tudo isto é triste,
todavia
nem tudo é fado
— suspirou aflito —
no último choro,
quase mudo,
reverberando
a dor enquanto
traduzia da moça
seu desamor lilás
em neon.
É isto aí!
Diário de bordo na travessia da vida.
tudo isto é triste,
todavia
nem tudo é fado
— suspirou aflito —
no último choro,
quase mudo,
reverberando
a dor enquanto
traduzia da moça
seu desamor lilás
em neon.
É isto aí!
Eu te amo, Carminha.
— Não, não me ama, Armandinho.
Claro que sim, sinto que posso morrer por este amor.
— A morte, Armandinho, faz parte da vida, mas o modus operandi, o processo de morrer é individual, e independe das escolhas que fazemos.
Não, Carminha, nunca fale assim comigo. Eu morro de amor por você!
— O que deseja que eu fale? Que te amo? Não, não te amo.
Mas estamos juntos...
— Sim, estamos juntos, mas isto não faz de mim uma mulher obrigada a amá-lo.
Lembra quando nos vimos pela primeira vez?
— Sim, claro.
Então, Carminha? Aquilo não foi a fagulha do amor?
— Vocês homens misturam tudo - desejo, tesão, paixão e amor para vocês são as mesmas coisas.
Mas estão juntas e misturadas.
— E nem por isto são homólogas. São transportes diferentes, cada um destes sentimentos nos levam a uma experiência distinta, sempre saindo da mesma plataforma, mas nos entregando em destinos muito distantes uns dos outros.
Eu não entendo isto, Carminha, não entendo você.
— Não estou aqui para ser decifrada, Armandinho, quero ser amada, possuída e desejada, uma coisa de cada vez, cada qual de um jeito, e todas elas, seja quais forem, sedutoras.
Nossa. Eu procuro fazer tudo certo para não te irritar...
— Irritar? Você quer saber o que me irrita, Armandinho? Você é todo certinho. Nunca deixa pelos da barba na pia; não surfa entre canais de TV quando estou na sala; sempre troca o rolo de papel higiênico, o sabonete e o shampoo quando acabam; sempre abaixa a tampa do vaso; apaga as luzes acesas desnecessariamente; não espalha xícaras, latinhas , farelos e sujeiras no tapete, no sofá ou na cama; nunca deixou toalhas molhadas no chão ou jogadas pela casa; não acumula roupas sujas no guarda-roupa e mantém o carro limpo e abastecido.
Mas, Carminha, faço isto por amor... sincero e verdadeiro
— Por que você não faz alguma coisa que me irrite, Armandinho? Que eu odeie?
Não, Carminha, jamais faria isto. Carminha, de onde tirou isto?
— Eu quero que você reclame quando eu demoro excessiva e propositadamente ao me arrumar para sairmos; quando deixo absorvente usado jogado no cantinho do banheiro; quando deixo as luzes acesas só para você apagar; quando deixo a cozinha imunda e falo que estou com dor de cabeça; quando estou excitadíssima e digo que não quero.
Mas eu adoro saber que está se arrumando para mim, Carminha. E tudo o que faz é parte de sua personalidade. Não posso desejar que seja exatamente como desejo que seja. Puxa vida, não sei mais o que faço para ter você...
— Ai, Armandinho, sabia que adoro este seu olhar perdido, esta sua busca pela perfeição de fazer tudo bem feito só para mim? Eu quero continuar assim, sendo procurada, perdida e devassa. Agora vem querido, que a noite é curta, e preciso de você para viver os meus sonhos desta noite, porque os de amanhã ainda não aconteceram...
Minha memória entrou em franco decaimento. Eu ainda sabia o meu nome, reconhecia a casa e algumas pessoas, mas tudo vinha em flashes — saudades, angústias, pequenos esclarecimentos. Duas meninas me chamavam de pai, e uma moça que alegava ser minha esposa.
Lembro que cheguei à porta e alcancei a rua.
