quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A Moça da Pitangueira



Este blog corre o sério risco de se tornar um correspondente sentimental. O blogueiro não tem esse dom, mas vamos lá: segue uma mensagem anônima… É provável que as sugestões propostas não tenham dado muito certo, mas nestes tempos de desamor, palavras de consolo sempre caem bem. Vamos à mensagem:

- Prezado senhor do blog Ao Pé da Pitangueira. Sempre leio suas cartas de amor. Elas me fazem sonhar! 

Mas dia destes, estava em casa — como sempre — triste, chorosa, fitando o pé de pitanga que meu pai plantou quando eu era criança, como se ainda me observasse dali. Lembro até hoje da festa que fiz por causa daquela mudinha pequenina, que ele dizia que seria uma das minhas maiores alegrias para sempre

Meu pai não está mais aqui. Saiu de casa tempos depois daquele dia e desapareceu. Desde então cuidei da pitangueira na esperança de que ele voltasse e visse que eu cumpri com a minha palavra. Perdão, senhor, eu juro que não queria falar do meu pai e acabei falando, talvez por causa do nome do seu blog.

Ocorre que estou perdidamente apaixonada por um homem mais velho que eu, tenho 25 anos e ele 42, e para piorar, ele é casado, e como se não bastasse, é casado com a minha prima.

Se você soubesse o quanto estou sofrendo… Choro muito por ele, esperando que um dia seja só meu. Temos nos encontrado às escondidas. Na hora é tudo gostoso, mas quando ele me deixa sozinha, um buraco se abre no chão e eu desapareço dentro dele.

Entre as tantas coisas que me fazem sofrer está a vontade de fazê-lo feliz para sempre. O problema que cerca meus pensamentos quando me deito sozinha é que acho ou desconfio que ele não quer ficar só comigo. E isso me causa uma dor profunda.

Preciso tomar uma decisão, mas quero ouvir o que o senhor acha: 

— Estou quase determinada a revelar meu amor ao mundo, postar nossas fotos nas redes sociais , mas tenho medo de perdê-lo para sempre, apesar da convicção de que aquela mulher o diminui, o ignora e o trata mal. 

Só eu sei como faze-lo feliz. Aquela idiota que o humilha, que tanto o ignorou no passado, que o trata tão mal, só o mantém sob ameaça por causa das crianças.

E o amo tanto, só eu sei amá-lo, mas seus olhos, ah, seus olhos dividem e cortam meu coração e eu o amo tanto, mesmo sabendo que eu sou invisível para ele nas festas de família. Me ajuda, me ensina a fazê-lo ser meu. Por favor.

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Prezada moça da Pitangueira, não farei rodeios, nem serei aquele que  incidirá o maior segundo erro da sua vida. Eis o que aconselho: 

Saia fora, mude de cidade, mude de estado, mude de país. Você está entrando em uma roubada sem limitação de profundidade. 

Esqueça este sujeito, corte o pé de pitanga do quintal, arranque a raiz, ponha fogo em todas os galhos, fique longe da sua prima, vá caçar serviço, vá lavar roupa no tanque. Se isto ainda não resolver, comece a correr nas ruas do seu bairro durante 60 minutos todo dia.

Vá na igreja - qualquer igreja, vá às baladas, vá a um núcleo espiritual - qualquer um, tome um porre de vez em quando, queime todos os livros de romance barato da sua prateleira, aprenda aramaico e grego.

Pare, mas pare mesmo, em caráter de urgência, de assistir doramas. Enfim, tome outra atitude. Arrume uma nova ocupação, faça um curso qualquer, arrume uma turma, arrume um emprego. Vai cuidar da sua vida! E arrume um namorado solteiro, da sua idade e sem juízo.

Espero ter ajudado. Se precisar de mais conselhos, disponha.

É isto aí!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O Mago da Pitangueira


Naquele dia éramos uns vinte jovens subindo a íngreme colina até a morada do Mago da Pitangueira. Subíamos para beber um pouco do seu profundo conhecimento sobre a vida. 

— Mestre, pode-se prometer ser feliz para sempre ao lado de alguém?

— Bem, vou contar-lhes uma história e vocês mesmos analisarão a resposta:

— Ela indagou ao amado: Você promete ser feliz por toda a vida ao meu lado?

— Ele respondeu: Não!

— E foram felizes para sempre.

Como assim, felizes?

—A franqueza antecede à verdade

Como assim, Mestre?

