terça-feira, 31 de março de 2015

O aeroplano e o saci


Um aeroplano destes bem grandes desapareceu do planeta há um ano. Nada mais se disse sobre isto. Teorias oficiais declararam que o motorista da condução tinha um sistema de treinamento na sua casa, semelhante aos milhões de jogos idênticos espalhados pelo mundo.

Outro aeroplano , da mesma viação, caiu em terras eslavas, daí que foi uma coisa mais estressante, com testemunhas, mídia e zona de guerra. Como as explicações não tiveram consistência, as consistências detonaram com as explicações.

Agora um outro aeroplano, também no velho continente, vai de encontro aos Alpes. O crime foi premeditado por um alucinado romântico e assassino, e logo nas primeiras horas o denunciado e culpado era o co-motorista. Segundo as autoridades, ele era gay, paranoide, depressivo, com menos de 70% de acuidade visual, e por fim descobriu que a noiva estava grávida de um filho seu (não ria, a consistência oficial é esta). 

Então o cidadão co-motorista esperou pacientemente o motorista-em-chefe ir ao banheiro, trancou a porta e rumou ao infinito e além. Enquanto assim procedia o seu superior, sem ter como ver coisa alguma, batia à porta com violência, mandando-o abri-la. E, claro não o fez.

Você acredita nestas histórias? Sei... entendo... tudo bem... olha só, fica tranquilo. Foi o Saci que contou.

É isto aí! 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Casamentos e casamentes

Estou sentado num imenso sofá, num local completamente desconhecido, limpo e harmonioso. Ao meu lado uma das mulheres mais lindas e sensuais que já vi em toda a minha vida. A vista, privilegiada, contempla uma cadeia de montanhas e o oceano ao fundo, num contraste elegante. Ela me olha de uma forma desconcertante que não sei retribuir.

A questão aqui envolvida é que não sei nada sobre mim, nada sobre este lugar e nada sobre a moça. Lembro de coisas incríveis como o Louvre, onde acho que estive mergulhado num profundo ensaio conceitual, e também vagam passagens rápidas aqui e ali. Mas não sei de nada.

A escultura humana ao meu lado dirige a palavra numa língua que desconheço. Sequer entendo o sotaque porque se estou pensando apenas desta forma, devo ser monoglota. Não estou bêbado, nem drogado, nem com reflexos alterados. Minha cabeça não dói, meu corpo não reclama de nada, mas não sei de mim.

Ela continua num tom romântico falando coisas ao meu ouvido. Levanta-se e aí posso notar o quanto é maravilhosa, uma formosura esculpida por mãos divinas. E só então, ao tentar levantar percebo que estou nu, pelado, sem roupa sem nada. O curioso é que ela está também sem a roupa de baile e a poucos metros daqui há uma festa, com orquestra e muita gente dançando e cantando, na mesma estranha língua da moça.

Sem ter como evitar, levanto e caminho pelo salão, e todos me cumprimentam, tapinhas nas costas, uns beijinhos rápidos das mulheres, alguns na boca, outros na bochecha e outros soltos no ar. Continuamos o trajeto até o que parece ser um parlatório. Sou levado a ele. Daqui de cima vejo todos me observando, aguardando uma fala.

Olho para meu corpo nu, olho para as pessoas em requinte de gala, cruzo o olhar com a estonteante companheira, e caramba - não estou entendendo nada. Levanto as mão e falo pausadamente na minha língua que aquilo tudo era muito embaraçante, estranho e surreal. Recebo uma chuva de palmas, as pessoas vão ao delírio, grita,m assoviam, aplaudem, agitam os braços com alegria.

A moça sobre em largos sorrisos os degraus que nos separavam, e beija-me em frenesi. Meu Deus do céu... que beijo maravilhoso e aí ela começa a me morder e falar ... Beto... Beto... Beto. Engraçado, eu consigo entender esta parte. Beto deve ser meu nome. Sorrio para ela. Beto... Beto... aí que me dei conta, era o casamento de alguém... e a moça - Beto... Beto...

Vagamente começo a entender tudo o que falam. O salão não era bem um salão, era um templo religioso. A banda era um conjunto de arcos e cordas. Então pude concluir que eu estava no altar . E aí ela falou ... Beto, você tem que dizer SIM. Aí falei sim e infelizmente voltei ao normal, no conceito das pessoas sérias. Francamente, na minha viagem pós-despedida clássica completa aquilo estava muito mais legal.

É isto aí! 

terça-feira, 24 de março de 2015

Nunca deseje seu ex-amor

Tem uns dois anos, estava à toa, procurando alguma coisa na Internet, e isto é um perigo tão grande, que tal aventura deveria ser protocolada, registrada, carimbada e monitorada por uma agência federal. Era cedo ainda, as crianças já haviam deitado, a sogra roncava no sofá de frente para uma novela desconhecida, e eu esperando a hora do jogo, que seria o ponto culminante da noite.

Foi aí que a porca torceu o rabo e o diabo cutucou com a saudade, quando bateu a besteira de procurar o nome dela na rede. "Ela" foi simplesmente o grande e intempestivo amor, daqueles que só quem amou apaixonadamente irá entender. Quinze anos se passaram desde a maldita despedida, onde meu orgulho, idiota, não entendeu a gravidade da separação e o que esta dor ocasionaria na minha vida.

Como sabe, a fila anda, e acho que foi então que apareceu a Geraldinha, que assumiu o controle da situação, e hoje moramos numa casa pobre, mas é nossa, está paga e é decente. Os filhos na escola pública, eu na prefeitura e ela uma doce, dedicada e romântica rainha do lar. Mas naquela noite eu cometi a imprudência de procurar por "ela". Puxa vida, quanto mais passava o tempo, mais torturas e sofrimentos fluíam pela memória.

