quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Corset onírico

Eu não sei o que está acontecendo, estou carente, contente e confusa, disse a mocinha com ar nobre e estampa virginal, enquanto revirava os olhos e se contorcia entre prazeres mundanos e sentimentos celestiais no sacro âmbito de deleite nupcial. Não para, não para... não... ai, que bom... ai... e acordou assustada, suada e envolta num misto de desejo e medo.

Foi para o banho trêmula e envergonhada. Nunca houve em sua vida momento que fizesse par a este sonho. Um homem na sua cama, e sobretudo nu, tocando-a e o pior, gostou daquilo. Saiu de casa direto para o Templo Salvífico, onde participava como operária da fé. Contou em detalhes toda a experiência onírica ao Mentor Espiritual. 

Ao fim da confissão, ele a repreendeu, colocou-a de joelhos diante da Altar Sagrado dos Doze Discípulos e com o Látego do Livramento, deu-lhe seis chibatadas nas costas para que o demônio saísse das suas entranhas. Experimentou dor e um indeterminado prazer com aquela situação, mas para evitar uma nova investida contra o diabo em si, revelou-se curada e livre do mal diante do Templo.

Naquela noite estava vestida de um erótico corset preto em estilo gótico e uma saia justíssima de couro, também preta, em pé sobre um tapete todo branco, bem felpudo, muito alto e macio. Aos seus pés o mesmo desconhecido abraçado às suas pernas, olhando-a com olhar de misericórdia. Vislumbrou com intensidade toda a volúpia desconhecida pela sua castidade.

Acordou toda dolorida, mas feliz. Tomou um banho relaxante, saiu de casa com um sorriso enigmático. Ao chegar no hall do edifício deparou com o novo morador, que estava chegando de mudança. Era um senhor de meia idade, elegante e muito bem vestido. O síndico apresentou-a ao novo vizinho - Chiquinha, quero que conheça o Dr. Marcos e o seu ... marido, o Claudinho. Olhou bem nos olhos do Claudinho, o herói dos seus devaneios eróticos, deu-lhe um tapa estalante - seu... seu... e saiu gritando pela avenida.

Acorda, Chiquinha, acorda... Chiquinha..., acorda...

Aos solavancos foi acordando com a visão turva em sua mãe - acorda Chiquinha... que coisa... para de dormir de barriga cheia, já falei para você. É comer e ter pesadelos. Agora levanta que está atrasada para o serviço, vamos, Chiquinha, levanta...   

Abraçou sua mãe em prantos e em soluços balbuciou... mamãe, será que um dia eu vou encontrar um príncipe encantado de verdade que queira casar comigo ???

É isto aí!

terça-feira, 28 de julho de 2015

Ex-amor é para sempre

Eu te amo, disse sem forças, mas com clareza. Ela levantou os olhos ao encontro dos olhos dele, com seus olhos amendoados, serenos e morenos, e procurou uma razão para aquilo. Eu te amo, repetiu o rapaz, e amar dói, dói muito, é uma dor que não passa, não acaba, não vai embora. 

Tiveram todas as possibilidades de terem um ao outro, mas preferiram o caminho das pedras. Partiram, ela ao leste, ele ao oeste. Foram infelizes para sempre.

Doze anos depois, numa outra cidade, de forma imprevisível, num encontro quase impossível, cruzaram seus olhares pela estreita rua. Ela lindíssima, ele amadurecido. Cumprimentam-se formalmente e cada um segue seu destino por dois ou três passos, voltam ao passado, trocam olhares perdidamente inconsoláveis, ela volta melancólica ao seu caminho e ele, bem, ele fica admirado com o formato da sua bunda.

É isto aí! 


Encrencas e Sacanagens

Entre o final do século XIX e início do século XX, centenas de mulheres da comunidade judia da Europa Central emigraram para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde ficaram conhecidas como “polacas”. Eram pobres, quase sempre analfabetas e sem perspectiva de trabalho ou casamento, e em função disto acabavam recrutadas por cafetões – muitos também judeus, para se prostituíram em ruas de grandes cidades.

Quando a polícia chegava para dar batida nos bordéis, ouviam elas pronunciarem a palavra sacana (Sacana em hebraico significa "perigo", tem a mesma raiz que "sakin" (punhal), "sakina" (bandido) e "sakun" (risco))  enquanto as janelas e portas se fechavam. Em razão disto, os polícias passaram a chamar a essas zonas de "sacana(gem)".

E quando elas suspeitavam que um cliente tinha doença venérea, logo alertavam as companheiras falando "ein krenke" (“doença”, em iídiche), que acabou se transformando em “encrenca”.

Fatos importantes sobre as polacas estão aqui:
http://polacas.blogspot.com.br/2007/03/revista-aventuras-na-histria-edio-38.html

É isto aí!

A buzina da repressão


Os anos obscuros da República de Chumbo desnudavam-se nas Chacretes, aquelas mulheres gostosonas, carnudas e afrodisíacas das tardes de sábado. Dominavam completamente o imaginário masculino infanto, juvenil e adulto. Sentíamos a pulsação mais forte, o coração disparado e tudo florescia em desejo de estar ali e ser abraçado, tocado, beijado e seduzido por todas elas.

Com a crise internacional do Petróleo e o fim da Guerra do Vietnã, o barco da ditadura imposta pela Tradição, Família, Propriedade e outros meios semelhantes em nome de Deus, fazia água. Daí vieram as meninas semi-nuas na TV, as porno-chanchadas, as novelas eróticas, os palhaços de programas cômicos atrapalhados com piadas de duplo sentido, alguns templos salvíficos de características cristãs da idade Média e o brega na moda e na música.

