segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tudo sobre a minha bicicleta


madrugada fria, 

inverno elegante 

promete ser tenso, 

intenso e extenso. 

A falta das palavras tem incomodado o equilíbrio por sobre a minha bicicleta e o passado que alonga  mas nunca acaba. Saudade é um elemento elástico. Quando entrar setembro, pouco antes da primavera, vou plantar menos saudade. 

Tem dia que escrever é uma ferramenta de descaso para com a realidade.

Esta é apenas uma postagem desconectada da minha racionalidade vigente. Para você que não sonha, não delira, não sai dos trilhos, saiba que viver é mais fácil do que parece.

Na dúvida, irei me debruçar sobree este assunto. Hummm, pode ser perigoso, mas aí chamo o Bruce Wayne para explicar a duplicidade pacífica do ser e estar da pessoa perdida dentro de si.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Cartas de Amor 124


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Cartas de Amor 124
Epistulae Amoris CXXIV


Querida, sou poeta sem sê-lo, sou escritor sem sabê-lo


Calma, meu bem, logo explico ou melhor, tento explicar, já que a inefabilidade ecoa por entre os bosques do Reino. Saiba, minha amada, que neste monocrático e democrático reino onde você reside enamorada nos meus sonhos, por sua função aqui dezenas de vezes descrita, a minha escrita — que é para você — vai encontrando seu rumo enquanto caminha, como quem segue uma trilha sem conhecer completamente o destino.

Dia destes escrevi para você, retirado e alterado do contexto original da lindíssima canção da Amália Rodrigues, que tudo isto existe, mas nem tudo isto é triste, e nem tudo isto é fado no caminho solitário por entre as letras que formam nossa história. Hoje estou estranhamente feliz,  e devo isto a você.

Não vou me alongar muito nesta manhã. Sinto-me tão ansioso quanto um comandante da Nau que navegará por mares revoltos sem saber como e quando chegará em algum porto seguro. 

A carta é breve, mas nela estão todas as palavras que são quase tudo que hoje tenho para dar a você. O que faltar enviarei pelo correio onírico. Aqui está ameaçando neve, frio intenso, ventos fortes e a solidão que virá das noites longas. Quando chegar setembro, com a primavera à porta, quem sabe, colheremos flores juntos?

Querida, não sei não amar você!


Citação incidental de Amália Rodrigues
Citação da Música: Tudo isto é Fado
Compositores: Anibal Nazare / Fernando Carvalho
Letra de Tudo isto é fado © Musica Del Sur, Musica Del Sur Ediciones

Sobre mãos e orações



Minhas orações
são o que são
minhas mãos

fortes e firmes
fracas e leves
luz no caminho

tão carentes 
quanto amenas
e sinceras

Minhas mãos
são as minhas 
orações amém!










quarta-feira, 3 de junho de 2026

As três lágrimas



Estava na sala onde o esquife guardava sua amada. Homem não chora, disse para si mesmo, dezenas de vezes, por pensamento. Homem não chora, é isto. 

Meu pai me ensinou a crença de que o homem só tem três lágrimas, uma quando nasce, outra quando é batizado e a terceira é quando perde a mãe.

Ficou a repetir o pensamento, unhas provocando dor nos cantos das falanges distais. Quando do fechamento da urna, sentindo o mundo ruir ao seu redor pela perda da amada, sussurrou segurando as lágrimas: Eu não vou chorar, sua vadia.

O cortejo adentrou ao cemitério, cachorros latindo, mulheres cantando hinos religiosos, homens saindo do ambiente rumo ao bar do Zé do Bar.

Crianças corriam em volta da capelinha, atrás de uma bola que apareceu do nada no meio deles. As meninas reparavam nas roupas das outras meninas e vice-versa. 

Quando chegaram ao túmulo, ele gritou para esperar. Queria dar a última olhada. Abriram o caixão, aproximou-se e sentiu que ela o segurou pela lapela do paletó, e sussurrou: Vadia é a puta que o pariu!