Achei-a na rede, acessei sua página, e meu Deus do céu, estava linda, com fotos deslumbrantes em lugares fantásticos, cercada de amigos, amigas, com a cara da riqueza e a sina da beleza. Era ela, a minha musa, que venceu, brilhou, ascendeu, enfim, conquistou seu lugar ao sol merecidamente. Levantei da cadeira ensandecido. Entrei no quarto e vi aquela tripinha seca deitada na cama de colchão de espuma D28, cobrindo com lençol remendado ainda do casamento, duas muchibinhas de travesseiro sob um cortinado encardido, ventilador histérico, piso de cimento queimado e aí chorei copiosamente.

Entrei dezenas de dezenas de vezes naquela página, imprimi sua foto, caramba - estava tudo acontecendo novamente. A tentação de surgir na sua vida era imensa, mas me contive. Deu que um dia fui acompanhar o despejo de uma invasão de área pública, e não é que ela estava lá? Era uma das invasoras, menos bela que na Rede. Fui me aproximando devagar, bem devagar, tremendo até não aguentar mais. 

Olhamos um nos olhos do outro. Tomei-a pela mão e não soltei mais. Ela sonhava com coisas que eu renunciara, e agora poderíamos sonhar juntos. Tudo ia bem até que resolvi acessar a página da Geraldinha. Gente, mas o que era aquilo, parecia uma Miss Universo desfilando na passarela da felicidade. Minha boca encheu d'água... a Geraldinha... puta que o pariu, e eu aqui sustentando esta gorda porca e preguiçosa que fica o dia inteiro na internet. Fiz menção de voltar, mas sabe como é, ninguém volta ao que acabou - outro já dominava a área.

É isto aí!






segunda-feira, 23 de março de 2015

Um beijo em si.

Senta logo, que preciso te falar um negócio.

Não.

Não o quê? Sentar ou ouvir o que tenho a dizer?

Não quero sentar.

Mas poderá ouvir?

Não quero ouvir o que sabe e não sei.

Mas aí não saberá o que tenho a dizer.

Então não diga e não saberei.

Mas é uma coisa sua.

Se é minha, já a tenho.

Não quer mesmo saber?

O fato é que não estou preparado para descobrir em mim algo que não sei se sei.

Não contarei então.

Isto, não conte e me beije.

Beijo molhado, lambuzado e ardente?

Um beijo, não destes assim, mas um beijo de quem tem algo meu em si.

É isto aí!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Roy Orbison - A Love So Beautiful




A Love So Beautiful

The summer sun looked down
On our love long ago
But in my heat I feel
The same old afterglow
A love so beautiful
In every way
A love so beautiful
We let it slip away

We were too young to understand
To ever know
That lovers drift apart
And that's the way love goes
A love so beautiful
A love so sweet
A love so beautiful
A love for you and me

And I when I think of you
I fall in love again
A love so beautiful
In every way
A love so beautiful
We let it slip away
A love so beautiful
In every way
A love so beautiful
We let it slip away


Um Amor Tão Bonito

O sol do verão se pôs há muito tempo
sobre o nosso amor,
Mas em meu coração eu ainda sinto
aquele velho pôr-do-sol...
Um amor tão bonito
De todas as maneiras
Um amor tão bonito
Deixamos que acabasse

Éramos muito jovens para entender
Para ao menos saber
Que amantes se separam
E que o amor é assim mesmo
Um amor tão bonito
Um amor tão doce
Um amor tão bonito
Um amor para nós dois

E quando penso em você
Me apaixono de novo
Um amor tão bonito
De todas as maneiras
Um amor tão bonito
Deixamos que acabasse
Um amor tão bonito
De todas as maneiras
Um amor tão bonito
Deixamos escapar.....

domingo, 15 de março de 2015

Os anjos e a caxeta do Libório

Ryszard Krasowski
Dia destes estive num hospital visitando um amigo que se acidentou em casa correndo para atender o telefone, enquanto tomava banho. Estava sozinho e achou que não teria problema sair nu, escorregou no porcelanato e não viu mais nada, sendo descoberto na manhã seguinte pela empregada.

Na saída do apartamento do paciente, passei por um homem que achei conhecer. Alto, idoso, ereto e com um olhar muito penetrante. Continuei andando pelo corredor quando lembrei daquela pessoa. Ao voltar para reencontrá-lo, já havia desaparecido.

Será que é ele mesmo? Pensei e refleti - mas é impossível - já se passaram uns trinta anos. Bem, vou explicar: quando era criança, ia sempre nas férias, na roça, onde moravam meus avós. Nada melhor do que o campo para uma criança se sentir no paraíso. Nas sextas-feiras, na varanda do sobrado, meu avô recebia os  amigos de sempre para beber cachaça, comer torresmo e jogar caxeta ou caixeta como dizem mais ao sul. Entre seus amigos, tinha o Libório, divertidíssimo, padrinho do meu pai. Sua esposa já havia falecido, os filhos tinham ganhado a estrada e ele tocava seu sítio dentro das suas limitações pela idade.

Numa destas férias, em janeiro, com muita chuva, o Libório faleceu e fomos lá para a casa dele, do outro lado da encosta. Era uma sexta-feira, e aí os amigos, para homenageá-lo, ficaram jogando caxeta a noite toda, esperando o dia amanhecer para enterrar o falecido no cemitério da vila. A casa dele era pequena, e tinha apenas uma puxada de telhado na frente, em piso batido, com umas pedras próximo à porta. Devia ser de madrugada, e eu ali, aceso, pois nunca tinha visto um homem morto, nem sequer um velório, e muito menos uma chuva torrencial como aquela.

Ficava andando prá e prá cá e ao chegar na porta da cozinha, deparei com um homem encostado na bica, calado, olhando para mim sem estar me vendo. Achei que podia ser um dos vizinhos, apesar de nunca tê-lo visto. Não tive medo nem nada, mas fiquei com muito sono. Nunca mais esqueci seu rosto e na manhã seguinte não o vi no enterro.

