domingo, 28 de dezembro de 2014

Metas para 2015


Metas para ..., 2012; 2013; 2014 com TAC para 2015 (Termos de ajusta de Conduta)

1 - Vou emagrecer
2 - Vou ficar rico

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um conto de Natal

Estava na cidade onde nasci, no interior do interior de Minas Gerais. Depois que fui embora, esta é a segunda vez que retornava. A noite era longa e dolorosa; a sensação era de que o tempo estacionara numa plataforma de embarque e lá ficara. O calor úmido abafado, o ventilador lento, a água tépida na jarra e o cansaço eram as companhias mais desagradáveis e indesejáveis do mundo.

A morte é momento de dor e reflexão, pensava, enquanto a enfermeira ajeitava o meu pai no leito, já em incansável agonia de luta e desespero pelo fio da vida que ainda teimava em resistir. 

Nunca nos demos, nunca fomos amigos, nunca conversamos sobre algum assunto de interesse mútuo. Cresci sem ouvir conselhos. Meu pai era um homem simples, trabalhador, tinha a virtude de ser um homem correto, honesto e alegre, mas estas percepções eram na rua e no trabalho.

Aos filhos, todas as noites, eram apenas um homem confuso, bruto e alcoolizado, que batia, brigava e atropelava quaisquer manifestações de carinho. Minha  mãe não se manifestava. Depois das surras ou broncas, entravam para o quarto e durante anos eu e as duas irmãs ficávamos imaginando o que ele fazia de tão ruim para que ela gemesse alto e ele a xingasse. Às vezes minha mãe gritava tanto que íamos dormir agarrados uns aos outros chorando.

Assim, dia após dia, semana após semana, anos a fio, a cena não mudara - pai alcoólatra, mãe submissa e filhos órfãos de carinho. Aos dezesseis anos fui embora pra o Rio de Janeiro. Voltei aos quarenta e dois no velório dela e agora aos cinquenta e três anos para acompanhar seu calvário. Minhas irmãs, que nunca mais vi, foram juntas para São Paulo dois anos depois da minha partida. Mamãe é que dava as notícias quando eu telefonava e ele ficava lá de longe, aos berros - desliga esta merda, esta desgraça nem sabe mais como estamos e fica ligando... depois que desligava, ficava imaginando os dois no quarto, ela gemendo e ele falando palavrões.

Recebi o telefonema da minha tia para que viesse rapidamente me despedir . A princípio desejei não voltar. Aquilo era demais para mim. Apanhara por tudo e por nada, nem sequer me deu uma bala chita de presente, nunca soube onde estudei, nem mesmo em que me formei. Um bêbado, ruminava, enquanto ela implorava pela minha presença.

Ainda não rompeu a alvorada, e o tempo estava meio esquisito, com chuva e apagões elétricos. Meu pai... puta que o pariu... que pai foi este? Quem é este homem moribundo na minha frente? Chamou-me com as mãos para que aproximasse. Tive medo, receio e nojo, mas fui chegando na cama. Levantou a mão direita trêmula, afagou meu rosto, olhou na minha alma e pediu perdão de uma forma que não sei explicar. Choramos muito, abracei-o - era o meu pai. Despediu-se assim, com meu perdão e com o abraço que nunca tive... naquela manhã de Natal.

É isto aí!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Amália Rodrigues - "tudo isto é fado"

Amália Rodrigues - "tudo isto é fado"

Entre pontos

Alto lá - Este texto não é meu
Copiei e Colei
Autora - Marta Godoi
Fonte - https://www.facebook.com/marta.siqueiradegodoisampaio?fref=nf

Minha avó desfiava o algodão dos caroços com mãos pacientes e firmes. Com os dedos em pinça ia transformando-o em fio grosso que ia fuso para afinar. A linha rústica resultante desse processo era enrolada em carretéis de sabugo de milho e tinha várias serventias - Costuras a mão, remendos, amarras de embrulhos e até como fio para atar as incisões feitas pelos capadores de porcos.(umas das cenas mais cruéis que já vi).

A chegada das máquinas de costura a mão e de pé mudou comportamento e imagem da grande família, composta por umas vinte pessoas. Isso trouxe novidades: a "linha comprada", a "costureira formada em Belo Horizonte" (minha mãe) e a compra de "peças" de tecidos que o meu entusiasmado avô comprava em São Domingos do Prata. 

Mulheres, além da lida com a casa iam à costura. Do trec trec da tesoura a cortar tecidos em formas curvas, retas, miudinhas sobre mesa de madeira, da cantoria dos pedais velozes e das peças que surgiam, eu com os olhos na altura da mesa, tinha a mais absoluta certeza de que aquelas mulheres eram mágicas. Elas eram para mim as mulheres mais poderosas do mundo. O enfiar da linha até a agulha da máquina era um dos rituais decisivos para pertencer a esse mundo. Era a garantia do ponto perfeito. 

No final do dia as máquinas eram cuidadosamente cobertas com panos brancos alvejados em anil. Eram relíquias. Um tempo depois, era só olharmos para os varais. Camisas, vestidos, saias, calças, calçolas, lençóis, panos de prato, toalhas de mesa. Quase tudo era feito com o mesmo tecido. Um dia, eu usava um tubinho de um tecido em algodão floral bem delicadinho, e, quando olho para o velador de madeira que era usado para coar café, o coador era feito com o mesmo tecido. Mimetização total com a casa, com as coisas da casa, com as gentes da casa. De fio em fio, de ponto em ponto e de peça em peça aquela casa sempre vestiu meu corpo, minha pele. E desse vestir posso, quando quero, como agora, desnudar minha alma.

domingo, 21 de dezembro de 2014

A Justiça

Atenção - Este texto não é meu
Copiei e colei
Autor desconhecido - Circula na Internet há alguns anos sem crédito do autor. Foi extraído de um blog, cuja data, até o presente momento é a mais antiga, sendo balizada aqui como referência: 
https://montanhasrn.wordpress.com/2012/08/24/o-texto-do-dia-aula-de-direito/

Primeiro dia de aula, o professor de ‘Introdução ao Direito’ entrou na sala e a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:

- Qual é o seu nome?