Isso tudo, junto e misturado, apascentou o povo por mais dez anos, permitindo maior controle social pela ditadura. Uma só mocinha semi-nua nos programas de auditório da TV, no Cinema Nacional ou Novelas valia por cem agentes repressores na hora de conter a revolta popular. Os poderosos endinheirados que davam a aparência branca, ética e moral ao regime, desta forma, puderam continuar seus compromissos sociais (das suas sociedades exclusivas e privadas - digamos assim) e dormir tranquilos.







É isto aí!

O que não estamos vendo?




A Rede ainda é uma enorme incógnita para todos nós, simples mortais. É uma ferramenta útil, prática, mas também é um instrumento de monitoração permanente dos seus usuários, ausentes ou presentes. Você não utiliza só a internet, tem também o celular, a TV a cabo, os cartões de crédito e de débito, os cartões de transporte urbano, sem contar as milhares de milhares de câmeras espalhadas por onde você vai. 





Estes dados estão sendo compilados em verdadeiras cidades cibernéticas, fora do alcance da nossa compreensão. Neles consta seu perfil ideológico, sua sexualidade, suas preferências sociais e sexuais, seus desejos, suas posses, seu grau de conhecimento, suas viagens, seus contatos, suas fotos postadas ou recebidas, todo - sim, todo o seu histórico virtual, desde o princípio, seus delitos e benesses, etc. Quem utiliza estes dados? Deus é que não é...





Dia destes um site em pleno e bom português, supostamente sediado na Suécia, apareceu vendendo todas as informações a respeito de quaisquer pessoas, por um quantia módica em Bitcoins, a moeda internacional aos poucos sendo empurrada goela a baixo da plebe rude. Foi desaparecido na poeira da Net, por que gerou insegurança. É melhor não sabermos que há uma vigilância mundial, assim caminha a humanidade.





E, lembre-se: A Internet não esquece nunca. Tudo está arquivado, quer queira ou não. Não esquece não perdoa. 




É isto aí!

O que não estamos vendo?

A Rede ainda é uma enorme incógnita para todos nós, simples mortais. É uma ferramenta útil, prática, mas também é um instrumento de monitoração permanente dos seus usuários, ausentes ou presentes. Você não utiliza só a internet, tem também o celular, a TV a cabo, os cartões de crédito e de débito, os cartões de transporte urbano, sem contar as milhares de milhares de câmeras espalhadas por onde você vai. 

Estes dados estão sendo compilados em verdadeiras cidades cibernéticas, fora do alcance da nossa compreensão. Neles consta seu perfil ideológico, sua sexualidade, suas preferências sociais e sexuais, seus desejos, suas posses, seu grau de conhecimento, suas viagens, seus contatos, suas fotos postadas ou recebidas, todo - sim, todo o seu histórico virtual, desde o princípio, seus delitos e benesses, etc. Quem utiliza estes dados? Deus é que não é...

Dia destes um site em pleno e bom português, supostamente sediado na Suécia, apareceu vendendo todas as informações a respeito de quaisquer pessoas, por um quantia módica em Bitcoins, a moeda internacional aos poucos sendo empurrada goela a baixo da plebe rude. Foi desaparecido na poeira da Net, por que gerou insegurança. É melhor não sabermos que há uma vigilância mundial, assim caminha a humanidade.

E, lembre-se: A Internet não esquece nunca. Tudo está arquivado, quer queira ou não. Não esquece não perdoa. 

É isto aí!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Discursos para um dia de domingo




Passar pelo final da semana é sempre uma experiência desafiadora. É provável que as pessoas se encantem com o sábado, mas baldadamente lutam contra as tardes de domingo. No geral, a impressão que fica é que a segunda-feira corre em direção à sexta e antagonicamente aos modorrentos e solitários domingos com suas pernas rápidas, passos curtos e trotes convulsos.





Enquanto isto, tédio!





É isto aí!









Discursos para um dia de domingo

Passar pelo final da semana é sempre uma experiência desafiadora. É provável que as pessoas se encantem com o sábado, mas baldadamente lutam contra as tardes de domingo. No geral, a impressão que fica é que a segunda-feira corre em direção à sexta e antagonicamente aos modorrentos e solitários domingos com suas pernas rápidas, passos curtos e trotes convulsos.

Enquanto isto, tédio!

É isto aí!




quarta-feira, 22 de julho de 2015

Herika Silveira

este blog encontra-se sem postagens, pela despedida da grande figura humana, leitora assídua deste espaço, Herika Silveira.



Puxa vida! Puxa vida...  Adeus e até um dia!

Herika Silveira

este blog encontra-se sem postagens, pela despedida da grande figura humana, leitora assídua deste espaço, Herika Silveira.

Puxa vida! Puxa vida...  Adeus e até um dia!

terça-feira, 21 de julho de 2015

Odete e a voz rouca do Eixão de Brasília

Liguei para Odete dia destes, assim, do nada e ela não atendeu. Para espanto e frenesi, meu potente Nokia da era glacial dos celulares deu sinal de vida útil às duas da manhã. Acordei sem acordar, confuso e perdido, de maneira que custei a entender que havia vida em sussurros além daquele aparelho analógico.

