terça-feira, 31 de maio de 2016

Na noite terrível (Fernando Pessoa)

metaphorical-journey (Vladimir Kush)

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Jorge Bafão, o vira-casaca




Atenção, silêncio. Cena 1 - Ato I

Entra o deputado Bartolomeu Bafão.

Para tudo - Jorge, cadê o terno?

Que terno?

Você é o deputado, tem que ter terno.

Mas você falou que era para eu ficar à vontade, então fiquei.

Jorginho, meu filho, estamos repassando os textos para a estréia. Contra-regra, providencie o terno do deputado.

Ok! Tudo certo? Tudo bem? Entra o deputado Bartolomeu Bafão.

Puta o que o pariu - mas o que é isto, Jorge?

Um terno, você não determinou que minha entrada deveria ser em terno, então ...

Não é assim, merda - eu disse Terno de vestuário e não terno de cara de bunda para compaixão alheia. Contra-regra, cadê a merda do terno?

Eu entreguei na mão dele, diretor, mas ele falou que já tinha um tipo de terno.

Jorginho, meu querido, vai vestir a porra do terno com paletó e gravata, entendeu? E não faz cara de paisagem terna e sim cara de mafioso, você é mafioso, ladrão, bandido, assaltante, meliante, desonesto, safado, sem-vergonha e mau, muito mau, entendeu? Sentiu? Percebeu? 

Ah, bom, agora eu entendi. Vou lá vestir o terno, mas não farei cara de terno.

Atenção, silêncio. Cena 1 - Ato I

Entra o deputado Bartolomeu Bafão.

Merda, mas o que é isto? Sua roupa está do lado avesso, Jorginho.

Jorginho não, por favor - meu nome é Deputado Bartolomeu Bafão, mais conhecido como o Bafão Vira-Casaca - sou candidato das massas e deputado dos maços ...

Uau, agora sim você incorporou o personagem ...

É isto aí!

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Entre quatro paredes.

Jota Cardoso pediu a mão da casta Carminha Fonseca em casamento, fazendo votos secretos, juras de amor eternas e promessas infindas. Naquela noite beijou-a demoradamente na sala de estar da residência da moça. Tocaram-se como se fossem unir seus corpos em uma transcendente metafísica. Navegou pelo corpinho miúdo da amada como um marujo a dobrar o Cabo das Tormentas, com firmeza e segurança.

Carminha Fonseca conteve-se enquanto pode, segurou ao máximo a estranha sensação de prazer nunca antes percebida até que desmaiou no sofá, em tom pálido e pele gélida, sem reação e sem nenhuma atividade carnal. O vestido decotado caído sobre o ventre, a barra suspensa até o quadril, ali, imóvel, estática e fria.

Jota Cardoso saiu bem devagar, de costas, contemplando a sua Vênus de Milo com coração acelerado, tremores desconcertantes e pernas bambas, amolecidas feito molas frágeis. Arrumou a roupa, abriu a janela que dava para o beco, de onde alcançou a rua e partiu célere para os braços de Marcinha, uma inesgotável fonte de luxúrias da rua do pecado.

Carminha Fonseca abriu os olhos devagar, olhou ao redor, recompôs-se e aguardou chegar o grande dia do que seria o dia mais feliz da sua vida. Mas este dia estava fadado a nunca mais chegar, pois sua cara metade submergiu na maré baixa do mundo. A mocinha partiu para a busca espiritual de respostas. Apelou ao padre, ao pastor, à mãe de santo, ao pai de santo, ao benzedor, à mãe de terreiro, e nada lhe servia.

Foi então, meses depois do processo, que Jota Cardoso retornou à sua porta. Trazia consigo três duzias de rosas vermelhas, um anel de brilhantes e um sorriso largo na sua face quadrada. A abandonada olhou-o nos olhos escorregadios, sentiu nojo, desprezo, ódio, amargura, mágoa e asco. Deu-lhe um tapa estatelante. O rapaz permaneceu parado. Deu-lhe outro tapa e outro e mais outro.

