quinta-feira, 25 de julho de 2013

A máquina do mundo




Carlos Drummond de Andrade

Um dos maiores poemas de Carlos Drummond de Andrade é "A Máquina do Mundo". A ideia de que o mundo era uma máquina esteve em voga desde a Antiguidade até a Renascença. No poema de Drummond, a máquina do mundo abre-se para o poeta em determinado momento, oferecendo-lhe uma total explicação da vida.

Publicado originalmente em Claro Enigma (1951), o poema “A Máquina do Mundo” é, sem dúvida, uma das obras-primas do escritor mineiro. Pelo tema, assim como pela sua forma, a composição se aproxima dos modelos da poesia clássica.

Desde o próprio título, se estabelece uma relação de intertextualidade com a obra épica Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, considerada um marco incontornável da literatura de língua portuguesa.
  
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

Análise e interpretação do poema:

Complexo e de difícil compreensão, "A Máquina do Mundo" é um dos textos mais enigmáticos de Drummond. No ano de 2000, A Folha de São Paulo considerou que este é o maior poema brasileiro.

Habitualmente, a lírica do autor é associada à segunda geração do modernismo nacional, exprimindo algumas de suas características mais evidentes: ausência de rima, verso livre e temas cotidianos, entre outras. Em Claro Enigma, contudo, o modernista regressa às influências clássicas, tanto no tema como na forma.

Aqui, existe uma preocupação rigorosa com a métrica. Cada estrofe é um terceto, ou seja, é composta por três versos. Os versos, por sua vez, são todos decassílabos (formados por dez sílabas), adotando o mesmo ritmo de grandes obras como Os Lusíadas.

A ideia da "máquina do mundo" enquanto metáfora para as engrenagens que movem o Universo e os indivíduos também não é nova. Pelo contrário, estava bastante presente na literatura medieval e renascentista. Sua manifestação mais célebre é o canto X do poema épico escrito por Camões.

No texto, o navegador Vasco da Gama tem o privilégio de conhecer essa máquina, graças à ninfa Tétis. É assim que ele descobre o seu derradeiro destino e tudo aquilo que está por vir. O seu entusiasmo, no entanto, não ecoa nos versos escritos pelo poeta brasileiro.

A ação se inicia em Minas Gerais, local onde Drummond nasceu, algo que o aproxima deste sujeito. Numa cena cotidiana, o homem está caminhando pela estrada quando, de repente, tem uma enorme revelação. Ele, que se encontra exausto, "desenganado", não sabe como reagir a essa epifania.

Perante a "total explicação da vida", um conhecimento que vai além da compreensão humana, o eu-lírico decide abaixar os olhos e seguir o seu caminho. Assombrado pela grandiosidade de tudo que existe, permanece pequeno e frágil, sem esperança de compreender uma coisa tão maior do que ele.

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