sexta-feira, 30 de março de 2018
quarta-feira, 21 de março de 2018
Pausa -poemeu
Sem assunto, apesar de
Sem palavras, apesar de
Sem argumentos, apesar de
Sem forças, apesar de
Sem otimismo, apesar de
Sem disposição, apesar de
Sem confiança, apesar de
Sem racionalidade, apesar de
Sem equilíbrio. apesar de
Sem concentração, apesar de
Sem ambição, apesar de
Sem dinamismo, apesar de
Minh'alma quer paz
Meu corpo quer guerra
Minha pátria está apátrida
Minha luta é eterna.
É isto aí!

quinta-feira, 15 de março de 2018
terça-feira, 13 de março de 2018
Tocando em frente (Renato Teixeira e Almir Sater)
Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe?
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei.
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou.
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.
Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.
Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
de ser feliz.
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.
Diante da dor, o salto
Dantes
dessa dorestressante
Desse amor
intrigante
havia um gato
morto
na sacada
do prédio
Hesitante
seu beijo mentolado
provocante
e gelado
e o gato
salta
da sacada
do prédio
É isto aí!
segunda-feira, 12 de março de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte X - A escravidão
X. A ESCRAVIDÃO
Ao entrar na cidade egípcia, viu-se cercado pelo povo.
- Eis o que raptou a bela Missuf bradavam - e o que acaba de assassinar Cletófis!
- Senhores disse êle, - Deus me livre de raptar algum dia a vossa bela Missuf! É demasiado caprichosa. E, quanto a Cletófis, não o matei: apenas me defendi contra êle. Queria matar-me, porque lhe pedi com
tôda a humildade que poupasse a bela Missuf, a quem batia impiedosamente. Sou um estrangeiro que
vem procurar asilo no Egito; e não teria cabimento que, vindo solicitar vossa proteção, começasse por me
apoderar de uma mulher e por assassinar um homem.
Os egípcios eram então justos e humanos. O povo conduziu Zadig à prefeitura. Começaram por lhe tratar
do ferimento, e em seguida o interrogaram, a êle e ao criado separadamente, a fim de saber a verdade.
Reconheceu-se que Zadig não era um assassino; mas sendo culpado de ter vertido sangue humano, a lei o
condenava à escravidão. Os seus dois camelos foram vendidos em proveito da comuna, repartido entre os
Zadig
file:///C|/site/LivrosGrátis/zadig.htm (15 of 40) [18/04/2001 12:16:49]
habitantes todo o ouro que trouxera, e sua pessoa exposta em hasta pública, bem como o seu
companheiro de viagem. Um mercador árabe, chamado Setoc, arrematou-o; mas o criado, mais resistente
à fadiga, foi vendido muito mais caro que o patrão. Nem faziam comparação entre os dois Zadig ficou,
como escravo, subordinado a seu serviçal; ligaram um ao outro por uma cadeia prêsa aos tornozelos e,
nesse estado, acompanharam ambos o seu senhor. Zadig, pelo caminho, consolava o criado e exortava-o
à paciência; mas, segundo o seu costume, fazia reflexões sôbre a vida humana: "Vejo - dizia-lhe - que os
males do meu destino se expandem sôbre o teu. Até agora, tudo me saiu muito estranho, na verdade.
Multaram-me por causa de um grifo; mandaram-me a suplício por ter feito versos em louvor do rei;
estive prestes a ser estrangulado porque a rainha tinha fitas amarelas; e eis-me agora escravizado contigo
porque um brutamontes deu uma sova na amante. Mas não percamos a coragem; tudo isso, decerto,
acabará; afinal de contas, os mercadores árabes têm de possuir escravos; e por que não seria eu um
escravo como qualquer outro, visto que sou um homem como qualquer outro? Êsse mercador não pode
ser impiedoso, pois terá de tratar bem a seus escravos, se quiser aproveitá-los". Assim falava êle, mas, no
fundo do coração, estava preocupado com a sorte da rainha de Babilônia.
Setoc, o mercador, partiu, dois dias depois, para a Arábia deserta, com os escravos e camelos. Sua tribo
habitava para as bandas do deserto de Horeb, e a viagem foi longa e penosa.
Setoc, no caminho, fazia mais caso do criado que do patrão, pois o primeiro sabia lidar melhor com os
camelos, e tôdas as pequenas regalias foram para êle.
Um camelo morreu a dois dias de Horeb; dividiram-lhe a carga pelos escravos; Zadig ganhou o seu
quinhão. Setoc pôs-se a rir ao ver todos os escravos marcharem curvados. Zadig tomou a liberdade de
explicar-lhe a razão, e fêz-lhe conhecer as leis do equilíbrio. O mercador, espantado, começou a olhá-lo
de outra maneira. Zadig, vendo que lhe excitava a curiosidade, redobrou-a ensinando-lhe muitas coisas
que não eram estranhas a seu comércio: o pêso específico doa metais e dos gêneros em volume igual; as
propriedades de vários animais úteis; os meios de tornar úteis os que não o eram; em suma,
afigurou-se-lhe um verdadeiro sábio. Setoc o preferiu a seu camarada, a quem tanto estimara. Tratou-o
bem, e não teve de que se arrepender.
Chegado à sua tribo, Setoc reclamou duzentas onças de prata a um hebreu a quem as emprestara em
presença de duas testemunhas; mas estas haviam morrido, e o hebreu disso se aproveitara para ficar com
o dinheiro do mercador, dando graças a Deus por lhe haver proporcionado ensejo de enganar a um árabe.
Setoc confiou a dificuldade a Zadig, que se tornara seu conselheiro.
- Em que local emprestou suas quinhentas onças a êsse infiel? - perguntou-lhe Zadig.
- Sôbre uma larga pedra que se acha ao pé do monte Horeb.
- Qual é o caráter de seu devedor?
- O de um legítimo velhaco.
- Mas o que lhe pergunto é se é um homem vivo ou fleugmático, atilado ou imprudente.
- De todos os maus pagadores, é o mais vivo que eu conheço.
- Pois bem! - insistiu Zadig. - Permita que pleiteie sua causa perante o juiz.
Com efeito, citou o hebreu ao tribunal, e assim falou ao juiz:
Zadig
file:///C|/site/LivrosGrátis/zadig.htm (16 of 40) [18/04/2001 12:16:49]
- Almofada do trono da eqüidade, venho reclamar a êsse homem em nome de meu senhor, quinhentas
onças de prata, que êle não quer devolver.
- Há testemunhas?
- Não, morreram; mas existe uma larga pedra sôbre a qual foi contado o dinheiro; e, se aprouver a Vossa
Grandeza mandar trazê-la, espero que ela preste testemunho; aqui ficaremos, o israelita e eu, à espera de
que chegue essa pedra; mandarei buscá-la por conta de Setoc, meu senhor.
- Muito bem - concordou o juiz. E pôs-se a despachar outros assuntos.
- E então? - disse êle a Zadig no fim da audiência. - Ainda não chegou a sua pedra?
O hebreu retrucou a rir:
- Poderia Vossa Grandeza ficar aqui até amanhã, que a pedra ainda não chegaria; está a mais de seis
milhas de distância e seria preciso uns quinze homens para transportá-la.
- Estais vendo?! - exclamou Zadig. - Bem disse eu que a pedra prestaria testemunho; já que êsse homem
sabe onde está a pedra, confessa, pois, que foi sôbre ela que se contou o dinheiro.
O hebreu, interdito, viu-se logo obrigado a confessar tudo. O juiz ordenou que fôsse êle atado à pedra,
sem beber nem comer, até devolver as quinhentas onças, que foram pagas sem demora.