- Chamo-me Nelson, Senhor.

- Saia de minha aula e não volte nunca mais! – gritou o desagradável professor.

Nelson estava desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estavam assustados e indignados, porém ninguém falou nada.
- Agora sim! – vamos começar .

- Para que servem as leis? Perguntou o professor – Seguiam assustados ainda os alunos, porém pouco a pouco começaram a responder à sua pergunta:

- Para que haja uma ordem em nossa sociedade.

- Não! – respondia o professor.

- Para cumpri-las.

- Não!

- Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.

- Não!

- Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!

- Para que haja justiça – falou timidamente uma garota.

- Até que enfim! É isso, para que haja justiça.

E agora, para que serve a justiça?

Todos começaram a ficar incomodados pela atitude tão grosseira, porém, seguiam respondendo: - Para salvaguardar os direitos humanos…

- Bem, que mais? – perguntava o professor .

- Para diferençar o certo do errado, para premiar a quem faz o bem…

- Ok, não está mal porém respondam a esta pergunta:

“Agi corretamente ao expulsar Nelson da sala de aula?”

Todos ficaram calados, ninguém respondia.

- Quero uma resposta decidida e unânime!

- Não! – responderam todos a uma só voz.

- Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?

- Sim!

- E por que ninguém fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las?

Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais!

Vá buscar o Nelson – Disse. Afinal, ele é o professor, eu sou aluno de outro período. Aprenda: Quando não defendemos nossos direitos, perdemos a dignidade e a dignidade não se negocia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quero ser amada

- Eu te amo, Carminha.

- Não, não me ama, Armandinho.

- Claro que sim, sinto que posso morrer por este amor.

- A morte, Armandinho, faz parte da vida, mas o modus operandi, o processo de  morrer é individual, e independe das escolhas que fazemos.

- Não, Carminha, nunca fale assim comigo. Eu morro de amor por você!

- O que deseja que eu fale? Que te amo? Não, não te amo.

- Mas estamos juntos...

- Sim, estamos juntos, mas isto não faz de mim uma mulher obrigada a amá-lo.

- Lembra quando nos vimos pela primeira vez?

- Sim, claro.

- Então, Carminha? Aquilo não foi a fagulha do amor?

- Vocês homens misturam tudo - desejo, tesão, paixão e amor para vocês são as mesmas coisas.

- Mas estão juntas e misturadas.

- E nem por isto são homólogas. São transportes diferentes, cada um destes sentimentos nos levam a uma experiência distinta, sempre saindo da mesma plataforma, mas nos entregando em destinos muito distantes uns dos outros.

- Eu não entendo isto, Carminha, não entendo você.

- Não estou aqui para ser decifrada, Armandinho, quero ser amada, possuída e desejada, uma coisa de cada vez, cada qual de um jeito, e todas elas, seja quais forem, sedutoras.

- Nossa. Eu procuro fazer tudo certo para não te irritar...

- Irritar? Você quer saber o que me irrita, Armandinho? Você é todo certinho. Nunca deixa pelos da barba na pia;  não surfa entre canais de TV quando estou na sala; sempre troca o rolo de papel higiênico, o sabonete e o shampoo quando acabam; sempre abaixa a tampa do vaso; apaga as luzes acesas desnecessariamente; não espalha xícaras, latinhas , farelos e sujeiras no tapete, no sofá ou na cama; nunca deixou toalhas molhadas no chão ou jogadas pela casa; não acumula roupas sujas no guarda-roupa e mantém o carro limpo e abastecido. 

- Mas, Carminha, faço isto por amor... sincero e verdadeiro

- Por que você não faz alguma coisa que me irrite, Armandinho? Que eu odeie?

- Não, Carminha, jamais faria isto. Carminha, de onde tirou isto?

- Eu quero que você reclame quando eu demoro excessiva e propositadamente ao me arrumar para sairmos; quando deixo absorvente usado jogado no cantinho do banheiro; quando deixo as luzes acesas só para você apagar; quando deixo a cozinha imunda e falo que estou com dor de cabeça; quando estou excitadíssima e digo que não quero.

- Mas eu adoro saber que está se arrumando para mim, Carminha. E tudo o que faz é parte de sua personalidade. Não posso desejar que seja exatamente como desejo que seja. Puxa vida, não sei mais o que faço para ter você...

- Ai, Armandinho, sabia que adoro este seu olhar perdido, esta sua busca pela perfeição de fazer tudo bem feito só para mim? Eu quero continuar assim, sendo procurada, perdida e devassa. Agora vem querido, que a noite é curta, e preciso de você  para viver os meus sonhos desta noite, por que os de amanhã ainda não aconteceram...

 É isto aí!

.

As esquinas da vida

Chegou na empresa pontualmente às nove horas da manhã. Estava lacrada pela Justiça. Foi abordado por um oficial, identificou-se e foi levado à delegacia para prestar esclarecimentos. Não entendeu nada. Ficou tão desorientado pela situação ridícula que teve um ataque de risos. Pediu um advogado, e foi surpreendido pela pronta assistência.

Uma advogada que passava por ali imediatamente apresentou-se, entregou-lhe um cartão e disse que tudo ia ficar bem. Em seguida desapareceu. O delegado olhou para ele com desdém e disse - pediu um advogado e já foi atendido. Vai querer um chá gelado também? Agora fala tudo, conta aí o que eu quero ouvir e a gente acaba logo com este teatro. Vai, solta a garganta, doutor... conta tudo.

Tudo o que? O que vocês querem? Como assim? O que estou fazendo aqui? O que aconteceu com minha empresa? O telefone toca. O delegado atende e olha para ele com um olhar de raiva. Desliga e apontando a saída - saia daqui agora. Sai. Sai agora.

