sexta-feira, 3 de abril de 2026

Carminha e Armandinho em "Quero ser amada"

 


Eu te amo, Carminha.

— Não, não me ama, Armandinho.

Claro que sim, sinto que posso morrer por este amor.

— A morte, Armandinho, faz parte da vida, mas o modus operandi, o processo de  morrer é individual, e independe das escolhas que fazemos.

Não, Carminha, nunca fale assim comigo. Eu morro de amor por você!

— O que deseja que eu fale? Que te amo? Não, não te amo.

Mas estamos juntos...

— Sim, estamos juntos, mas isto não faz de mim uma mulher obrigada a amá-lo.

Lembra quando nos vimos pela primeira vez?

— Sim, claro.

Então, Carminha? Aquilo não foi a fagulha do amor?

— Vocês homens misturam tudo - desejo, tesão, paixão e amor para vocês são as mesmas coisas.

Mas estão juntas e misturadas.

— E nem por isto são homólogas. São transportes diferentes, cada um destes sentimentos nos levam a uma experiência distinta, sempre saindo da mesma plataforma, mas nos entregando em destinos muito distantes uns dos outros.

Eu não entendo isto, Carminha, não entendo você.

— Não estou aqui para ser decifrada, Armandinho, quero ser amada, possuída e desejada, uma coisa de cada vez, cada qual de um jeito, e todas elas, seja quais forem, sedutoras.

Nossa. Eu procuro fazer tudo certo para não te irritar...

— Irritar? Você quer saber o que me irrita, Armandinho? Você é todo certinho. Nunca deixa pelos da barba na pia;  não surfa entre canais de TV quando estou na sala; sempre troca o rolo de papel higiênico, o sabonete e o shampoo quando acabam; sempre abaixa a tampa do vaso; apaga as luzes acesas desnecessariamente; não espalha xícaras, latinhas , farelos e sujeiras no tapete, no sofá ou na cama; nunca deixou toalhas molhadas no chão ou jogadas pela casa; não acumula roupas sujas no guarda-roupa e mantém o carro limpo e abastecido. 

Mas, Carminha, faço isto por amor... sincero e verdadeiro

— Por que você não faz alguma coisa que me irrite, Armandinho? Que eu odeie?

Não, Carminha, jamais faria isto. Carminha, de onde tirou isto?

— Eu quero que você reclame quando eu demoro excessiva e propositadamente ao me arrumar para sairmos; quando deixo absorvente usado jogado no cantinho do banheiro; quando deixo as luzes acesas só para você apagar; quando deixo a cozinha imunda e falo que estou com dor de cabeça; quando estou excitadíssima e digo que não quero.

Mas eu adoro saber que está se arrumando para mim, Carminha. E tudo o que faz é parte de sua personalidade. Não posso desejar que seja exatamente como desejo que seja. Puxa vida, não sei mais o que faço para ter você...

— Ai, Armandinho, sabia que adoro este seu olhar perdido, esta sua busca pela perfeição de fazer tudo bem feito só para mim? Eu quero continuar assim, sendo procurada, perdida e devassa. Agora vem querido, que a noite é curta, e preciso de você  para viver os meus sonhos desta noite, porque os de amanhã ainda não aconteceram...

Prezado leitor e prezada leitora, o Reino Ao pé da Pitangueira está fazendo uma revisão de postagens que fizeram sucesso quando postadas. Hoje apresento uma reedição de "Quero ser amada", publicada numa quinta-feira, 18 de dezembro de 2014. Espero que gostem.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Entre Flashes e Sombras


Minha memória entrou em franco decaimento. Eu ainda sabia o meu nome, reconhecia a casa e algumas pessoas, mas tudo vinha em flashes — saudades, angústias, pequenos esclarecimentos. Duas meninas me chamavam de pai, e uma moça que alegava ser minha esposa.

Lembro que cheguei à porta e alcancei a rua.

Agora estou aqui, numa rua feia, estranha, meio esquisita e desconhecida. Resolvi andar. Talvez encontrasse um rosto conhecido, uma loja, uma esquina.

Parei à porta de uma igreja e entrei. Ao lado do altar, seis anjos cantavam uma melodia belíssima. Havia também um na harpa, muito bom de serviço. Fiquei ali até dormir no banco.

Acordei na noite avançada. Tudo escuro, poucas coisas visíveis. Havia muitos murmúrios; parecia oração, bem ritmada. Vi uma luz ao longe e fui atrás dela.

Andei até o amanhecer, quando a luz desapareceu. Vi um rosto familiar — era minha mãe. Corri atrás dela. A danada desatou a correr de mim.

Arfando, entrei numa casa linda. Então uma das meninas correu, abraçou minhas pernas e gritou:

— Mãe, pode desligar o celular, ele voltou.

Veio a outra menina e a moça, que curiosamente estava mais velha. Choramos muito ali, abraçados.

Fui dormir.

Amanhã será outro dia.

Ou não.


É isto aí!