O escravo Zadig e a pedra alcançaram grande fama em tôda a Arábia.
domingo, 11 de março de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte IX - A mulher batida
IX. A MULHER BATIDA
Zadig orientava-se pelas estrelas. A constelação de Orion e o brilhante astro de Sírio guiavam-no para o pólo de Canope. Admirava esses vastos globos de luz que não parecem a nossos olhos mais que fracas centelhas, ao passo que a terra, que em verdade é apenas um imperceptível ponto na natureza, afigura-se à nossa cupidez uma coisa tão grande e tão nobre. Via então os homens tais como são na realidade: - insetos a se entredevorarem num pequeno átomo de lama. Essa imagem verdadeira parecia aniquilar suas desventuras, retraçando-lhe o nada da sua existência e a de Babilônia. Sua alma arrebatava-se até o infinito e contemplava, liberta dos sentidos, a imutável ordem do universo.
Mas quando, em seguida, de volta a si mesmo e penetrando de novo em seu coração, pensava em Astartéia sacrificada por sua causa, o universo desaparecia a seus olhos, e ele apenas via, em toda a natureza, Astartéia moribunda e Zadig desgraçado. Enquanto se entregava a esse fluxo e refluxo de sublime filosofia e dor acabrunhante, ia avançando pelas fronteiras do Egito; e já seu fiel criado se achava na primeira localidade, em busca de alojamento.
Enquanto isso, Zadig passeava pelos jardins dos arredores. Senão quando avistou, não longe estrada real, uma mulher que gritava por socorro e um homem furioso que a perseguia. Já o homem a alcançava e ela, caída, enlaçava-lhe os joelhos. O homem enchia-a de pancadas e censuras. Pela violência do egípcio e pelos reiterados perdões que lhe pedia a dama, viu Zadig que ele era ciumento e ela infiel. Mas, depois de atentar naquela mulher, que era de impressionante beleza e até se assemelhava um pouco à infeliz Astartéia, sentiu-se tomado de compaixão por ela e aversão ao egípcio. "Acode-me! - bradou ela a Zadig, entre soluços. - Arranca-me das mãos do mais bárbaro dos homens, salva-me a vida!"
A êeses clamores, Zadig lançou-se entre ela e aquele bárbaro. Tinha algum conhecimento da língua egípcia, e assim lhe falou:
- Se tens alguma humanidade, conjuro-te a respeitar a beleza e a fraqueza. Podes assim ultrajar uma obra-prima da Criação, que jaz a teus pés e só tem por defesa as lágrimas?
- Ah! Ah! - exclamou o possesso. Com que então também a amas? É de ti que tenho de vingar-me.
Dizendo tais palavras, deixa a dama, que segurava pelos cabelos, e, empunhando a lança, tenta matar o estrangeiro. Este, que não perdera o sangue frio, evitou facilmente o golpe de um furioso. Segurou a lança perto da ponta. Quer um retirá-la, o outro arrancá-la. A lança parte-se. O egípcio puxa da espada; Zadig também. Atacam-se. Lança este cem golpes precipitados, apara-os aquele com destreza. A dama, sentada na relva, reajusta os cabelos e olha-os. O egípcio era o mais robusto, Zadig o mais ágil.
Batia-se o último como um homem cuja cabeça conduzia o braço, e o primeiro como um arrebatado, cuja cólera cega lhe guiava ao acaso os movimentos. Zadig desarma-o. E como o egípcio, mais furioso, procura arremeter contra ele, Zadig segura-o, domina-o, fá-lo cair e, apontando-lhe a espada contra o peito, oferece poupar-lhe a vida. O egípcio, fora de si, arranca o punhal e fere Zadig no mesmo instante em que o vencedor lhe perdoava. Zadig, indignado, lhe mergulha a espada no peito; O egípcio lança um grito horrível e morre, debatendo-se.
Zadig avança então para a dama e lhe diz respeitosamente:
- Foi ele que me obrigou a matá-lo; estais vingada, e livre do homem mais violento que já vi na minha vida. Que quereis agora de mim, senhora?
- Que morras, celerado, que morras; mataste o meu amor; eu quisera estraçalhar-te o coração.
- Na verdade, senhora que tínheis um esquisito amor; ele vos batia com toda a fôrça e queria tirar-me a vida, por me haverdes pedido socorro.
- Quisera que ele me batesse ainda - tornou a dama, aos gritos. - Eu bem que o merecia, pois lhe dei motivos para ciúmes. Quem dera que ele me batesse e que tu estivesses no seu lugar!
Zadig, mais surpreso e encolerizado do que nunca estivera em sua vida, retrucou:
- Senhora, com toda a vossa beleza, merecíeis que eu vos batesse por minha vez, tão incoerente sois; mas não me darei a esse trabalho. Dito isto, montou no camelo e dirigiu-se para a cidade. Mal dera alguns passos, volta-se ao estrépito que faziam quatro correios de Babilônia. Vinham a toda brida. Um deles, ao ver a mulher, exclamou: "É ela mesma; assemelha-se à descrição que nos fizeram".
Sem dar atenção ao morto, apoderaram-se logo da dama, a qual não cessava de gritar para Zadig:
"Socorrei-me outra vez, generoso estrangeiro! Perdoai-me por me haver queixado de vós. Socorrei-me, que serei vossa até o túmulo".
A Zadig, passara-lhe todo e qualquer desejo de se bater por ela. "Arranja-te com outros - respondeu-lhe, a mim é que não me pegas mais!"
Aliás, estava ferido, perdia sangue e necessitava socorro; e a vista dos quatro babilônios, provavelmente enviados pelo rei Moabdar, enchia-o de inquietação. Avança às pressas para a aldeia, sem atinar por que motivo vinham quatro correios de Babilônia apoderar-se daquela egípcia, mas ainda muito mais espantado com o caráter da referida dama.
sábado, 10 de março de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte VIII - O Ciúme
VIII. O CIÚME
A desgraça de Zadig originou-se da própria ventura, e principalmente de seu mérito. Avistava-se todos os dias com o rei e Astartéia, sua augusta esposa. O encanto da conversação do primeiro ministro era redobrado por esse desejo de agradar que está para o espírito como o ornamento para a beleza; sua juventude e graça causaram insensivelmente em Astartéia uma impressão de que esta a princípio não se apercebeu. Sua paixão crescia no seio da inocência.
Astartéia entregava-se sem escrúpulo e sem temor ao prazer de ver e escutar a um homem tão caro a seu esposo e ao Estado; não cessava de o elogiar perante o rei; falava dele às damas de companhia, que ainda acrescentavam os louvores; tudo concorria para lhe aprofundar no coração a flecha que ela não sentia. Fazia presentes a Zadig, nos quais entrava mais galanteria do que supunha; julgava não lhe falar senão como rainha satisfeita de seus serviços, e suas expressões eram, algumas vezes, as de uma mulher sensível.
Astartéia era muito mais bonita do que aquela Semira que tanto odiava aos caolhos, e do que aquela outra mulher que quisera cortar o nariz ao esposo. A familiaridade de Astartéia, suas ternas frases, de que começava a corar, seus olhares, queria desviar, e que se fixavam nos dele, acenderam no coração de Zadig uma flama que o espantou. Lutou; pediu socorro à filosofia, que sempre lhe valera; mas só lhe obteve luzes, não recebendo em troca nenhum alívio. O dever, a gratidão, a soberana majestade violada, apresentavam-se-lhe aos olhos como deuses vindicativos; lutava e triunfava; mas essa vitória que era preciso renovar a todo momento, custava-lhe gemidos e lágrimas.
Não mais ousava falar à rainha com aquela doce liberdade que tais encantos tivera para ambos; seus olhos cobriam-se de uma nuvem; suas palavras eram constrangidas e incoerentes; baixava as pálpebras; e quando, sem querer, o seu olhar se voltava para Astartéia, encontrava o da rainha turbado de lágrimas, de onde partiam raios; pareciam dizer um ao outro: "Nós nos adoramos, e temos medo do amor; ardemos os dois num fogo que condenamos."