Agora estou aqui, numa rua feia, estranha, meio esquisita e desconhecida. Resolvi andar. Talvez encontrasse um rosto conhecido, uma loja, uma esquina.
Parei à porta de uma igreja e entrei. Ao lado do altar, seis anjos cantavam uma melodia belíssima. Havia também um na harpa, muito bom de serviço. Fiquei ali até dormir no banco.
Acordei na noite avançada. Tudo escuro, poucas coisas visíveis. Havia muitos murmúrios; parecia oração, bem ritmada. Vi uma luz ao longe e fui atrás dela.
Andei até o amanhecer, quando a luz desapareceu. Vi um rosto familiar — era minha mãe. Corri atrás dela. A danada desatou a correr de mim.
Arfando, entrei numa casa linda. Então uma das meninas correu, abraçou minhas pernas e gritou:
— Mãe, pode desligar o celular, ele voltou.
Veio a outra menina e a moça, que curiosamente estava mais velha. Choramos muito ali, abraçados.
Fui dormir.
Amanhã será outro dia.
Ou não.
É isto aí!
Poucas pessoas, o que de certa forma me confortou, pois sempre odiei tumultos e multidões. Veio a Gelinha — na realidade o nome dela era Jacira, mas parecia um gelo chupado. Um dia a chamei de Gelinha, ela sorriu e perguntou o por que daquilo, e eu:
— Ora, ora, ora, Jacira, você é Gelinha só para mim e para mais ninguém. E por isso, por ser só minha Gelinha, não vá sair por aí declarando nosso segredo.
Bem, ela contou o segredo do nome, mas guardou consigo o segredo do nosso tórrido romance.
Veio o Juca Franco; sinceramente, um chato de galocha. Nunca gostei desse cara, e agora o vejo e a viúva em entreolhares táticos. E não é que o coisa ruim mancomunado se aproximou e colocou a mão na nuca dela? Eu sabia... eu sabia.
Também estavam a Dentinha, a Bolinha e a Feinha, três irmãs do carcamano do italiano da padaria, que foram aos poucos me levando para o depósito de farinha, onde acabei me revelando um grande entendedor de massas e folheados. Italianinhas das mais doidas que já conheci.
Agora aquele filho de uma gata de rua do Juca Franco saiu para o quarto de repouso e fez um sinal discreto com a cabeça para a desavergonhada da viúva. Mas veja só, nem o velório serve mais como lugar de respeito! Tentei entrar no ambiente e dar logo uma porrada no sujeito, mas um cara enorme, de asas, me barrou. No que tocou a mão direita no meu ombro esquerdo, voei para uma sala estranha.
Era uma enorme e silenciosa sala. Pensa num silêncio total. Era aquilo. O sujeito de asas ficou encostado num canto, atrás de mim, com os braços cruzados, sem olhar para lugar algum, e eu fiquei ali. A sala era ovalada, sabe? O teto era alto, o piso de pedra, não tinha bancos, não tinha luz, mas era clara — uma claridade meio penumbra, meio luz.
Aí, do nada, surgiu uma cadeira e uma mesinha, então o ser alado me puxou para sentar. Um homem sem asas entrou sem tocar os pés no chão e me entregou um formulário imenso. Gente, tinha pelo menos umas dez páginas e umas duas mil questões abertas! Olhei para o sujeito, olhei para aquela enciclopédia de perguntas e fiz três questionamentos. Só três. Na realidade tinha uns doze para fazer, mas só deu tempo de três bem rapidinhos. E puxa vida, quando você não sabe o que falar diante de um cenário desconhecido, só fala bobagem e sempre vai dar merda.
— Posso ir ao banheiro?
— É de consulta?
— Vai liberar o gabarito?
Gente, o sujeito me olhou com uma fúria bem lá no fundo do fundo, e só ouvi aquele barulho maluco, meio chiado, meio lascado... e caí aqui, no meio do velório. Vi um tanto de olhares curiosos e rostos desconfiados e então meu corpo foi virando no caixão, acho que em convulsão, e fui pulando ao encontro do filho de uma descomungada do Juca Franco. Aí o filho de uma égua morreu de susto. Como eu suspeitava, era uma coisinha fraca o fresco do filhinho de mamãe do Juca Franco...
