terça-feira, 18 de julho de 2017

Tu estás aqui - Ruy Belo







TU ESTÁS AQUI 


Ruy Belo*





(obs - está mantida a forma original escrita pelo poeta)






Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol


escrevo e oiço certos ruídos domésticos


e a luz chega-me humildemente pela janela


e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou


Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano


e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama


que uso para ser também isto este bicho


de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos


quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem


                                                                                                          o que sei o


que faço ou então sou eu que julgo que o sabem


e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras


e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou


                                                                                                        outra coisa


esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior


a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço


bem entendido o que faço com este braço


Estás aqui comigo e à volta são as paredes


e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa


e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho


e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer


Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado


passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes


esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa


essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol


Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso 


diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome


este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro


nome embora no mesmo nome este nome


de terra de dor de paredes este nome doméstico


Afinal fui isto nada mais do que isto


as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto


a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome


                                                                                              que não merda


e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das


                                                                                               outras coisas


Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto 


pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa


uma coisa para além disto que não isto 


Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo


é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos 


mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos


tu és em cada gesto todos os teus gestos


e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como


                                                                                                          a palavra paz


Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas


perdoa pagares tão alto preço por estar aqui 


perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui


prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente


deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias


e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer


sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.





*Ruy de Moura Belo (1933-1978) foi um dos maiores poetas portugueses do século XX. Nasceu em São João da Ribeira, Rio Maior, e faleceu em Lisboa. Doutorou-se em Direito Canônico na Universidade Gregoriana, em Roma, e licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa. 

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