domingo, 11 de março de 2018

Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte IX - A mulher batida




IX. A MULHER BATIDA





Zadig orientava-se pelas estrelas. A constelação de Orion e o brilhante astro de Sírio guiavam-no para o pólo de Canope. Admirava esses vastos globos de luz que não parecem a nossos olhos mais que fracas centelhas, ao passo que a terra, que em verdade é apenas um imperceptível ponto na natureza, afigura-se à nossa cupidez uma coisa tão grande e tão nobre. Via então os homens tais como são na realidade: - insetos a se entredevorarem num pequeno átomo de lama. Essa imagem verdadeira parecia aniquilar suas desventuras, retraçando-lhe o nada da sua existência e a de Babilônia. Sua alma arrebatava-se até o infinito e contemplava, liberta dos sentidos, a imutável ordem do universo.





Mas quando, em seguida, de volta a si mesmo e penetrando de novo em seu coração, pensava em Astartéia sacrificada por sua causa, o universo desaparecia a seus olhos, e ele apenas via, em toda a natureza, Astartéia moribunda e Zadig desgraçado. Enquanto se entregava a esse fluxo e refluxo de sublime filosofia e dor acabrunhante, ia avançando pelas fronteiras do Egito; e já seu fiel criado se achava na primeira localidade, em busca de alojamento.





Enquanto isso, Zadig passeava pelos jardins dos arredores. Senão quando avistou, não longe estrada real, uma mulher que gritava por socorro e um homem furioso que a perseguia. Já o homem a alcançava e ela, caída, enlaçava-lhe os joelhos. O homem enchia-a de pancadas e censuras. Pela violência do egípcio e pelos reiterados perdões que lhe pedia a dama, viu Zadig que ele era ciumento e ela infiel. Mas, depois de atentar naquela mulher, que era de impressionante beleza e até se assemelhava um pouco à infeliz Astartéia, sentiu-se tomado de compaixão por ela e aversão ao egípcio. "Acode-me! - bradou ela a Zadig, entre soluços. - Arranca-me das mãos do mais bárbaro dos homens, salva-me a vida!"





A êeses clamores, Zadig lançou-se entre ela e aquele bárbaro. Tinha algum conhecimento da língua egípcia, e assim lhe falou:





- Se tens alguma humanidade, conjuro-te a respeitar a beleza e a fraqueza. Podes assim ultrajar uma obra-prima da Criação, que jaz a teus pés e só tem por defesa as lágrimas?





- Ah! Ah! - exclamou o possesso. Com que então também a amas? É de ti que tenho de vingar-me.





Dizendo tais palavras, deixa a dama, que segurava pelos cabelos, e, empunhando a lança, tenta matar o estrangeiro. Este, que não perdera o sangue frio, evitou facilmente o golpe de um furioso. Segurou a lança perto da ponta. Quer um retirá-la, o outro arrancá-la. A lança parte-se. O egípcio puxa da espada; Zadig também. Atacam-se. Lança este cem golpes precipitados, apara-os aquele com destreza. A dama, sentada na relva, reajusta os cabelos e olha-os. O egípcio era o mais robusto, Zadig o mais ágil.





Batia-se o último como um homem cuja cabeça conduzia o braço, e o primeiro como um arrebatado, cuja cólera cega lhe guiava ao acaso os movimentos. Zadig desarma-o. E como o egípcio, mais furioso, procura arremeter contra ele, Zadig segura-o, domina-o, fá-lo cair e, apontando-lhe a espada contra o peito, oferece poupar-lhe a vida. O egípcio, fora de si, arranca o punhal e fere Zadig no mesmo instante em que o vencedor lhe perdoava. Zadig, indignado, lhe mergulha a espada no peito; O egípcio lança um grito horrível e morre, debatendo-se.





Zadig avança então para a dama e lhe diz respeitosamente:





- Foi ele que me obrigou a matá-lo; estais vingada, e livre do homem mais violento que já vi na minha vida. Que quereis agora de mim, senhora?





- Que morras, celerado, que morras; mataste o meu amor; eu quisera estraçalhar-te o coração.





- Na verdade, senhora que tínheis um esquisito amor; ele vos batia com toda a fôrça e queria tirar-me a vida, por me haverdes pedido socorro.





- Quisera que ele me batesse ainda - tornou a dama, aos gritos. - Eu bem que o merecia, pois lhe dei motivos para ciúmes. Quem dera que ele me batesse e que tu estivesses no seu lugar!





Zadig, mais surpreso e encolerizado do que nunca estivera em sua vida, retrucou:





- Senhora, com toda a vossa beleza, merecíeis que eu vos batesse por minha vez, tão incoerente sois; mas não me darei a esse trabalho. Dito isto, montou no camelo e dirigiu-se para a cidade. Mal dera alguns passos, volta-se ao estrépito que faziam quatro correios de Babilônia. Vinham a toda brida. Um deles, ao ver a mulher, exclamou: "É ela mesma; assemelha-se à descrição que nos fizeram".





Sem dar atenção ao morto, apoderaram-se logo da dama, a qual não cessava de gritar para Zadig: 





"Socorrei-me outra vez, generoso estrangeiro! Perdoai-me por me haver queixado de vós. Socorrei-me, que serei vossa até o túmulo".





A Zadig, passara-lhe todo e qualquer desejo de se bater por ela. "Arranja-te com outros - respondeu-lhe, a mim é que não me pegas mais!"





Aliás, estava ferido, perdia sangue e necessitava socorro; e a vista dos quatro babilônios, provavelmente enviados pelo rei Moabdar, enchia-o de inquietação. Avança às pressas para a aldeia, sem atinar por que motivo vinham quatro correios de Babilônia apoderar-se daquela egípcia, mas ainda muito mais espantado com o caráter da referida dama.

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