Do outro lado da célula (quem tem linha é o bom e incomparável fixo), estava Odete. Conta a lenda que certa noite de plena escuridão e abandono da capital tupynambá, num gelado Julho de recesso de todo Plano Piloto, pelos anos 70, comandando um estonteante batalhão de moças de família a partir do Torre Palace (Setor Hoteleiro Norte), Odete puxou a manifestação de duas dezenas de mocinhas entediadas, nuas, em pelo de portentosos espécimes (sic) da cavalaria verde-oliva. Mas é apenas uma lenda, diz ela sempre sorrindo quando ouve falarem deste episódio. 

- Querido, desculpe não ter ligado antes.

- Odete, que saudade, que emoção, que vontade de...

- De estarmos juntos novamente? Hummm, isto é bom!

- Ééé... então, Odete, o que tem de novo em Brasília?

- Querido, de novo no Plano Piloto só mesmo a velha rodoviária repaginada.

- Mas e a crise, Odete? E a tal da Lava-Jato?

- Então, sabe a Cristina Sem, uma vadia que me roubou o Fernandão e namora com o Ruizinho, marido da Estela, que é amante do Geraldão, que é casado com a irmã da cachorra? Então, aquela cadela falou com a Carminha, minha prima, que contou para a Didi, que comentou com a Jurema, que fez uma pelação, melação, delação, felação, sei lá, premiada no Carlinhos Botox, que por sua vez me confidenciou em legítimo segredo num momento único de levantamento de cóccix sem derrubar a taça de dry martini, mas cutucando a azeitona, que a companhia de limpeza não vai perdoar nem o brigadeiro do Leblon. Tudo que está podre, vai aparecer, me disse Carlinhos, aiai... em estase intravenosa.

- Caramba, Odete, então a coisa é séria mesmo.

- Ai, amor, para de falar nestas coisas e vem cá me chamar de penosa... vem...

- Não sei, a ideia é muito... espera.... espera.... pensando bem... alô... alô... droga, o poleiro caiu.

É isto aí!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pensamentos soltos

Há tempos que não via tantos ratos soltos no convés. Daqui da Pitangueira percebo o movimento destes vorazes roedores em pânico, desespero e sem norte. Ratos que já deveriam ter sido defenestrados, mas foram mantidos por uma rede de intrigas golpistas e desleais ao povo, estão em desespero; e fazem ameaças como se fossem isentos de culpa e blindados por uma mística capa protetora. Mas as únicas vítimas desta catarse são os pobres e a classe média, a médio e longo prazo, pois governos passam e eles, os ratos, querem se perpetuar em todos eles.

Ou a população da pátria-amada-salve-salve acaba com este bando de corruptos ou qualquer que seja o governo sério, este ou outros que virão não permitirão país algum a não ser um lamaçal sem fim. A Cacica está sendo dura contra eles, mas uma imprensa doente e uma classe média estropiada, cujo cérebro foi deformado por anos globais ainda acreditam que a corrupção só existe agora por que só agora se fala dela. Roubam descaradamente há décadas e agora posam de vítimas.

Por estas e outras sinto-me constrangido nas redes sociais, por exemplo, onde pessoas que se afirmam cristãs (???) mentem em tempo integral para defenderem seus ideais patéticos. Querem a pátria amada livre das denúncias de corrupção sobre aqueles que eles/elas elegeram e gostam de eleger. Nada, nada, não é nada mesmo. 

Mas duas coisas o dicionário esclarece para estes defensores da paranoia tropical: uma cunha não passa de uma peça de cortada em ângulo agudo para fender elementos sólidos. E para funcionar precisa que alguém ou algo a impulsione, e operários calheiros são apenas os construtores de calhas, que são aquelas estruturas invisíveis por onde escorrem coisas - chega, não é? Chega de calhas e cunhas encalhando a pátria amada.

É isto aí!

domingo, 19 de julho de 2015

Embargos do Céu

- Nome

- Desculpe, mas quem é o senhor?

- Nome, por favor.

- Que lugar é este, como cheguei aqui, quem é o senhor e..., espere um pouco (afastou o homem com o braço esquerdo, enquanto com a mão direita apontava para uma mulher e foi entrando no ambiente)
   Pretinha... Pretinha... puxa vida, quanto tempo, que saudade, que emoção te ver aqui... olha, eu conheço aquela ali, é a Pretinha... Pretinha!!!!!!!

- Moreno!!! Você está lindo!

- Pretinha, o que está acontecendo aqui? Quem são estas pessoas? Que lugar é este?

- Seguranças, voltem este senhor ao local de recepção, por favor. 

- Esperem, sem violência, sem violência...

- Mas nós nem estamos encostando a mão nele ainda.

- É mesmo... que coisa esquisita. Mas não pode entrar sem passar pela recepção. É norma.

- Nome

- Só depois de falar com a Pretinha.

- Nome, por favor.

- Espere aí, aquela é a Dolores... Dolores!! Dolores!!!

- Moreno? Como chegou até aqui?

- Dolores, me explica que negócio é este, que lugar é este e como eu entro aí onde você está. Espera, Dolores... volta aqui... volta...

- Senhor, desculpe, mas ocorreu um engano, e o senhor vai ter que voltar.

- Voltar? Mas a Pretinha está lá dentro, a Dolores também... espera aí, elas já... meu Deus... meu deus... então é isto... elas já, eu estou... meu deus... meu deus... moço, quer dizer, seu moço, sei lá, olha aqui, quer saber de um negócio? Quero voltar mais não.