Voltei rapidamente ao apartamento e meu amigo tinha acabado de falecer, saí dali e novamente cruzamos o olhar. Desta vez não olhei para trás.

É isto aí!

quarta-feira, 11 de março de 2015

O cafajeste em mim.

Desde menino sempre sonhei em ser cafajeste. Não pela forma, mas pelo nome, sempre achei o máximo esta expressão. Ficava imaginando uma cena onde uma pessoa se aproximava e em tom de desespero, perguntava - o senhor é o Dr. Cafajeste? Sim, sou eu. Pelo amor de alguma coisa, me socorra... Aquilo era uma terapia para minhas expectativas de futuro.

Nas reuniões de família, perguntavam o que eu seria quando crescer só para ouvir a resposta e a gargalhada era geral. Tia Julinha se urinava de tanto rir; tia Telinha rolava no chão e o meu pai gritava lá do fundo do quintal - "este é o meu garoto! Que maravilha, uma coisa assim era melhor do que ser aviador, médico ou advogado".

Uns amigos do meu pai tinham umas duas ou três mulheres, estavam sempre alegres, e bem com a vida. Minha mãe não gostava deles. Falava com raiva do Carlinhos do Pneu. É um homem frio, calculista e trapaceiro. Roubou até da sogra, a dona Esmeralda, coitada, que morreu sem nada que o padrinho deixou para ela. Depois que sugou tudo da boba da Dadinha, arrumou uma putinha barranqueira -. esta era a parte que eu adorava ouvir - arrumou uma novinha, e agora fica aí andando de carro bonito e se acha o tal.. Uau; aquilo ecoava como música aos meus ouvidos (uma novinha) e seguia sorrindo para todo mundo.

Tinha o Gegê do Gás, que minha avó tremia só de ver ele lá em casa. Eu não entendia, por que ele era muito divertido, carinhoso com a esposa, mas aí vovó falava - é um cafajeste mentiroso, e a boba acredita em tudo que fala, mesmo com ele namorando com as meninas todas do bairro. Nossa! Gegê era meu ídolo - Meu sonho!!!

E o Bira da Feira? Sempre com uma camiseta apertada, mostrando os músculos. Ele ia fazer entrega das compras e tia Julinha saia pelos fundos - não suporto este machista grosseiro e insensível, dizia entre os dentes. O fato é que ele deu uns amassos nela e parece que uns tapas também, mas deve ter tido seus motivos, mas mulher não faltava na sua vida. Sempre com uma mais gostosa que a outra. E aquele cordão de ouro? Sempre quis ter um igual. 

Agora, tinha um amigo do meu pai, o Lelinho da Barra, que era meu ídolo. Tia Telinha tinha ódio dele. Ela falava assim - Lelinho? Um mau caráter, vagabundo e ambicioso e só quer mulher para sustentar suas ambições. Graças a Deus eu tive livramento daquele peste. 

Quando cheguei na adolescência, percebia que as meninas mais gostosas se sentiam atraídas pelos cafajestes, choravam e sofriam por eles, e se envolviam mesmo sabendo que as chances de o relacionamento dar certo eram mínimas. Eles eram fortes, pareciam seguros e poderosos, saiam para beber, jogar e fumar com os amigos, eram muito namoradores e tinham mulher nova todo dia, e as meninas ficavam histéricas disputando a atenção deles. Nunca entendia bem esta parte, a de que eu perdia para quem eu queria ser..

Bem, para minha grande decepção, na vida adulta não consegui ser cafajeste. O tempo passou, apaixonei pela Quitéria, uma menina tímida, até meio feinha, que morava duas casas abaixo da minha. Casei cedo, fui trabalhar no balcão de uma loja e enfim, tive três filhas e não consegui nem sequer um genro cafajeste. Agora esperar pelos netos..., quem sabe??. 

É isto aí!

Eu quero tudo!

Nunca tinha namorado e nem visto uma mulher nua e já estava com quase dezoito anos. Bom filho, exemplo na comunidade, muito religioso, excelente aluno do primeiro ano da faculdade de engenharia, honesto, dedicado e muito correto. Trazia consigo um amor proibido por uma mulher mais velha, casada com um vizinho residente no mesmo andar. 

Como a olhava demasiadamente apaixonado pelos cantos do condomínio, ela percebeu seu encantamento e tirava proveito da situação. Assim, explorava-o, mas fazia-se no âmbito social uma mulher sempre distante, admirável e um compêndio de perfeições físicas e morais. 

Ele aceitava e prontamente acatava suas ordens pela total submissão ocasionada por uma transposição do amor às relações sociais. Fazia mandados, ia no super-mercado, ao banco, e até eventualmente a acompanhava em lojas, desfiles e compras, quando ela propositalmente passava próximo à faculdade logo após as suas aulas. 

Quando estavam a sós, conversavam sobre tudo, e aí sempre provocava-o com roupas decotadas e curtas, batons carmim e perguntas cabulosas. O estado amoroso do rapaz era uma espécie de estado de graça que o transformara num nobre vassalo e ela era a intangível esposa do rei. Tratava-se, na sua concepção, de um amor puro, não adúltero. Sempre que alguém perguntava se tinha namorada, ruborizava e ocultava o objeto de seu desejo substituindo o nome dela pelo de uma mocinha qualquer.

Um dia o apanhou na porta da faculdade e dirigiram-se para um motel afastado, de alto luxo e enorme discrição. Ao chegarem, ficou mudo, em pânico, não sabia o que fazer nem o que falar. Custou a descer do carro, enquanto ela já adentrou no apartamento, ficando imediatamente nua, e deitada na enorme cama circular, pôs-se a esperá-lo. Entrou e deparou com aquela escultura natural, em pele de seda e sede de amor.

Estava ali, parado, encostado na parede, sem saber onde colocar os olhos, até que, num rompante de coragem, perguntou-lhe - o que você quer de mim? Com um malicioso sorriso em sua face alva e santa, ainda deitada, flexionou as pernas, abrindo-as em ângulo reto perfeito, estendeu-lhe os braços e sussurrou - eu quero tudo!