—Saibam, jovens, que a coragem de ser direto, honesto e transparente é um passo necessário ou anterior à revelação ou aceitação da verdade em si. 

É isto aí!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Cartas de desamor


Cartas de Desamor é um desafio que venho adiando. Escrever Cartas de Amor já não é fácil, mas difícil mesmo é a indiferença do desamor. E Desamor não necessariamente é o ex-amor. Os atos mais comuns de desamor em casais muitas vezes estão ligados à negligência emocional, à rotina desgastada e à falta de comunicação. Eles podem ser sutis e/ou cumulativos.

 Os atos mais comuns de desamor em casais muitas vezes estão ligados à

— negligência emocional, 

— rotina desgastada

 — à falta de comunicação. 

— Intimidade física e emocional reduzida 

— Não perguntar como o outro está se sentindo.  

— Minimizar problemas ou sentimentos do parceiro.  

— Falta de empatia em momentos de estresse (saúde, crises profissionais, luto).

— Deixar de conversar sobre sentimentos, sonhos ou medos.

Apenas alguns exemplos (prometo voltar ao tema):

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"Estou cansada deste seu olhar desligado. Olhe para mim e fale o que represento para você? O que verdadeiramente você deseja? Fico confusa perante seu silêncio. Você nunca me escuta, nunca conversa comigo, nunca me elogia, nunca me toca e posa de bondoso da porta para fora. Recebe um abraço de pouco caso e ainda escuta — não é por falta de abraço, querida.— Estou cansada demais para brigar com você, querido. ._______________________________________________________________

"Havia cheiro de alho —detesto alho. Não satisfeita, volta à sala novamente interrompendo meu silencio e atrapalhando o jogo na hora do gol. não nos olhamos, apenas negativei a oferta de tira-gosto. voltou para a cozinha e saí para lavar o carro."

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"Ela observava fotos do passado quando ele entrou e disse: "Vou ao futebol", ignorando sua presença. Comentou sobre o convite da filha para jantarem juntos. "Não posso", respondeu, virando-se para a porta. Ela questionou sua ausência constante; ele resmungou algo. "Você não me abraça há anos, e eu parei de insistir", disse, em voz baixa. Ele saiu com um murmúrio sobre deixar um prato coberto. A porta fechou. Viu-se só e, mais uma vez, foi ao refúgio das redes sociais."

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É isto aí!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cartas de Amor 114


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
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Nota de apresentação

Esta não é uma carta de conciliação.
Também não é um relato, nem um pedido, nem um ajuste de contas.

É um texto escrito a partir de um limite — quando o amor permanece, mas já não tem poder de impedir o caos, nem de reorganizar o mundo como antes. Não há aqui tentativa de justificar acontecimentos, muito menos de romantizá-los. O que se oferece é apenas o registro de uma experiência extrema, narrada com a única honestidade possível naquele instante.

Algumas cartas nascem para aproximar.
Outras, como esta, nascem para não mentir.
Que a leitura seja feita com calma.
E, se necessário, com silêncio.
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Querida, o amor não acaba por decreto.

O amor não se acaba às três horas da manhã, num ato repentino de agressividade impulsiva, desproporcional à situação. Até o presente momento não sei quem seria a mulher. A única certeza que tenho é que não parecia você. 

O amor não acaba quando os vizinhos chamam, com razão, a polícia. Eu ainda não tinha a menor ideia de quem seria a mulher, se é que existe uma explicação lógica sob seu frágil corpo. Nunca vi algo sequer parecido. É inenarrável.

O amor não acaba com eletrônicos destruídos, cortinas e moveis cortados e vidros pelo chão. Passou uma tempestade violenta por dentro do apartamento, atormentando todo o prédio.

O amor não acaba quando, num ataque de fúria com força desproporcional ao seu tamanho e peso, de posse de um objeto na mão avançou contra os representantes da segurança pública. O amor não tem como intervir num lance de segundos, para protegê-la e mostrar quanto você é frágil.

O amor não acaba na delegacia, pagando fiança de perturbação do silêncio. Não acaba ali. É apenas parte do processo. Neste momento, frente à autoridade, você lançou dois olhares para mim emblemáticos, um olhar de pedido de socorro e a mulher que desconheço, cortou-me os pensamentos com um olhar de ódio.

O amor não acaba no hospital para tratar dos seus ferimentos  e sedar sua fúria. Nem na conversa com o psiquiatra e a psicóloga. Não acaba quando seus pais foram ao hospital, me abraçaram e pediram, com abraço forte e lágrimas nos olhos  para eu continuar a minha vida. 