Zadig retirava-se desvairado da sua presença, com um peso no coração, que não mais podia suportar; na violência da sua agitação, não pôde evitar que o amigo Cador lhe descobrisse o segredo, como um homem que, tendo agüentado por muito tempo uma dor profunda, deixa enfim revelar-se o seu mal, por um grito que lhe arranca um acesso mais agudo e pelo suor que poreja a fronte.
- Já desvendei - lhe disse Cador - os sentimentos que a ti mesmo procuravas ocultar; as paixões têm sinais que não enganam. Por aí verás, meu caro Zadig, já que eu li no teu coração, se o próprio rei não irá descobrir um sentimento que o ofende. Não tem êle outro defeito senão o de ser o mais ciumento dos homens. Resistes à tua paixão com mais fôrça do que a rainha combate a sua, porque és filósofo e porque és Zadig. Astartéia é mulher; deixa falar seus olhares com tanto maior imprudência por ainda não se julgar culpada. Infelizmente tranqüilizada pela sua inocência, negligencia as aparências necessárias. Tremerei por ela enquanto não tiver nada que se censurar. Se estivessem ambos em cumplicidade, saberiam enganar todos os olhos: uma paixão nascente e combatida logo se revela; um amor satisfeito sabe ocultar-se.
Zadig fremiu à idéia de trair o rei seu benfeitor; e nunca foi tão fiel ao príncipe como quando se viu
culpado para com êle de um crime involuntário. Contudo, tantas vezes pronunciava a rainha o nome de Zadig, tal rubor lhe cobria a fronte ao dizê-lo; ora se mostrava tão animada, ora tão interdita, quando lhe falava em presença do rei; caía em tão profundas cismas depois que Zadig se retirava, que o rei se sentiu inquieto. Acreditou tudo o que via, e imaginou tudo o não via.
Observou principalmente que as babuchas de sua mulher eram azuis, e que as babuchas de Zadig eram azuis, que as fitas da touca de sua mulher eram amarelas, e que o barrete de Zadig era amarelo: indícios terríveis para um príncipe suscetível. No seu espírito envenenado, transformaram-se as suspeitas em certezas.
Os escravos dos reis e das rainhas são outros tantos espias de seus corações. Descobriram logo que
Astartéia amava e que Moabdar sentia ciúmes. O invejoso fez a invejosa enviar ao rei a sua liga, que se assemelhava à da rainha. Por cúmulo da desgraça, essa liga era azul, O monarca não pensou senão na maneira de vingar-se. Resolveu uma noite mandar envenenar a rainha, e enforcar Zadig ao raiar do dia. A ordem foi transmitida a um impiedoso eunuco, executor das suas vinganças.
Achava-se então na câmara do rei um anãozinho que era mudo, mas não surdo. Toleravam-no sempre em toda parte: era testemunha de tudo o que se passava de mais secreto, como um animal doméstico. Esse pequeno mudo era muito devotado à rainha e a Zadig. Ouviu, com tanta surpresa quanto horror, a sentença de morte. Mas como prevenir essa terrível ordem, que dentro em poucas horas seria executada? Escrever, não sabia; mas aprendera a desenhar e fazia retratos com muita parecença. Passou uma parte da noite a rabiscar o que desejaria dizer à rainha.
O desenho representava o rei furioso, a um canto do quadro; um cordão azul e um vaso sôbre uma mesa, com ligas azuis e fitas amarelas; a rainha, no meio do quadro, expirante entre os braços de suas mulheres, e Zadig estrangulado a seus pés. O horizonte representava um sol nascente, para indicar que a horrível execução se efetuaria aos primeiros raios da aurora. Logo que terminou o trabalho, correu a uma camareira de Astartéia, despertou-a, e deu-lhe a entender que era preciso levar imediatamente o quadro à rainha.
Em meio à noite, batem à porta de Zadig; acordam-no; entregam-lhe um bilhete da rainha; pensa que está sonhando; abre o papel com mão tremente. Qual não foi a sua surpresa, e quem lhe poderia exprimir a consternação e desespero, ao ler as seguintes palavras:
"Foge imediatamente, senão te arrancam a vida. Foge, Zadig, ordeno-te em nome do nosso amor e das minhas fitas amarelas. Eu não era culpada; mas sinto que vou morrer criminosa."
Zadig mal teve fôrças de falar. Mandou chamar Cador e, sem nada lhe dizer, mostrou-lhe o bilhete.
Cador forçou-o a obedecer e a tomar logo o caminho de Mênfis. "Se te atreves a ir falar com a rainha, apressas a sua morte; se falares ao rei, da mesma forma prejudicarás a rainha. Encarrego-me do seu
destino; segue o teu. Espalharei o boato de que partiste para a Índia Em breve me encontrarei contigo e te comunicarei o que houver sucedido em Babilônia".
Cador, no mesmo instante, mandou trazer dois dromedários dos mais rápidos a uma porta secreta do palácio; fêz com que Zadig montasse tendo até de ampará-lo, pois parecia prestes a entregar a alma. Um só criado o acompanhou; em breve Cador, transido de espanto e angústia, perdeu de vista o amigo.
O ilustre fugitivo, chegando ao alto de uma colina de onde se avistava Babilônia, volveu o olhar para o palácio da rainha, e desfaleceu; só recuperou os sentidos para derramar lágrimas e desejar a morte. Enfim, depois, de se haver ocupado do deplorável destino da mais amável entre as mulheres e a primeira do mundo, voltou o pensamento para si mesmo e exclamou:
"Que coisa é então a vida humana? De que me serviste, ó virtude? Duas mulheres me enganaram indignamente; a terceira, que não é culpada, e mais bela que as outras, vai perder a vida. Todo o bem que pratiquei foi sempre para mim uma fonte de maldições, e só fui elevado ao cúmulo da grandeza para tombar no mais horrível precipício do infortúnio. Se eu tivesse sido mau como tantos outros, seria hoje feliz como eles".
Acabrunhado por essas funestas reflexões, cobertos os olhos pelo véu da dor, a palidez da morte nas faces, e a alma abismada no mais sombrio desespero, se guia ele a caminho do Egito.
terça-feira, 6 de março de 2018
Curvas do tempo (poemeu)
Desenhei
de memória
(rasguei teus retratos, lembra?)
as curvas
do teu corpo (que nunca esqueci)
no meu presente
e, saiba ...
foi muito difícil.
que curvas!
ainda estão todas lá,
num passado
particípio triste
onde sonhava
com um futuro
que não existe (mais ... nunca mais)
É isto aí!
de memória
(rasguei teus retratos, lembra?)
as curvas
do teu corpo (que nunca esqueci)
no meu presente
e, saiba ...
foi muito difícil.
que curvas!
ainda estão todas lá,
num passado
particípio triste
onde sonhava
com um futuro
que não existe (mais ... nunca mais)
É isto aí!
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte VII - Demandas e Audiências
VII. DEMANDAS E AUDIÉNCIASAssim mostrava ele todos os dias a sutileza de seu gênio e a bondade de sua alma; admiravam-no e, no entanto, o amavam. Passava pelo mais afortunado dos homens; todo o Império estava cheio de seu nome; todas as mulheres o traziam de olho; todos os cidadãos lhe celebravam a justiça; tinham-no os sábios como um oráculo; os próprios sacerdotes confessavam que ele sabia mais que o velho arquimago Yebor.
Longe se estava agora de o processar por causa de grifos; só se acreditava no que lhe parecia crível. Havia em Babilônia uma grande querela que, tendo começado há coisa de mil e quinhentos anos, ainda dividia o Império em duas seitas irreconciliáveis: pretendia uma que jamais se deveria entrar no templo de Mitra a não ser com o pé esquerdo; abominava a outra tal costume, e só entrava com o pé direito.