Imediatamente pegou o cardápio e começou a pedir à telefonista todas as comidas e bebidas que constavam nele. Pacientemente levantou-se enrolada no lençol, tomou o telefone das suas mãos suadas, pediu desculpas à mocinha, e segurando-o, conduziu-o delicadamente à poltrona, sentou-se, colocou-o no colo e foi acariciando-o e explicando a função de cada elemento do seu corpo. Ao final da explicação, ainda afagando os seus cabelos, foi que percebeu que ele havia dormido como uma criança protegida nos braços da mãe.

É isto aí!

* Gravura: God Speed — uma pintura de Edmund Blair Leighton de 1900: uma visão vitoriana tardia de uma senhora prestando um ato cortês a um cavaleiro prestes partir para batalha.

terça-feira, 10 de março de 2015

Como se desfazer das conexões cósmicas

Aline, eu te amo.

Adolfo, para com isto, eu não te amo.

Então você me odeia?

Não, Adolfo, claro que não. Eu apenas não te amo.

Mas e o nosso passado? Não significou nada?

Olha Adolfo, eu não tenho vergonha do nosso passado, mas não tenho interesse que isto seja base para o meu futuro.

Mas Aline, existe uma conexão cósmica divina e mística entre meu amor e sua vida.

Adolfo, sou psicanalisada, realizada, estudada, formada e pós-graduada em teses baratas.

Então você aceita ponderações, desde que sejam com personalidade, independente de serem verdadeiras..

Não foi isto que eu disse.

Como não disse? Subjugou meu sentimento e destruiu minhas expectativas. Olha só, Aline, o destino nos uniu. Não há outra explicação para tanto amor. Eu tenho você em cada existencia física e espiritual que há em mim.

Adolfo, você não me ama, você tem obsessão. E isto não tem nada a ver com destino.

Mas, Aline, não existem coincidências no universo. O acaso nos uniu por um motivo.

Só se foi para me ver sofrer por ter você me incomodando, Adolfo.

Nossa, como você é má.

Eu não sou má, mas o fato é que não te amo. Qual é a sua dúvida?

Só uma. Se eu pudesse voltar ao passado, o que eu teria que fazer para que você ficasse feliz?

Fácil - era só não ter ido àquele maldito baile.

Eu te odeio, Aline!

É isto aí!

segunda-feira, 9 de março de 2015

Férias no front

Este blogueiro que escreve esteve ausente por motivos de força maior. Mas voltarei, aliás, voltei, aliás, nunca sai, apenas ausentei, aliás, caramba - que sujeito chato - para de se desculpar e manda ver. Só mais um pouco e meus queridos e fiéis leitores (sim, existem) poderão passear pelas novidades da Pitangueira.

Enquanto isto a turma do Frying Pan com Caviar excitou-se em movimento frenético contra a nossa presidenta, enquanto por outro lado (outro lado da Frying Pan, onde as coisas esquentam por debaixo do pano), os outros dois presidentes da casa baixa e da casa alta da do poder legislativo são poupados. Como a Pitangueira é um reino monocrático e imperialista em causa própria, estes exemplos são recebidos aqui com certo desdém. Enfim, não basta ser da nobreza Tupy Frying Pan, tem que bater a sobra do caviar nas janelas da Vieira Souto.

Vou ligar para Odete e me atualizar. Valeu!

É isto aí!

domingo, 1 de março de 2015

A primeira vez




O hiato passional












Estou consciente, mas não consigo ver nem falar nada. Acho que estou no hospital, pois lembro de estar em casa e tudo escureceu. Escuto vozes sussurradas e som de aparelhos médicos. Não tenho medo, nem sequer estou desesperado. Passei pela vida com méritos e vitórias.

E tem na memória uma moça que navega silenciosamente entre o real e o imaginário, acelera o passo e percorre com uma delicadeza inconfundível a borda externa da minha espaçonave neuro-sensorial. Não tenho dúvidas de que a conheço. É ela, o grande amor da minha vida. Linda, tímida, meiga, inteligente e apaixonante.

Enamoramos na faculdade, impregnou-se na minha alma e por estas coisas inexplicáveis, perdemos um do outro no meio da multidão aflita pela vida adulta. Naquele dia a fitei nos olhos, triste, e ao largar minha mão, no meio da tempestade, gritou que me amava, e a turba do destino nos afastou. Casei, tive filhos e netos, venci a batalha e guardei o amor. Agora volta, com uma candura tão docemente saborosa que não me faz querer perde-la outra vez..

Sabe quando você sonha e depois deseja muito alguma e a alcança? Isto é fantástico, pois dá sentido à vida. Mas entre o ponto de partida e a conquista, milhões de coisas aconteceram, houve choros e lágrimas, sorrisos, gargalhadas, dores, frustrações, brigas, discussões, vitórias, derrotas, e tantos outros fatos que em determinados dias você até esquece daquele sentimento, que fica guardado em algum lugar da memória. Este espaço atemporal entre o desejo e a conquista é o hiato passional.

É ele, o hiato passional, é que dá o real sentido a tudo e o doce sabor da conquista. Agora ela está aqui, saiu de dentro de mim depois destes anos todos, de toda uma vida e transborda nos meus sonhos. Esta página se fecha aqui e agora se abre outra.

É isto aí!


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Volta, amor!

- Carminha, escuta, tenho medo de tudo, estou ainda confuso com o fim do relacionamento. Tenho medo de amar, medo de perder, medo de sair e medo de voltar. Medo, medo, medo, medo, medo - onde estou que não me encontro?