É isto aí! 



quarta-feira, 15 de julho de 2015

A coisa clônica




Raimundinho mentiu para a esposa dizendo que ia trabalhar naquele sábado. Mentiu também para a amante afirmando que necessitava fazer uma viagem urgente de negócios. Mentiu para o gerente da sua seção ao alegar que precisava muito daquele dia para resolver questões familiares muito graves.





Mentiu para o porteiro, para o mala do vizinho, mentiu até para a sua secretária. Mentiu para sua sobrinha mais velha, mentiu para o cunhado (indiferente), mentiu para o motorista do táxi e finalmente, na sua contabilidade de limites da mentira, mentiu até para a sua cunhada gostosa (um misto de cunhada, ex-namorada, amante ocasional, confidente e melhor amiga).





Dez pessoas era um limite razoável, já previamente combinado - olha, eu vou fazer o que estão pedindo, mas preciso contar umas mentirinhas por aí. Negociou daqui, especulou dali, até que teve a autorização de escolher dez pessoas. Na realidade só queria mesmo era contar tudo para a cunhada gostosa, mas já que não podia, estendeu aos outros a mentira. 





Saiu de casa cedo, entrou no ônibus, desceu três estações antes do ponto, chamou um táxi que o deixou não muito longe do seu destino, mas o suficiente para não servir de testemunha, pois tudo que não queria eram testemunhas. Andou cerca de trinta minutos até chegar ao destino. Entrou naquela casa em silêncio e ali ficou aguardando novas orientações.





No domingo cedo dois homens e uma mulher o acordaram, esperaram se vestir, tomar um café e partiram juntos para a Convenção Mundial dos Clones. Raimundinho era uma criação de laboratório desenvolvido para ser o primeiro clone humano. Na convenção iria conhecer Marinalva, a primeira mulher clone do mundo. Estavam fadados a iniciar uma nova era, com corpo e sem alma. 





Apresentados, uniram-se e foram infelizes para sempre!





É isto aí!











A coisa clônica

Raimundinho mentiu para a esposa dizendo que ia trabalhar naquele sábado. Mentiu também para a amante afirmando que necessitava fazer uma viagem urgente de negócios. Mentiu para o gerente da sua seção ao alegar que precisava muito daquele dia para resolver questões familiares muito graves.

Mentiu para o porteiro, para o mala do vizinho, mentiu até para a sua secretária. Mentiu para sua sobrinha mais velha, mentiu para o cunhado (indiferente), mentiu para o motorista do táxi e finalmente, na sua contabilidade de limites da mentira, mentiu até para a sua cunhada gostosa (um misto de cunhada, ex-namorada, amante ocasional, confidente e melhor amiga).

Dez pessoas era um limite razoável, já previamente combinado - olha, eu vou fazer o que estão pedindo, mas preciso contar umas mentirinhas por aí. Negociou daqui, especulou dali, até que teve a autorização de escolher dez pessoas. Na realidade só queria mesmo era contar tudo para a cunhada gostosa, mas já que não podia, estendeu aos outros a mentira. 

Saiu de casa cedo, entrou no ônibus, desceu três estações antes do ponto, chamou um táxi que o deixou não muito longe do seu destino, mas o suficiente para não servir de testemunha, pois tudo que não queria eram testemunhas. Andou cerca de trinta minutos até chegar ao destino. Entrou naquela casa em silêncio e ali ficou aguardando novas orientações.

No domingo cedo dois homens e uma mulher o acordaram, esperaram se vestir, tomar um café e partiram juntos para a Convenção Mundial dos Clones. Raimundinho era uma criação de laboratório desenvolvido para ser o primeiro clone humano. Na convenção iria conhecer Marinalva, a primeira mulher clone do mundo. Estavam fadados a iniciar uma nova era, com corpo e sem alma. 

Apresentados, uniram-se e foram infelizes para sempre!

É isto aí!





Amor, ódio, vírgulas e invencionices

Sabe o que mais odeio? Perguntou a moça em tom agudo.

Não, nem imagino, respondeu o rapaz em suave e retumbante grave.

Eu odeio o Natal!

Sério? O Natal? Logo o Natal?! Puxa vida, eu sou indiferente, mas daí a odiar a distância é longa.

Longa? Aquela festa família, com as tias chatas, as primas gordas e ricas e meu presente chinfrim sendo menosprezada por todo mundo?

Bem, é uma questão de ponto de vista. Parece que você só detesta a reunião de família nesta data, mas não seu real significado. Vai que para seus pais os presentes e a família eram o melhor que poderiam te dar?

Meu pai? Meu pai??? Meu pai o caralho... acho que nem minha mãe tem muita certeza de que ele é meu pai.

Bem, tem mais alguma coisa que você odeia?

Tem, eu odeio o pré natal.

Pré-natal, aquelas filas nas lojas, os embrulhos, a curiosidade, o tumulto nas ruas?

Nossa, como você é burro! Nada disto. Odeio saber que existe a gravidez. Daí o pré-natal, o enxoval, aquele ratinho mexendo as patinhas na barriga da gente...

Mas você é uma menina e meninas tem o corpo preparado para a geração de um novo ser vivo.

Iiiiihhhh!! Vai dar sermão agora? Do tipo que diz que meninas são para casar e meninos para cruzar?

Não é nada disto, deixa prá lá.

Sabe lá o que é ter uma filha, e sempre achar que fizeram mal negócio, pois queriam um menino? Pois é, estes são meus pais. 

Credo, deixe de ser assim. Você se julga uma menina-monstro?

