve lá em casa, conversou comigo, com mamãe e convenceu-me a voltar. Aí, doutor, logo cedo, ao entrar no elevador, no primeiro dia do meu retorno, bastou um bom dia perfumado acompanhado por  um olhar de cumplicidade e um sutil toque das mãos, com esta ruiva deslumbrante da qual falei no começo da nossa sessão, para iniciar todo aquele sentimento perdido. O que será isto, doutor?





Agora você tem com certeza, o que nós denominamos como de Mal de Tcharovska, uma coisa oportunista pós-Plasvinstki, ainda a ser definida, daí um nome indefinido...vamos falar da sua mãe...





É isto aí!

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