Estava bem, aí você vai ao leo e parte sem dizer adeus. Na hora, em pânico, até que fiquei sem esboçar dor, pranto, desespero ou lágrimas. Sabia que nenhuma lágrima derramei nesta manhã? Não, meu bem, nenhuma lágrima. Não chorei e nem pranteei na alma, por que tenho medo de não saber parar de chorar, de ter que explicar às pessoas os olhos esbugalhados e tristes, Tenho medo de mim.

Você é tão linda, tão simples, tão inteligente, cordial, educada, encantadoramente feminina, corajosa, valiosa, joia rara lapidada no ventre da humanidade e eu? Pois é! E eu? Não tenho o muito, tenho e sou o nada. Você linda, eu feio; você brinca, eu irrito; você rouca, eu fanho; você aguda, eu grave; você erótica, eu pudico ; você rica, eu pobre; você não sou eu e eu sou seu.

Nunca mais outra vez uma pessoa normal para os padrões de normalidade. Oh, dor! Oh, trevas! Onde estão os anjos que em miríades povoam esta casa com a sua presença? Onde estão as luzes que destroem todas as sombras da minha vida? 

Acabou, Armandinho?

Espera, fofinha, não desliga.

Armandinho, eu estou no escritório, trabalhando e você aí de férias bebendo sem parar. Assim que chegar em casa vou te mostrar o que é ter medo.

Mas Amelinha ...

O que é? Repete o que você falou aí? Me chamou de quê? Será que por acaso ouvi pelo nome horroroso da merda da prostituta da vagabunda da barranqueira da vadia da safada da piranha desqualificada da queridinha da sua mãe da sua ex-noivinha idiota?

Tem nada disto, amor, eu ia falar do mel da abelhinha e estava pensando numa geladinha, e já que toquei no assunto, quando chegar podia lavar a roupa que está no tanque, passar as que estão no armário e limpar o banheiro... alô... alô... Carminha... alô...

E foi assim que ela desapareceu. Não voltou nem para passar uma vassoura na poeira da sala. Vou te contar, viu, que mulherzinha ruim esta...

É isto aí!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Juras de amor.


Jura, vai. Jura prá mim...

Não.

Por favor, vai, jura só desta vez...

Não.

Puxa vida, como você é ruim. Vai, eu imploro, só hoje.

Não.

Eu prometo que nunca mais peço isto.

Não.

É!! Bem que minha mãe falou...

(silêncio)

Não quer saber o que ela falou?

Não.

Nem quem contou prá ela?

Não.

Ah! Jura, vai, jura só prá mim...

Não.

Se você não jurar, eu nunca mais te perdoo.

(silêncio)

Se você não jurar, eu nunca mais te dou presente.

(silêncio)

Se você não jurar, nós só vamos namorar no escuro total.

(silêncio)

Se você jurar, eu falo aquelas coisas baixinho no seu ouvido, na cama.

(silêncio)

Se você jurar, eu suspendo a relação de preliminares que eu quero que você cumpra.

(silêncio)

Se você não jurar, eu vou para a casa da mamãe.

(silêncio)

Se você não jurar, mamãe vem morar aqui.

Eu juro, eu prometo, eu garanto, eu asseguro e protocolo em cartório!!!!

É isto aí!

Meu café na estrada

Dia destes, em solitária e exaustiva viagem, parei para abastecer o carro de combustível fóssil e a mente de cafeína. O hábito do café é atávico, afinal temos no nosso material genético esta necessidade desde a invasão da península ibérica pelos mouros, detentores da cafeicultura que antecedeu à formação da pátria mãe. 

Filosofava sobre isto, sobre os problemas do dia a dia e outras coisas tantas enquanto a mocinha servia um expresso duplo e fez careta ao saber que o tomaria puro. Respondi em silêncio total que quem bebe café com açúcar bebe qualquer coisa, por isto deixam de ser exigentes com seus gostos.

Na mesa à esquerda um casal jovem discutia em tom áspero e baixo sobre alguma coisa que um deles esqueceu no ponto de origem. À frente, duas senhoras distintas, destas vividas e maquiadas, riam em desalinho com a conversa que fluíam junto ao cavalheiro que as acompanhava. Ao fundo uma família completa, com os pais e três crianças inquietas e barulhentas como devem ser na infância. À direita um senhor na faixa dos setenta anos, bem vestido, e tal como eu também contemplava o nada enquanto provava vagarosamente o seu café.

Uma das crianças veio em direção ao senhor, e voltou os olhos às outras duas e à mãe, buscando o consentimento final e a coragem para abordar um estranho. Aproximou-se e perguntou-lhe, sussurrando, alguma coisa. O velho ficou olhando, olhando, divagando, olhando... e aí voltou ao planeta Terra abruptamente, com um grito extremamente agudo ao lado do seu ouvido em direção aos irmãozinhos - não falei? Ele está é dormindo mesmo.

E graças a este eficiente processo de comunicação infantil, resolvi tirar um cochilo no hotel local por mais algumas horas, não que precisasse, mas só por precaução.

É isto aí!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O estranho destino de Herculano Souza

                                                       


Sei que faz parte do processo evolutivo vital que as pessoas se conheçam, namorem, casem, enfim, estabeleçam relacionamentos amorosos. No entanto, entre duas pessoas que se relacionam, existe um sistema de valores e uma cultura própria que cada indivíduo, traz consigo de sua família. 

Sendo assim, o irmão passa a ser cunhado, o pai passa a ser sogro e a mãe, sogra. Nessa multiplicidade de papéis e funções, a sogra é um personagem que carrega um estereótipo de múltiplas conotações que, geralmente, suscita piadas, brincadeiras, gozações e comentários jocosos, ou então pode ser o seu destino.

Minha vida sempre foi muito simples. Saí de casa aos quinze anos e vim para a capital, onde trabalho desde novo, sempre estudando à noite, e morando em pensões baratas. Formei em Contabilidade e fui trabalhar num escritório no centro, onde estou até hoje, acomodado e sem maiores pretensões. Moro na periferia, não tenho carro e nem filhos; nos finais de semana jogo bola, saio com os amigos, e na segunda-feira a rotina normal.

