domingo, 3 de maio de 2026

O Espinho na Carne

Há dores que não pedimos para levar. E há delas que, com o tempo, deixam de ser visitantes para se tornarem moradoras. Este texto fala de uma dessas dores – ou seria de uma pessoa? Ou seria da própria memória? O narrador busca na lembrança algo que toque a alma e, de súbito, a memória muda de canal. Vem a infância, vem o ontem, vem um professor de maiêutica, vem uma gargalhada que não lhe pertencia. E, no fim, uma estranha felicidade. Um dia. Um choro.

“O espinho na carne” não é um texto sobre superação. É sobre convivência. Sobre descobrir que aquilo que fere pode, um dia, caber dentro de uma felicidade que não se explica.

Buscou na memória algo dela, que tocasse sua alma. Quase que imediatamente lembrou seu olhar, seu andar, seu perfume e seu sorriso. De súbito a memória mudou de canal e o levou à infância. Solitário e tímido, teve um longo corredor de dores, mágoas, tristezas e decepções.  

Num salto chegou ao dia de ontem, quando num momento de inútil sensatez, percebeu-se exclusivamente triste. Desde a manhã do dia anterior vinha sentindo-se  acabrunhado, com a face abatida, olhos tristes, corpo prostrado, com aquela angústia dos seres humilhados ou dos calejados oprimidos.

Recordou de súbito o professor de maiêutica que com muita maestria utilizava o método socrático para conduzi-lo a "dar à luz" as próprias ideias e conhecimentos. Riu discretamente e logo deu uma gargalhada que não lhe pertencia em tempos comuns.

Após a hilária passagem, ela retornou ao seu lugar de excelência. Deixou que invadisse seu dia, e aquilo permitiu a compreensão que ela era parte da sua persona. Desistiu de lutar, e seguiu triste, mas conformado, seja lá o que isto significa. 

Um dia, por obra do acaso e da manifestação dos segredos da existência, experimentou uma estranha felicidade. 

Naquele dia chorou.



É isto aí!

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