Memórias esquisitas do dia que morri
Cheguei atrasado ao meu velório e, pelo que ouvi, perdi cenas imperdíveis de olhares atravessados, fidelidades e infidelidades em disputa de território, B.O. e outras coisas mais. Tentei explicar para a titular do ministério conjugal, mas sua face em estilo britânico de arrogância denunciava que era melhor ficar calado.
Poucas pessoas, o que de certa forma me confortou, pois sempre odiei tumultos e multidões. Veio a Gelinha — na realidade o nome dela era Jacira, mas parecia um gelo chupado. Um dia a chamei de Gelinha, ela sorriu e perguntou o porquê daquilo, e eu:
— Ora, ora, ora, Jacira, você é Gelinha só para mim e para mais ninguém. E por isso, por ser só minha Gelinha, não vá sair por aí declarando nosso segredo.
Bem, ela contou o segredo do nome, mas guardou consigo o segredo do nosso tórrido romance.
Veio o Juca Franco; sinceramente, um chato de galocha. Nunca gostei desse cara, e agora o vejo e a viúva em entreolhares táticos. E não é que o filho da puta se aproximou e colocou a mão na nuca dela? Eu sabia... eu sabia.
Também estavam a Dentinha, a Bolinha e a Feinha, três irmãs do carcamano do italiano da padaria, que foram aos poucos me levando para o depósito de farinha, onde acabei me revelando um grande entendedor de massas e folheados. Italianinhas das mais doidas que já conheci.
Agora aquele filho de uma puta do Juca Franco saiu para o quarto de repouso e fez um sinal discreto com a cabeça para a vaca da viúva. Mas veja só, nem o velório serve mais como lugar de respeito! Tentei entrar no ambiente e dar logo uma porrada no sujeito, mas um cara enorme, de asas, me barrou. No que tocou a mão direita no meu ombro esquerdo, voei para uma sala estranha.
Era uma enorme e silenciosa sala. Pensa num silêncio total. Era aquilo. O sujeito de asas ficou encostado num canto, atrás de mim, com os braços cruzados, sem olhar para lugar algum, e eu fiquei ali. A sala era ovalada, sabe? O teto era alto, o piso de pedra, não tinha bancos, não tinha luz, mas era clara — uma claridade meio penumbra, meio luz.
Aí, do nada, surgiu uma cadeira e uma mesinha, então o alado me puxou para sentar. Um homem sem asas entrou sem tocar os pés no chão e me entregou um formulário imenso. Gente, tinha umas duas mil questões abertas! Olhei para o sujeito, olhei para aquela enciclopédia de perguntas e fiz três questionamentos. Só três. Na realidade tinha uns dez para fazer, mas só deu tempo de três bem rapidinhos. E puxa vida, quando você não sabe o que falar diante de um cenário desconhecido, só fala bobagem e sempre vai dar merda.
— Posso ir ao banheiro?
— É de consulta?
— Vai liberar o gabarito?
Gente, o sujeito me olhou com uma fúria bem lá no fundo do fundo, e só ouvi aquele barulho maluco, meio chiado, meio lascado... e caí aqui, no meio do velório. Vi um tanto de olhares curiosos e rostos desconfiados e então meu corpo foi virando no caixão, acho que em convulsão, e fui pulando ao encontro do filho de uma puta do Juca Franco. Aí o filho de uma puta morreu de susto. Como eu suspeitava, era uma coisinha fraca o fresco do filho de uma puta do Juca Franco...
.jpg)

.jpg)






.jpg)