Mas, mas, espera, me explica alguma coisa. Dois agentes o carregam até a porta e o jogam na calçada. Ligou para os dois sócios, nada. Ligou para o deputado- mandou dizer que não estava. Ligou para o seu advogado - estava em reunião. Parou um táxi e seguiu para casa. A porta estava destrancada. Entrou e eis que depara com um bilhete preso em alfinete no sofá, escrito em letras garrafais de pincel atômico - Adeus. Nunca mais eu volto. A frase "Chega de escândalos" estava em batom no espelho do quarto.

Pensou, pensou, até começar a perceber que tinha algo ali o empurrando para um destino que até então se esquivara. Ligou para Leilinha, sua eficiente secretária, convidou-a para jantar e foram felizes para sempre.

É isto aí!






quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A construção do ódio

Só refletindo, por isto é um texto sem graça:

Quando leio nas redes sociais alguns jovens pedindo a volta da ditadura, preciso refletir para não perder meu tempo. Estão com ódio, e com ódio não há diálogo. 

Quando ouço negros apoiarem as políticas que mantiveram sob cativeiro social todos os seus antepassados até a sua geração incluída, preciso refletir para não melindrar as amizades. Estão sendo enganados, e aos que se deixam levar pela mentira, não há diálogo.

Quando vejo mulheres apoiarem estupradores e políticos misóginos, preciso refletir para não passar por agressor. Estão sendo submissas, e aos submissos ativos não temos como levar a esperança a curto prazo.

Empresários sonegadores, desde os micro até os mega, gostam de bater num governo trabalhista pela lógica na qual suas fraudes e desvios são desmascarados. Destes é possível a compreensão do por que odeiam tanto a democracia plena. São bandidos que gostam, apreciam e se deliciam com caviar nas mesas mal frequentadas de Miami, mas detestam pobres e sobretudo empregados com direitos trabalhistas.

Mas ver jovens, mulheres e negros com Síndrome de Estocolmo, sinceramente, dá uma sensação de que uma enorme operação de indução à subserviência foi muito bem realizada. São pessoas boas, honestas, trabalhadoras, religiosas ou não, que aceitam a ideia de que bastam denúncias plantadas aqui e ali, sem base, sem provas, sem fundamento, para que seus senhores feudais estejam corretos. Lamentável.

É isto aí!



Tareco e Mariola

Tareco e Mariola

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Irmandade da Luz Áurea

                                                  

Naquela noite, mais de duzentos irmãos da confraria reuniram-se para ouvir o Dr. Juquinha, que iria revelar sobre a vida e a rotina de um viajante das estrelas, dentro das astronaves que circulam entre os mundos. Ao iniciar a palestra:

Dr. Juquinha, Dr. Juquinha...

- Sim, quem?

- Aqui atrás, eu.

- Pois não, jovem, pode falar.

- Dr. Juquinha, será que o senhor não poderia permitir que a gente faça umas perguntas, dentro das nossas expectativas e o senhor vai respondendo e explicando dentro do seu conceito científico?

- Boa ideia. Acho louvável. Comecemos por você, então, faça a sua pergunta.

- Bem, estas naves que o senhor viajou são seguras?

- Pois é, veja que pergunta curiosa. No princípio fiquei assustado, pois as poltronas não têm cinto de segurança e não existe air-bag, nem janelas, nem pedais. 

- Ohhhhhh.... aplausos.

- Aqui, Dr. eu... e como vocês se seguravam nas curvas, nas acelerações, nas freadas?

- Então, excelente pergunta. Trabalhamos aqui na Terra com a gravidade, que é uma força universal, um princípio cósmico que ainda não dominamos. A força gravitacional é uma consequência da curvatura espaço-tempo que regula o movimento de objetos inertes. Se você controla um destes fatores, controla a energia que desprende em gravidade. 

- Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhh... muitos aplausos

-Dr. Juquinha, tem banheiro nas espaçonaves?
- Muito boa sua pergunta. o vaso sanitário, ao contrário das poltronas, possui travas e cintos de segurança. Esses acessórios são usados para possibilitar que a pessoa permaneça em contato com o assento e não flutue durante um momento inoportuno. Como não é possível usar água para se livrar dos dejetos, o toalete dos astronautas conta com a ajuda do ar e do vácuo para manter tudo limpo.

- Ohhhh... alguns aplausos

- Dr. Juquinha, aqui, aqui..

- Pois não, jovem...

- Dr. Juquinha, e sexo? Como a gente pode fazer sexo na nave?

- Não tem como. O ser humano não tem um corpo preparado para copular sem gravidade. Ossos seriam quebrados, dezenas de hematomas e todos os fluidos orgânicos ficariam soltos no ambiente.

- Sério? Quer saber, Dr. Juquinha, não gostei destes ufonautas aí não. Coisa mais sem graça. Levantou-se e saiu, seguido imediatamente por  todos, que também se levantaram e saíram, deixando Dr. Juquinha, a maior autoridade ufológica do mundo, sozinho, sem entender o que se passava.

É isto aí!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A moça de azul

Estava passando pela região a serviço. E havia ali na praça um corre-corre de organização para a festa municipal. Não era uma festa qualquer, e sim "A Festa", esperada por todos no decorrer do ano. A rua da Matriz era toda enfeitada, as casas com toalhas bordadas nas janelas, todos com suas melhores roupas, e à noite a bandinha tocava uns hinos salvíficos e depois era carnaval até amanhecer o domingo.

Foi então que a conheci, quando por acaso passava pela barraca de doces. Estava linda, tinha um vestido com detalhes em azul, estilo meio antigo, rostinho de anjo, fala mansa, e descalça - uau. Foi um encantamento à primeira vista. Amanhecemos conversando sobre diversos assuntos, no banco da praça, comportados, enamorados e apaixonados. Despediu-se com um sorriso e desapareceu na neblina da alvorada.

