Era tardinha. De repente uma enorme estrutura passou por sobre a casa e foi cair lá na curva do rio. Mais com pavor do que pela necessidade, saí de encontro ao estranho objeto. Enquanto o corpo ia e a mente travava, corri o pensamento no meu pai, a quem eu sempre desesperava pela possibilidade dele morrer.
Quantas vezes me peguei em pânico engolindo fôlego e olhar aterrorizado, por que o pai dele, meu avô morreu de morte súbita, no colo do meu pai. Minha convicção religiosa era que isto retornaria a mim.
Pensando desta maneira que nunca tinha pensado antes, talvez nem foi do jeitinho que o pai contou. Vai que mentiu? E eu ali, na tragédia da luta como herói ou da fuga preservando o que há de melhor em mim — eu! Enquanto isto a adrenalina não esboçava redução. Até meus órgão internos tremiam.
Neste instante ocorreu-me, num átimo de memória, lembrar que o meu pai não era lá um santo destes certificados pela comunidade, então deve morrer de morte traumática para pagar seus pecados.
Gosto de pensar que a existência destes meus pensamentos justifica-se pela gama de possibilidades que é capaz de acumular só neste assunto. Saudade da gente alguém sempre vai ter, tal qual das coisas, dos lugares, das comidas, das sensações, dos sentimentos e tantas outras coisas mais que atravessaram as membranas do coração e ali se enfurnaram feito bicho da seda.
Então, de uma maneira instintiva fui engendrando a ausência dele de forma que o desejo de obtê-la não seria tão traumático. Apesar do medo, as pernas me conduziram. A estrutura era de um monomotor vermelho. De longe avistei o Zeca, a Julinha, o Pedrinho e ... logo pensei na morte do meu pai. Cheguei devagar já chorando sem ninguém entender.
Ao parar de chorar, vejo meu pai vindo lá de uma moita, abotoando braguilha, arrumando a calça, o cinto, a camisa com as botas ainda na mão. Enfim, estava devolvendo a terra 0 que era da terra. Me bateu uma raiva danada. Em vez de morrer num acidente chique, estava evacuando ... o que ainda permite a morte súbita no meu colo.

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