Ele acabou por segurar-lhe as mãos, beijou-lhe escandalosamente, empurrou-lhe para a sala que outrora fora o início do desejo e possuiu-a em completa descoordenação moral. Carminha Fonseca entregou-se sem questionar, sem pestanejar e sem querer parar. Foram ao final, quando desmaiou. Desta vez, Jota Cardoso manteve-se ao seu lado, em posição de conforto. A noiva voltou ao mundo real  gritou - não para não para não para, e esbofeteou o rapaz em grande estilo, daí viajaram ao delírio, seguido de desmaios, seguido de volúpia, seguido de desmaio, seguido de ...  

É isto aí!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Smartgrampos

- Alô? Jota?

- Sim, humm, não sei, é... , vou ver se ele está.

- Jota, larga mão de ser besta, eu sei que é você.

- Pode ser, mas quem fala?

- É o Agá.

- Caramba, por que não disse antes? Fala aí, garoto.

- Então, sabe o Três? Deu um nove na Quarta e subiu uma oitava.

- Humm, nada diferente do Doze que tascou um quinze na Décima.

- Na Décima? Como foi isto?

- Ora, ora, Agá, todo mundo está dando uma quinze nela, inclusive o Quatro.

- O Quatro? Olha aqui, Jota, vai sobrar Nove prá todo mundo. Isto não fica cinco.

- E ainda tem aquele, não é? - que vai ser o primeiro a ser comido ...

- Rá rá rá, espera, por que estou rindo?  Merda, este grampo está me deixando louco.

É isto aí!

domingo, 22 de maio de 2016

Tudo cola, menos o golpe!

Tenaz cola cola 

Pritt cola cola 

Cascola cola cola

Three bond cola cola

Scotch cola cola

Bic cola cola

Acrilex cola cola

Loctite cola cola

Super-bonder cola cola

Mas o golpe, ah! - o golpe,

O golpe não cola!


sexta-feira, 20 de maio de 2016

A vizinha do 301



Após o café da manhã, sentou-se para ler o jornal. mas onde estava o jornal? Levantou-se, procurou na estante, na mesa da sala de estar (que nunca foi usada), abriu a porta da frente, olhou no corredor, voltou, pegou o interfone, ligou para a portaria, perguntou por ele, onde soube que já fora entregue. Desligou o aparelho cheio de ódio - só pode ser aquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Voltou para a mesa para reiniciar seu desjejum e ao sentar viu o jornal dobrado ao lado da sua garrafa térmica, com café arábica sem açúcar, como manda a tradição dos homens de bem da sua família, além da hipertensão e do diabetes. Percebeu que não conseguia ler. Achou que estava tendo um AVC, levou as mãos à testa em total desespero. O mundo girou mais lento e mais rápido, mais lento e mais rápido, até notar que faltavam os óculos. Levantou-se cheio de ódio - só pode ser aquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Ligou novamente para a portaria:
- Aqui é o Dr. Almeida. Quero saber se alguém subiu no meu apartamento, pois o jornal mudou de lugar e o café está na mesa. Chame a polícia, é caso de vida ou morte.

- Dr. Almeida, aqui é o Toninho, e quem subiu no seu apartamento nesta manhã, como faz todos os dias, foi a Dona Irene, que dá uma arrumada na sua casa e enquanto o senhor está acordando e banhando.

- Irene, não sei nada desta tal de Irene. Aliás deve ser sua cúmplice aqui nestes assaltos ao prédio.

