segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O pé esquerdo




Ele necessitava de colocar o pé direito no chão antes do esquerdo, ao levantar. O facilitador seria dormir do lado direito da cama. Ela tinha a obsessão de colocar o pé esquerdo no chão antes do direito ao levantar e o facilitador seria dormir do lado esquerdo da cama. Riram-se das suas manias.





Ele gostava de colocar o pé direito direto sobre o chão frio. Ela necessitava de um tapete de coruja que a avó materna havia feito especialmente para ela, ainda na adolescência e que guardou com muito cuidado para quando o príncipe aparecesse na sua vida. O príncipe veio e com ele foi morar tendo a coruja aos seus pés.





Havia ali uma clara e nítida compatibilidade de pés. Mas outras coisas afloravam no contexto. Ele odiava corujas, ela colecionava gravuras, imagens, esculturas e fotos de múltiplas formas de corujas.





Ele usava qualquer toalha disponível após o banho diário. Ela tinha uma toalha para o corpo, uma só para o cabelo e uma exclusiva para os pés, Ele achava aquilo tudo muito esquisito e ela achava que ele era meio troglodita no asseio, mas talvez aquilo poderia ser resolvido com diálogo.





Ele usava um sabonete para lavar o cabelo, o rosto, o corpo e os pés. Ela tinha um kit de banho, com um shampoo e condicionador  específicos, um sabonete próprio para o rosto, outro para o corpo e um para os pés. Mas estas coisas podem passar desapercebidas.





Ele usava desodorante sem perfume. Ela usava perfume de manhã e um íntimo à noite e creme para o rosto, outro para o corpo, e outro para os pés numa cerimônia diária às vezes sensual, às vezes entediante.





Ele escovava os dentes, o cabelo e se arrumava em 6 minutos. Ela necessitava de 48 minutos para sair do quarto quase pronta para enfrentar o dia. Mas aquilo era irrelevante, afinal ela acordava uma hora mais cedo que ele, e apesar do despertador, ele não se incomodava, pois tinha mais uma hora de sono.





Ele amava o sol, praia, cerveja, esportes, futebol e carnaval. Ela detestava praia, só bebia sucos orgânicos, adorava ballet , música clássica e retiros espirituais. Combinaram que no inverno iriam para as montanhas e no verão frequentariam a praia.





Tudo ia bem, até que um dia, e este dia sempre chega, ele chegou do futebol, suado, com cheiro e ânimo de cerveja, a viu lindamente sentada no sofá branco, vestida com sua camisola de seda preta, com renda, sobre um corpo divino, assistindo qualquer coisa na TV. Aproximou-se e de súbito tomou-lhe o pé esquerdo, extremamente cheiroso e bem cuidado e pôs-se a beijar, mordiscar, lamber e deseja-la ardentemente a partir dos pés.





Ela iniciou um processo de pânico que não permitiu uma reação imediata, mas quando reuniu forças, chutou-lhe a boca, correu para o quarto, trancou  a porta, fez as malas, colocou seu tapete de coruja na bolsa e aguardou o silêncio. Saiu de madrugada enquanto ele dormia no sofá branco higienizado e completamente limpo, todo suado, ainda de meião e uniforme do seu time. 





De manhã, meio zonzo, chegou ao banheiro e havia um bilhete curto, colado no espelho:





Parto sem volta. Você lambeu logo o meu pé esquerdo com uma boca cheirando a cerveja, suor, alho e torresmo, e disto eu tenho nojo ...





É isto aí!

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