sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Culpido da Rede




Tarde de inverno, com vento gelado e chuva fina. Violeta era toda esperança. Conhecera Rodolfinho num site de relacionamentos, ao qual pagou para esta finalidade. Afinal os cupidos também aderiram à cibernética mundial e fazem A conhecer B, gostar de C, apaixonar-se por D, e padecer de amor por E.





Esta arte não é nenhuma novidade sob os céus de Paris, Hong Kong, New York e Caratinga, uma das mais importantes megalópoles do mundo, só perdendo em importância para Patópolis, Smallville, Metrópolis e Gothan City. Visto isto, voltemos ao amor sem conhecer o outro e mesmo assim ser amor.





Era uma vez uma gostosona chamada Afrodite, linda, sedutora e liberal, que foi casada contra a vontade com um deus manco e feio (sic), e aí deu de ter uma vida de adultérios, luxúrias e paixões. Não bastasse isto, exigia ser reconhecida como a mais bela de todo o universo. (Conseguiu ligar os pontos?)





Numa destas suas dezenas de aventuras extra e pan conjugais, gerou Eros. Veja só você, o erótico nasceu do pornô e não o contrário, como quer acreditar sua vã filosofia. Eros encarnava a paixão e o amor em todas as suas manifestações. Logo que nasceu, Zeus, sabedor das perturbações que iria provocar, tentou obrigar Afrodite a se desfazer dele. Para protegê-lo, a mãe o escondeu num bosque, onde ele se alimentou com leite de animais selvagens.





Afrodite era orgulhos e vaidosa, pois além de ser uma deusa muito doida, exigia ser a única lindeza linda lindona e lindíssima da área. Aí ouviu dizer nas coxias, nos bastidores, nos corredores, e nas camas que frequentava que existia uma moça mais linda do que ela. A mocinha chamava-se Psiquê (uma inocente e frágil encantadora e dócil e linda e pura moça pobre da periferia do Olimpo). (onde você já viu isto?)





Mamãe chamou o filhinho, que era caçador, e disse - Eros, leve suas flechas envenenadas com a semente da paixão e acerte em Psiquê para que ela se apaixone e se case com um homem feio, horroroso, cruel, manco, tarado e pobre, pois isto irá destruir sua beleza cândida. É claro que isto era uma questão mal resolvida em sua vida pregressa, pois foi forçada a se casar com deus manco e feio. Eros era de tudo um pouco, inclusive um voyeur nato. Foi à caça e ficou apaixonado pela mocinha pura e inocente. Ficava horas espionando suas atividades domésticas, culturais e seus inenarráveis banhos de purificação.





Toda noite Eros vinha ver Psiquê, mas em uma forma invisível, igual aos encontros de hoje pelas Redes Sociais. A moça estava vivendo muito feliz naquele barracão de zinco sem telhado lá no morro. Eros comprou um castelo, encheu de ouro, prata, perfumaria, empregadas, mordomos, etc, banheira de hidromassagem, churrasqueira (pobre adora churrasqueira) e mandou um mané do Olimpo pedir a mão da mocinha pura em casamento para ele, mas com o detalhe de que ela jamais poderia ver seu rosto, pois mamãe mataria os dois se soubesse daquilo.  e a mocinha aceitou aquele sacrifício de se mudar de seu pobre barracão para o suntuoso palácio do rapaz.





Desde então, Eros passava a noite com a amada, no escurinho do quarto, só numa relação relacionada relativa, na tela fria do computador do Olimpo, numa época sem luz nem internet nem netflix nem nada. E a danadinha não se deixava vencer pelo cansaço. Mas foi passando o tempo, e Psiquê ficava cada vez mais curiosa para saber como era seu marido. 





Certa noite, quando Eros veio ver Psiquê, eles se encontraram e se amaram com todo o ritual cabalístico do Facebook. Mas quando, esgotado pelas odes a Onã, adormeceu, Psiquê escondida e no silêncio do seu quarto, pegou uma lamparina espiã online, acendeu-a, e quando  viu o belo jovem de rosto corado e cabelos loiros, ficou encantada. Porém, num pequeno descuido, ela deixou o som do celular ligado, e quando o seu whatsapp deu um alarme das suas irmãs pobres, ele acordou assustado e, ao ver Psiquê na tela, desapareceu.



O encanto todo acabou, o palácio os jardins e tudo que havia em volta desapareceu, como num passe de mágica. Psiquê voltou a ser pobre, ficou sozinha num lugar árido, pedregoso e deserto. Aí Eros enlouqueceu, recorreu a Zeus, suspirou, chorou, bateu as asas, estremeceu o Olimpo, até que mamãe, vendo-se condoída pelo mal que causou ao filhinho e percebendo que a Psiquê era uma lindinha, mas bem chatinha, entediante e sem sal, liberou a passagem e os dois viveram felizes para sempre. 





É isto aí!







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