Caminhou ao banheiro convicto de que uma ducha fria apaziguaria o espírito. Somente ao entrar no box, deu-se conta de que já estava nu antes de entrar no ambiente. Caralho, o que será que aconteceu com a minha roupa? Para sua surpresa, a roupa estava colocada por sobre a pia, ao lado da toalha já usada. Colocou a mão no queixo, contemplativo. Passou a mão no pouco cabelo que ainda resistia ao inevitável, e verificou que estava molhado. Vestiu-se e descobriu os óculos no bolso da camisa. Saiu dali cheio de ódio - só pode ser praga daquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Sentou-se frente à TV, ligou no noticiário e aí teve a certeza de que estava completamente louco, pois não entendia nada do que se falava. Levou um bom tempo, entre soluços, espasmos e tremores esquisitos para perceber que estava num canal japonês. Refeito do susto, mudou para o canal de notícias que falava de coisas que preferia que fossem em japonês. Desligou o aparelho cheio de ódio - quem mudou o canal deve ter sido aquela idiota da 301, aquela gorda, aquela vadia, aquela ... puta.

Pegou novamente o interfone, ligou para a portaria e o Toninho mais uma vez atendeu pacientemente:

- Dr. Almeida, em que posso ser útil?

- Útil? Comece passando o telefone para a autoridade competente.

- Dr. Almeida, sou eu, o Toninho.

- Toninho!! Graças a Deus, meu filho, olha, tem um sujeito hackeando a minha linha e se fazendo passar por você. Me transfere aí a ligação para o 301 que eu quero falar umas verdades para aquela piranha.

- Dr. Almeida, quem reside no 301 é o senador, e ele não se encontra na cidade.

- O senador? Como assim o senador? Aquele bandido ainda mora aqui? Será que deu para contratar piranhinhas para seu apartamento?

- Sim, Dr. Almeida, ele mora aqui e claro que não, Dr. Almeida, com certeza absoluta ele não contrata moças para frequentarem seu apartamento.

- Olha aqui, vá à merda, Toninho. Eu vou chamar a polícia para prender você por maus tratos ao idoso - desligou com força suficiente para quebrar o suporte.

Sentou-se na espreguiçadeira da varanda, pegou um charuto da caixa exclusiva, deu um gole de seleto conhaque francês e uma lenta e cerimoniosa tragada no tabaco, olhou para o prédio da frente, colocou seus potentes binóculos de uso militar e ficou ali em gozoso deleite apreciando a gostosa do 301 do prédio da frente em frenética atividade domiciliar.

- Suspiros ... sou apaixonado com esta vadia do 301.

É isto aí! 

terça-feira, 17 de maio de 2016

O analista da Pitangueira e o Amorômetro.

- Eu sofro de overdose de amor, sabe? Já analisei, diagnostiquei e agora estou aqui para que ocorra a manifestação da minha cura através dos seus conhecimentos.

- Overdose de amor ...

- Vai ficar repetindo o que falo ou vai entrar pela porta do meu sofrimento, escancarada ao mundo?

- Vejo que você não manifestou a sua idade na ficha.

- Manifestar a minha idade? E eu sou lá uma mulher de manifestações inúteis? Eu não tenho uma idade, eu sou a idade que se apresenta.

- E esta porta? Está escancarada, mas não a vejo.

- Então! É de fato uma porta, sim, está escancarada, e não pode ser admirada por olhares aqui, ali e alhures. Ela tem uma propriedade ímpar, unidirecional de estar permanentemente escancarada aos olhos do meu amor.

- Mas você disse que estava aos olhos do mundo.

- Olha aqui, doutor, meu mundo, meu universo, minha galáxia e até meu buraco negro são exclusivas e não é uma Nasa ou qualquer outra agenciazinha de merda cósmica que vai penetrando no labirinto da fauna e da flora da minha existência.

- Você tem um dosador de amor? Um amorômetro ou equivalente? Desta forma poderemos quantificar as doses, subdoses e overdoses deste seu sentimento.

- Pois é isto que vim falar, é exatamente isto. Meu amorômetro explodiu quando atingi o ápice da volúpia, do prazer, e do desejo, doutor. Eu me senti embriagada pelo gozo gozoso, e depois disto veio o vazio, onde me vi macambúzia, sorumbática e sobretudo misantrópica, não no sentido antropofóbico, afinal eu amo um anthropos, mas na forma taciturna, entende? 