Tudo ia bem até que Flávia Renata passou a frequentar o ambiente com a escrita da empresa a qual trabalhava. Loira, linda, alta, desinibida e sedutora. Foi tensão emocional à primeira vista. Quando não deu mais para desfaçarmos o desejo comum, abriram-se as portas da comunhão total. O problema é que durante os últimos dez anos mantinha uma discreta e intensa relação com Maria Eulália, a minha Lalá, uma gorda elegante, de carícias inestimáveis, professora com alto nível intelectual, que conheci num evento da faculdade. 

Com as duas, de uma vida simples, de certo modo monogâmica, passei a desfrutar das emoções da poligamia romântica, uma nova e uma madura, uma loira e uma morena, uma culta e a outra superficial, uma ópera e a outra axé. 

Meses de relacionamento alucinante, num momento de fraqueza onde cheguei a me permitir casado, aceitei o convite da Flavinha para conhecer sua família. Comprei um terno bonito, sapato lustroso, rosas à mão, fui ao encontro do meu destino. Recebeu-me com a euforia e excitação de sempre, levou-me à sala onde estava a sua mãe, uma viúva feliz como a definia. A sogra era Lalá. Fui fuzilado com os olhos e tratado em atmosfera de nitrogênio líquido, bem abaixo de 0º.

Rompi com Flavinha no dia seguinte sem satisfações, e fui abandonado pela sogra sem adeus. Mudei a rotina para evitar confrontos e desencontros, passando a frequentar outros ambientes, desta vez clubes de Jazz. Ali conheci Martha Creuza, uma menina normal, de hábitos normais, vida normal, solteira, sem vícios e nos demos um ao outro. Meses de relacionamento clássico,  em um momento de fraqueza onde novamente cheguei a me permitir casado, aceitei o convite para conhecer sua família. 

Com o mesmo terno, o mesmo sapato lustroso e com chocolate fino à mão, parti ao encontro do meu destino. Recebeu-me com a tranquilidade e educação de sempre, levou-me à sala onde estavam os familiares. E não é que era o novo endereço da Lalá? Havia mudado logo depois do encontro por temer consequências que nunca imaginei praticá-las.

Rompi com Martha Creuza, que virou missionária evangélica na África. Flávia Renata mudou-se para São Paulo para trabalhar com Moda e Lalá, ai-ai como resistir àquela tentação fazendo  uma coreografia exclusiva de dança do ventre para mim? 

É isto aí!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Sapo e a Fada

Por que a luz acesa?

Para me ver por completo, querido.

Por que já está deitada?

Para te servir melhor, amor.

Por que está falando tão perto do meu ouvido?

Para me ouvir com prazer, gostoso.

E este perfume? Passou agora?

Para me cheirar e deixar toda arrepiada, garanhão!

Mas você não deveria estar de capuz e vestido vermelho?

Estou do jeito que você sempre desejou, amor.

Mas você está pelada!

Nua, meu bem, estou nua.

Isto, nua e pelada.

E o que assusta você?

Eu... eu não lembro de ter visto você assim antes.

Então é uma boa hora para ver e aprender, não acha?

Não sei, estou confuso, isto é muito embaraçoso.

Então desembarace seu presente.

Como assim desembaraçar?

Toque no pacote e procure a ponta para desembrulhar.

Mas não há pontas

Interessante observação, mas procure...

Posso mesmo?

Da forma que desejar, querido.

Você tem pés bonitos.

Comece por eles.

Tocá-los? Posso tocá-los?

Faça o que desejar, mas venha.

Seus pés, hummm... seus pés... são tão bonitos.

São seus olhos, meu amor.

Posso tocar seus tornozelos?

Claro, apalpe-os

Sua perna é tão lisa,

Veja os joelhos, querido

Que rótulas, que patelas, puxa vida

Você é tão macia. Todas as mulheres são assim?

Só as que desejar que sejam, amor.

Suas coxas, puxa, suas coxas são tão carnudas.

Carnudas? Interessante sua percepção.

Posso explorá-las por inteiro?

Em toda a sua extensão, meu bem.

Sem demora?

Sem demora e com carinho, meu bem, tudo pode.

Alfredo!!!! Alfredo!!!! Volta aqui, Alfredo!!!

Humm?! Hã?! Humm?! O que?

Sou eu, seu safado. Eu trouxe você de volta. Olha só como está todo suado, com cara de tarado...

Hã? O que? Como?

E já que voltou, saiba que será penalizado.

Santo Deus!! Fadinha???? É você??

Em carne e deleite para você, meu amor!!!

Como voltei aqui?

Acorda, Alfredo, acorda!!

Hã?? Fadinha? Como é isto?

Está em casa, meu bem.

Tem certeza, quer dizer, é você mesma? Eu sou eu mesmo?

Claro que não é, Alfredo. Eu recebi uma notificação online do Sindicato das Princesas e Heroinas que minha varinha tinha emitido um sinal que interferia na história da Chapeuzinho. Daí a Mestre Sá Fada me emprestou uma varinha secundária para desfazer o encantamento. O que você foi fazer lá, hem, Sapo Alfredo?

Fui passear só um pouquinho, minha fadinha.

Quem falou que pode fazer encantos por aí? Hem? Você acha que é fácil achar uma fada para beijar sua bocarra de sapo? Vai voltar a ser sapo.

Ah, Fadinha, para com isto, fui lá só levar um papo com o Lobo.

Alfredo, você é muito mentiroso, seu sapo balofo - pof..

Croac, fadinha.. croac.. foi mal, croac...

É isto aí!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O amor cortês do Carlinhos

Toda manhã Carlinhos descia as escadas em saltos, e em questão de segundos chegava no hall  a tempo de esperá-la sair do elevador, enquanto fingia estar aguardando para subir. Buscava seus olhos que não buscavam ninguém. Subia, arrumava-se rapidamente e seguia para o trabalho.

