domingo, 10 de maio de 2026

A Dor do Silêncio


Dia destes estava numa fila interminável do supermercado. Com o direito adquirido pelo tempo, estava na fila dos desvalidos, engravidadas, aposentados e longevos. Deu que uma senhora da linha das longevas, à minha frente, pegou conversa com a amiga, também do mesmo grupo, que estava imediatamente atrás deste que vos fala.

A Senhora "A" e a Senhora "B" conversaram sobre tudo e eu ali, invisível entre as duas. Num determinado momento, a Senhora "A" perguntou — escute, e a Julinha, já marcou a data do casamento com aquele rapaz adorável e simpático? — A Senhora "B" pôs-se a  chorar. — silêncio sepulcral e todo o supermercado voltou a atenção para o processo. 

Aquele rapaz adorável e simpático é casado e pai de três meninas. Traiu  a esposa,  traiu a inocência da Julinha e mentiu até para o Padre.

A Senhora "B", ignorando minha presença, transpassou meu corpo e abraçou a chorar com a Senhora "A" e o mundo ao redor buscou o que fazer dispersando em murmúrios. .

No fundo, no fundo, todo mundo mente. Uns mais, outros menos.


É isto aí!

Cartas Avulsas XXX



Cartas Avulsas XXX

30ª Carta Avulsa
Reino da Pitangueira,
10 de Maio de 2026
130º dia do ano
Faltam 235 dias para acabar o ano.

Dia Nacional de comemoração às Mães.
Pôr do Sol às 18h35 min
Lua na fase Minguante, passando pelo seu quarto minguante
Estação Outono

Queria escrever um verso bem bonito sobre a moça que me lembrou você. Numa galeria — das tantas que atravessam o tempo — entrei apenas para vê-la, mas seu rosto não retornou o olhar; ou, se o fez, foi bem discreto. Enfim, nada vem na comunhão dos pensamentos quando o assunto é sua ausência.

Lembrei do quanto era ruim em esportes coletivos, a ponto de ser discutido quem assumiria o risco da minha presença no jogo que seria praticado naquele dia e naquela hora. Ri sozinho enquanto passava pelos passeios estreitos sob chuva fina e lenta. Tudo bem, quem liga para uma teimosa garoa desafinada e fria?

Falando em teimosia, uma família de pessoas estranhas ao espírito de ética, respeito e amor ao próximo, praticantes do exercício pleno de ações não previstas no código do bom senso e da honestidade, passou a enviar para meus endereços eletrônicos cobrança disto, cobrança daquilo e assim vem desde ano passado. Sem colher os frutos do seu labor reptiliano, agora deram para enviar pelo banco onde passa o salário do mês.

Estes são grupos sem nenhuma criatividade, como por exemplo aquelas mocinhas que ligam o dia inteiro dizendo que meu cartão — que entrou na loja — estava sem fundos. De vez em quando fazem um golpe novo, diferente e cômico. Não sei se têm ideia das coisas que faço com meu salário que banca tudo, numa milagrosa ópera da multiplicação dos créditos e do fracionamento dos débitos.

Amanhã te conto — quer dizer, na próxima carta. Tenho um segredo. Ou algo inédito, que não chega a ser segredo. Acho que vai gostar de saber, mas vai detestar ter que esperar devido à sua agorafobia. Mas faz parte desta carta ser inconclusiva, afinal é avulsa por algum motivo.

Por hoje é o que temos para aquecer o rigoroso inverno que prometeram para este ano.

Beijo, abraço e tudo de bom!

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Luta de Classes no Reino da Pitangueira


Nós, o povo do Reino da Pitangueira, declaramos greve, promovendo a suspensão coletiva, pacífica, total, de prestação pessoal de serviços ao nobre eleitor.

Reivindicações:

Faremos uma assembleia para definirmos o cronograma e a pauta da assembleia geral que será o movimento legal para levantarmos as reivindicações.

Durante a greve serão constituídos por voto os membros da comissão de negociação, mediante acordo com o staff patronal da Nobreza Imperial do Reino ou diretamente com quem for delegado por Vossa Alteza Imperial.

A classe operária unida garante à Vossa Majestade que manterá em atividade equipes mínimas de empregados comissionados, servidores, prestadores de serviço e celetistas com o propósito de assegurar os serviços priorizados, cuja paralisação resulta em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos, bem como a manutenção daqueles essenciais à retomada das atividades da empresa quando da cessação do movimento.


É isto aí!

domingo, 3 de maio de 2026

O Espinho na Carne

Há dores que não pedimos para levar. E há delas que, com o tempo, deixam de ser visitantes para se tornarem moradoras. Este texto fala de uma dessas dores – ou seria de uma pessoa? Ou seria da própria memória? O narrador busca na lembrança algo que toque a alma e, de súbito, a memória muda de canal. Vem a infância, vem o ontem, vem um professor de maiêutica, vem uma gargalhada que não lhe pertencia. E, no fim, uma estranha felicidade. Um dia. Um choro.

“O espinho na carne” não é um texto sobre superação. É sobre convivência. Sobre descobrir que aquilo que fere pode, um dia, caber dentro de uma felicidade que não se explica.

Buscou na memória algo dela, que tocasse sua alma. Quase que imediatamente lembrou seu olhar, seu andar, seu perfume e seu sorriso. De súbito a memória mudou de canal e o levou à infância. Solitário e tímido, teve um longo corredor de dores, mágoas, tristezas e decepções.  

Num salto chegou ao dia de ontem, quando num momento de inútil sensatez, percebeu-se exclusivamente triste. Desde a manhã do dia anterior vinha sentindo-se  acabrunhado, com a face abatida, olhos tristes, corpo prostrado, com aquela angústia dos seres humilhados ou dos calejados oprimidos.

Recordou de súbito o professor de maiêutica que com muita maestria utilizava o método socrático para conduzi-lo a "dar à luz" as próprias ideias e conhecimentos. Riu discretamente e logo deu uma gargalhada que não lhe pertencia em tempos comuns.

Após a hilária passagem, ela retornou ao seu lugar de excelência. Deixou que invadisse seu dia, e aquilo permitiu a compreensão que ela era parte da sua persona. Desistiu de lutar, e seguiu triste, mas conformado, seja lá o que isto significa. 

Um dia, por obra do acaso e da manifestação dos segredos da existência, experimentou uma estranha felicidade. 

Naquele dia chorou.



É isto aí!