Resolvi ficar na cidade mais uns dois dias para reencontrá-la. Acabei passando a semana ali. Ninguém sabia da moça, nem no hotel, nem no único restaurante, nem na igreja. Andei pelas poucas e estreitas ruas, perguntei aqui e ali e nada. Tinha que partir e prometi retornar em breve para, quem sabe, entender o que havia se passado. Enquanto arrumava a mala, conferi no bolso do paletó se havia alguma coisa e encontrei um perfumado lenço de linho branco, bordado, elegante, contendo duas iniciais em letra gótica - S e M.

Seis anos se passaram, e eis que retorno àquela cidadezinha. Confesso que já não lembrava mais do episódio. Neste tempo casei, tinha uma filha, e já havia sido promovido na empresa a gerente de área, e estava visitando os clientes preferenciais. Como as viagens eram de uma rotina massante, e os negócios eram feitos sob enorme pressão da empresa, não dava mesmo para ligar processos pessoais com as cidades.

Era uma terça-feira. No café da manhã sentou-se à minha frente, dividindo a mesa, uma moça linda, mas muito linda mesmo. Ali ficamos conversando, conversando e quando dei por conta, estávamos na praça, sentados no banco, e já era noite. Não vi o tempo passar. Começou uma forte tempestade, despediu-se com um sorriso e desapareceu rapidamente. 

Ao chegar na recepção do hotel, completamente molhado, o gerente olhou meio preocupado para mim e segui-se o estranho diálogo:

- O senhor melhorou?
- Melhorei do que?
- Hoje cedo o senhor esteve aqui na recepção e falou com o encarregado que não estava se sentindo bem, e que iria ficar deitado, e se alguém o procurasse era para deixar o recado que o senhor entraria em contato. Como não saiu do quarto até o presente momento, nem a camareira entrou para arrumá-lo a fim de não perturbar o seu descanso. E agora o senhor aparece aqui todo molhado, como se tivesse entrado debaixo do chuveiro. Está suando? O senhor veio de onde? Quer que eu o leve ao médico?
- Suor? Não, isto é da chuva. Eu estava bem aqui em frente, no banco da praça quando começou a tempestade.
- Chuva? Não cai uma gota aqui já fazem uns sessenta dias, e daqui vejo toda a praça e com certeza o senhor não esteve nela hoje. 
- Levei a mão no bolso de forma involuntária e deparei com o lenço, tal e qual seis anos atrás, aí não lembro de mais nada. Acordei no hospital, com minha família ao meu redor, uns três dias depois. 

Já se passaram trinta anos. Os lenços ainda exalam perfume, as iniciais ainda são uma incógnita. Nunca mais voltei lá na cidadezinha, nunca mais a vi sequer em sonhos. Mas hoje estava sentado na varanda depois da janta, pensando, contemplando o nada, o entardecer lento e foi aí que ela passou e sentou no balanço lá do quintal. Estava a mesma coisa, não mudou nada. Acenou para mim, eu acenei para ela e acho que foi um adeus com sabor de até breve.

É isto aí!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As chaves do escritório

Dia destes ao sair para o escritório, por estas coisas inexplicáveis, não sabia onde estavam as chaves. Conferi pausadamente no chaveiro do carro. Achei que estavam lá. Dirigi-me ao serviço e lá chegando, descubro que nenhuma das quatro chaves disponíveis abriam a porta.

Voltei para casa, testei em cada fechadura e nada. Também não eram dali. Como vieram parar aqui? - pensei. Que portas permaneceram fechadas ou abertas com as chaves presas aqui, adormecidas, trafegando comigo diariamente?

Procurei nas gavetas, sem maiores alardes. Achei um molho de chaves. São estas. Estavam num chaveiro reconhecidamente meu. Quando as coloquei ali? Não me recordava deste detalhe. Enquanto circulava com os dedos e varria com os olhos a gaveta que raramente abria, vi outro chaveiro com outras tantas chaves. Crise e pânico. E agora? O que será isto?

Voltei ao escritório com aqueles dois molhos de chaves. Umas treze ou catorze no total. Nenhuma delas abriu a porta do meu escritório. Dei um passo atrás - e se não for este o meu escritório? Olhei o número, meu nome na porta, sim, com certeza - é aqui. Pensei em chamar o chaveiro, mas resolvi voltar depois. 

Tornei a abrir a gaveta mágica, que guarda um monte de coisas minhas que jamais lembraria que existiam. Achei, escondidas num canto, umas chaves perdidas das outras, mas atreladas por um aro pequeno. Levei-as ao escritório. Eis que abriram a porta da entrada e da sala interna. Estava salvo - aquelas chaves anônimas eram meu passaporte.

Mas sobraram umas vinte chaves as quais não tenho a menor ideia do que já abriram ou ainda abrem. Guardei os chaveiros com a seguinte identificação - portas desconhecidas de um passado remoto. E você? Tem chaves assim na sua vida?

É isto aí!  

domingo, 7 de dezembro de 2014

Terapia de Casal no Divã da Pitangueira

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Bem, espero que estejam tranquilos, esta é uma terapia de casal, onde vamos procurar entender o que está se passando entre vocês.

Bem, doutor, ele não fala nada mais comigo já tem uns trinta dias, além disto, deu de me insultar. Qualquer coisa, grita - sua gorda. Eu não posso dar um suspiro, que lá vem - para com isto, sua gorda, isto é coisa de gorda. Quando eu fico suada um pouco na roupa - nossa, como uma gorda pode suar tanto. Qualquer coisa que faço, ele vem aos berros, vociferando - sua gorda.

E sempre foi assim?

Não, no princípio ele me achava linda, mandava flores, me chamava de meu amor, me beijava um beijo molhado, ardente, mordido e escandaloso, me abraçava demoradamente. Eu era sua flor.

E como as coisas foram caminhando?

Não caminhavam, nós flutuávamos. Eramos dois amantes despudorados, sem limite. Eu era dele e ele era meu.

Entendo.