- Seu amorômetro. Precisamos aprofundar nisto. Fale mais sobre este marcador de sentimentos. 

- Hoje não posso. E se permite, tenho que sair agora.

- Quanto a sair, por favor, fique à vontade, mas por que não pode especificamente hoje?

- É que hoje é dia de iniciarmos uma terapia indicada pelo seu Zezinho da Farmácia, que recomendou uma pílulazinha azul, lá em casa, e ele já enviou pelo zap zap que tomou há uma hora atrás ...

É isto aí!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Papo de Esquina XX

- Andei pensando e pensei andando - o problema é o raio da censura interna da minha consciência, que fica reprimindo meus mais explícitos pensamentos. O que os senhores sugerem?

- Melhor voltar a andar.

- Vai melhorar?

- Melhorar, melhorar, não, mas vai te dar um baita d'um cansaço,daí você dorme que a fome passa.

É isto aí!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Papo de Esquina XIX

- Todo mundo falou que estava vindo, mas a NASA nunca confirmou.

- Quem? O Nibiru?

- Pior que isto, só parece ser outro planeta, mas não é, e onde pega destrói e trás consigo o que há de pior no mundo deles.

- Caramba, este caos vai dar merda!

É isto aí!

terça-feira, 10 de maio de 2016

Da série - Eu odeio o meu vizinho


Yamandu Costa ao Vivo

Yamandu Costa (Passo Fundo, 24 de janeiro de 1980) é um violonista e compositor brasileiro. Adepto do violão de sete cordas modelo brasileiro, é considerado um dos maiores violonistas do Brasil e do mundo




O primeiro DVD (2005) da carreira do violonista Yamandu Costa traz versões para temas de grandes nomes da música nacional, como Baden Powell, Caetano Veloso e Radamés, além de canções de sua autoria nas 15 faixas do álbum. Nos extras, o DVD conta com imagens do músico em turnês por diversas cidades brasileiras e internacionais.

Yamandu Costa - Ao Vivo (2005)
00:00 01. Aurora (Yamandu Costa)
04:46 02. Tareco No. 2 (Yamandu Costa)
07:53 03. Valsa No. 1 (Baden Powell)
11:58 04. Paz de Maria (Yamandu Costa)
18:26 05. Besteira (Yamandu Costa)
21:57 06. Tango Amigo (Yamandu Costa)
25:58 07. Susto (Yamandu Costa)
30:06 08. Sanfonema (Toninho Ferraguti)
35:00 09. Yamamé (Yamandu Costa)
40:26 10. Suíte Retratos – 1o. Movimento (Pixinguinha/Radamés Gnattali)
45:44 11. Nuages (Django Reinhardt)
52:33 12. Taquito Militar (Mariano Mores)
57:05 13. Vou Deitar e Rolar (Baden Powell/Paulo César Pinheiro)
1:01:45 14. Disparada (Theo de Barros/Geraldo Vandré)
15. Extra: Sampa (Caetano Veloso)

Mercedes Sosa - Sólo le pido a Dios (Con León Gieco)

Fonte da imagem Mercedes Sosa: Wikipédia



Mercedes Sosa foi uma cantora argentina, uma das mais famosas na América Latina. A sua música tem raízes na música folclórica argentina. Ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva canción. Apelidada de La Negra pelos fãs, devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".

Nasceu em São Miguel de Tucumã, na província de Tucumã, no noroeste da Argentina, cidade onde foi assinada a declaração de Independência da Argentina em 9 de julho de 1816, na casa de propriedade de Francisca Bazán de Laguna, que foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1941.

Nascida no dia da Declaração da Independência, e na mesma cidade onde foi assinada, Mercedes sempre foi patriota. Afirmou inúmeras vezes que "pátria só temos uma". Foi também uma árdua defensora do Pan-americanismo e da integração dos povos da América Latina.