O amor não acaba com você me expulsando da sua existência. Isto não faz sentido. Tentei conversar e negociar a paz entre nós, mas vez em quando a mulher olha para mim. Confesso que bate uma sensação ruim.

Eu amo você. Esta carta é para dizer que sinto uma profunda e perturbadora dor. Hoje eu não estou perdido, estou juntando os cacos para seguir adiante. 


É isto aí!




Cartas de Amor 113


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Saiba, minha amada, que um pedido de perdão será sempre uma tentativa de justificar a você o injusticável, uma vez que minhas ações e decisões não podem ser explicados à luz da realidade binária. Nunca serei capaz de defender-me ou justificar-me de maneira satisfatória,
onde estarei quase sempre carecendo de fundamentação moral, lógica ou legal. Sei que do seu ponto de vista meus erros exigem desculpas documentadas, já que referem-se a atos indefensáveis, imperdoáveis ou infundados, cuja razão válida é sempre existente.

Não é fácil escrever-lhe esta carta sem os fundamentos que criaram os pilares do nosso grande amor equilibrando-me feito um malabarista na tênue corda cujo equilíbrio dá-se entre a minha percepção da verdade e a sua posição diante de uma possível não verdade.

Antes de você existir como meu grande amor, andei pelos desertos das emoções, perambulei sobre o enigma do Não como benesse e do Sim quanto Mácula. Guardei comigo o que a vida me ensinou às duras penas: "às vezes, o amor pede razão. Outras, pede um bom álibi." O que estou vendo aqui são duas pessoas adultas, centradas, que se amam pedindo razão para o inefável.

Não posso pedir perdão, e que esta carta guarde este testemunho por toda nossa jornada, porque além de não ter errado, não conseguirei paz para outra vez enfrenta-la neste tribunal de princípios,


Você foi, é e será para sempre o meu amor.

É isto aí!

Cartas de Amor 112

 


Cartas de Amor 112
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, não sou poeta, somos o que somos!

Foi com esta frase que amanheci o dia. Não sei ser o tradutor deste sentimento que tanto nos envolve. Há no meu entorno carnal e sobretudo no etéreo esta certeza do nosso entrelaçamento sem amarras. Não somos postos de vigília um do outro; somos o que somos, dois corpos numa só personalidade, num só pertencimento e na mesma candura.

Tantas forem as palavras que se aproximam deste evento, quer seja nas nossas experiências diretas de união com o divino, quer seja nos processos de contemplação profunda, sempre fortalecerão as graças de um pelo outro, com carinho e dedicação natural ao nosso legado.

Querida, hoje atravessamos o deserto com muita resiliência. Já passamos os períodos mais áridos da vida — embora dolorosos — que foram necessários para nos conduzir a este  novo lugar, interno ou externo. Sinto sua falta, sinto muito, sinto tudo, queria que esta carta chegasse a você com coisas alegres e belas, pois saiba que em determinado momento, sobre determinada duna, avistaremos um ao outro e retornaremos nosso caminho natural

A sua ausência evoca tanto sofrimento quanto esperança, lembrando que, no silêncio e na aridez, muitas vezes escutei sua voz, profunda e terna a dar sentido aos nossos caminhos. 

Afinal, de onde vem tanto amor?

Não sei, sinceramente não sei

mas desejo que nunca pare de vir.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Cartas de Amor 111


Cartas de Amor 110

Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, vamos falar de desamor.

Sei que assusta falarmos de tema tão indigesto como este que proponho enquanto o tempo vai paulatinamente me desapegando desta existência. Poderíamos rodear a beleza do Ágape, este amor incondicional e altruísta. Mas este amor é você, nunca tive dúvida, nunca imaginei ou cogitei sequer a menor possibilidade de não sermos uma única harmonia.

Quantos sonhos sonhamos acordados na varanda da sala, vendo o dia amanhecer só para admirarmos o quão lindo era aquele espetáculo da estrela tocando nossa atmosfera e explodindo em luz. Adorava ver sua entrega ao novo dia. Sempre linda, ali, ao meu lado.

Hoje trago comigo dias mais curtos e noites mais longas. Ainda aprecio as teias da aranhas. Acho fantástica a trama que tecem, com os orvalhos da manhã  a provocar ali naquele pequeno planeta Teia o espectro da luz inabalável. Um da haveremos de nos reencontrar como nos encontramos a primeira vez, dois adolescentes com coragem e com medo de amar e ser livre para ser um do outro.