Levantou-se lentamente e chorou por dias até ser encontrado morto sobre a sepultura da companheira.


É isto aí!

terça-feira, 2 de junho de 2026

A moça no supermercado


Vi uma moça andando e divagando num supermercado, concomitante à minha presença. Não gosto de olhar mais de três vezes nestes casos, pois aí já passa para reprovação de comportamento. Veja só, um idoso olhando com olhos de catarata para a juventude, desta forma. Deve ser destes tarados embutidos em roupa de tergal. 

A mulher era nova, tinha algo de 23 anos, talvez menos um pouco. As mulheres nesta faixa etária estão no ápice da beleza juvenil, migrando para a fase adulta. E é melhor tirar a mira fixa do corpo destas beldades, a não ser que saiba trabalhar com cálculo integral, e, quer seja definida ou indefinida, não alimente muita esperança de chegar a algum resultado, já que calcular áreas sob curvas, volumes de sólidos e acumulações de taxas não é para amadores. 

Foi viajando nestes conceitos matemáticos que passaram por minha vida acadêmica e nunca, e quando digo nunca, quero dizer nunca, me foram úteis enquanto ferramental de avaliação de área, porém, apesar de ser um completo desconhecedor das profundezas matemáticas, sou do tipo que nunca desiste.

Depois de alguns segundos de reflexão científica mal resolvida desde priscas eras, cheguei ao mesmo resultado de sempre.

 Conclusão: Nada. Não concluo nada, apenas vi uma moça e achei bonita, foi só isto.

É isto aí!

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cartas avulsas 31

 


Cartas Avulsas 31
Litterae solutae XXXI

31ª Carta Avulsa
Reino da Pitangueira,
01 de Junho de 2026
153 dias desde o início do ano
Faltam 213 dias para acabar o ano.

Dia Nacional de comemoração da Imprensa no Brasil
Pôr do Sol 17:19. 
Lua na fase Cheia
Estação Outono

Chegará logo o dia de rever você, quando tudo será melhor, mais bonito, mais doce, mais delicado, mais envolvente, mais feliz. É isto então — tudo indo e vindo em todos os vértices da felicidade, feito ondas apaixonadamente lindas.

Serão como sempre foram — românticas e reluzentes, em todas as formas concêntricas e excêntricas de amar você. Tudo incidirá no ponto de encontro entre nós dois, ora em ondas retas, ora em linhas; dezenas, centenas, milhares delas, em curvas que aqui denomino você: a razão da existência do amor.

Daquele dia, daquela hora que virá, o impacto das nossas vidas. Gritarei como um guerreiro defendendo nossa integralidade, batendo com a mão fechada sobre o coração, gritando impropérios contra o... puxa vida, isto é tão estranho, pois nos meus sonhos funcionavam muito bem estas ações e estes eventos primevos.

De repente, ainda bradando, mas abaixando o tom e deixando cair o tacape, não vejo mais você. Não que não esteja aqui, pois está em todos os lugares e dentro de mim, feito a mais perfeita pérola. Percebo estar, verdadeiramente, numa outra dimensão que não tangencia meu querer. Tudo é tão lindo quanto exótico ou inefável, e todas as coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Pássaros ou algo do tipo, em plena cantoria, sobrevoam para um ponto infinito. Sinto um frio glacial. E seres indescritíveis, como se estivessem dobrando o universo, seguem no mesmo rumo das aves, como se todos soubessem para onde ir, menos eu. Há medo, e agora lágrimas que aparecem do nada preenchem um imenso vazio em mim. Acho que morri.

Este silêncio, os olhares alhures de pessoas que não são exatamente pessoas. Mas minha consciência ainda me banca; ainda posso ver minhas mãos. Não, espera, não posso ver minhas mãos, mas posso senti-las. Então é aqui a Eternidade. Vou caminhar para ver onde dará esta estrada.


É isto aí!