 Faleceu em Buenos Aires, 4 de outubro de 2009


"Sólo le pido a Dios" é uma das canções mais conhecidas do cantor e compositor argentino León Gieco pela qual alcançou reconhecimento internacional. Em 2002, a revista Rolling Stone e a MTV a elegeram como a sexta melhor canção da história do rock argentino. Segundo Rock.com.ar, em 2007, foi posicionada como a décima melhor canção da história do rock argentino.



Fonte: LyricFind
Compositor: León Gieco

Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacía y sola sin haber hecho lo suficiente

Solo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me arañó esta suerte

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Solo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos
Que esos cuantos no lo olviden fácilmente

Solo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente
Desahuciado está el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Papo de Esquina XVIII

- Na próxima semana teremos e viveremos o paraíso do amor, da ordem e do progresso!!!

- Claro. Nunca mais o país será governado por corruptos. Só teremos pessoas de bem, só notícias gloriosas no formol nacional, só atos heroicos, só atitudes humanas, enfim, a pátria amada será novamente feliz. Vou estar na avenida cantando "todos juntos vamos, prá frente bra sil bra sil, salve a ... 

- Esperem, mas e os juros dos bancos, do cartão de crédito, e os pobres, os índios, os negros, a violência contra a mulher, o tráfico de tudo, e os processos na Lava-Lama, os cunhas, as cunhãs e os cunhados, e as operações dantescas?

- Isto não vem ao caso, e no mais acho que vai chover ... vou nesta. Espera, eu vou com você ...

É isto aí!

Gaby Moreno - Malagueña Salerosa Concierto 9 feb 2012.MOV

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Papo de Esquina XVII

- Vocês viram a confusão em Brasília? Alguma lição cristã disto tudo?

- Tem aquela - do Egito chamei meu filho ...

- Mas foi do Maranhão que chamei o empecilho ...

- Caramba, este negócio vai dar merda!

É isto aí!

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Papo de Esquina XVI

- Gente, a partir de hoje vamos maneirar o papo, por que tem uma menina nova aí lendo a gente. Ela se chama Júlia.

- Nova? Júlia? Ela é bonita?

- Ela é solteira? Ela é loira? Ela é inteligente?

- Seus tarados. A menina é amiga da filha do chefe.

- Então, todos juntos - bem vinda, Júlia!!!

É isto aí!

Brincadeiras de roda

Vamos brincar de congressitas?

Acho que o certo é crongüecistas.

Sabem de nada. É conflessistas, espera, é conversistas, não, acho que é ...

Não, não!! É congre ... congruenticistas ...ah! Deixa prá la!

Muito bem, terminada a abertura, vamos à fechadura. Atenção para a chamada por estado emocional

Fulano de Tal.

- Presente, mas ocupado desviando recursos.

Beltrano da Silva

-Presente, mas atarefado com improbidades administrativas.

Cicrano da Piedade Divina

- Hummmmmmpresente, mas nonseidondequitô, nem prondeuvô, mas meu voto é sim.

Martíria Soledade

- Ai ui ai ui ai ui isto isto sim sim sim, não para, não para, sim, meu é sim ai ui ai ui...

É isto aí!

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Eu sou a Lei

- Imperador:

Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima decreta:

Está toda a corte, plebe, sicários, nobres, mecenas, mercantilistas, ricos, mestres, doutores, professores, letrados, iletrados e demais membros do amplo espectro de funções e matizes, doravante plena do saber de que este Magno Imperial decreta:

Fica toda a extensão de pessoas, de quaisquer castas deste reino, proibidos de falarem à meu respeito.

- Ministro: 

Perdão, Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima, ouso, se assim permitir, e não pretendendo com isto ofuscar a Vossa Imperial Luz que ilumina vosso reino, tomar um passo diminuto da minha desprezível e insignificante existência, para propor-lhe uma pequena alteração no texto.