Querida, quando a vida é preenchida por estes pilares, o desamor é só uma palavra no dicionário, nem cabe o desconforto de dar-lhe palco.

Não sei o dia de amanhã, talvez bilhões de neutrinos ainda passem pelo meu corpo, talvez eu vá com eles até o insofismável infinito. Se por acaso não estivermos mais aqui amanhã, que esta carta seja nossa declaração de amor eterna.

É isto aí!


Cartas de Amor 110



Cartas de Amor 110
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, este é a nosso pacto com a Eternidade

Querida, há em mim uma solidão cósmica sem você ao meu lado nesta tarde de chuvas torrenciais. Penso em Adão, recentemente expulso do Jardim do Paraíso diante de uma enorme tempestade, ocorrendo de uma forma estranha, com aquele material fluido, dançando ao léu dos ventos por todas as direções, havia os trovões, os raios e a desorientação.

As primeiras gotas seriam uma curiosidade. Mas conforme o céu escurecesse, o vento aumentasse e as primeiras cortinas de água descessem, viria uma sensação de impotência absoluta. Era uma água que não surgia pacificamente da terra, mas atacava do céu. Para eles, esse céu era agora a morada de um Deus distante e, em seu imaginário, possivelmente irado, e ao fim o arco-íris oferecendo o que há de belo na luz.

Lembra quando corremos no parque nestas condições climáticas? Nós dois entregues um ao outro, buscando exatamente o contrário, numa busca inenarrável pelo nosso paraíso? Hoje, distante do seu calor, olhando as estrelas e sentindo a brisa fria, a solidão soçobra a esperança da brevidade. Estou longe e triste.

Não era intenção inicial vincular você à Eva, mas de certa forma me contemplou saber que muito além do figurativo, está ali, ao meu lado, pro que der e vir. Meu bem, esta contenda profética um ia terá fim e nós dois vamos viver a eternidade que merecemos.

Eu amo você para todo o sempre!

É isto aí!

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Carta sobre o dia que eu queria me devolver para você.


 Planeta Terra, 
25 de abril de 2019
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Tem dia que sinto a sua falta. Tem dia que sinto muito a sua falta. Hoje mesmo quis pular umas etapas da memória e ir direto ao seu encontro. Dói, não é? Dói prá caramba. Não tenho mais seu telefone, perdi o contato com seus olhos. Sabe, ainda sei a data do seu aniversário, isto mesmo, eu sei o dia que comemoro sozinho o  seu nascimento.

Tem dia que sinto ausência. É uma ausência tão dolorida, tão ruim, toda ausência é criminosa. Nestes dias eu choro. Não é a sua falta, a saudade, é você não estar preenchendo este imenso vazio que habita minha vida. Deveriam existir regras claras para ausências. Se eu olho e você não está, não está e pronto, mas fica muito ruim ... muito ruim.

Hoje eu fiquei feliz, queria te contar como fiquei feliz, queria ver seus olhos sorrindo, em festa, olhando meus olhos felizes e eu sei que seria assim. Eu sei, a merda toda é esta. Eu sei! Mas você, claro, não estava, eu errei, você errou, eu errei de novo e pronto, perdi você e ganhei o prêmio de ser e estar triste em presídio de segurança máxima..

Amanhã eu vou ficar triste, já sei disto. Depois de amanhã vou ficar triste também. Tudo por que hoje tive este lúmen de felicidade, mas não era felicidade, não era você, não era pra te contar isto. Não era. Não era. Não, não era. Na verdade, e seja lá o que for a verdade, que mundo maluco é este? Como pude ser tão capaz de chegar  até aqui?

Como sabe, eu amo sua boca falando palavras proparoxítonas, articulando músculos, ligamentos, movendo os lábios, seus lábios, tão bonitos são seus lábios. Como sabe, eu amo seus olhos, o sorriso deles, a alegria reluzente deles. Um dia eu queria te encontrar, já sei que você vai brigar comigo, não ligo, um dia eu queria me devolver para você.  

Desculpe, não sei escrever cartas, não sei falar sem ter você no conteúdo. Não sei, não sei, não sei mesmo. Ontem quase que, gente, que doideira, ontem eu arquitetei um plano de fuga para te ver. Sabe, ainda tenho aquele retrato do seu rosto triste sob uma arco de flores, seu olhar está triste, vago, despido de alegria. Seu olhar não estava naquela órbita terrestre. Então é isto.

É isto aí!