quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O analista da Pitangueira e as duas faces da obsessão




Dorinha no Divã: 





Assim que eu o vi naquela tarde, de repente, não mais que de repente, de uma forma súbita, meus olhos embaçaram como estivesse num misto de ira e susto, aí experimentei uma tontura com ânsia de vômito. E foi tão ruim que não conseguia nem respirar, me senti fora da realidade, penetrando num espaço frio e arrepiante. Sinceramente, eu comecei a ficar com pavor de estar naquele estado, e não sabia aonde ia parar, nem o que estava acontecendo. 





Depois, sempre que passava por ele na rua, aquela nebulosa cinza cobria novamente minha percepção de realidade, aí, quando começava, eu esperava pelo pior, aquilo era muito maior do que eu Ocorre que o caos toma conta de mim, como uma tempestade que passa e deixa vários estragos. Eu me sinto arrasada, e passei a ficar com muito medo de que aquilo ocorresse sempre de novo, mas sempre ocorre quando o vejo. Queria a minha vida de volta e ele virou tudo para outra dimensão. Foi por isto que resolvi procurar o senhor.





O Analista:





- Entendo. Você sabe pelo menos o nome dele?






- Claro, quer dizer, eu ouvi dizer que ele se chama Armandinho... suspiros... e lágrimas. É só isto que sei.





Armandinho no Divã:








Assim que olhei nos olhos dela, senti uma coisa que parecia sem fim, minhas pernas tremiam, meus cabelos todos se arrepiaram, não conseguia engolir ar nem mesmo a saliva, fiquei taquicárdico, e fui ficando cada vez mais ansioso, com movimentos involuntários num corpo incontrolável que parecia não ser o meu. Comecei a transpirar, com vontade de chorar e gritar, enfim, foi escandalosamente prazeroso.





Bem, daí, depois daquela inesquecível primeira vez, comecei a querer que acontecesse de novo, de novo e de novo e desejava sempre uma coisa diferente, que me permitisse sentir uma enorme onda de calafrios e emoção. Então a procurava e esperava toda aquela maravilhosa viagem no corpo e na mente. Fazia isto por amor, sabe, por que desde que a vi, andava diuturnamente com ansiedade, não conseguia mais me concentrar em outras coisas, deixei de sair de visitar amigos, parei com os passeios pelas madrugadas. Até aí tudo bem, mas quando percebi que não sentia mais a necessidade de visitar as meninas da boate da Lindinha, vi que tinha algo errado, foi então que resolvi procurar o senhor.






O Analista:





- Entendo. Você sabe pelo menos o nome dela?





- Lógico. Quer dizer, sei de ouvir falarem por aí, hummm, então, mais ou menos.





- Pode explicar este mais ou menos?





- Bem, ela se chama Auxiliadora Terena, tem a alcunha de Dorinha, mora na Rua das Couves, 158, trabalha na Boutique da Madame, no centro, estuda um destes cursinhos espera-armandinho na Faculdade Tal&Tal, gosta de hambúrguer com fanta uva, compra sua lingerie sempre no Tenda da Intimidade, tem enxaqueca, usa absorvente com abas, faz Pilates às terças, inglês nas segundas e quartas, tem apenas duas grandes amigas, não come carne nas sextas-feiras e pedala nos domingos de manhã. Também tem cartão da Claro e da Vivo, e prefere usar mais o da Vivo, sei lá o motivo... e também...





- Também...?!?!?!





- Nada, também não sei mais nada.





- Tem o CPF dela?





- Sim, 857... espera aí, onde o senhor quer chegar com isto?  





- Eu? Não sou eu quem quer chegar a algum lugar, é o senhor que está relatando esta sua obsessão.






- Obsessão? Eu? Que sujeito mais doido, de onde tira estas conclusões malucas sobre seus pacientes?  Eu, hem, quer saber, fui...





É isto aí!








Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gratidão!