Estava o universo com os olhos pregados nos dois pés, e toda a cidade agitada e suspensa. Zadig entrou no templo saltando de pés juntos, e em seguida provou, numa eloqüente oração, que ao Deus do céu e da terra, que não faz exceção de pessoa, tanto lhe importa a perna esquerda como a perna direita.
O invejoso e a mulher acharam que no seu discurso não havia figuras suficientes, nem que fizera devidamente dançar os montes e as colinas. "É seco e sem inspiração - diziam. Não se lhe vê nem o mar fugir, nem tombarem as estrelas, nem o sol fundir-se como cera; falta-lhe o bom estilo oriental".
Zadig contentava-se em ter o estilo da razão. Todo o mundo concordou com ele, não porque estivesse no bom caminho, não porque fosse razoável, ou amável, mas porque era o primeiro vizir. Com igual felicidade se resolveu o grande processo entre os magos brancos e os magos negros. Sustentavam os brancos que era uma impiedade voltar-se, quando se orava a Deus, para o Levante; asseguravam os negros que Deus tinha horror às preces dos homens que se voltavam para o Poente.
Zadig ordenou que cada qual se voltasse para onde bem lhe parecesse.
Achou meio de expedir, pela manhã, os negócios particulares e os gerais; destinava o resto do dia ao embelezamento de Babilônia; mandava representar tragédias que faziam chorar e comédias que faziam rir, o que de há muito passara de moda, mas a que o seu discernimento dera novo crédito. Não pretendia saber mais que os artistas; recompensava-os com benefícios e distinções, e não se enciumava em segredo com o seu talento.
À noite, divertia muito ao rei, e principalmente à rainha. Dizia o rei: "o grande ministro!", e a rainha: "o amável ministro!" e ambos acrescentavam: "Que pena se o tivessem enforcado!"
Jamais um homem na sua posição foi obrigado a conceder tantas audiências às damas. A maioria vinha falar-lhe de complicações que não tinham, para arranjarem alguma com ele.
A mulher do invejoso foi das primeiras que se apresentaram; jurou-lhe por Mitra, pelo Zend-Avesta, e pelo fogo sagrado, que fora contra o procedimento do marido; confiou-lhe depois que este era um ciumento, um brutal; deu-lhe a entender que os deuses o puniam recusando-lhe os preciosos efeitos desse fogo sagrado só pelo qual é o homem semelhante aos imortais; acabou por deixar cair a liga; Zadig apanhou-a com a ordinária polidez, mas não a prendeu ao joelho da dama; e essa pequena falta, se o era, foi causa dos mais tremendos infortúnios.
Zadig não pensou mais no caso, e a mulher do invejoso pensou muito.
Outras damas se apresentavam todos os dias. Rezam os anais secretos de Babilônia que ele sucumbiu
uma vez, mas muito se espantou de o fazer sem volúpia e enlaçar a amante distraidamente. Aquela a quem dera, quase sem o notar, testemunhos da sua proteção, era uma camareira da rainha Astartéia. Essa terna babilônia dizia consigo mesma, para se consolar: "Que de negócios não terá esse homem na cabeça, para que sempre ande pensando neles, até quando pratica o amor!"
No instante em que muitas pessoas não dizem patavina e outras só pronunciam palavras sagradas, Zadig exclamara de súbito: "A rainha!"
Julgou a babilônia que ele afinal voltara a si num bom momento e que lhe dizia: "Minha rainha!" Mas Zadig, sempre absorto, pronunciou o nome de Astartéia. A dama que, naquelas felizes circunstâncias, interpretava tudo em proveito seu, imaginou que aquilo queria dizer: "Tu és mais linda que a rainha Astartéia!" Saiu do serralho de Zadig cheia de belos presentes.
Foi contar a aventura à invejosa, que era sua íntima amiga; esta se sentiu cruelmente ofendida com a preferência.
Ele nem se dignou - disse ela - prender-me esta liga, que eu aliás - não quis mais usar.
- Oh! Imagina! - disse a feliz à invejosa. - Essas tuas ligas são idênticas às da rainha! São feitas pela mesma costureira?"
A invejosa ficou absorta em cismas, nada respondeu e foi consultar seu marido, o invejoso.
No entanto, Zadig se dava conta de suas continuas distrações durante as audiências e julgamentos; não
sabia a que atribuí-las: era esse o seu único cuidado.
Teve um sonho: parecia-lhe estar deitado a princípio sobre ervas secas, entre as quais algumas espinhosas, que o incomodavam, e que depois repousava brandamente num leito de rosas, de onde saia uma serpente que o feria no coração com sua língua aguda e peçonhenta.
"Ai! - dizia êle, - bem sei que estive por muito tempo deitado naquelas ervas secas e espinhentas e agora me acho num leito de rosas; mas que significará a serpente ?"
quinta-feira, 1 de março de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte VI - O Ministro
VI. O MINISTRO
Perdera o rei seu primeiro ministro. Escolheu Zadig para substituí-lo. Todas as belas damas de Babilônia aplaudiram a escolha, pois desde a fundação do império não houvera um ministro tão jovem. Todos os cortesãos ficaram descontentes; o invejoso chegou a escarrar sangue, e seu nariz aumentou prodigiosamente.
Depois de agradecer ao rei e à rainha, Zadig foi também agradecer ao papagaio:
- Belo pássaro, foste tu quem me salvou a vida e quem me fez primeiro ministro: a cadela e o cavalo de suas Majestades me haviam feito bastante mal, mas tu me fizeste bem. Eis do que depende o destino dos homens! Mas - acrescentou ele, - tão estranha felicidade talvez se acabe dentro em breve.
- Sim - respondeu o papagaio. O que não deixou de impressionar a Zadig. No entanto, como era bom físico e não acreditasse que os papagaios tivessem o dom da profecia, logo se tranqüilizou e pôs-se a exercer o ministério da melhor forma possível.
Fez pesar sobre todos o sagrado poder das leis, e a ninguém fez sentir o peso de sua própria dignidade:
- Não interferiu nos votos do divã, e cada vizir podia ter sua opinião sem lhe cair no desagrado.
- Quando julgava uma causa, não era ele quem julgava, era a lei, mas, quando esta era demasiado severa, sabia-a temperar, e, se não havia leis sobre a matéria, a sua eqüidade as criava tais que poderiam ser tomadas pelas do próprio Zoroastro.
- Foi dele que herdaram as nações este grande princípio: antes arriscar-se a salvar um culpado que condenar um inocente. Acreditava que as leis eram feitas para socorrer os cidadãos, tanto quanto para os intimidar. Seu principal talento consistia em deslindar a verdade, que todos os homens procuram obscurecer.
Logo nos primeiros dias de sua administração, pôs à prova esse inestimável dom. Morrera na Índia um famoso negociante de Babilônia; constituíra herdeiros seus dois filhos varões, em partes iguais, depois que houvessem casado a irmã, e deixava ainda trinta mil moedas de ouro àquele dentre dois filhos que ficasse provado ter-lhe mais amor. O velho erigiu-lhe um túmulo, o segundo aumentou com uma parte da própria herança o dote da irmã. "É o mais velho diziam todos - o que mais ama a seu pai; o mais moço mais amor à irmã; é ao mais velho que pertencem as trinta mil moedas".
Zadig mandou chamar a ambos separadamente. Disse ao mais velho:
- Teu pai não morreu; curou-se de sua doença e está de regresso a Babilônia.
- Louvado seja Deus - respondeu o jovem. - Mas eis aí um túmulo que me custou bastante caro!
Zadig disse em seguida a mesma coisa ao mais moço.
- Louvado seja Deus - respondeu este. - Vou devolver a meu pai tudo o que tenho; mas desejaria que ele deixasse com minha irmã o que lhe dei por dote.