No horário do almoço, na moto do colega de serviço, atravessava todo o trânsito tumultuado da cidade, até chegar à porta da faculdade onde naquele instante ela saia. Aguardava que passasse por ele,  e ficava ali, feito uma árvore sem galhos no deserto, sem encanto e sem sombras suficientes para que fosse notado. 

Conseguiu uma vaga no curso de Francês no horário imediato ao dela, no início da noite, depois que largava o serviço, de maneira que entrava na sala onde a musa saia, e inalava seu perfume inebriante em total êxtase romântica e solitária. 

Mandou flores umas três vezes, de maneira anônima, e foi ele o próprio entregador, mas em nenhuma das ocasiões ela abriu a porta para recebê-las, de forma que nunca soube a expressão do seu rosto ao deparar com aqueles modestos bouquets econômicos. 

Investigava todas as suas postagens nas redes sociais, copiava todas as fotos que postava, sabia todos os seus gostos musicais, o time preferido, os filmes, as maiores amigas e contentava-se em saber que estava sozinha há mais de um ano.

Um dia não a viu, procurou em todos os lugares e nada de encontrá-la. Buscou nas redes e as contas estavam encerradas. Foi na faculdade, pesquisou pacientemente as páginas das melhores amigas, perguntou aos porteiros do prédio e ninguém sabia informar do seu paradeiro.

Sofreu em total colapso de dor. Teve febre, pânico, insônia, gastrite, enxaquecas terríveis e nada disto a trouxe de volta. Três anos depois casou-se com uma moça do escritório, e teve uma vida reta até semana passada, depois da última vez que a viu.

Estava na fila do supermercado, e sentiu o perfume. Voltou-se, era ela imediatamente atrás. Estava lindíssima, exuberante, uma mulher de encantamento ímpar. Olhou-a nos olhos buscando uma resposta para sua dor intermitente. A vida passou-lhe em segundos. Lágrimas caíram discretamente dos seus olhos. Ela o olhou, aproximou-se, fitou no fundo da sua alma e pela primeira vez na vida, dirigiu-lhe a palavra.

- Desculpa, mas o senhor é o pai do Carlinhos que morava no Batata?
- Pai??? Não!!! Desculpe, mas há um grande engano - eu sou o Carlinhos. Não está me reconhecendo?
- Nossa, como você está acabado. Você tem alguma doença degenerativa?
- É... estou acabado. Mas desculpa por ter me encontrado...
- Tudo bem, mas procura um médico...
- Obrigado pela recomendação.

Ao sair do caixa estava cabisbaixo, arrasado, destruído e desmoralizado, e então sua autoestima deu-lhe uma coragem inesperada. Virou para a ex-amada com olhos de ira e com dedo em riste bradou - aqui, eu estou acabado sim, mas quer saber de uma coisa? 
- Sim? pode falar.
- Nada não, era só para agradecer sua preocupação comigo...

É isto aí!



domingo, 15 de fevereiro de 2015

Um vazio existencial no Divã da Pitangueira

Como vai?

Estou confuso, mas parece que estou bem.

Entendo. Mas o que o trás aqui?

Pois é. Vim de carro, mas acho que não quer saber disto. O fato é que tenho depressão.

Sei. E este diagnóstico foi obtido por algum profissional da área?

Sim, por mim. Eu me vi deprimido, li tudo que podia no Google, transformei-me num perito em processos depressivos e deduzi por exclusão que estou com Depressão Atípica. No início suspeitei de que fosse um caso clássico de Depressão Afetivo Sazonal, mas as evidências não deixam dúvidas quanto à primeira escolha.

E o senhor veio até aqui para me contar isto? Tem algo mais que queira esclarecer?

Olha só, puxa vida, como vou explicar...

Comece de algum ponto, daí vamos ver onde vai este conflito.

Então. Vou tentar ser o mais claro possível. Minha esposa é apaixonada comigo. Temos dois filhos, um de 18 e uma de 16 anos. A sobrinha da minha esposa, de 19 anos, mora conosco para estudar. Trabalho numa empresa de consultoria tributária como diretor, tenho uma secretária eficiente e a vida segue.

Parece normal. Tem algo além desta normalidade familiar e laborativa?

Bem, o caso é que conheci uma moça na rede social, ficamos uns meses conversando, até que passamos a nos encontrar. Vivemos um romance tórrido. Ela é tão angelical, tem a idade da sobrinha, mas sabe, é diferente.

Um romance? Você e uma moça de 19 anos? Ela estuda? trabalha? Tem família?

Olha, é uma moça honesta, estuda e trabalha. É artista de cine pornô, mas tudo muito discreto. Eu já fui várias vezes no set de filmagem e achei as ações bastante respeitosas e profissionais.

Uma atriz pornô? Como você se envolveu nesta situação inusitada? 

Não sabia destas qualidades. Depois de uns três meses de relacionamento, ela se abriu e revelou em confiança seus mais ocultos segredos. Como estava apaixonado, achei tudo normal.

Você acha normal um relacionamento extra-conjugal com uma atriz porno?

Se fosse só isto, eu poderia achar, sabe, mas um dia, ao visitá-la no set, ela estava contracenando com a sobrinha da minha esposa, sem saber do nosso vínculo familiar. Foi um misto de emoção e susto, uma situação diferente, mas o estranho ainda estava por vir.

Uma coisa estranha? Tem algo mais estranho além desta situação?

É, tem. A sobrinha justificou o trabalho pela remuneração que ajudava a manter seus estudos e quis compensar aquele processo se entregando a um ménage à trois comigo e a amiga estrela do cine pornô. Foi tudo tão rápido, tão sedutor, que quando dei por conta, já haviam pouco mais de um ano que estávamos vivendo nesta intensidade de amor total.

E o casamento?

Pois é, elas até falaram sobre casar, mas achei que era prematuro partirem para uma relação oficial. Para mim estava bom daquele jeito.