Seu bobo, lógico que não, não sou nenhuma aberração também, hem... Por exemplo, eu detesto carnaval também. Aquela coisa mais sem sentido, aquele povo suado, se remexendo, rebolando, se avolumando, se encostando, credo, gosto não, mas não me aborrece tanto quanto as festas de Natal.

Eu até que gosto daquelas marchinhas lentas.

Marchinhas lentas? Estas até que eu gosto de ouvir também. Mas eu gostaria de inventar uma coisa diferente, destas que mudassem a humanidade... 

Se pudesse, o que inventaria para revolucionar o planeta?

Olha só, tenho uma ideia, e não peço royalties por ela, só peço um protótipo funcional grátis, mas desejo que haja alguém que invente um Filhometro

O que seria este Filhometro? 

Um Filhometro é nada mais, nada menos, que um medidor de filha-da-putice. Puro e duro, é basicamente um aparelho que detecta o quão filho-da-puta uma pessoa é.

Menina, que coisa interessante. Vou aprofundar neste experimento.

* A Teoria do Filhómetro deriva deste blog abaixo, que li, gostei e achei que cabia neste texto que estava há muito no rascunho esperando uma ideia que o concluísse: 

terça-feira, 14 de julho de 2015

O abismo dos caminhos cruzados.






Abismo - Edmilson Costa


Santo Deus, murmurou Ditinha, nua, suada e esbaforida sobre um desconfortável colchão mole daquele motel barato. Beijou-o gostosamente e deram-se em pele, pelos e poros.





Você é um sonho se compondo no meu corpo, é um anjo me revelando a vida, um presente dos céus sugando meus seios, disse acariciando um enebriado Olavinho Cambraia, desconhecido até a hora que o destino os uniu naquela tarde.





Estava no ponto de ônibus e uma chuva repentina despedaçou o céu sem controle ou aviso. Não tinha para onde correr e viu um homem desesperado, preso ao cinto de segurança do carro que navegava na avenida. Foi ao seu encontro, salvou-o e pronto - os olhares se perpetuaram. Sem perceber, fugindo do temporal, entraram no velho hotel de frente para a quase fatalidade.





Olavinho era rico, casado, monogâmico convicto, empresário bem sucedido, conhecia o mundo, falava três idiomas além da língua pátria e tinha uma tristeza no olhar a perder de vista. Ditinha era uma mulatinha pobre, casada, que procurava emprego naquela tarde. No calor dos abraços, beijaram-se, aqueceram-se, entrelaçaram-se até a exaustão.





Amanheceram agarrados sem desejarem se largar. Foi então que ele deu por conta de que estava sem carteira, sem celular e sem noção de onde se encontrava. Ela o puxou sem pudor, beijou-o sem pressa e o prendeu entre suas coxas. Nunca traíra o marido em dezessete anos de casamento e agora estava ali, apaixonadamente vadia. Depois de intensas horas de volúpia total, tirou da bolsa o dinheiro do aluguel, pediram a conta, pagou e foram enfrentar cada um o seu destino. 





No calor da paixão, não se preocuparam como nomes, endereços, contatos, nada... Em suas percepções de felicidade, confiaram no destino.





Olavinho buscou-a incessantemente por anos a fio e ela, uma mulata cada vez mais triste, conflitou-se pelo pecado, pela traição, pelo desejo, pelos solavancos e depredações que alucinam o corpo, a mente e a alma, amou-o em verdade o máximo que conseguiu, mas por pouco tempo, quando por não ter mais forças de entender os caminhos cruzados da vida, optou por um atalho que desse fim àquela agonia. 





É isto aí!


O abismo dos caminhos cruzados.

Abismo - Edmilson Costa
Santo Deus, murmurou Ditinha, nua, suada e esbaforida sobre um desconfortável colchão mole daquele motel barato. Beijou-o gostosamente e deram-se em pele, pelos e poros.

Você é um sonho se compondo no meu corpo, é um anjo me revelando a vida, um presente dos céus sugando meus seios, disse acariciando um enebriado Olavinho Cambraia, desconhecido até a hora que o destino os uniu naquela tarde.

Estava no ponto de ônibus e uma chuva repentina despedaçou o céu sem controle ou aviso. Não tinha para onde correr e viu um homem desesperado, preso ao cinto de segurança do carro que navegava na avenida. Foi ao seu encontro, salvou-o e pronto - os olhares se perpetuaram. Sem perceber, fugindo do temporal, entraram no velho hotel de frente para a quase fatalidade.

Olavinho era rico, casado, monogâmico convicto, empresário bem sucedido, conhecia o mundo, falava três idiomas além da língua pátria e tinha uma tristeza no olhar a perder de vista. Ditinha era uma mulatinha pobre, casada, que procurava emprego naquela tarde. No calor dos abraços, beijaram-se, aqueceram-se, entrelaçaram-se até a exaustão.

Amanheceram agarrados sem desejarem se largar. Foi então que ele deu por conta de que estava sem carteira, sem celular e sem noção de onde se encontrava. Ela o puxou sem pudor, beijou-o sem pressa e o prendeu entre suas coxas. Nunca traíra o marido em dezessete anos de casamento e agora estava ali, apaixonadamente vadia. Depois de intensas horas de volúpia total, tirou da bolsa o dinheiro do aluguel, pediram a conta, pagou e foram enfrentar cada um o seu destino. 

No calor da paixão, não se preocuparam como nomes, endereços, contatos, nada... Em suas percepções de felicidade, confiaram no destino.