- Imperador:

Pela sua ousada e intempestiva coragem de conflitar minha benevolência, senhor ministro, permito que se manifeste, obedecendo aos critérios imperiais, justos, imparciais e legais.

- Ministro:

Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima, ouso emitir minha diminuta opinião de que àqueles que falam bem de Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima, dever-se-ia, se assim permite vossa magnânima benevolência, que continuem a fazê-lo.

- Imperador:

Comove-me saber que o senhor ministro conseguiu perceber minha real intenção de promover esta ressalva à lei, senhor ministro. Já havia pensado nesta possibilidade, mas preferi provocar sua corajosa exposição. Doravante o texto ficará:

Fica toda a extensão de pessoas, de quaisquer castas deste reino, proibidos de falarem à meu respeito, exceto as que falarem da bondade, do altruísmo, da generosidade e da benevolência imperial.

- Ministro:

Perdão mais uma vez, Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima. Jamais deveria interferir na vossa magna inteligência e novamente ouso, se assim permitir, pois não pretendendo com isto ofuscar a Vossa Imperial sabedoria que transcende vosso reino, tomar outro passo diminuto da minha desprezível e insignificante existência, para propor-lhe uma mínima alteração no novo texto imperial.

- Imperador:

Apesar de causar-me espécie a sua ação, acredito que aquilo que dirá será exatamente o que refleti em minhas preciosas horas de divagações e elucubrações imperiais.

- Ministro:

Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima, meu desejo é e será sempre tudo o que Vossa Majestade deseja, e neste instante diante de Vossa Majestade, ouso novamente emitir minha insignificante opinião de que além daqueles que falam bem de Vossa Majestade Imperial, Real e Fidelíssima, dever-se-ia, se assim permite vossa magnânima benevolência, permitir que os que falam mal continuem a fazê-lo, para que Vossa Imperial Guarda saiba identificar pelos atos, palavras, atos e omissões todos aqueles que deturpam vossa imaculada realeza..

- Imperador:

Bravíssimo, senhor ministro. Suas palavras são exatamente as que guardei antecipando esta questão de relevante valor administrativo em todo o Reino. Desta forma, de caráter irrevogável, sem mais nenhum adendo real, eu, Majestade Imperial, Real e Fidelíssima deste reino e anexos, decreto:

Fica toda a extensão de pessoas, de quaisquer castas deste reino, proibidos de falarem à respeito das supostas maldades, desmandos, e atos de força necessários para a manutenção da ordem, da paz e do progresso do nosso Reino. Aos que falarem da bondade, do altruísmo, da generosidade e da benevolência imperial, gozarão de harmônica e resplandecente tranquilidade. Os abjetos que se manifestarem em contrário suportarão as agruras da lei justa e igualitária.

Revogam-se as disposições em contrário.

Esta Lei entra em vigor nesta data, sem contestação ou manifestações em contrário.

É isto aí!