- Não devolverás nada - disse Zadig e terás as trinta mil moedas: és tu que tens mais amor a teu pai.
Uma jovem muito rica prometera casamento a dois magos e, depois de haver recebido, por alguns meses, doutrinação de um e outro, viu-se em estado de gravidez. Ambos queriam desposá-la.
Tomarei para marido - declarou ela - aquele que me pôs em condições de dar um cidadão ao Império.
- Fui eu que fiz essa boa obra - disse um.
- Fui eu que tive essa vantagem - afiançou o outro.
- Pois bem - concluiu ela, - reconhecerei como pai da criança aquele que lhe puder dar melhor educação.
Nasceu-lhe um menino. Cada um dos magos quer encarregar-se da sua educação. A causa é levada perante Zadig, que manda chamar os dois litigantes.
- Que ensinarás a teu pupilo? - pergunta ele ao primeiro.
- Ensinar-lhe-ei - diz o doutor - as oito partes da oração e dialética, astrologia, demonomania e o que vêm a ser a substância e o acidente, o abstrato e o concreto, as mônadas e a harmonia preestabelecida.
- Eu - diz o segundo - procurarei torná-lo justo e digno de ter amigos.
Zadig pronunciou-se:
- Seja ou não o segundo o pai da criança, desposarás a sua mãe.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte V - Os Generosos
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte V - Os Generosos
Chegou a época de uma grande festa que se celebrava de cinco em cinco anos. Era costume em Babilônia proclamar solenemente, ao cabo de cinco anos, qual o cidadão que havia praticado a ação mais generosa.
Os grandes e os magos serviam de juízes. O primeiro sátrapa, que regia a cidade, expunha as mais belas ações que haviam ocorrido sob o seu governo. Procedia-se à votação; o rei pronunciava a sentença.
Dos quatro cantos da terra, vinha gente assistir a essa solenidade. O vencedor recebia das mãos do monarca uma taça de ouro guarnecida de pedrarias, e o rei lhe dizia estas palavras: Recebei este prêmio da generosidade, e queiram os deuses conceder-me muitos súbditos que se assemelhem a vós!
Chegado o memorável dia, sentou o rei no seu trono, cercado dos grandes, dos magos e dos deputados de todas as nações que compareciam a essa justa, onde a glória não era conquistada com a rapidez dos cavalos, nem com a fôrça física, mas tão somente com a virtude. O primeiro sátrapa relatou em voz alta as ações que podiam fazer jus à inestimável recompensa. Não falou da magnanimidade com que Zadig devolvera a fortuna ao invejoso: não era ação que merecesse concorrer ao prêmio.
Apresentou primeiro um juiz que, tendo feito um cidadão perder considerável processo devido a um equívoco de que não lhe cabia responsabilidade alguma, lhe dera no entanto todos os seus bens, que eram do valor do que o outro havia perdido.
Depois um jovem que, loucamente enamorado da moça com quem ia casar, não hesitara em cedê-la a um amigo prestes a expirar de amor por ela; e ainda concorrera com o dote.
E finalmente um soldado que, na guerra de Hircânia, dera ainda maior exemplo de generosidade. Soldados inimigos procuravam raptar-lhe a sua querida, que ele defendia valentemente, quando lhe vieram dizer que outros hircanianos, a alguns passos dali, se apoderavam de sua mãe: deixou, em lágrimas, a bem-amada e correu a livrar a mãe; voltou em seguida para aquela a quem amava, e encontrou-a moribunda. Quis matar-se; a mãe lhe fez ver que ele era o seu único arrimo, e o soldado teve a coragem de suportar a vida.
As simpatias dos juízes inclinavam-se para esse soldado, quando o rei tomou a palavra e disse:
- Sua ação e a dos outros são belas; mas não me espantam; todavia o que ontem fez Zadig me deixou verdadeiramente admirado. Há poucos dias, privara eu de minha graça a meu ministro e favorito Coreb. Queixava-me dele com violência, e todos os cortesãos me asseguravam que fora demasiado brando; cada qual se empenhava em dizer o pior possível de Coreb. Perguntei a Zadig o que pensava, e ele ousou falar bem do desvalido. Confesso que vi, nas nossas histórias, exemplos de quem indenizasse um erro com a própria fortuna, quem cedesse a noiva, ou preferisse a mãe ao objeto de seu amor; mas nunca li que um cortesão haja falado vantajosamente de um ministro em desgraça, contra o qual ainda estivesse encolerizado o soberano. Concedo vinte mil moedas de ouro a cada um cujas generosas ações acabam de ser relatadas; mas entrego a taça a Zadig.
- Senhor - disse este, - é Vossa Majestade quem merece a taça, pois foi quem praticou a ação mais inaudita: - sendo rei, não vos indignastes por haver vosso escravo contrariado as vossas paixões.
Admiraram ao rei e a Zadig. O que cedera seus bens, o que casara a noiva com o amigo, o que preferira a salvação da mãe à da mulher a quem amava, receberam os presentes do monarca; tiveram seu nome escrito no livro dos generosos. Zadig ganhou a taça. O rei adquiriu a reputação de bom príncipe, que não conservou por muito tempo. Tal dia foi comemorado com festas mais longas do que o previa a lei, e ainda é lembrado em toda a Ásia.
Zadig dizia: "Eis-me enfim feliz!" Mas enganava-se.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte IV - O Invejoso
IV. O INVEJOSO
Zadig procurou consolo na filosofia e na amizade, dos males que lhe causara a sorte. Possuía, num arrabalde de Babilônia, uma casa arranjada com excelente gosto, onde acolhia todas as artes e divertimentos dignos de um homem de bem. De manhã franqueava a biblioteca a todos os sábios; e a mesa, de noite, à gente de boa companhia. Mas logo viu como são perigosos os primeiros. Explodiu entre eles uma grande querela acerca da lei de Zoroastro que proibia comer grifo.
- Como proibir carne de grifo - diziam uns, - se esse animal não existe?
- Tem de existir - diziam outros, - visto que Zoroastro não quer que o comam.
Zadig procurou harmonizá-los, dizendo:
- Se houver grifos, não os devemos comer; se não os houver, muito menos os comeremos; e assim, de qualquer modo, obedecemos todos a Zoroastro.
Um sábio, que compusera treze volumes sobre os grifos e que além disso era grande teurgista, apressou-se em ir acusar Zadig perante um arquimago chamado Yebor, o mais tolo dos caldeus e,
portanto, o mais fanático. Esse homem seria capaz de mandar empalar Zadig para maior glória do sol, recitando depois o breviário de Zoroastro no tom mais satisfeito do mundo.
O amigo Cador (um amigo vale mais que cem sacerdotes) foi procurar o velho Yebor e disse-lhe:
- Viva o sol e os grifos! guardai-vos de punir Zadig: é um santo; ele tem grifos no terreiro e não os come; e o seu acusador é um herege que ousa sustentar que os coelhos têm a pata fendida e não são imundos.
- Pois bem - disse Yebor, balançando a calva, - cumpre empalar Zadig por ter pensado mal dos grifos, e o outro por ter falado mal dos coelhos.
Cador contornou a questão por intermédio de uma dama de honra a quem fizera um filho e que gozava de muito crédito junto ao colégio dos magos. Ninguém foi empalado, motivo pelo qual muitos doutores começaram a murmurar, vaticinando a decadência da Babilônia.
"Do que depende a felicidade ! - exclamou Zadig. - Tudo me persegue neste mundo até os seres que não existem". Amaldiçoou os sábios, e dali por diante só procurou viver em boa companhia. Reunia em casa os homens mais distintos da Babilônia e as damas mais amáveis; oferecia delicadas ceias, muita vezes precedidas de concertos, animadas por encantadoras conversações de quem soubera banir o empenho de mostrar espírito, que é a mais certa maneira de não o ter e de estragar a sociedade mais brilhante. Nem a escolha dos amigos, nem a dos pratos, era ditada pela vaidade: pois em tudo preferia o ser ao parecer; e com isso atraíra a verdadeira consideração, à qual não aspirava.
