Numa calorosa tarde de verão, enterrei o corpo do meu pai no jazigo perpétuo da família. Aquilo sempre me incomodou: *jazigo perpétuo* não seria um pleonasmo?
No outono, perdi mamãe e despedi-me da sua existência física, da sua alegria, da sua amizade e de tudo o que ela representava para mim, no jazigo da família. Daí vieram as angústias e os tropeços.
Naqueles dias, recorri à minha voz interior, a quem sempre chamei de Uanga. Foi ele quem me disse que, com o poder da retórica, faria de mim um ser invencível, insensível e inabalável. Errei nos desejos, mas acertei na companhia.
Então batizei-o como **Uanga Takuneqarsinnaanngilanga**.
Traduzido para a culta e bela língua pátria, significa: **"Eu sou invisível."** Aos poucos, fui tateando sua presença e descobrindo suas ações dentro da minha existência.
— Diga-me, Uanga, quais são as vantagens de existir e ser invisível?
— Uanga sabe, mas não diz. Uanga é quem manda, com ou sem cerimônia sacra.
— Caramba! Como assim você é o mandatário da minha existência e dos meus problemas?
— Alto lá, *Homo sapiens*, alto lá! Desde os primeiros átomos da sua longa existência, eu já estava presente, executando o que há de melhor em você. Sou eu quem, por meio de uma desproporcional força silenciosa, molda quem você é. Sou eu quem dita suas resistências e seus apegos sem que a sua frágil consciência perceba.
"Além disso, sempre fui eu, invisível, a impulsionar sua ridícula luta pela aprovação entre seus pares e ímpares. E saiba, filho de Adão, que serei sempre eu quem insistirá em seus próprios julgamentos e, pasme, grácil ser, quem o fará evitar a vulnerabilidade a todo custo."
— Mas, Uanga, e o meu livre-arbítrio? E a minha capacidade de escolha?
— Ora, ora... Então você acredita na liberdade das escolhas? Crê na ilusão de que sempre decidiu em favor da verdade ou do bem, individual ou coletivo? E acredita, ainda, que é eternamente responsável por todas as suas decisões?
— Espera... Você está brincando, não é? E esse negócio de ser da Groenlândia também é ilusão? Qual é o sentido simbólico disso? Quando serei livre?
— Calma, rapaz. Uma dor a cada passo, ou um passo de cada vez. Guarde isto: a liberdade autêntica começa quando **Eu** deixo de ser invisível e passo a ser observado.
Mas como acontecerá isso?
Uanga...?
Nenhuma resposta.
É isto aí!
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