Nesta crônica de 2018, há duas histórias numa só postagem só, pois são concomitantes: Odete liga para seu amado, e enquanto ela dá uma pausa, ele relembra sobre seu processo de beatificação. Cheguei a pensar em dividir a crônica, mas resolvi manter o projeto original, já que o narrador conta para o leitor esta história disruptiva de Odete.
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Amaldiçoando diuturnamente este maldito horário-de-verão, meu indefectível Nokia original, único dono, toca às cinco horas, meio sonolento meio acordado, atendo e do outro lado da célula está Odete, a única beata do Distrito Federal.
Reza a lenda no Plano Piloto que a beatificação de Odete deu-se quando fazendo cálculos lentos e carinhosos no ábaco colonial do oficialato civil, mantendo a haste rígida com as contas deslizantes deste determinado guardião da moral e da ordem espiritual de Pindorama, experimentou uma visão panorâmica do céu dos templários guardiões da derrama sobre os impostos extraordinários e compulsórios de toda a boa gente dos andares abaixo do subterrâneo da terra amada salve salve.
Odete experimentou o êxtase num estado de exaltação emocional intensa, seguida por uma redução da percepção externa e expansão da consciência, envolvendo visões de uma profunda sensação de paz com comunhão espiritual. com os eleitos. Viu também a luz sobre as Antilhas, bilhões de bençãos guardadas dos olhares maledicentes. e viu também todos os homens de bem e todo o coro de apoiadores alados, querubinhas saradas, vices fartos, emplumados, arrendados, e todo a nata casta do poder espiritual.
Naquele dia foi levada imediatamente para o Grande Templo da Moral, da Honra e da Fé, onde foi apresentada como a vidente que viu o amanhecer de uma nova ordem do progresso nacional, prevendo a extensão da pátria amada até o Caribe. Imediatamente foi iniciada nas artes secretas da Ambiguidade do Ser e através do Juramento Secreto, sob as mãos aveludadas de seis Arcanos Superiores do Poder Metafísico Subequatorial, jurou guardar consigo esta visão que fará a pátria continuar deitada em berço esplêndido com direito a puxadinha em notas da redação.
Jurou sóbria e solenemente perante a Malta dos Homens de Bem, o silêncio perpétuo e permitiu que seu testemunho diante deste oculto e secretíssimo tribunal fosse selado sob a supervisão dos donatários da pátria e ali mesmo ocorreu aos olhos de todos os presentes ocultos, o milagre que a tornou beata Odete. Deu que ao tocar no ábaco do grande líder, a malta fascinada excitou vendo o cálculo integral do Grande Líder florescer após anos estagnado nos momentos de inércia.
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Odete!!! Odete! Você está me ouvindo? Alô?
Beata Odete, por favor, meu bem! Beata Odete, pois estou no paraíso servindo de espelho para as benfazejas cuidadoras de idosos do Paranoá, que é a moda top-top por aqui, só se fala nisto.
Bem, desculpe, não tinha ligado a coisa às pessoas. É muita informação!
Ai, amore, para com isto, foi só para descontrair. Me chama de qualquer coisa, mas me chama, vem em Brasília me ter, vem ...
Uau, fico sem palavras. Mas, Odete, a que devo a honra da sua ligação?
Seguinte, amore, como sabe não falo nada sem fonte, nem copio, nem faço plágio, nem coloco silicone ou botox, sou toda original.
Sério?
Bem, tem uns reparos aqui e ali, mas quem liga? O importante é citar a fonte.
Então diga, meu amor!
Nossa! Arrepiei todinha, você eletrizou meu coração.
Uai, mas isto não era de outro jeito com o Ednardo?
Ai, amore, vamos aos fatos. Então, não perca o fio do novelo, senão complica, ok, amore?
Vamos lá, Odete, gosto da sua voz...
Ai... bem, dia destes estava no Salão da Jack KO ..
Jack KO?
Ai, tenho que explicar tudo. Era para ser uma homenagem à Jackie Kennedy Onassis, mas aí o escrivão resolveu abreviar e assim atrapalhou o futuro estelar de diva da moça.
Ah, bom.
Para de interromper e escuta. então, eu estava na Jack KO fazendo uma escovinha, pé mão e outra coisa que a Creuzinha faz enquanto a gente engoma a calça e fica a cantar. Daí, entrou no salão a antipática e esnobe Lady Penélope Norway.
Norway? Ela é da nobreza norueguesa?
Para de interromper, amore. Norway é por que ela só vê as coisas do jeito que o norte vê. E lady é o título das meninas de pudicícia aparência e despudorada saliência. E Penélope ...
Está bem, está bem ... já entendi e não vou mais interromper.
Bem, aí Lady Norway me disse que ouviu de Jorginho Ragatanga, seu petit ami amoureux, um servidor calça-curta da sexta secretaria da quinta sessão, do quarto departamento, da segunda mesa da Casa do Povo, cuja namorada que lhe confidenciou é esposa de Odilon Odílio, um DJ pobre de Planaltina que trabalha como Commins num piano bar de certo prestígio vip no Plano Piloto, que por sua vez soube pela amante Isoldinha, uma simpática moça de fino requinte, que ouviu uma pouco agradável conversa entre um pletórico senhor da alta corte imperial ao qual atende aos caprichos e um exótico e incansável ex-cliente, hoje quase um senil cavalheiro do Lago Norte, que certa dupla até então denominada de imbatível e impoluta, está sendo, humm, digamos assim, hummm, ofuscada pela luz das estrelas.
Odete, então ...
Não fala, não fala nada, amore! Não fala nada e vem me beijar loucamente em Brasília, amore, vem me ter na lua nova, sob um céu cada vez mais absurdamente estrelado de Brasília.
Puxa vida, Odete, nem sei o que dizer ... eu, eu ... alô, alô ... droga, minha linha caiu igual estrela cadente.
É isto aí!

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