Não, não entende. Nunca vi, ouvi, li, soube ou assisti uma relação assim. Mas não o culpo por não entender, não há como saber a dose da volúpia que nos envolvia. Não sei explicar.

Para você era uma relação normal?

Não, nada de normal, ele me sodomizava, me prendia, me batia, puxava um ou outro fio dos meus cabelos, lentamente, de qualquer região do corpo. Nossa, eu era uma pedra bruta a ser lapidada - ele dizia, daí vinha com todos os objetos para criar arestas passionais, como se referia aos seus caprichos.

Mas, e você?

O que tem eu?

Era obrigada? Era ameaçada?

Nada disto- eu que implorava. Eu suplicava. Eu gemia, miava, latia, babava, até ele me ter como sua. Aí ele ficava excitado e partia para a sua missão, feito um Indiana Jones a buscar tesouros no meu corpo, que dessem prazer carnal, espiritual, cósmico, universal e infinito.

Mas, como chegou neste ponto atual?

Um dia ele chegou de uma viagem de serviço, sentou na sua exclusiva poltrona, ligou a TV, como sempre fazia, tirou os sapatos, e gritou o mesmo ritual - Linda!!! Traz meu whisky.
- Silêncio
- Não vou falar de novo, traz a porra do meu whisky
- Silêncio

Levantou irado, pegou um sapato na mão e partiu pela casa me procurando. Entrou no quarto e deparou comigo e uma amiga, nuas, sem fazer nada, apenas estávamos nuas, assistindo um filme de Godard, sabe, o Jean-Luc Godard, que ela trouxe para vermos juntas.

Hummm

Então, ele quis, desejou, sei lá, fez uma leitura rápida de que estávamos ali para ele, eu acho. Só que não. Era um momento neutro. Aí desde este dia ele ficou me agredindo assim.

Ele perguntou qual era o filme?

Engraçado, agora que você falou, estou recordando que foi a sua primeira pergunta.

E posso saber qual era?

Sim, claro, era O desprezo.

O senhor, que ainda não disse nada, mas terá a sua oportunidade, pode aguardar lá fora somente um instante? Assim que terminarmos aqui o chamarei.

Para que isto? Quer ficar com ela, fala logo.

Senhor, não é nada disto, a ética predomina sobre a conduta. Só espero que aguarde, por favor.

Eu vou sair, mas fique sabendo que poderei abrir a porta a qualquer instante, por isto não a tranque, doutor.

Bem, vamos falar sobre isto agora, só nós dois - Olha só, pode ficar tranquila, isto tudo não passou de um grande mal entendido. Ele chegou de uma viagem, uma odisseia, e diante da duas cenas, vocês nuas e Brigitte em frenesi, sofreu um surto de transferência instantânea entre o real e o virtual.

Sério? 

Sim, pode ficar tranquila. Nós, analistas da Escola da Pitangueira denominamos isto de Paralelismo Momentâneo devido a uma interligação radial entre o Fator Gerador e o Receptor. Assim que ele sair deste transe sua vida volta ao normal.

Nossa, fiquei até mais tranquila agora... Mas e como ele sairá do transe?

Bem, a chave d acura está com você e a sua amiga. Você precisará de uma chave de transferência automática. Obrigado pela atenção. Bem, agora preste atenção - chame a sua amiga, retornem à cena, mas mude o filme para um do Bergman.

Não entendi. Por que Ingmar Bergman?

Sugiro "Persona". Assim que ele voltar de outra odisseia, ao encontrar as duas nuas na cama, assistindo a este filme, terá um choque de conflito entre o que se passa e o que se vê, tudo na velocidade da luz. O antes e o depois no mesmo processo de alucinação. Esta será a chave de transferência automática. Vá! Seu casamento está salvo!

É isto aí!










quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

É da casa da Valéria?



Alô? É da casa da Valéria?

Não, você ligou errado.

Desculpe, eu devo ter me confundido.

Tudo bem, não se preocupe, isto acontece.

Alô, por favor, a Valéria...

Olha só, não é daqui, você tem certeza que ela se chama Valéria? Desculpe eu te perguntar, mas você já ligou umas dez vezes neste número.

Sim, claro que tenho. Espere, puxa vida, eu não sei o que está acontecendo, pois  já liguei neste número e sempre falei com a Valéria. Olha, desculpa mesmo. Não sei o que ocorreu.

Tudo bem, estas coisas acontecem. Pode ser que exista uma conexão. Como é esta Valéria?

Bem, ela é bonita, morena, 1,60 de altura, pesa uns 60 Kg, tem por volta de 37 anos, é advogada, divorciada, tem uma filhinha de três anos, mas, desculpe mais uma vez, eu não deveria estar falando estas coisas todas. Não entendo como liguei várias vezes para este número para falar com a Valéria. Eu peço mil desculpas pelo incômodo.

Flávio Renato, você é um idiota!

Espera aí, como sabe meu nome? 

Deve ser por que sou a sua mãe, em triste memória de gestação perdida para gerar um filho tão imbecil. 

Mamãe?!?! Puxa vida... mamãe, desculpa, eu não sabia, eu não deveria, eu não sei explicar esta confusão.

Não sabe uma merda. Esta Valéria deve ser mais uma destas rameiras que você paga para fingir que é homem. Em vez de casar com a Adalgiza, de quem sempre fiz gosto, vai procurar uma prostitutazinha da ralé, com filha sem pai, e ainda liga para mim achando que eu sou ela. Você é um imbecil, Flávio Renato, um idiota, um retardado, um banana, um débil mental, um fracassado...

Desculpa, mamãe, mas vou desligar, por que preciso urgentemente ligar para o meu analista.
No dia seguinte - Alô, eu queria falar com a Valéria...

Flavinho, que surpresa agradável...

Flavinho? Quem é você?

Sou eu, a Adalgiza, bem que a sua mãe falou que você queria conversar comigo, e que iria brincar de me chamar de Valéria. Alô, alô? Flavinho? Alô...

Alô, quem está falando?