Ode ao Fígado - Pablo Neruda

Modesto,
organizado
amigo,
trabalhador
profundo,
deixa-me te dar a asa
do meu canto,
o golpe
de ar,
o salto
de minha ode:
ela nasce
de tua máquina
invisível,
ela voa
partindo de teu infatigável
e fechado moinho,
entranha
delicada
e poderosa
sempre viva e obscura.
Enquanto
o coração sonha e atrái
a partitura do bandolin,
lá dentro
tu filtras
e repartes,
separas
e divides,
multiplicas
e engraxas,
sobes
e recolhes
os fios e os gramas
da vida, os últimos
licores,
as íntimas essências.
Víscera
submarina,
medidor
do sangue,
vives
cheio de mãos
e de olhos
medindo e transvasando
em teu escondido
quarto
de alquimista.
Amarelo
é o teu sistema
de hidrografia vermelha,
búzio
da mais perigosa
profundidade do homem
ali sempre
escondido,
sempiterno,
na usina,
silencioso.
E todo
sentimento
ou estímulo
cresceu em teu maquinário,
recebeu alguma gota
de tua elaboração
infatigável,
ao amor agregaste
fogo ou melancolia,
uma pequena
célula equivocada
ou uma fibra
gasta em teu trabalho
e o aviador se engana de céu,
e o temor se precipita em assovio,
o astrônomo perde um planeta.
Como brilham acima
os olhos feiticeiros
da rosa,
os lábios
do cravo
matutino!
Como ri
no rio
a donzela!
E abaixo
o filtro e a balança,
a delicada química
do fígado,
a adega
dos câmbios sutis:
ninguém
o vê ou o canta,
porém,
quando
envelhece
ou desgasta seu morteiro,
os olhos da rosa se acabaram,
o cravo murchou sua dentadura
e a donzela não cantou no rio
Austera parte
ou todo
de mim mesmo,
avô do coração,
moinho
de energia:
te canto
e temo
como se foras juiz,
metro,
fiel implacável,
e se não posso
entregar-me amarrado à pureza,
se o excessivo
comer
ou o vinho hereditário de minha pátria
pretenderem
perturbar minha saúde
ou o equilíbrio da minha poesia,
de ti,
monarca obscuro,
distribuidor de mel e de venenos,
regulador de sáis,
de ti espero justiça:
Amo a vida: cumpre! Trabalha!
Não detenhas o meu canto.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Papo de Esquina XV

- Vocês não vão acreditar. Eu estou namorando a Nise.

- Ok!.

- Ah, tá!.

- Caramba, muito obrigado. Valeu! Fiquei muito entusiasmado com o apoio de vocês.

É isto aí!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Odete, a química do Paranoá

Nunca acreditei em premonições, mas ao deitar senti que Odete entraria em contato comigo. Sei lá, foi um sentimento estranho, meio que sinistro. E por volta das três horas da manhã, eis que meu indefectível Nokia 2006, único dono, soa a melodia dos justos e dos bons. Do outro lado da célula estava minha musa, Odete, a rainha do upgrade do planalto. Diz a lenda que certa vez, famosa e cortejada cafetina do poder plenário necessitou dos serviços de seis moças da mais alta finesse do cerrado para atender às probos e dedicados cavalheiros da honra da tradição, da família e da propriedade. Devido a um súbito evento da ala progressista, Odete foi chamada às pressas e deu um upgrade no heptagenário conjunto de homens de bem, sendo desde então desejada por uma gama de aposentados e pensionistas de uniforme.

Oiii, amoooooorrrrr!!!!

Odete! Puxa vida, hummmm quanta saudade.

Larga a mão de ser bobo com esta saudade besta e vem me ter.

Era tudo que eu queria, Odete, mas o que conta de novidade nesta turbinada Brasília?

Então, amooorrrr, aqui tudo passa e nem sempre o que entra sai.

Credo, Odete, que expressão pavorosa.

Então, amooorrr. Ouvi da Claudinha, que soube pela Belinha, que escutou da Noninha, que estava presente no salão oval dos velhinhos de bem, que quando Lavoisier concluiu que a soma total das massas das espécies envolvidas na reação, é igual à soma total das massas das substâncias produzidas pela reação, ou seja, num sistema fechado a massa total permanece constante,  ele não fazia ideia de que isto não se aplica a Brasília.

Odete, então muitos serão chamados e poucos serão escolhidos?

Hummm, sabe tudo, vem cá meu amooorr, vem me ter feito uma constante de Boltzmann, onde a nossa constante física subirá inacessíveis graus de temperatura em pura energia molecular.

Lavoisier ... Boltzmann ... nossa, Odete, assim você me deixa ... alô, alô ... droga, a reação não foi precipitada ...

É isto aí!

Papo de Esquina XIV

- Me deem três motivos para mantermos o otimismo.

- A história, o tempo e o povo.

- A justiça, a honra e a lei.

- Caramba ... vou para Pasárgada.

É isto aí!

Delírio (Olavo Bilac)

DELÍRIO

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....