Defronte à sua casa morava Arimaze, personagem cuja mesquinha alma se lhe via pintada na grosseira fisionomia. Vivia corroído de fel e inchado de orgulho; e, para cúmulo, era um aborrecido "espirituoso".
Não tendo jamais alcançado sucesso na sociedade, vingava-se falando mal dela. Opulento como era, tinha dificuldade em reunir alguns aduladores nos seus salões. Importunava-o o rumor dos carros que paravam à noite diante da casa de Zadig, e ainda mais o irritava o rumor de seus louvores. Ia algumas vezes visitar Zadig e sentava-se à mesa sem ser convidado: corrompia então toda a alegria da sociedade, como dizem que as harpias envenenam a carne em que tocam.
Aconteceu-lhe uma vez oferecer uma festa a certa dama que, em vez de aceitá-la, foi cear em casa de Zadig. Doutra feita, estando ambos em palácio, abordaram um ministro, que convidou Zadig para cear, sem estender o convite a Arimaze. Os mais implacáveis ódios não têm comumente raízes mais importantes. Esse homem, a quem chamavam o Invejoso, planejou perder Zadig, porque a este chamavam o Feliz. A oportunidade de fazer mal depara-se cem vezes por dia, e a de fazer bem uma vez por ano, diz Zoroastro.
O Invejoso foi ter com Zadig, que passeava no jardim em companhia de dois amigos e uma dama, a quem muita vez dizia coisas galantes, sem maior intenção que lhes dizer. Conversavam sobre a guerra que o rei acabava de ganhar ao príncipe de Hircânia, seu vassalo. Zadig, que se assinalara, pela coragem, nessa curta guerra, louvava muito o rei e ainda mais a dama. Tomou as suas tabuinhas, e escreveu quatro versos de improviso, dando-os a ler à sua bela companheira. Os amigos pediram que lhos lesse; mas a modéstia o impediu, ou antes, um bem compreendido amor-próprio. Sabia que versos improvisados só prestam para aquela em cuja honra são compostos: quebrou em duas a tabuinha onde acabava de escrever e lançou as duas metades numa moita de rosas onde em vão os outros as procuraram. Como principiasse a garoar entraram em casa.
O invejoso, tendo ficado no jardim tanto procurou que encontrou uma das metades. Fora rompida de tal modo que cada metade de linha formava sentido e até mesmo um verso de menor medida; mas, por um acaso ainda mais estranho, o conjunto desses quatro pequenos versos também completava um sentido que continha as mais terríveis injúrias contra o rei. Lia-se, pois:
Pelo crime brutal
Venceu o soberano,
Na paz universal
É o único tirano.
O invejoso sentiu-se feliz pela primeira vez na vida. Tinha entre as mãos com que perder a um homem virtuoso a digno. Cheio de cruel alegria, fez chegar ao rei aquela sátira escrita por mão de Zadig; puseram-no em prisão, a ele, aos seus dois amigos e à dama. Em breve foi concluído o processo sem que se dignassem inquiri-lo. Quando foi ouvir a sentença, encontrou de passagem o invejoso, o qual lhe disse que os seus versos não valiam nada.
Zadig não tinha pretensões a bom poeta; mas exasperava-se de ser condenado por crime de lesa-majestade e ver que retinham em prisão uma bela dama e dois amigos, por causa de um atentado que ele não cometera. Não lhe permitiram que falasse, porque as suas tábuas falavam o bastante. Tal era a lei de Babilônia. Mandaram-no, pois, ao suplício, através de uma multidão de curiosos, nenhum dos quais ousava lamentá-lo, e que se precipitavam para examinar-lhe o rosto e ver se ele morria de boa cara. Apenas seus parentes estavam aflitos, pois não herdavam nada. Três quartos de seus bens eram confiscados em proveito do rei, e o último quarto em proveito do invejoso.
Enquanto ele se preparava para a morte, o papagaio do rei voou do seu balcão e foi pousar no jardim de Zadig, sobre uma moita de rosas. De uma árvore vizinha, tombara ali um pêssego, sacudido pelo vento, indo aplastar-se contra um pedaço de tábua de escrever, a que ficara colado. O pássaro carregou o pêssego e a tabuinha, depondo-os sobre os joelho do monarca.
O príncipe, curioso, leu no fragmento umas palavras que não formavam sentido e que pareciam finais de versos. Ele amava a poesia, e sempre há algum recurso com príncipes que gostam de versos: a aventura do papagaio deu-lhe que pensar.
A rainha, que se lembrava do que vinha escrito na tábua de Zadig, mandou buscá-la. Confrontaram os dois pedaços, que se ajustavam perfeitamente surgiram tão os versos tais quais Zadig os escrevera:
Pelo crime brutal era assolada a terra.
Venceu o soberano, e libertos nos vimos.
Na paz universal somente o amor faz guerra:
É o único tirano a quem não resistimos.
O rei ordenou em seguida que trouxessem Zadig à sua presença e retirassem da prisão seus dois amigos e a bela dama. Zadig lançou-se de rosto contra o solo aos pés do rei e da rainha: pediu-lhes humildemente perdão de haver feito maus versos; falou com tanta graça, espírito e razão que o rei e a rainha manifestaram desejo de tornar a vê-lo. Voltou, e agradou ainda mais. Deram-lhe todos os bens do invejoso que o acusara injustamente, mas Zadig lhos restituiu, e o invejoso só se comoveu com o prazer de não perder seus haveres.
Dia a dia aumentava a estima do rei. Convidava Zadig para todas as suas festas e consultava-o em todos os seus negócios. A rainha começou então a olhá-lo com uma complacência que podia tornar-se perigosa para si mesma, para o rei seu augusto esposo, para Zadig e para o reino.
Zadig principiava a crer que não é nada difícil ser feliz.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte III - O Cão e o Cavalo
Voltaire
III. O Cão e o Cavalo
Zadig reconheceu que o primeiro mês do casamento é mesmo, como está escrito no Zenda, a lua de mel, e que o segundo é a lua de fel. Viu-se dentro em pouco obrigado a repudiar Azora, que se tornara dificílima de trato, e buscou refúgio no estudo da natureza.
"Ninguém pode ser mais feliz - dizia êle - do que um filósofo que lê nesse grande livro colocado por Deus ante nossos olhos. É dono das verdades que descobre; alimenta e eleva a alma; vive tranqüilo; nada teme dos homens, e a sua extremosa mulher não lhe vem cortar o nariz".
Penetrado dessas idéias, retirou-se para uma casa, de campo à margem do Eufrates. Ali, não se preocupava ele em calcular quantas polegadas de água corriam por segundo sob os arcos de uma ponte, ou se caía mais de uma linha cúbica de chuva no mês do rato do que no mês do carneiro. Não planejava fabricar seda com teias de aranha, nem porcelana com cacos de garrafa; mas dedicou-se principalmente ao estudo dos animais e das plantas, adquirindo em breve uma agudeza que lhe desvendava mil diferenças onde os outros não viam que uniformidade.
Ora, estando um dia a passear pelas proximidades de um bosque, acorreu-lhe ao encontro um eunuco da rainha, seguido de vários oficiais que demonstravam a maior inquietação e vagavam de um lado para outro, como pessoas desorientadas que houvessem perdido a maior preciosidade deste mundo.
- Jovem - disse-lhe o primeiro eunuco, - não viste o cão da rainha?
- É uma cadela, e não um cão respondeu Zadig discretamente.
- Tens razão - tornou o primeiro eunuco.
- É caçadeira, e por sinal é muito pequena - acrescentou Zadig. - Deu cria há pouco; manqueja da pata dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas.