É a Valéria, amor.

Você está na casa da minha mãe?

Não, amor.

Por acaso minha mãe te contratou para que você me desse um telefone onde ela também atende, e que era também  o seu, para que ela me deixasse constrangido e humilhado, além de armar para a Adalgiza falar comigo?

Eu, amor? Mas de onde você tira estas coisas?

É por que isto mexeu comigo, olha só, Valéria, precisamos conversar.

Não precisa, amor, já entendi, esta Adalgiza é a sua via preferencial. Tudo bem, eu já desconfiava que tinha outra, e não estou com raiva.

Enquanto isto - Alô! Adalgiza?

Valéria? Tudo bom, amiga?

Tudo bom, querida. Deu tudo certo, pode bater que a bola está na marca do penalty, vai que é seu.

Obrigada, amiga; minha sogra vai passar aí para acertar as despesas.

Valeu, querida, foi um prazer fazer negócio com vocês.

É isto aí!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Eu amo / eu odeio

A conheci numa festa em casa de amigos em comum. Lembro que estava muito desarrumado, desalinhado, despenteado, enfim, no meu normal e quando dei por conta, trocamos um longo e enebriante olhar. Dali em diante tudo foi se encaixando.

Ela era linda. Na verdade era a garota mais bonita que já vi em toda a minha vida. Tinha um ar natural de elegância e postura de princesa, um corpo divino, uma voz melodiosa, além disto era muito rica, culta, fina e educadíssima. 

Por alguma boa razão celestial achei que minhas preces foram ouvidas, por que ela cedeu aos meus parcos encantos com tanta facilidade e candura, que desde então passamos a vivenciar uma ardente história de amor.

Três meses haviam passado com demorados encontros diários e juras eternas de amor, até que um dia ela desejou fazer uma brincadeira de "eu odeio/eu amo".

Ela - Amor, vamos brincar de "eu odeio/eu amo?

Eu - Como é isto?

Ela - Muito simples, abro um livro e pego uma palavra, aí dizemos odeio ou amo.

Eu - Muito inocente, aceitei. Bem, amor, começa então.

Ela - Humm.. gatos

Eu - Odeio gatos.

Ela - Detesto gatos.

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Sol

Eu - Adoro o sol.

Ela - Eu amo o Sol.

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Puxa, fomos feitos um para o outro. A palavra é casa.

Eu - Gosto mais de apartamento.

Ela - Também gosto mais de apartamento...

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Mar e Montanhas

Eu - Pode falar duas coisas ao mesmo tempo?

Ela - Claro, não vejo por que não.

Eu - Adoro o mar e detesto montanhas.

Ela - Achei que você gostasse de montanhas...

Só uns beijinhos...

Ela - Crianças

Eu - Humm, pula esta...

Ela - Adoro crianças.

Sem muito clima

Ela - Noiva

Eu - É... pula esta também...

Ela olhou para um lado, olhou para o outro e por uma estranha razão que nunca descobri, saiu correndo da minha vida. Nunca mais vi. Por curiosidade, peguei o livro que estava folheando. Para minha surpresa, era apenas um caderno em branco...

É isto aí!


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lua Nova

A Noite estrelada - Van Gogh
A pilha do rádio acabou, e deu que esqueci de comprar outras e o do carro estava estragado há muitos meses, e éramos só nós dois em casa. Como ela dormia cedo, bastava esperar a hora para assistir a final do campeonato de futebol. 

Mas deu que naquele dia a patroa ficou rodeando, querendo uma sessão nostálgica de amor total e eu não estava muito animado em corresponder, até mesmo por que a Candinha do Adamastor já tinha partilhado das minhas vontades na tarde, quando dei uma volta rápida na rua para comprar uns troços aí, menos o raio das pilhas.

Aí, muito da pirracenta, ela provocou uma severa discussão pela escolha do canal. Eu queria o futebol, ela queria um destes filmes lacrimogêneos. Na impossibilidade de partir para um ataque frontal utilizando dos argumentos físicos, dado à incerteza do que poderia acontecer enquanto dormia, saí pela área externa em busca de ar e tranquilidade.

A noite estava linda - lua nova, outono, brisa fria, e bilhões de estrelas explodindo no céu. Deitei na rede instalada  confortavelmente de frente para a colina, enchi a cuia de cachaça da boa, acendi um cigarro de palha, que eu mesmo curti, piquei o fumo do rolo de reserva especial da venda do Tinoco, acendi num isqueiro Binga Vospic, herança do meu pai e fiquei ali, olhando a grandeza do mundo e pensando em quanto já estava o jogo, no corpinho da Candinha, nas seis vacas mojadas, nas outras seis que já tinham parido, e contemplava o silêncio, refletindo estas coisas que realmente valem a pena um homem pensar.

Ainda não havia tomado a cuia toda, e no movimento das sombras suspeitei de um vulto ao longe que com o tempo foi chegando pelo lado do curral, e o caso é que à medida que aproximava, percebi que era uma mocinha, de vestidinho de algodão branquinho, solto e curto, e de longe parecia que flutuava. Ela foi se aproximando bem devagar, feito uma onça no bote. Armei meu canivete e passei a acompanhar só com os olhos, pois sou caçador experiente, e foi então que reparei naquela formosura graciosa chegando bem de mansinho.

Mas aí deu que a danada chegou tão pertinho que ficou assim com as coxinhas grossinhas na altura da rede, meio espairecida, meio desconfiada e do nada foi aconchegando aquelas perninhas de flor de seda acolchoada de encontro aos calos da palma da minha mão.

Corri os olhos prá dentro de casa, tudo já apagado, então fui apalpando aquela formosurinha toda, ela foi se retorcendo feito gata no cio e aninhou na rede. Olha, vou dizer uma coisa, aquilo foi do outro mundo. Acordei com o dia claro, sol de nove horas no meio da mata, meio que confuso. Custei a levantar, e sem outro jeito fui andando para a casa, atirada uma meia hora dali. Achei esquisito, mas vai que a patroa resolveu vingar, não é mesmo? Pelo menos não cortou nada em mim. 