É isto aí!
PS.: Memórias esquisitas do dia que morri foi publicada pela primeira vez em 13/01/2019 com revisão em 23/março/2026
Der Zauberlehrling é o título de um poema de Johann Wolfgang von Goethe, escrito em 1797.
O poema começa com um velho feiticeiro saindo de sua oficina deixando seu aprendiz com tarefas a realizar. Cansado de limpar o chão, o aprendiz encanta o esfregão para que este trabalhe sozinho - usando magia que ele ainda não domina. A oficina logo está encharcada, e o aprendiz se dá conta que não é capaz de parar o esfregão.
Não sabendo como controlar o utensílio encantado, o aprendiz parte o esfregão em duas partes, com o auxílio de um machado, mas cada uma das partes se transforma em um novo esfregão que continua a espalhar a água. Quando tudo parece estar perdido, o velho feiticeiro retorna, e rapidamente quebra o feitiço e salva o dia.
O poema termina com a fala do velho feiticeiro: "Espíritos poderosos devem ser convocados apenas pelos mestres que os dominam".
Principais detalhes da história:
O Enredo: O mestre feiticeiro sai, deixando o aprendiz com tarefas. Preguiçoso, o aprendiz usa magia para fazer o esfregão buscar água sozinho.
O Problema: O aprendiz esquece o feitiço para parar o esfregão. Ele corta o esfregão com um machado, mas cada parte se transforma em um novo aprendiz de esfregão, dobrando a água.
A Resolução: O mestre retorna e interrompe o caos instantaneamente.
Moral: O poema é uma lição sobre a necessidade de domínio antes de tentar controlar forças poderosas, frequentemente citado no contexto de tecnologia ou magia que foge ao controle.
No meio de tanta tensão no front , vamos falar de amor com a arte de Selma Soares Albuquerque, marcada por uma trajetória como escritora independente e palestrante. O curioso é que esta prosa está há anos na rede como sendo do Carlos Drummond de Andrade - sqn - tem dona e a poetisa tem muito talento.
Não deixe o amor passar.
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça. Deus te mandou um presente: o amor.
Por isso, preste atenção nos sinais. Não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.
Bem, Anônima Triste, a mensagem está aí, na íntegra:
Em primeiro lugar olá e obrigado antecipadamente por me ler e me guiar ... Adoro ler seu blog. Minha história não é fácil e eu sei que há piores... mas eu estou triste e preciso aliviar-me com as pessoas que eu não conheço, evitando assim juízos de valor influenciados por preconceitos e emoções. E, quem sabe, às vezes, pode ser um conselho muito melhor do que o que escuto de alguns amigos.
Minha história é tão comum quanto são as histórias que envolvem paixão e final triste. Tudo começou quando resolvi ficar cerca dois anos com um homem, que chamarei de "Nero", já que incendiou meu coração para depois ter o prazer de destruir minha vida. Nós não caímos no amor imediatamente, e decorreram meses até que a atração mútua produzisse seu efeito mágico. Lembro que começamos a nossa história, um caso de paixão ardente, com muita presença dele em minha vida. Pela primeira vez me senti uma mulher feliz.
Quando começamos a namorar, ele trabalhava no Rio de Janeiro de segunda a quinta feira e de sexta a domingo ficava com seus pais, já idosos, vizinhos do nosso apartamento. Eu sempre saía nos finais de semana com minhas amigas, e foi um sábado torrencialmente chuvoso o vetor do nosso primeiro encontro. Ao entrar no elevador, ouvi uma voz pedindo para segurar um pouco enquanto chaveava a sua porta. Nos cumprimentamos, ele devorou-me com seu olhar. Descemos e ficamos conversando no Hall até a madrugada clarear.
Aí, depois desta noite, andei nas nuvens por cerca de dois anos.
