terça-feira, 27 de setembro de 2016

Mulher Nua (Gilka Machado 1893/1980)


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Alma de pomba - corpo de serpente,


enche de adejos e rastejos


teu ambiente,


caiam em torno a ti pedras ou flores


de uma contemplativa multidão:


de lisonjeiros e de malfeitores


cheias as sendas da existência estão.





Toda de risos tua boca enfeita


quando te surja um ser sincero, irmão;


e sejas sempre pura, espelhante e perfeita,


na verdade da tua imperfeição.


Musa satânica e divina


ó minha Musa sobrenatural,


em cujas emoções, igualmente, culmina


à indução do Bem, a tentação do Mal!


Em teus meneios lânguidos ou lestos


expõe ao Mundo que te espia


que assim como há na Dança a poesia dos gestos,


há nos versos a dança da Poesia.





Dança para esse gozo,


o grande gozo maternal da Terra,


que te fez sem igual,


e, envaidecida,


em seu amor te encerra,


amando em ti a sua própria vida,


sua vida carnal e espiritual.


Torce e destorce o ser flexuoso


ó Musa emocional!





Maneja os versos de maneira tal


que eles fiquem pelos séculos dispersos,


com os ritmos da existência universal.


E a dançar, a dançar,


num delicioso sacrifício,


patenteia a nudez desse teu ser ante o sereno altar


do deus que te domina.





Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?


dança, porém, não como a Salomé da lenda,


a lírica assassina: dança de um modo vivificador;


dança de todo nua,


mas que seja a nudez sensual da dança tua


a imortalização do teu glorioso Amor!

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