Cheguei em casa, tudo fechado e um bilhete na mesa dizendo que tinha ido na casa da mãe, aproveitando uma carona da irmã que passou cedinho e que voltava na semana seguinte. Deve ter pensado que estava no roçado.Tomei um banho, almocei e dei uma cochilada, pois estava bem cansado. De noitinha não é que a moça retornou, do mesmo jeitinho?

Desta vez acordei de madrugada no mesmo lugar. Que menina mais danada esta, pensei. Aí foi que resolvi fazer um negócio diferente. Passei a deixar no lugar uma bicicletinha velha que eu tinha guardado de muitos anos, que a patroa não ia dar falta, e um despertador. Olha, nunca mais perdi a hora de voltar prá casa nas noites de lua nova...

É isto aí!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

As Karns do Gësch

A questão, doutor, é que todo mundo acha que sou louco.

Todo mundo quem?

Todo mundo, o mundo todo, e tudo que há no mundo.

E por que acham que é louco?

Por que sou de esconder minhas perts.

Suas pertis? Não entendi.

Perts, doutor, não tem este "i" neles - pê-e-erre-tê-esse - Perts.

E que são estas perts?

São três karns que participam do meu Gësch.

Carros do seu... desculpe, não entendi.

Karns - ká-a-erre-ene-esse e Gësch - gê-ê-esse-cê-agá.

E mais alguém participa do seu Gësch?

Não, só tem a Evelyn, a Verena e a Heike.

Mais alguém?

Não, doutor, não daria conta. Elas completam o Gësch. A Heike controla tudo, determina os comandos, a Verena lida com minhas percepções existenciais e a Evelyn é que fala tudo para mim. Eu a escuto muito, sabe, ela é que fala o que devo ou não fazer para não contrariar a Heike.

Mais alguém conversa e ou escuta as Karns?

Não doutor, é só meu este Gësch. Olha só a foto que tirei com elas ontem...

Caramba... onde fica isto?

Não posso contar, doutor, mas assim que a Heike autorizar te dou mais detalhes na próxima sessão.

Dona Carminha, venha aqui na minha sala agora.

Pois não doutor?

Puta que o pariu, Dona Carminha, por que eu fico aqui só atendendo maluco e maluco fica lá fora com as Karns no Gësch? Por quê, Dona Carminha, por quê?

Nossa doutor, seus braços são tão fortes, suas mãos agitando meus ombros, me sinto uma destas gueixas aí de carro que o senhor falou... mais, doutor, mais...

É isto aí! 


Valei-me São Jorge

A Igreja católica nunca retirou São Jorge do seu calendário litúrgico. Do ponto de vista histórico-crítico, as fontes existentes são suficientes para corroborar a existência de um cristão chamado Jorge que morreu por causa da sua fé católica na Antigüidade cristã e outros testemunhos, embora reduzidos, nos dão a certeza de que ele existiu.

Em Lydda (Dióspole), perto de Tel Aviv, em Israel, venerava-se o sepulcro de São Jorge antes do séc. VI. No mesmo período, Antonino de Piacenza e Adam-nano atestam o mesmo. Os restos arqueológicos da basílica cemiterial ainda hoje visíveis são atribuídos a uma construção constantiniana, como quer que seja muito próxima da morte do mártir. Além disso, uma epígrafe grega, encontrada em Eaccaea de Batanea e datada do ano 368 por Delehaye, fala de uma “casa dos santos e triunfantes mártires Jorge e companheiros”. Não se sabe onde nasceu, mas segundo alguns teria sido na Capacódia (hoje Turquia), e teria vivido na Palestina como tribuno militar.

A respeito do ano do seu martírio, Ruinart o fixa no ano de 284, seguindo o Chronicon alexandrinum seu paschale (PG, XCVI. col. 680). Parece, porém, ser mais provável que se deu no ano de 303, durante a perseguição de Diocleciano. Logo em seguida, entre os séculos IV e V, o nome de São Jorge se difundiu rapidamente no Oriente, a ponto de ter sido usado por vários soberanos na Geórgia. Também no Ocidente o seu culto se espalhou, sendo testemunhado por volta de 527 em Roma, quando Belisário confiou à sua proteção a porta de São Sebastião. No séc. VI encontramos uma igreja dedicada a São Jorge em Jerusalém. São Gregório de Tours (+ 594), na obra Miracolorum liber recorda a transladação de suas relíquias a Limoges e a Le Mans. O Papa Zacarias (+ 752), de aprimorada formação intelectual, teria encontrado o seu crânio. Segundo alguns relatos, São Jorge teria sido decapitado após inúmeras torturas.

Os calendários litúrgicos orientais indicam a comemoração de São Jorge no dia 23 de abril. Na mesma data o celebra o Calendário marmóreo de Nápoles, Itália, do séc. IX, de influência bizantina, o que em geral foi seguido pelas igrejas no Ocidente. O Sacramentario Leoniano do séc. V contém os textos da Missa em honra a São Jorge mártir usadas na igreja de São Jorge in Velabro, Roma.

A prova de que São Jorge foi um personagem importante na história do Cristianismo se deve ao fato de que muitos quiseram, a seu modo, escrever-lhe uma pequena biografia, chamada de passio, onde história e lenda se misturam. Dentre as mais famosas está uma escrita em latim que serviu de base para o panegírico redigido por Santo André de Creta (séc. VIII) em homenagem a São Jorge. O já citado São Gregório de Tours e Venâncio Fortunato (+ ca. 600) também exaltaram a sua pessoa. Na Liturgia bizantina São Jorge é celebrado também a 3 de novembro, reconhecido junto com outros santos como “megalomártir” (grande mártir).