- Viste-a, então? - perguntou o primeiro eunuco, esbaforido
- Não - respondeu Zadig, - nunca a vi na minha vida nem nunca soube se a rainha tinha ou não uma cadela.
Ao mesmo tempo, por um ordinário capricho da sorte, sucedeu escapar-se das mãos de um palafreneiro, que é o servo responsável por segurar e conduzir à pé, pelas rédeas, o cavalo real, o mais belo exemplar das cavalariças do rei, extraviando-se nos campos de Babilônia.
O monteiro-mor, que é o oficial da Casa Real que supervisiona as caçadas reais, e todos os outros oficiais corriam à sua procura com mais inquietação do que o primeiro eunuco em busca da cadela. O monteiro-mor dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se não vira acaso o cavalo do rei.
É - respondeu Zadig - o cavalo de melhor galope; tem cinco pés de altura e os cascos pequenos; a cauda mede três pés e meio de comprimento; o freio é de ouro de vinte e três quilates; e as ferraduras de prata de onze denários.
- Que direção tomou ele? onde está? - perguntou o monteiro-mor.
- Não o vi - respondeu Zadig, - nem nunca ouvi falar nele.
O monteiro-mor e o primeiro eunuco não tiveram mais dúvidas de que Zadig houvesse roubado o cavalo do rei e a cadela da rainha; levaram-no perante a assembléia do Grande Júri, que o condenou ao exílio para passar o resto da vida na Sibéria.
Mal se encerrara o julgamento, foram encontrados o cavalo e a cadela. Viram-se os juízes na dolorosa obrigação de reformar sua sentença; mas condenaram Zadig a desembolsar quatrocentas onças de ouro, por haver dito que não vira o que tinha visto. Primeiro foi preciso pagar a multa; depois concederam-lhe licença para se defender perante o conselho do Grande Júri.
Zadig falou nos seguintes têrmos:
"Estrelas de justiça, abismos de ciência, espelhos da verdade, vós que tendes o pêso do chumbo, a dureza do ferro o fulgor do diamante e tanta afinidade com o ouro! Já que me é dado falar perante essa augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que jamais vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do rei dos reis.
Eis o que me aconteceu - Passeava eu pelas cercanias do bosque onde vim a encontrar o venerável eunuco e o ilustríssimo monteiro-mor, quando vi na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que eram as de um pequeno cão. Sulcos leves e longos, impressos nos montículos de areia, por entre os traços das patas, revelaram-me que se tratava de uma cadela cujas têtas estavam pendentes, e que portanto não fazia muito que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre se mostravam no solo ao lado das patas dianteiras, denotavam que o animal tinha orelhas muito compridas; e, como notei que o chão era sempre menos amolgado por uma das patas do que pelas três outras, compreendi que a cadela de nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim me ouso exprimir
Quanto ao cavalo do rei dos reis, seja-vos cientificado que, passeando eu pelos caminhos do referido
bosque, divisei marcas de ferraduras que se achavam todas a igual distância.
"Eis aqui - considerei - um cavalo que tem um galope perfeito". A poeira dos troncos, num estreito caminho de sete pés de largura, fôra levemente removida à esquerda e à direita, a três pés e meio do centro da estrada. "Esse cavalo - disse eu comigo - tem uma cauda de três pés e meio, a qual, movendo-se para um lado e outro, varreu assim a poeira dos troncos". Vi debaixo das árvores, que formavam um dossel de cinco pés de altura, algumas fôlhas recém-tombadas e concluí que o cavalo lhes tocara com a cabeça e que tinha, portanto, cinco pés de altura. Quanto ao freio, deve ser de ouro de vinte e três quilates: pois êle lhe esfregou a parte externa contra certa pedra que eu identifiquei como uma pedra de toque. E, enfim, pelas marcas que as ferraduras deixaram em pedras de outra espécie, descobri eu que eraprata de onze denários".
Todos os juízes pasmaram do profundo e sutil discernimento de Zadig, o que logo chegou aos ouvidos do rei e da rainha. Só se falava em Zadig nas antecâmaras, na câmara e no gabinete; e, embora vários magos opinassem que o deviam queimar como feiticeiro, ordenou o rei que lhe restituíssem as quatrocentas onças de ouro a que fora multado.
O escrivão, os meirinhos, os procuradores, compareceram em grande pompa à presença de Zadig, para lhe entregar as suas quatrocentas onças; apenas retiveram trezentas e noventa e oito para as custas do processo, e os seus ajudantes reclamaram gratificação.
Zadig compreendeu como era às vêzes perigoso ser demasiado sábio, e jurou consigo que, na próxima
ocasião, nada diria do que acaso houvesse testemunhado. Essa oportunidade não se fêz esperar. Um prisioneiro de Estado, que fugira, passou pelas janelas de sua casa. Zadig, interrogado, nada respondeu; mas provaram-lhe que ele olhara pela janela.
Foi multado, por esse crime, em quinhentas onças de ouro, e ele agradeceu a indulgência dos juízes, segundo o costume de Babilônia.
"Como é lamentável, meu Deus, - dizia ele consigo, - ir a gente passear num bosque por onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei! Que perigoso chegar à janela! E que difícil ser feliz nesta vida?"
Amanhã o Capítulo IV - O Invejoso
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte II - O Nariz
ZADIG OU O DESTINO - Uma história oriental
II. O NARIZ
Um dia Azora voltou de um passeio muito encolerizada e com grandes exclamações.
- Que tens, minha querida espôsa? Quem te pôs nesse estado?
- Ah! ficarias como eu, se visses o que acabo de presenciar. Fui confortar a viúva Cosru, que há dois dias edificou um túmulo para seu jovem espôso, junto ao arroio que banha as redondezas. Na sua aflição, prometera aos deuses que ficaria junto do túmulo enquanto lhe corressem ao lado as águas do arroio.
- Pois então! Eis aí uma estimável mulher que amava verdadeiramente a seu marido!
- Ah! se soubesses em que se ocupava ela quando a fui visitar!
- Em que, minha bela Azora?
- Ela estava mandando desviar o arroio.
E Azora alongou-se em tais invectivas, explodiu criminações tão violentas, que não agradou em nada a Zadig tamanha ostentação de virtude.
Tinha este um amigo chamado Cador que era um daqueles jovens a quem sua mulher atribuía mais
probidade e mérito que aos outros: confiou-lhe os seus pensamentos e assegurou-se, como podia, da sua fidelidade, dando-lhe um valioso presente.
Azora, que passara dois dias no campo em casa de uma amiga, regressou no terceiro dia. Criados em pranto anunciaram-lhe que o marido, Zadig, morrera subitamente naquela noite e que, não ousando levar-lhe essa infausta notícia, acabavam de sepultá-lo no túmulo de seus pais, ao fundo do jardim. Ela chorou, arrancou os cabelos e jurou morrer. À noite, Cador pediu-lhe licença para lhe falar, e choraram ambos. No dia seguinte, choraram menos, e jantaram juntos.
Cador confessou que o amigo lhe deixara a maior parte de sua fortuna, e deu a entender que a maior ventura, para ele, seria compartilhá-la com Azora. A dama chorou, irritou-se, voltou às boas; a ceia foi mais longa que o jantar; falaram-se com mais confiança: Azora fêz o elogio do defunto, mas confessou que Zadig tivera em vida alguns defeitos de que Cador era isento.
Durante a ceia Cador queixou-se de uma violenta pontada no baço; a dama, inquieta e solícita, mandou trazer todas as essências com que se perfumava, a fim de ver se alguma não seria boa para aquilo; lamentou muito que o grande Hermes já não estivesse em Babilônia; dignou-se até a tocar no ponto onde Cador sentia dores tão agudas.
- E tens muito seguido esses cruéis ataques? - perguntou-lhe, cheia de compaixão.