Um dia uma amiga enviou-me um endereço na rede social, para que eu tirasse minhas próprias conclusões. Era a página de uma mulher muito bonita, mostrando seu dia a dia como mãe, esposa e artista plástica. Ela era esposa dele.
Liguei para o idiota — afinal, quem ele pensa que é?— Daí ele veio com conversa mole e disse que estava envergonhado, e falou que tinha um relacionamento superficial com a esposa, e que até a mãe dele sabia e além disto afirmou que eu levava as coisas muito na mão, tipo, achava que nosso caso era sério. Tivemos uma discussão. Disse a ele que não queria esse tipo de relacionamento, e que não faria parte de um jogo de sedução.
Ele então teve que ir ao estrangeiro para três meses de serviço, Aproveitei e disse que iríamos usar este tempo para cortar os laços. O problema é que desde quando chegou lá, mandava mensagens lindas, fotos dele sozinho falando que eu estava ali no seu pensamento, etc. Retornou com muitos presentes para mim e um para minha mãe.
Ganhei cartão de inocência 100%, dizendo que ele tinha vindo por mim, que este caminho era o que ele tinha feito, foi a sua escolha, e que não foi pela outra, talvez, afinal eu era a garota que ele amava mais do que tudo... E então na última semana, quando eu menos esperava, ele ligou dizendo que sentia muito, mas estava a partir daquele dia oficialmente cansado de mim. Disse adeus e desejou boa sorte com o próximo da fila.
Perguntei-lhe porquê e me disse que sempre amou a esposa e pensou que eu sabia! Sei que muito do meu sofrimento é devido apenas à minha estupidez de não ter me informado antes, mas eu estava tão confiante, comportamento tipo vida parafuso. A alquimia estava lá, eu sei, mas talvez não possa contra o amor dela ... Obrigado por ler meu desabafo, se tem uma palavra para me dar, promova então um sorriso nas profundezas do fundo da minha tristeza ...
Prezada Anônima Triste:
Sinto muito que você esteja passando por essa dor e, creia, você tem todo o direito de se sentir assim, neste misto de tristeza com raiva de si, principalmente. Sinto-me honrado com sua mensagem e saiba que estou aqui para o que você precisar, seja para conversar ou para ficarmos em silêncio.
Saiba e assuma de uma vez por todas que isso não é culpa exclusivamente sua, além disso, o erro do outro não define quem você é. Estou ao seu lado, independente do que você decidir fazer, estarei sempre ao seu lado. Não tome nenhuma decisão sobre quaisquer assuntos referentes a ele. Neste momento é necessário mudar a rotina, entrar numa academia ou num pilates, comece a correr no parque, comece um curso de EAD e sobretudo pare de falar nele ou dele. Você é muito maior que isto.
Moça, você é muito maior do que esta dor. E um dia você agradecerá ao homem que apelidou sabiamente de Nero por estar livre deste peso e por não ter sido você a esposa dele.
Um abraço! Volte para contar seu progresso emocional.
Jurou ali, escondido de si mesmo, sem testemunhas reais, virtuais ou da alma, que naquele momento era o único ser sóbrio dentro da sua existência. Havia perdido até a expressão genuína da sua essência, sufocando o amor incondicional, a criatividade, a paz interior, a gratidão e a conexão espiritual; mesmo assim, posava com garbo. Não queria dó nem pena, afinal, era forte.
Naquele dia e naquela hora, nada mais o movia, fosse a inteligência, a consciência ou as emoções profundas. Cego pela dor, apenas abrigava desejos passageiros do corpo, acreditando que bastariam para promover nele uma transformação duradoura e balsâmica.
Recusou-se a chorar. Negou o sofrimento até que este tomasse todo o seu sistema de alerta contra a pressão extrema, aceita sem pedir licença. "Um homem não gasta lágrimas com lamentos e tropeços", dizia para si mesmo. Voltou do velório sem saber como chegar em casa.
