terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Aquele rosto não era eu



Acordei escutando em algum lugar dentro de mim uma música que sabiamente minha alma cantava em italiano. Gostava de lembrar minha infância, na casa dos meus avós, quando da vitrola saiam saudades, historias e lágrimas de um passado desafiante e dolorido. Toda aquela passionalidade era tônica da harmonia de estarmos todos ali. Eu era feliz!

Ainda meio acordado e sonolento, comecei a perceber que não estava bem. Engraçado isto, porque até pouco tempo atrás era um sujeito normal. Senti uma sensação de tristeza, uma dor profunda no peito, vindo das memórias, das conquistas e da vida desregrada. 

Cheguei no banheiro com uma vertigem infortuita. Deu que ao me postar frente ao espelho, com espanto e um misto de náusea com medo e taquicardia, eu vi, revi, vi de novo que aquele reflexo não era o meu. A sensação era real, e minha percepção lógica gritava lá do fundo da minha existência que aquilo não significava que eu não fosse aquele que via. poderia ser uma ilusão, uma pareidolia. Confuso e assustado procurei me tranquilizar. 

Se for um problema físico, raciocinei, existem tratamentos que poderão ajudar a resgatar o reconhecimento. No fundo, bem lá no fundo havia uma dor difusa. Sabia que aquilo era rota de fuga que operavam minhas centelhas de sentimentalidades. Fugir das paixões e evitar entender o que todas com as quais relacionei sentiam sobre mim, minha vida interior e romântica era impossível. Há muito tempo já estava blindado destas aventuras da adolescência.  

Mas havia algo ali e minha nova aparência poderia ser pode ser um mais do que um sintoma de problemas existenciais. Nunca acreditei nesta balela de amar e ser amado, e sempre trouxe comigo que não existe amor na minha realidade e predomina no meu peito uma ausência completa e consciente de contato com os reclames supostamente pertencentes ao relacionamento.

Voltei os olhos ao rosto que me olhava com muitas emoções. Vi meu pai nos olhos do espelho. Sabe aquele olhar que o pai dava na adolescência ensinando sem precisar falar. Rolou uma lágrima na minha face. Vi seus cabelos sempre penteados, sua sobrancelha direita arqueada perguntando como eu iria tratar deste problema que não era só meu. Neste momento gritei com todas as minhas forças que não podia ser verdade, meus sentimentos são exclusividade da minha vida e ninguém mais pertence o que sinto ou desabito dentro do meu existência.

Você é ainda luta para ser jovem e livre isto faz de você uma pessoa limitada, disse o velho. Seu lábio inferior estava mordido e oculto demonstrando não raiva, mas ansiedade do que eu iria enfrentar. Meu pai estava ali passando o bastão da maturidade para mim e eu não sabia nada sobre amar e ser amado. Tampei a face com as duas mãos e chorei até exaurir a saudade dele, dos tempos sem riscos, das múltiplas possibilidades e agora? Eu estava entrando num mundo completamente desconhecido.  

Guardei em prantos o silêncio, por longos e infinitos minutos, mirando minha face refletida no espelho que não me repreendia, mas mostrava que algo estava errado comigo.  Andei pensativo pela casa e nem a pouco amistosa lhasa apso, do alto dos seus 3Kg reclamou da minha nova aparência.

Saí dali ofegante, pensando que o episódio era cisma ou, numa remota hipótese, fosse uma brincadeira hostil dos meus nervos ópticos, cuja hostilidade passou a ser um tanto gratuita desde que reclamei que estavam reprimindo meu olhar quando ela passava por mim. Ela tem nome e carteira de identidade, tem CPF e cartão de crédito, tem indo e vindo aos meus sonhos e eu nunca a havia percebido assim. 

Deu que meus nervos olfatórios tomaram minhas dores e com um exército composto por aproximadamente 10 milhões de neurônios sensoriais olfatórios que de longe captavam o seu cheiro natural em forma de perfume, aguçou a inveja e a animosidade fez chegar aqui, onde não estou me reconhecendo.

Tive que recorrer ao coração, já que é o único órgão autônomo e independente que gera seu próprio impulso elétrico para bater nos dois, e manter-me vivo e apaixonadamente encantado por ela.

Por umas duas ou três vezes tentei isolar os dois sentidos em cada canto dos meus neurônios, apenas por medo de que o conflito crescesse. Havia desejos e tensões silenciosas, pequenas guerras internas que fingia não perceber.

Foi então que compreendi que a música que sempre tocou dentro de mim apaziguava tudo — e, pela primeira vez, aceitei isso sem resistência.

Talvez fosse apenas o despertar de um sentimento que até hoje eu desconhecia. Gostar de alguém não me transformará em outro homem: apenas me revelará um rosto que eu ainda não sabia reconhecer.
        
É isto aí!



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