- Levam-me às vêzes à beira do túmulo, e só há um remédio que me dá alívio: é aplicar no local o nariz de um homem falecido na véspera.
- Estranho remédio! - espantou-se Azora.
- Não mais estranho - respondeu Cador - que os saquinhos do senhor Arnoult contra apoplexia. - A esta razão, juntamente com os extraordinários méritos do jovem, rendeu-se afinal a dama:
"Em todo caso - disse ela consigo, - quando meu marido, na ponte de Tchinavar, passar do mundo de ontem para o mundo de amanhã, será que o anjo Asrael deixará de lhe dar passagem, só porque ele vai ter o nariz um pouco mais curto na segunda vida do que na primeira?" Tomou, pois, uma navalha; foi ao túmulo do Zadig , seu esposo, e regou-o de lágrimas, e aproximou-se para cortar o nariz de Zadig, que encontrou estendido na tumba.
Zadig ergueu-se, defendendo o nariz com uma das mãos e detendo a navalha com a outra.
- Senhora, disse ele, não clame tanto assim contra a viúva Cosru: o projeto de me cortar o nariz vale bem o de desviar um arroio.
Amanhã tem a Parte III - O Cão e o Cavalo.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Zadig ou o Destino (Voltaire) Parte I - O Caolho
ZADIG OU O DESTINO - Uma história oriental
Voltaire (François-Marie Arouet) foi um dos grandes filósofos do Iluminismo. Dentre as suas qualidades destaca-se a ironia, às vezes gentil, em outras sarcástica e, não poucas vezes, profundamente destrutiva.
Suas obras dão sentido à velha máxima: "Ridendo Castigat Mores" (com o riso castigam-se os costumes).
Zadig não é diferente; ironiza o poder, a organização política, a riqueza, o orgulho as pretensões da burguesia, a riqueza, a inveja e muito mais. Vale hoje como valeu em seu século.
A edição é antiga, mantivemos a pontuação e acentuação originais que os gramáticos resolveram alterar um dia. (Nélson Jahr Garcia)
I. O CAOLHO
No tempo do rei Moabdar havia em Babilônia um jovem chamado Zadig e cuja boa índole se aprimorara pela educação. Embora moço e rico, sabia moderar as paixões, não afetava nada; não pretendia ter sempre razão, e costumava respeitar a fraqueza dos homens. Era de espantar que, com tanto espírito, jamais procurasse meter a ridículo esses diálogos tão vagos, tão incoerentes, tão irrequietos, essas temerárias maledicências, esses juízos ignaros, essas grosseiras chocarrices, esse vão palavrório, a que se chamava conversação em Babilônia.
Aprendera, no primeiro livro de Zoroastro, que o amor-próprio é um balão cheio de vento, de onde brotam tempestades quando se lhes dá uma alfinetada. Não se vangloriava, principalmente, de desprezar as mulheres e subjugá-las. Era generoso; não se arreceava de prestar serviços a ingratos, conforme este grande preceito de Zoroastro:
"Quando comeres, dá de comer aos cães, ainda que te mordam".
Era o mais sábio possível, pois procurava viver com os sábios. Instruído na ciência dos antigos caldeus, não ignorava os princípios físicos da natureza, tais como se conheciam então e, quanto à metafísica, sabia dessa matéria o que sempre se soube em todas as épocas, isto é, pouquíssima coisa.
Estava firmemente convicto de que o ano se compunha de trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto, mau grado a nova filosofia do seu tempo, e de que o sol ficava no centro do mundo; e quando os principais magos, com insultuosa arrogância, lhe diziam que demonstrava, assim, maus sentimentos e que só um inimigo do Estado poderia acreditar que o sol girasse sobre si mesmo e o ano tivesse doze meses - Zadig calava sem cólera e sem desprezo.
Com grandes riquezas, e por conseguinte com amigos, de boa saúde, agradável aparência, espírito justo e moderado, e um coração sincero e nobre, julgou que podia ser feliz. Ia desposar Semira, cujo nascimento e fortuna a tornavam o primeiro partido de Babilônia. Dedicava-lhe um firme e virtuoso afeto e Semira o amava com paixão.
Não tardava o feliz momento que os ia unir, quando, passeando os dois pelas proximidades de uma das portas de Babilônia, viram encaminhar-se a seu encontro alguns homens armados de sabres e flechas. Eram os satélites do jovem Orcan, sobrinho de um ministro, e a quem os cortesãos do tio haviam feito acreditar que tudo lhe era permitido.
Não tinha nenhuma das graças ou virtudes de Zadig; mas, julgando valer muito mais, exasperava-se por não ser o predileto. Tal ciúme, que só a vaidade inspirava, o convencera de que amava loucamente a Semira. E queria raptá-la.
Os asseclas lançaram-se a ela e, na sua brutalidade, chegaram a feri-la, derramando o sangue daquela criatura cuja vista seria capaz de enternecer os tigres do monte Imaús. Ela feria os céus com seus lamentos.
"Ó meu caro espôso! - bradava. - Arrancam-me àquele a quem adoro!"
Não se preocupava com o próprio perigo; pensava apenas no seu Zadig, o qual, ao mesmo tempo, a defendia com todas as fôrças que empresta a coragem e o amor. Somente com o auxílio de dois escravos, pôs os homens em fuga, carregando-a, desfalecida e ensangüentada, para a casa de seus pais. Logo que Semira voltou a si, deu com os olhos no seu salvador, e disse-lhe:
"Ó Zadig! antes eu te amava como a meu espôso; mas agora amo-te como àquele a quem devo a honra e a vida".
Nunca houve coração mais comovido que o de Semira. Nunca uns lábios encantadores exprimiram mais tocantes sentimentos, com essas ardentes palavras inspiradas na maior gratidão e nos transportes do justificado amor. Seus ferimentos eram leves; ficou logo boa.
Zadig fôra atingido mais gravemente; uma flechada perto de um ôlho produzira-lhe profundo ferimento. Semira só pedia aos deuses a cura de seu amado. Seus olhos, noite e dia, estavam banhados de lágrimas: esperava o momento em que os de Zadig pudessem gozar de seus olhares; mas um abscesso, que se formou na vista afetada, deu causa às maiores apreensões. Mandaram chamar em Mênfis o grande médico Hermes, que chegou com numeroso séquito, visitou o enfermo, e declarou que êste perderia a vista; predisse até o dia e hora em que deveria suceder o nefasto acidente.
"Se fosse o ôlho direito - disse êle - eu poderia curá-lo; mas as feridas na vista esquerda, são incuráveis".
Toda Babilônia, lamentando o destino de Zadig, admirou a profundeza da ciência de Hermes.
Dois dias depois, o abscesso resolveu-se por si mesmo; Zadig ficou completamente são. Hermes escreveu então um livro, em que lhe provou que não deveria ter sarado. Zadig não o leu; mas, logo que pôde sair, aprestou-se para visitar aquela em que fazia consistir toda a sua felicidade e só pela qual desejava conservar os dois olhos. Fazia três dias que Semira se achava no campo. Soube, em caminho, que essa bela dama, depois de declarar, abertamente a sua invencível aversão aos caolhos, desposara Orcan naquela mesma noite.
A essa nova, Zadig perdeu os sentidos; a dor o levou à beira do túmulo; por muito tempo esteve doente; mas enfim a razão venceu o sofrimento, e a própria atrocidade do que experimentava serviu para o consolar.
Já que sofri - disse êle - tão cruel capricho de uma moça da Côrte, devo agora procurar uma burguesa.
Escolheu Azora, a mais recatada donzela de família da cidade; desposou-a, e viveu com ela um mês os encantos da mais doce união. Apenas lhe notava certa leviandade e demasiado pendor para achar que eram exatamente os jovens mais bonitos que tinham mais espírito e virtudes.
(amanhã a segunda parte - O Nariz)
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