Olavinho buscou-a incessantemente por anos a fio e ela, uma mulata cada vez mais triste, conflitou-se pelo pecado, pela traição, pelo desejo, pelos solavancos e depredações que alucinam o corpo, a mente e a alma, amou-o em verdade o máximo que conseguiu, mas por pouco tempo, quando por não ter mais forças de entender os caminhos cruzados da vida, optou por um atalho que desse fim àquela agonia. 

É isto aí!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Templo Piramidal Salvífico Intergaláctico

Como escolhido e ungido pela proclamação universal do poder central divino e maravilhoso, declaro a manifestação celestial dos quatorze artigos da lei da nossa existência:

1 - Eu sou o único pastor ungido pelas milícia celestial dos sete reinos. Tudo que toco vira objeto sagrado. Por isto determino profeticamente em revelação cósmica:
A - Bebam apenas a água engarrafada que é entregue pelas missionárias do Templo, pois dela se banha este corpo tocado pelas mãos maviosas. Diante da entrega o fiel deverá promover uma manifestação de auxílio ao Templo.
B - Usem somente os lenços ungidos pelo suor da minha pele santificada, entregues pelas Virgens Vestais. Diante da entrega o fiel deverá promover uma manifestação de auxílio ao Templo.

2 - Minha casta esposa é agora também esposa sagrada do Templo. Eu a entrego em sacrifício como prova da minha lealdade ao mestre da integridade humana.
Por isto determino profeticamente em revelação cósmica:
A - Que todos os homens do Templo entreguem suas esposas à fidelidade do Templo. Dela o Templo fará uso pelo bom nome e exemplo da salvação do povo escolhido.
Diante da entrega o fiel deverá promover uma manifestação de auxílio ao Templo.

3 - Eu sou o Templo
Por isto determino profeticamente em revelação cósmica:
Tudo sou eu, tudo é meu e todos são meus. Entreguem o que há de melhor de suas vidas e além disto repassem dois salários integrais anuais ao templo, por que assim está escrito.

E é só!

Mas, senhor, não eram quatorze códigos sagrados?

Como se atreve a dirigir-me a palavra desta forma, infiel? Acaso sois vós o ungido? 
Não, Mestre. 

Acaso, sois vós o Templo Piramidal? 
Não, Mestre.

Acaso sois vós o operador salvífico?
Não, Mestre, sabes que não.

Acaso sois vós o interlocutor intergaláctico?
Claro que não, Mestre...

Então, por causa de pessoas como você, que ferem a nossa Fé com a sua ignomínia, os céus me proibiram de manifestar os próximos Códigos, mas poderá esta ordem ser revertida se os fiéis promoverem manifestações voluntárias e significativas de valores que toquem os céus. 

Glória, Templo?

Glória, Mestre!!!! 

É isto aí!


O Analista da Pitangueira e o Mal de Plasvinstki

Love in an Elevator 
Sabe, doutor, estou me sentindo como uma das coisas mais estranhas e bizarras que poderia supor existirem. Meus batimentos cardíacos estão descontroladamente acelerados, acompanhados por uma sudorese intensa, seguida por falta de apetite e insônia.

Fale mais sobre isto...

Ando agitado, impaciente, irritado, nervoso, e com um sorriso ridículo na face. Além disto, quando entro no elevador, me sinto andando nas nuvens.

Elevador... nuvens... interessante. Prossiga!

Assim que desço das nuvens, trafego agitado pelo ambiente de trabalho, mas ao retornar ao elevador e deparar com aquela moça ruiva da qual sequer sabia o nome e desconhecia sua existência até poucos dias atrás é meu bálsamo e delírio. Meu conflito, e a minha dor.

Entendo. E como se deu este fato? Consegue explicar como tudo começou?

Bem, tudo começou quando, ao chegar atrasado ao serviço, o elevador estava fechando as portas. Uma mão feminina interrompeu o processo, permitindo que entrasse. Bastou um agradecimento e um bom dia no ambiente lotado. Então ocorreu um olhar de cumplicidade para aquela musa estonteante e um suave toque involuntário das nossas mãos. Naquele mesmo instante ela entrou nos meus intermitentes pensamentos, nos sonhos, nas fotos, nas vitrines, nos rostos anônimos das moças nas ruas, esquinas, bares e clubes. Frequentou cada célula da minha existência, invadiu minh'alma de forma cândida e ao mesmo tempo abrupta. É grave, doutor?

Bem, até aqui parece um caso clássico de Plasvinstki.

Pla... o que? Isto é mortal?

Não, é apenas uma coisa ainda a ser definida, daí um nome indefinido. Bem, e como ela era?

Ela era linda, perfeita, maravilhosa, fantástica, exuberante, charmosa, elegante, gostosa, enfim, era a minha vida exposta em uma face feminina. Ela era a diva do meu destino. No segundo dia, estava lá, com o mesmo sorriso e mais linda do que a versão anterior.  Ao terceiro dia dos sintomas agudos do desejo invasivo, tomei coragem, comprei uma dúzia de rosas rosas, uma caixa de bombons finos, e caminhei para o altar da comunhão dos sentimentos.

Altar da Comunhão dos Sentimentos? Interessante isto... prossiga!

Cheguei propositadamente atrasado, para encontrá-la num elevador vazio. Por alguma razão acreditava que ela estaria lá. E estava. Ela é quem abriu a porta, afastando-as com suas mãos de seda. Avancei sobre seu corpo e amamos entre o térreo e o quarto andar, sem escrúpulos ou privações.

Sei. Prossiga.