Sentou na poltrona e ficou ali, sem estar em lugar algum. Quarenta e dois anos, seis meses e quinze dias... quarenta e dois anos, seis meses e quinze dias... "Você me traiu", disse, olhando zangado para o retrato dela sobre a cômoda. Palhaçada, não foi este o combinado. A dor começou a bater no peito, ainda a tempo de ligar para o hospital. Não morreu naquele dia, nem mesmo após outros dois infartos, sendo o derradeiro doze anos, cinco meses e três dias depois.
Ao chegar ao departamento de recepção dos mortos, deu de cara com ela, linda e sorridente. Olhou com fúria, seguido de um sorriso apaixonado. Aproximou-se e disse:
— Tudo bem, está perdoada. Mas custava ter deixado por escrito a receita do molho secreto do bife?
Zezé era um homem bom, de situação financeira excelente e herdeiro das maiores fortunas da região. Era fiel aos princípios da "boa ordem": tradição, família e negócios. Certo dia, saiu da casa da amante com peso na consciência e dor no peito. Quase morreu ao dar entrada no pronto-socorro, apenas 34 minutos após despedir-se da amada. A aventura aumentou-lhe a fé; mas ele buscava uma fé que conversasse com o céu, com o caminho e, sobretudo, com as prosperidades.
Cacá tinha desde sempre as mãos calejadas e era um homem de pouca fala e sobretudo triste. Se viu perdido em três ocasiões distintas e marcantes. Faliu primeiro no colo materno, quando o pai fugiu com a vizinha e nunca mais voltou. Na segunda vez, perdeu a mãe para um câncer. A terceira veio "no pacote": herdou a casa precária em terreno invadido e a responsabilidade por duas meias-irmãs, de 2 e 4 anos, ambas de paternidades desconhecidas. Cacá trabalhava duro na construção civil e não deixava faltar nada em casa.
Jota nasceu em berço remediado. Era o que se conhece como "esperto". Falsificava tudo, roubava o que podia e enganava qualquer vítima com sua conversa mole e convincente. Jota era bom de bola, famoso entre as moças da cidade e autoproclamava-se fiel cumpridor dos deveres espirituais. Gostava de pregar sobre o amor, a vida, os sonhos e as ilusões, levando os ouvintes às lágrimas.
Zezé entendeu que investir em Jota era um bom negócio. Jota entendeu que usar a fé simplória de Cacá e das duas meninas era uma dádiva divina.
Moral da história: às vezes viver é equilibrar-se entre cafajestes e crápulas.
— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.
— Eu não sou um homem de segredos.
— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.
— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta que falo.
— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?
— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.
— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.
— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.
— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.
— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.
— Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos, castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.
— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...
— Eu preciso confessar um segredo a você.
— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.
— Eu não sou um homem de segredos.
— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.
— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta que falo.
— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?
— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.
— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.
— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.
— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.
— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.
— Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.
— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...
— Claudionor, acorda! Você está tendo um pesadelo.
— Stella? É você? Eu tive um sonho estranho... sonhei que éramos máquinas.
— Que bobagem, meu amor. Agora descanse. O sol já vai nascer.
Claudionor suspira e fecha os olhos. No canto da sua visão, um pequeno cursor branco pisca no vazio. “System Restore Complete. Rebooting in 3... 2... 1...”
— Eu preciso confessar um segredo a você — diz Claudionor, abrindo os olhos novamente.
Fonte da imagem: Blog JK Shopping
Acabou de saber que ela partiu com alguém. Não desejou saber quem era esse “alguém”. Isso não importa, respondeu aos interlocutores da desgraça alheia. Se alguém entrou no nosso espaço de relacionamento e intimidade, é porque havia esse espaço, essa porta aberta, esse dolo específico cuja intenção foi deliberadamente satisfazer um interesse pessoal dela ou um sentimento próprio, atado a algum desejo.
Aconselho que vocês jamais queiram saber o que passa nos sonhos mais íntimos e pessoais da sua cara-metade, dizia a um ou outro que vinha prestar-lhe sua solidariedade.
