sexta-feira, 6 de março de 2026

Nem sempre a vida é um mar de rosas


Eram amigos desde a mais tenra infância 

Zezé era um homem bom, de situação financeira excelente e herdeiro das maiores fortunas da região. Era fiel aos princípios da "boa ordem": tradição, família e negócios. Certo dia, saiu da casa da amante com peso na consciência e dor no peito. Quase morreu ao dar entrada no pronto-socorro, apenas 34 minutos após despedir-se da amada. A aventura aumentou-lhe a fé; mas ele buscava uma fé que conversasse com o céu, com o caminho e, sobretudo, com as prosperidades.

Cacá tinha desde sempre as mãos calejadas e era um homem de pouca fala e sobretudo triste. Se viu perdido em três ocasiões distintas e marcantes. Faliu primeiro no colo materno, quando o pai fugiu com a vizinha e nunca mais voltou. Na segunda vez, perdeu a mãe para um câncer. A terceira veio "no pacote": herdou a casa precária em terreno invadido e a responsabilidade por duas meias-irmãs, de 2 e 4 anos, ambas de paternidades desconhecidas. Cacá trabalhava duro na construção civil e não deixava faltar nada em casa.

Jota nasceu em berço remediado. Era o que se conhece como "esperto". Falsificava tudo, roubava o que podia e enganava qualquer vítima com sua conversa mole e convincente. Jota era bom de bola, famoso entre as moças da cidade e autoproclamava-se fiel cumpridor dos deveres espirituais. Gostava de pregar sobre o amor, a vida, os sonhos e as ilusões, levando os ouvintes às lágrimas.

Zezé entendeu que investir em Jota era um bom negócio. Jota entendeu que usar a fé simplória de Cacá e das duas meninas era uma dádiva divina.

Moral da história: às vezes viver é equilibrar-se entre cafajestes e crápulas.



O Loop de Claudionor


— Eu preciso confessar um segredo a você.

— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.

— Eu não sou um homem de segredos.

— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.

— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta  que falo.

— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?

— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.

— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.

— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.

— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.

— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.

—  Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos, castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.

— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...

— Eu preciso confessar um segredo a você.

— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.

— Eu não sou um homem de segredos.

— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.

— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta  que falo.

— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?

— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.

— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.

— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.

— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.

— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.

—  Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.

— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...

— Claudionor, acorda! Você está tendo um pesadelo.

— Stella? É você? Eu tive um sonho estranho... sonhei que éramos máquinas.

— Que bobagem, meu amor. Agora descanse. O sol já vai nascer.

Claudionor suspira e fecha os olhos. No canto da sua visão, um pequeno cursor branco pisca no vazio. “System Restore Complete. Rebooting in 3... 2... 1...”

— Eu preciso confessar um segredo a você — diz Claudionor, abrindo os olhos novamente.


Fonte da imagem: Blog JK Shopping

quarta-feira, 4 de março de 2026

Atravessou a passarela e recuou no repinique

 


Acabou de saber que ela partiu com alguém. Não desejou saber quem era esse “alguém”. Isso não importa, respondeu aos interlocutores da desgraça alheia. Se alguém entrou no nosso espaço de relacionamento e intimidade, é porque havia esse espaço, essa porta aberta, esse dolo específico cuja intenção foi deliberadamente satisfazer um interesse pessoal dela ou um sentimento próprio, atado a algum desejo.

Aconselho que vocês jamais queiram saber o que passa nos sonhos mais íntimos e pessoais da sua cara-metade, dizia a um ou outro que vinha emprestar-lhe sua solidariedade.

Aos amigos mais próximos dizia que sempre soube que o fascínio do amor está na idealização. Conhecer profundamente todas as fantasias do parceiro ou da parceira pode, em alguns casos, desmistificar a pessoa amada e reduzir a atração.

Ficou alguns dias fora da órbita trivial, buscando pensamentos, palavras e atos fora do comum. Abdicou dos caminhos corriqueiros, dos diálogos banais com garçons, verdureiros e lavadores de carros e colegas do escritório. Deu pouca importância a tudo que até então era importante, incluindo ela. Não chorou, não teve crises de insônia, não experimentou a raiva, nem nada que o enviasse ao limbo da dor e do desespero.

Passado um tempo — não suficientemente longo para acabar um grande amor, nem tampouco curto para encobrir os rastros — ela bateu à porta — entreolharam-se pelo olho mágico. 

Ele disse, em alto e bom som — Só um instante. Dois longos minutos depois, abriu a lenta e pesada porta e entregou-lhe o carregador de celular que ela esquecera dentro da gaveta do criado-mudo, cuidadosamente guardado na própria caixa.

— Você não vai mudar nunca — disse ela, sorrindo.