Então, a partir daí nos entregávamos em frenesi todos os dias até que numa manhã cheguei, não vi suas mãos abrindo as portas e tudo estava vazio, e nunca mais a vi. Entrei em pânico. Fiquei dias sem coragem de trabalhar, sob os cuidados de mamãe.

Sua mãe... sei... prossiga.

Ao retornar à rotina, tomei a coragem de ter notícias da moça. Ninguém sabia dela, nem mesmo o RH, as outras colegas de trabalho, a recepcionista, nada. Não sabiam e nunca souberam que tal moça existiu. Não constava de nenhuma contratação ou estágio. O que o senhor acha, doutor?

Após ser acometido do Mal de Plasvinstki, esteve por dias longe da realidade, dentro de um conteúdo clássico de previsibilidade deste mal. E ai, como conseguiu superar esta dor? 

Esta é a parte estranha. Não consegui. Solicitei na segurança o vídeo do dia que a conheci. Vi toda a cena de pessoas entrando no elevador, inclusive eu, e mais ninguém. No corredor do quarto andar, as câmeras nunca flagraram nenhuma mulher desconhecida, ou parecida com a descrição que dei.

Entendo, e quando se recuperou, retornou ao trabalho ou continuou fugindo?

Pois é, doutor, foi tudo muito sinistro. Eu, de fato, quis fugir para o além, mas meu chefe esteve lá em casa, conversou comigo, com mamãe e convenceu-me a voltar. Aí, doutor, logo cedo, ao entrar no elevador, no primeiro dia do meu retorno, bastou um bom dia perfumado acompanhado por  um olhar de cumplicidade e um sutil toque das mãos, com esta ruiva deslumbrante da qual falei no começo da nossa sessão, para iniciar todo aquele sentimento perdido. O que será isto, doutor?

Agora você tem com certeza, o que nós denominamos como de Mal de Tcharovska, uma coisa oportunista pós-Plasvinstki, ainda a ser definida, daí um nome indefinido...vamos falar da sua mãe...

É isto aí!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Anjos e fadas

http://www.celesteprize.com/artwork/ido:258419/
Ela tinha a adolescência, ele experimentava a puberdade. Eram vizinhos desde o ventre das mães, nascidas ali mesmo e vizinhas desde sempre. Certa tarde de inverno foram flagrados nus dentro do carro do pai dela. Foi expulso aos tapas e ela ficou reclusa por dias sem fim.

Os pais tornaram-se inimigos, os filhos ficaram impedidos de se encontrarem, se tocarem, se avistarem e se falarem. Ao pai, o rapaz havia jurado inocência, estavam apenas querendo sentir o calor do corpo de um no outro, só isto, nada mais além disto, afirmou. As mães comunicavam-se secretamente por códigos de infância, e apoiavam os filhos.

Numa manhã daquele inverno hostil fugiram para a casa da avó dela, já previamente comunicada, residente numa área rural afastada uns trinta quilômetros da cidade. Fugiram de bicicleta, sem nada além dos sonhos. A avó os abraçou, beijou e abençoou-os sem pressa. 

De noite aproximou-se do quarto da neta e deparou com os dois nus, deitados na cama. Na manhã seguinte puxou a neta para o curral e foi direta ao assunto - menina, vocês estão tendo relações sexuais sem proteção? No que a resposta veio cândida e explícita - vó, olha bem, se o problema fosse este, estava tudo resolvido, por que é tudo que eu quero, mas ele ainda não sabe nem tem a menor noção sobre o que fazer depois que tira a roupa...

É isto aí!

sábado, 4 de julho de 2015

Manual para falar com um depressivo sem tratá-lo como imbecil.

Alto lá, este texto não é meu - copiei e colei:

Fonte Original: http://depressaodrepre.blogspot.com.br/2011/02/manual-para-amigos-e-familiares-que.html


Manual para falar com um depressivo sem tratá-lo como imbecil.

Existe tanto preconceito quanto ignorância no que refere à depressão. Tantas idéias idiotas disseminadas por aí, na TV, nos livros de auto-ajuda e até nos consultórios de terapeutas. E as pessoas se aproximam de quem está deprimido repetindo baboseiras de auto-ajuda, atitudes e outras mais, sem nenhum respeito pela dor da pessoa que está doente. DOENTE. Não está burra, preguiçosa, sem vontade de melhorar...
Antes de falar com alguém deprimido considere isso:

1-Eu estou deprimido, mas não fiquei burro.

É evidente que ser positivo diante da vida ajuda, é maravilhoso e tudo mais. Mas você acha que eu já não pensei nisso sozinho? Você realmente acha que eu sou burro a esse ponto? Claro que eu já pensei. E também já tentei, com todas as forças do mundo ser positivo, ter uma atitude positiva. Mas é IMPOSSÍVEL no meio de uma depressão. IMPOSSÍVEL.
O que vc, amigo, acha? Que eu vou dizer: "Cara, eu nunca tinha pensado nisso, ainda bem que você me falou... Claro, é só ter uma atitude positiva e tudo está resolvido. Como você é esperto!!!"
Não trate seu amigo deprimido como um idiota. Ele sabe que ser positivo ajuda, e ele já tentou modificar os próprios pensamentos. Provavelmente ele está vivo falando com você por que - todos os dias - combate os pensamentos de suicídio que invadem sua mente.

2-Você não é especial, ok?

Usar a si mesmo como exemplo para seu amigo deprimido é patético e de um egocentrismo atroz. "Olha, você tem que fazer como eu, tem que ser positivo, alegre, batalhador, tem que querer, precisa ter vontade..."