Refiro-me à sua esposa - E o seu casamento?

Ah! Você quer saber do meu casamento. Pois é! A minha esposa. Rapaz, que confusão foi aquela? Nossa!!! Que bagunça que quase ficou minha vida depois que ela quase descobriu ...

Descobriu a sua relação com a atriz pornô e a sobrinha?

Não!!! - isto não. As meninas eram muito discretas. Moças de família, e além disto estavam tão envolvidas em seu trabalho que jamais seriam motivo de preocupação. Ela teve informações distorcidas e infames de que eu era amante da minha secretária. Aí eu achei que daria merda total.

Amante da sua secretária?

É, caramba, para de repetir tudo que eu falo. Tínhamos um caso normal, clássico, há quase dez anos, e tudo ia bem até que contrataram mais uma moça para o escritório, devido ao aumento de serviço. A danada era toda lindinha, gostosinha, cheirosinha, etcterasinha, e aí começou a roçar em mim, entende? Ficava jogando charme, aquelas coisas todas, bilhetes, e-mails, mão boba nas coxas passantes, até que não aguentei e passamos a encontros frugais.

Que caso intrigante. Encontros frugais. Como era isto?

Encontros rápidos, furtivos, em motéis baratos ou em promoção, com muita discrição e pouco agito. Ela era tímida, membro fervorosa de uma igreja cristã, cantava no coral, e não suportava ostentação, entende?

Mas e a sua secretária? E as meninas de fino trato porno? Como ficaram nesta história?

Calma. Uma coisa de cada vez. Deu que a secretária já desconfiava e acabou descobrindo tudo e aí as duas saíram no tapa no meio da sala de reunião - rapaz, foi épico. Sorte que era um sábado à tarde, e só estávamos nós três. Tentei separar, mas a briga foi tão intensa que resolvi esperar para decidir qual salvar. 

E como isto terminou?

A novata saiu vitoriosa, toda arranhada e descabelada, e ao ver minha secretária semi-nua e ofegante no chão, não resisti e mergulhamos num profundo transe de amor total no tapete da sala. Durante dois meses tentou voltar para mim e para o emprego, mas não tinha clima.

Quem tentou voltar?

A velha secretária. Eu não a demiti, dei uma férias para ela maiores do que o convencional. Ela ficou emocionalmente abalada, sabe?

E a secretária nova, a vitoriosa?

Tive que demiti-la na semana seguinte. Ficou se achando a galinha choca do galinheiro, toda cheia de razão. Mas aí, doutor, um dia chego em casa e a novata estava lá, fazendo uma pregação religiosa para minha esposa. Gelei com a cena.

E ...?

Esperei a beata sair. Aguardei o desenlace da visita em silêncio. A esposa começou então a falar da suspeita que tinham no escritório entre eu e a secretária - neguei tudo. Expliquei que as duas eram inimigas, que inclusive foram às vias de fato no escritório, a ponto da secretária ter ido ao pronto-socorro e a novata ter sido demitida e que aquilo não passava de armação por que fui eu quem testemunhou, separou a briga e a demitiu.

E ela?

Acreditou em tudo. A novata não tinha prova de nada. Devia ter um distúrbio, uma paranoia, foram meus argumentos, e de certa forma a patroa aceitou. Aí viajei para umas duas semanas de volúpia total no Caribe, a fim de superar tudo aquilo.

Sério? Você e sua esposa?

Que isto? Eu e minha secretária.

Qual secretária?

A velha, claro, que nem tão velha é assim, tem 31 anos.

Mas e as duas outras, as atrizes?

Então! Assim que voltei, conversamos e elas entenderam minha situação. Saí sem traumas, e diante do vazio que ficou em mim com esta ausência de valores novos a promover meus encantamentos, entrei em depressão.

O senhor quer então preencher este vazio.

Acho que sim, de preferência que seja uma cura rápida. Tem como voltar a ser feliz, doutor?

Bem, o próprio Freud teria dito que a análise até pode resolver os problemas da miséria neurótica, mas ela nada pode fazer contra as misérias da vida como ela é.

Então eu continuarei sofrendo este vazio existencial?

Por outro lado, poderemos prosseguir com uma conduta que o levará a um procedimento da auto-análise, conduzindo-o a desenvolver a coragem de construir um estilo de vida com autocrítica e compromisso de melhorar alguns aspectos da sua própria vida e dos outros, também. 

Ufa, começo a sentir uma pontada de esperança, Fale mais sobre isto, por favor.

Bem, a experiência clínica mostra que, de uma maneira geral, o auto-conhecimento acabará por mostrar-lhe que o melhor caminho para a felicidade é o  altruísmo e a manutenção das amizades. Em vez de ficar obsessivamente buscando uma felicidade para preencher sua vida, deverá sustentar uma alegria de viver no seu próprio eu, e que poderá ser irradiada para também animar o próximo, ou as próximas que trás tão intimamente consigo. Será uma alegria que nascerá da verdade.

Passado algumas sessões, pouco mais de um mês depois:

Pontual como sempre. Vejo que está sorridente e acompanhado. 

Doutor, hoje vim por dois motivos. O primeiro é referente à minha alta, pois estou livre do sofrimento e o segundo refere-se a ela - esta é a secretária novata da qual lhe falei. Desde que reatamos na semana passada, graças ao senhor, eu me vi curado.

Curado? Como assim curado?

Curado no sentido de ter preenchido o vazio existencial que me deprimia, pois o senhor mesmo disse que  o melhor caminho para a felicidade é o  altruísmo e a manutenção das amizades, e ela é minha amiga que estava perdida e agora está de volta ao meu aconchego.

E ...?

Então, doutor, agora é ela que está em conflito, pois quer uma relação mais picante, porém tem medo de perder sua candura religiosa e seu espírito frugal. O senhor dá jeito nisto também?

É isto aí!