quinta-feira, 1 de março de 2018

Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte VI - O Ministro




VI. O MINISTRO





Perdera o rei seu primeiro ministro. Escolheu Zadig para substituí-lo. Todas as belas damas de Babilônia aplaudiram a escolha, pois desde a fundação do império não houvera um ministro tão jovem. Todos os cortesãos ficaram descontentes; o invejoso chegou a escarrar sangue, e seu nariz aumentou prodigiosamente. 





Depois de agradecer ao rei e à rainha, Zadig foi também agradecer ao papagaio:





- Belo pássaro, foste tu quem me salvou a vida e quem me fez primeiro ministro: a cadela e o cavalo de suas Majestades me haviam feito bastante mal, mas tu me fizeste bem. Eis do que depende o destino dos homens! Mas - acrescentou ele, - tão estranha felicidade talvez se acabe dentro em breve.





- Sim - respondeu o papagaio. O que não deixou de impressionar a Zadig. No entanto, como era bom físico e não acreditasse que os papagaios tivessem o dom da profecia, logo se tranqüilizou e pôs-se a exercer o ministério da melhor forma possível.





Fez pesar sobre todos o sagrado poder das leis, e a ninguém fez sentir o peso de sua própria dignidade:





- Não interferiu nos votos do divã, e cada vizir podia ter sua opinião sem lhe cair no desagrado. 





- Quando julgava uma causa, não era ele quem julgava, era a lei, mas, quando esta era demasiado severa, sabia-a temperar, e, se não havia leis sobre a matéria, a sua eqüidade as criava tais que poderiam ser tomadas pelas do próprio Zoroastro.





- Foi dele que herdaram as nações este grande princípio: antes arriscar-se a salvar um culpado que condenar um inocente. Acreditava que as leis eram feitas para socorrer os cidadãos, tanto quanto para os intimidar. Seu principal talento consistia em deslindar a verdade, que todos os homens procuram obscurecer.





Logo nos primeiros dias de sua administração, pôs à prova esse inestimável dom. Morrera na Índia um famoso negociante de Babilônia; constituíra herdeiros seus dois filhos varões, em partes iguais, depois que houvessem casado a irmã, e deixava ainda trinta mil moedas de ouro àquele dentre dois filhos que ficasse provado ter-lhe mais amor. O velho erigiu-lhe um túmulo, o segundo aumentou com uma parte da própria herança o dote da irmã. "É o mais velho diziam todos - o que mais ama a seu pai; o mais moço mais amor à irmã; é ao mais velho que pertencem as trinta mil moedas".





Zadig mandou chamar a ambos separadamente. Disse ao mais velho:





- Teu pai não morreu; curou-se de sua doença e está de regresso a Babilônia.





- Louvado seja Deus - respondeu o jovem. - Mas eis aí um túmulo que me custou bastante caro!





Zadig disse em seguida a mesma coisa ao mais moço.





- Louvado seja Deus - respondeu este. - Vou devolver a meu pai tudo o que tenho; mas desejaria que ele deixasse com minha irmã o que lhe dei por dote.





- Não devolverás nada - disse Zadig e terás as trinta mil moedas: és tu que tens mais amor a teu pai.





Uma jovem muito rica prometera casamento a dois magos e, depois de haver recebido, por alguns meses, doutrinação de um e outro, viu-se em estado de gravidez. Ambos queriam desposá-la.





Tomarei para marido - declarou ela - aquele que me pôs em condições de dar um cidadão ao Império.





- Fui eu que fiz essa boa obra - disse um.





- Fui eu que tive essa vantagem - afiançou o outro.





- Pois bem - concluiu ela, - reconhecerei como pai da criança aquele que lhe puder dar melhor educação.





Nasceu-lhe um menino. Cada um dos magos quer encarregar-se da sua educação. A causa é levada perante Zadig, que manda chamar os dois litigantes.





- Que ensinarás a teu pupilo? - pergunta ele ao primeiro.





- Ensinar-lhe-ei - diz o doutor - as oito partes da oração e dialética, astrologia, demonomania e o que vêm a ser a substância e o acidente, o abstrato e o concreto, as mônadas e a harmonia preestabelecida.





- Eu - diz o segundo - procurarei torná-lo justo e digno de ter amigos.





Zadig pronunciou-se:





- Seja ou não o segundo o pai da criança, desposarás a sua mãe.

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