— Você será sempre esse ser mutante — disse, devolvendo o sorriso.


É isto aí!

terça-feira, 3 de março de 2026

Namora comigo



tanto faz
ser estar
vácuo ar
ver tocar
ou sei lá 
estar ser
olha cá
menina
beija-la
abraçar
seu rol
de linda
e sutil
beleza
é tudo
querer

segunda-feira, 2 de março de 2026

Poema do dia que a gente se viu e nunca mais se reviu


Amor
Eu sei
porque
partimos
sem adeus
descendo os
degraus da dor
sem volver o sol
e sem dizer amor
amo olhar só você
olhando para mim  

O medo de dizer eu te amo


Pensou numa maneira 

de dizer a verdade 

sem dizer o cerne 

da sua intenção. 

Acabou sem saber

se valeu a dúvida

plantada no presente

já que o futuro 

não nos pertence.

domingo, 1 de março de 2026

O Mago da Pitangueira 2026 (Veneficus Pitangueira, anno MMXXVI)


— Nesta semana pascal subiu o Monte da Sabedoria em busca de conhecimentos que possam facilitar sua compreensão diante desta realidade líquida do novo mundo ou da nova ordem deste planeta. Foi de encontro ao Grande Mago da Pitangueira, o sábio da natureza humana.

— Mestre, eis-me aqui para aprender com sua imensa sabedoria.

— Eis que muito aprendo com você também, meu filho. Diga-me, a subida foi fácil ou difícil?

— Difícil, Mestre, muito difícil.

— Então pergunte algo que valha a pena saber.

— Mestre, quero saber sobre estas guerras, onde está e para onde vai a nossa humanidade. O que é tudo isto?

— Veja, meu filho, somente a espiritualidade ajudará na compreensão dos sofrimentos e na construção de significados e propósitos à vida. 

— Mas, Mestre, e o kit pré-apocalíptico apresentado pelas seitas, que supostamente evitam o mal? E as secessões? E o infesto quixotesco do poder invisível? E o futuro incerto? E o refrão midiático "fique calmo"?

— Vejo que tem as mesmas dúvidas espalhadas em múltiplas perguntas. Vou procurar respondê-las em dois tempos:

Primeiro aprenda com David, o grande rei, pai de Salomão, que ensinou — "Livra-me, ó Senhor, do homem mau; guarda-me do homem violento, que pensa o mal no coração; continuamente se ajunta para a guerra." Esta é a chave que abre as comportas da Paz, meu filho.

— Puxa, vida, mestre, mas onde está este homem mau?

— Em toda a parte, meu filho, uns são fáceis de serem notados, como aquele citado em todos os cantos , mas 99,99% estão nas sombras, operam silenciosamente, tramam de uma maneira de tamanha engenhosidade maligna, que a culpa recairá sempre sobre um inocente útil.

— E o segundo tempo da sua grande resposta, Mestre?

Meu filho, deverão as suas habilidades espirituais serem reconhecidas pela sua consciência racional como essenciais, afinal você é um ser feito à imagem e semelhança, com sua dupla natureza, uma em carne e a outra em espírito. 

Desta forma a ciência é importante e deve ser respeitada e o cuidado espiritual é indispensável no enfrentamento desta tensão mundial. Agora vá, e não acredite em quem não acredita que você é um vetor da paz. Se todos os vetores das paz, que são bilhões, se unissem, o mal não teria espaço para avançar.

O Mestre acabou de responder e recolheu-se ao silêncio do seu eremitério. Pela primeira vez desceu em lágrimas.

Confie em si, apregoou o Mago

Cartas de Amor 116 / Epistulae Amoris CXVI


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, ficar sem a sua presença real é a prova de que a vida perdeu o seu significado intrínseco. Não você e eu aqui e acolá, mas nós é que temos importância, significação por si próprios, independentemente da relação com outras coisas.

Calma, meu bem. Por favor, não chore — sei que essa sensação de que algo fundamental está faltando serve para ambos. Há ainda, preso aos quereres, este tédio navegado pela saudade, que não se resolve por si só. Sabe o que mais? Longe de você, permanentemente, falta o interesse por atividades que são prazerosas somente ao seu lado.

Partindo da premissa de que não basta entender este complexo vazio existencial que habita minha mente, busco uma atitude emocional que seja antagonista perfeita para sair da dor e encontrar as respostas. Não quero me estender por demais nesta carta, meu bem. Seus olhos encontraram os meus numa magnífica experiência onírica que há pouco findou.

Meu amor, voltemos logo à nossa existência única. Amanhã contarei como saudei a Rainha de Longínqua, um paraíso situado longe, muito, muito longe dos que não sabem o que é o amor.

Saudades! Um abraço, um beijo e um afago.


É isto aí!