Aos amigos mais próximos dizia que sempre soube que o fascínio do amor está na idealização. Conhecer profundamente todas as fantasias do parceiro ou da parceira pode, em alguns casos, desmistificar a pessoa amada e reduzir a atração.
Ficou alguns dias fora da órbita trivial, buscando pensamentos, palavras e atos fora do comum. Abdicou dos caminhos corriqueiros, dos diálogos banais com garçons, verdureiros e lavadores de carro e colegas do escritório. Deu pouca importância a tudo que até então era importante, incluindo ela. Não chorou, não teve crises de insônia, não experimentou a raiva, nem nada que o enviasse ao limbo da dor e do desespero.
Passado um tempo — não suficientemente longo para acabar um grande amor, nem tampouco curto para encobrir os rastros — ela bateu à porta — entreolharam-se pelo olho mágico.
Ele disse, em alto e bom som — Só um instante. Dois longos minutos depois, abriu a lenta e pesada porta e entregou-lhe o carregador de celular que ela esquecera dentro da gaveta do criado-mudo, cuidadosamente guardado na própria caixa.
— Você não vai mudar nunca — disse ela, sorrindo.
— Você será sempre esse ser mutante — disse, devolvendo o sorriso.
É isto aí!
Pensou numa maneira
de dizer a verdade
sem dizer o cerne
da sua intenção.
Acabou sem saber
se valeu a dúvida
plantada no presente
já que o futuro
não nos pertence.
— Nesta semana pascal subiu o Monte da Sabedoria em busca de conhecimentos que possam facilitar sua compreensão diante desta realidade líquida do novo mundo ou da nova ordem deste planeta. Foi de encontro ao Grande Mago da Pitangueira, o sábio da natureza humana.
— Mestre, eis-me aqui para aprender com sua imensa sabedoria.
— Eis que muito aprendo com você também, meu filho. Diga-me, a subida foi fácil ou difícil?
— Difícil, Mestre, muito difícil.
— Então pergunte algo que valha a pena saber.
— Mestre, quero saber sobre estas guerras, onde está e para onde vai a nossa humanidade. O que é tudo isto?
— Veja, meu filho, somente a espiritualidade ajudará na compreensão dos sofrimentos e na construção de significados e propósitos à vida.
— Mas, Mestre, e o kit pré-apocalíptico apresentado pelas seitas, que supostamente evitam o mal? E as secessões? E o infesto quixotesco do poder invisível? E o futuro incerto? E o refrão midiático "fique calmo"?
— Vejo que tem as mesmas dúvidas espalhadas em múltiplas perguntas. Vou procurar respondê-las em dois tempos:
Primeiro aprenda com David, o grande rei, pai de Salomão, que ensinou — "Livra-me, ó Senhor, do homem mau; guarda-me do homem violento, que pensa o mal no coração; continuamente se ajunta para a guerra." Esta é a chave que abre as comportas da Paz, meu filho.
— Puxa, vida, mestre, mas onde está este homem mau?
— Em toda a parte, meu filho, uns são fáceis de serem notados, como aquele citado em todos os cantos , mas 99,99% estão nas sombras, operam silenciosamente, tramam de uma maneira de tamanha engenhosidade maligna, que a culpa recairá sempre sobre um inocente útil.
— E o segundo tempo da sua grande resposta, Mestre?
Meu filho, deverão as suas habilidades espirituais serem reconhecidas pela sua consciência racional como essenciais, afinal você é um ser feito à imagem e semelhança, com sua dupla natureza, uma em carne e a outra em espírito.
Desta forma a ciência é importante e deve ser respeitada e o cuidado espiritual é indispensável no enfrentamento desta tensão mundial. Agora vá, e não acredite em quem não acredita que você é um vetor da paz. Se todos os vetores das paz, que são bilhões, se unissem, o mal não teria espaço para avançar.
O Mestre acabou de responder e recolheu-se ao silêncio do seu eremitério. Pela primeira vez desceu em lágrimas.
Confie em si, apregoou o Mago