domingo, 13 de janeiro de 2019

Memórias esquisitas do dia que morri

Flanagan's wake

Cheguei atrasado ao meu velório e, pelo que ouvi, perdi cenas imperdíveis de olhares atravessados, fidelidades e infidelidades em disputa de território, Uns estranhamentos entre a turma da ladeira e a turma do beco, aí a lei chegou, rolou um B.O. e outras coisas mais. 

Tentei explicar o atraso da funerária para a titular espiritual, conforme seu crachá, do ministério conjugal, mas sua face em estilo de arrogância imperturbável denunciava que era melhor ficar calado. Vi uns dois ou tres amigos que já partiram também - o Gasolina, o Moita e 
Poucas pessoas, o que de certa forma me confortou, pois sempre odiei tumultos e multidões. Veio a Gelinha — na realidade o nome dela era Jacira, mas parecia um gelo chupado. Um dia a chamei de Gelinha, ela sorriu e perguntou o por que daquilo, e eu:

— Ora, ora, ora, Jacira, você é Gelinha só para mim e para mais ninguém. E por isso, por ser só minha Gelinha, não vá sair por aí declarando nosso segredo.

Bem, ela contou o segredo do nome, mas guardou consigo o segredo do nosso tórrido romance.

Veio o Juca Franco; sinceramente, um chato de galocha. Nunca gostei desse cara, e agora o vejo e a viúva em entreolhares táticos. E não é que o coisa ruim  mancomunado se aproximou e colocou a mão na nuca dela? Eu sabia... eu sabia.

Também estavam a Dentinha, a Bolinha e a Feinha, três irmãs do carcamano do italiano da padaria, que foram aos poucos me levando para o depósito de farinha, onde acabei me revelando um grande entendedor de massas e folheados. Italianinhas das mais doidas que já conheci.

Agora aquele filho de uma gata de rua do Juca Franco saiu para o quarto de repouso e fez um sinal discreto com a cabeça para a desavergonhada da viúva. Mas veja só, nem o velório serve mais como lugar de respeito! Tentei entrar no ambiente e dar logo uma porrada no sujeito, mas um cara enorme, de asas, me barrou. No que tocou a mão direita no meu ombro esquerdo, voei para uma sala estranha.

Era uma enorme e silenciosa sala. Pensa num silêncio total. Era aquilo. O sujeito de asas ficou encostado num canto, atrás de mim, com os braços cruzados, sem olhar para lugar algum, e eu fiquei ali. A sala era ovalada, sabe? O teto era alto, o piso de pedra, não tinha bancos, não tinha luz, mas era clara — uma claridade meio penumbra, meio luz.

Aí, do nada, surgiu uma cadeira e uma mesinha, então o ser alado me puxou para sentar. Um homem sem asas entrou sem tocar os pés no chão e me entregou um formulário imenso. Gente, tinha pelo menos umas dez páginas e umas duas mil questões abertas! Olhei para o sujeito, olhei para aquela enciclopédia de perguntas e fiz três questionamentos. Só três. Na realidade tinha uns doze para fazer, mas só deu tempo de três bem rapidinhos. E puxa vida, quando você não sabe o que falar diante de um cenário desconhecido, só fala bobagem e sempre vai dar merda.

— Posso ir ao banheiro?

— É de consulta?

— Vai liberar o gabarito?

Gente, o sujeito me olhou com uma fúria bem lá no fundo do fundo, e só ouvi aquele barulho maluco, meio chiado, meio lascado... e caí aqui, no meio do velório. Vi um tanto de olhares curiosos e rostos desconfiados e então meu corpo foi virando no caixão, acho que em convulsão, e fui pulando ao encontro do filho de uma descomungada do Juca Franco. Aí o filho de uma égua morreu de susto. Como eu suspeitava, era uma coisinha fraca o fresco do filhinho de mamãe do Juca Franco...



É isto aí!
É isto aí!


4 comentários:

  1. Boa!!!Tem de respeitar o velório!!

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  2. Que construção maravilhosa, prazer imenso de leitura!!Obrigada

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  3. Enide Santos, eu fico orgulhoso demais com as suas palavras. Poetisa, contista, pedagoga. Voce me honra em muito vindo aqui! Um abraço forte!

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Gratidão!