Um destes relatos medievais merece ser citado, mesmo que a crítica histórica hodierna o coloque em xeque. Com efeito, vendo os sofrimentos de São Jorge, a imperatriz Alexandra, mulher de Daciano (Diocleciano), se converteu ao cristianismo e por isso também foi condenada à morte. Ela não havia ainda recebido o Batismo, e se perturbou com isso; São Jorge, porém, a teria consolado com estas palavras: “O teu sangue derramado será para ti batismo e coroa”.

Curiosamente, na tradição islâmica São Jorge recebe o título de “profeta”, e o relato dos seus gestos, a partir de Wahb ibn Munabbih (+ ca. 728-33), reproduz quase literalmente a versão siríaca da redação mais antiga de uma de suas lendas, acrescentando-lhe, porém, a devoção à luta contra o dragão em Lydda ou Beryto.

A propósito, a iconografia do santo o representa, a partir do século X no oriente cristão, como um jovem sem barba e sem algum atributo especial, acompanhado geralmente de São Demétrio. Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais frequente sua representação com uma couraça e com marcada caracterização heróica. É no ocidente europeu, a partir do século XII, que vem apresentado a cavalo, no ato de matar um dragão. Tal modelo é seguido particularmente pela arte gótica tardia na França e Alemanha, bem como pelo Renascimento italiano. Exceções houve, como é o caso da belíssima estátua de São Jorge sobre a fachada de Orsammichele em Florença, Itália, obra do artista italiano Donatello (1415-1417).

Em uma das mais furiosas batalhas na Terra Santa, no ano de 1089, os combatentes cristãos (os cruzados, unidos aos ingleses e genoveses) teriam sido ajudados por São Jorge, acompanhado por esplêndidas criaturas celestes que traziam numerosas bandeiras nas quais tremulava a cruz vermelha sob fundo branco, símbolo já conhecido dos genoveses.

São Jorge, além de ter dado o seu nome a cidades e a países, foi proclamado Padroeiro de cidades como Gênova, Moscou, de inteiras regiões espanholas, de Portugal, da Catalunha, da Geórgia, da Lituânia, da Hungria, da antiga Checoslováquia e da Inglaterra, sendo esta última com a solene confirmação do Papa Bento XIV. Em 1415, o arcebispo inglês Chichele introduziu a festa de São Jorge entre aquelas mais solenes do ano. Entre os seus mais famosos devotos, está o Rei Ricardo “Coração de Leão”, que chegou a “nomear” São Jorge o comandante de uma expedição cruzada!

Mais de 20 cidades na Itália recebem o seu nome. Em Ferrara se encontra a Catedral de São Jorge, consagrada em 1135. No Egito há mais de 40 igrejas a ele dedicadas.

Na hagiografia recente existe um curioso relato. Rafqa Pietra Choboq Ar-Rayès (1832-1914) teve uma visão de São Jorge, São Simão o Estilita e Santo Antônio Abade em um momento de crise vocacional. Por causa desta visão ela ingressa na Ordem das Monjas Libanesas Maronitas no mesmo ano (1871). Foi beatificada por João Paulo II a 17/11/1985 e no Jubileu do ano 2000 foi indicada como modelo de amor à Eucaristia.
Concluindo, é bom citar o Martirológio Romano, onde se lê: “Memória de São Jorge, mártir, cuja gloriosa batalha, celebrada em Diáspole (Lidda) na Palestina, é celebrada desde a antigüidade por todas as Igrejas, do Oriente ao Ocidente”. Pouco sabemos de São Jorge, mas o que sabemos é suficiente: existiu de fato, acolheu Jesus, morreu na graça divina! Que os cristãos, portanto, invoquem com confiança a sua intercessão na luta contra as forças do mal!                                                                                                                                                           

S. Jorge, Mártir de Cristo: rogai por nós!

APOLITIKION (4º TOM)

Vitorioso Jorge, ilustre entre os mártires,
libertador dos cativos, protetor dos pobres,
médico dos doentes e defensor dos governantes;
intercede a Cristo Deus pela salvação de nossas almas!

OUTRO APOLITIKION

Pela fé, combateste o bom combate,
ó lutador pela causa de Cristo,
e por ela desprezaste a impiedade dos perseguidores.
Oferecido a Deus como oblação agradável,
ganhaste a coroa da vitória.
Por tuas orações, ó São Jorge,
alcancemos todos o perdão das nossas culpas.

KONDAKION

Cultivado por Deus
te tornaste um excelente cultor da piedade
e colheste para ti as espigas das virtudes;
semeando com lágrimas, colheste com alegria;
e lutando até o sangue, ganhaste Cristo.
Por tuas orações, ó São Jorge,
que possamos alcançar o perdão de nossas culpas.

PROKIMENON

Alegra-se o justo no Senhor e n'Ele confia.
Ouve, ó Deus, a minha voz quando te rogo!

Então queres ser um escritor? (Charles Bukowski)

Poema - Então queres ser um escritor
Autor - Charles Bukowski
Tradução - Manuel A. Domingos*

Poeta, contista e romancista, Henry Charles Bukowski Jr. é considerado o último escritor maldito da literatura norte-americana. Dotado de um humor ferino é comparado a Henry Miller e Ernest Hemingway.




 se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.

se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.

se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato
nem aborrecido e pedante,
não te consumas com auto-devoção.

as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
 não há outra alternativa.
 e nunca houve.

* O tradutor é o escritor, poeta e professor universitário português Manuel A. Domingos, nascido em 1977 em Manteigas (região centro de Portugal). Tem colaboração dispersa em várias revistas: Praça Velha (Guarda), Palavra em Mutação (Porto), Sulscrito (Faro), Big Ode (Lisboa), Sítio (Torres Vedras), Piolho (Porto) e A Sul de Nenhum Norte (Coimbra). Foi colaborador do suplemento literário Correio das Artes (João Pessoa, Brasil). Publicou, até hoje, três livros de poesia: Entre o Silêncio e o Fogo (AQUILO Teatro, 2002), Mapa (Livrododia, 2008), Teorias (Edição do Autor, 2011).