quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Guerra que Aflige com seus Esquadrões (Fernando Pessoa)

Alberto Caeiro  in "Poemas Inconjuntos"

(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal  16 Abr 1889




A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo, 


É o tipo perfeito do erro da filosofia. 





A guerra, como tudo humano, quer alterar. 


Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito 


E alterar depressa. 





Mas a guerra inflige a morte. 


E a morte é o desprezo do Universo por nós. 


Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa. 


Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar. 





Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs. 





Tudo é orgulho e inconsciência. 


Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto. 


Para o coração e o comandante dos esquadrões 


Regressa aos bocados o universo exterior. 





A química direta da Natureza 


Não deixa lugar vago para o pensamento. 





A humanidade é uma revolta de escravos. 


A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 


Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito. 





Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural! 


Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem, 


Paz à essência inteiramente exterior do Universo! 





É isto aí!







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