O que você acharia, se você estivesse com as pernas imobilizadas, sentado numa cadeira de rodas, e eu dissesse:

"Amigo, você tem que andar. Olha como eu faço, fico em pé, coloco uma perna na frente da outra e vou andando. É fácil, mas você tem que querer."

Você acharia que estou sendo cruel com uma pessoa que está INCAPACITADA de andar? Você acharia que estou sendo um filho da puta, não é mesmo?

Pois é isso mesmo: você está sendo um filho da puta com seu amigo deprimido. Respeite-o. Ele está deprimido e não está achando legal passar por isso. E certamente ele tenta com muito esforço, a todo o momento, transformar o mar de pensamentos negativos que invade sua cabeça em pensamentos bons, positividade, otimismo, bom humor. Mas ele está "na cadeira de rodas", não adianta achar que vai sair andando por milagre. Tem que ver o que há de errado, procurar um especialista, tratar as causas, se medicar e ter paciência.

3- Paciência

Remédios anti-depressivos demoram para fazer efeito. Em geral de 2 a 6 semanas. Isso quando fazem efeito. Muitas vezes eles até pioram a depressão. Aí você tem que trocar de medicamento, esperar fazer efeito. Torcer para que dessa vez o raio do remédio funcione, torcer para não ter efeitos colaterais. É torturante para quem está desesperado por alívio esperar por todo esse tempo, passar por todas as tentativas e erros que fazem parte do tratamento psiquiátrico. É chato, é demorado, é frustrante. Não é um passe de mágica como as pessoas pensam: começa a tomar o antidepressivo hoje, duas semanas depois está saltitando de felicidade.

Não torne as coisas piores. Não fique aí perguntando: está melhor? Está melhor? Está melhor? Não adianta pressionar, a pessoa não vai melhorar só porque você está cobrando isso insistentemente. Ao contrário, ela vai se isolar, porque não tem coisa pior do que ter que passar por esse tipo de cobrança o tempo todo.

4- Depressão é uma bosta!

Tenha certeza, seu amigo odeia estar deprimido. Ele gostaria de estar feliz da vida, cheio de energia, cheio de vontade de viver. E ele certamente tenta, todos os dias, ficar assim, mas não consegue. Por que na depressão você se perde de você mesmo. Você se sente dominado, invadido por pensamentos ruins. E eles são mais fortes do que você. E é ruim, muito ruim. Ninguém que está deprimido está gostando disso. Acredite em mim, a depressão maior, aquela depressão forte mesmo, é uma das coisas mais horríveis que uma pessoa pode sentir. Não é a toa que muitas delas preferem morrer a seguir sentindo isso.

5- Pare de cagar regras!

Não tem coisa mais irritante do que uma pessoa olhar pra você, e dizer: você TEM que pensar assim, você TEM que agir assado, você TEM que querer melhorar, você TEM que pensar coisas boas, você TEM que gostar de viver... Ou aqueles que vem com conselhos espirituais, do alto de sua superioridade cheia de luz, dizem: você precisa cultivar energias boas, você tem que buscar a luz, a fé... Ou ainda os que são especialistas em tudo: psicanálise é uma perda de tempo, não faça. Terapia, se não resolver em seis meses não resolve mais. Você tem que aumentar a dose desse remédio. Posso falar por todos os depressivos do mundo: cale a sua boca, não fale merda e não venha cagar regras sobre um assunto que você desconhece.

6- Pergunte-se

Antes de dar lição de moral no seu amigo pergunte-se: Eu acredito que depressão é uma doença? Se a resposta for: "Não acredito muito, acho que se a pessoa quiser messsssmo, ela vence a depressão." ou "Depressão é frescura." ou ainda "Ele está mal porque não faz nada pra melhorar" é melhor ir ler um livro, pesquisar na internet, lavar a louça, fazer tricô. Faça qualquer coisa, mas deixe seu amigo em paz. Depressão é uma doença tão real quanto câncer, se você não acredita nisso, melhor nem falar com um deprimido, porque você só vai falar bobagem. E pior, você vai ser escroto com alguém que está doente. Não é legal, né?

7- Deixe ele falar em Suicídio

Isso mesmo. Deixe ele falar, escute e se não souber o que dizer não diga nada, abrace. Entenda que a mente de um depressivo é um pântano assustador nos momentos de crise e que ele pensa um monte de coisas horrorosas. Mas quando ele fala sobre isso dá um alívio, ajuda e, sobretudo, permite que as pessoas saibam como estão esses pensamentos na cabeça dele. Até para ajudarem se for preciso. Muitas vezes a gente fica sabendo de alguém que se suicidou e todos são pegos de surpresa. "Nossa, nunca imaginei que ele pudesse fazer isso, ele nunca deu nenhum sinal..." Pois é, sei que é difícil ouvir que alguém que você gosta está pensando em se matar, mas essa é a única maneira de estar atento e poder ajudar.

8- Não faça terapia de choque

Sabe aquela amigo que chega pra ajudar o amigo que está deprimido e resolve dizer todas as verdades na cara? Eu sei que a intenção pode ser ajudar, mas não vai... Não vai ajudar, não é assim que funciona... A mente de um depressivo em crise vai ouvir tudo que você disser e transformar isso em mais e mais motivos para se sentir um lixo e ficar ainda mais deprimido. Não é uma "sacudida" dessas que vai fazer alguma diferença.

É isto aí!