Do dezembro já se foram um terço dos seus dias. O tempo só para quando tropeçamos nele com o lado inflamado de uma unha encravada pelo destino. Fora isso, segue inclemente, sem pedir licença, sem pedir desculpas.
Não sei em que momento da história o futuro começou a abusar de recursos assustadores. Talvez tenha sido quando alguém percebeu que, ao prever tragédia, ganhava simpatia, respeito e poder; ou quando descobrimos que a palavra “apocalipse” tem mais charme literário do que “avanço gradual e moderadamente otimista”. Seja como for, hoje o futuro anda por aí como um sicário gótico — dramático, exagerado e com aquela expressão de quem sabe algo terrível que você não sabe.
As profecias seguem essa moda desde a desobediência no Paraíso: quase todas trágicas. Vêm sempre embaladas por uma visão com o mundo celestial — falecidos famosos, anjos da alta hierarquia, santos, santas, deuses e seus assessores. E, convenhamos, existem também profecias otimistas, que costumam soar como quem tenta convencer alguém de que água com gás é o mesmo que champagne francesa original para comemorar a vida.
O medo transformou-se num carcereiro do futuro, e a dor, a depressão, as angústias, os traumas — a agonizante vida nonsense — serpenteiam por entre meus neurônios, interrompem sinapses, estimulam conflitos, desnorteiam a minha bússola de orientação humana. Aí grito por socorro; busco, pelo olhar, uma alma viva, ereta, impávida, e só vejo, somente enxergo, uma frágil luz oscilante ao largo do fim dos tempos.
Estariam começando a aflorar ideais libertários tarde demais? Demorei muito para entender a luz — logo a luz que me banha todos os dias, todas as manhãs e tardes. Eu achava que ela seria o início de tudo, mas, aparentemente, ela não principia todas as coisas — e isso passou a me doer. As emoções, a fé, a esperança e tantas outras armas contra o medo são geradas em nossa existência, como um continuum vital.
No fundo, bem lá no fundo do coração, uma voz elegante e sensual fala que, apesar dos pesares, há de haver poucos seres sencientes, valentes e sofridos, pós-apocalípticos. E estes massagearão o próprio ego com a negação das tormentas pelas quais subsistiram. É isto aí!
É isto aí!

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