sábado, 14 de março de 2026

Cartas de Amor 118 / Epistulae Amoris CXVIII



Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Cartas de Amor 118   /   Epistulae Amoris CXVIII

Querida, o que poderia ter sido dito antes?

Já explico. Calma, meu bem! Existem muitas maneiras de olhar o mundo, mas a que nos identifica — um como coisa e pertencimento do outro — é única. Como já falei com você em cartas anteriores, o amor é uma construção de sentidos, que pode oscilar entre a busca racional pela virtude e a irracionalidade da paixão.

Sim, sei que estamos cada um náufrago das suas próprias escolhas. Estamos em lugares diferentes, com pessoas diferentes. Ainda assim, somos iguais neste ágape que representa o amor que não busca a própria vantagem, mas o benefício de um dentro do outro.. Assim seguimos em terras distantes, pessoas diferentes e o amor único, abraçando-nos com tal carinho que nossos desejos preservados nos sonhos nunca se apagam.

Não há culpados, nem estamos nos acusando pela posição geográfica antagônica que escolhemos como caminho único da vida de cada um. Isso não importa mais quando se contempla o que não foi vivido plenamente, dentro de todo o amor que nos une.

Eu me lembro de você sem proferir seus detalhes: sua boca, seus olhos, sua pele. Enfim, há sempre ternura em sua existência dentro deste universo de neurônios que a mantém viva em mim. Envelheci — sério, pode rir — adoro ver você sorrindo. Como falava, envelheci, mas você é matéria atemporal do mais livre gostar. Sinto sua falta, sinto sua presença, sinto sua voz, sinto muito por termos navegado por mares distintos.

Querida, eu não sei falar — ou talvez, sei lá, pode até ser que sim —, mas eu preciso dizer que, apesar de tudo, sou mais você. Um cafuné no cabelo, um afago na face, um abraço apertado e um beijo apaixonado.

Do seu para todo sempre —
Eu.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Cartas de Amor 117 / Epistulae Amoris CXVII


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, você é um permanente estar em mim.

Escrevo esta carta num presente continuo porque nos despedimos num olhar súbito que em tese substitui o adeus e preserva para sempre nossas identidade. A última vez que nos vimos nesta dimensão, estávamos no hospital e nos despedimos no olhar.

Até hoje adoro ver seus olhinhos brilharem quando digo sobre você e sua existência em minha vida. Sorria mais vezes porque você tem este sorriso que me alucina pelo charme. Suas covinhas na face movimentam tantas outras ações reclamadas pelo amor, que até pela fotografia apaziguam a saudade.

A vida não me pediu licença para continuarmos em espaços físicos separados e metafísicos entrelaçados. Eu, por instinto de sobrevivência, aceitei o jogo. Meu bem, saiba que não há estática nem estatísticas nem ao menos o trauma; na sua ausência há o movimento contínuo de quem precisa lavar o rosto, atender o telefone, pagar as contas e reconhecer o próprio reflexo no espelho, mesmo que ele pareça um pouco mais triste hoje.

Entendi, finalmente, que a nossa ausência após o até breve não é um vazio que me falta, mas uma presença que agora me habita de outro modo. Recorro ao poeta Drummond, com quem aprendi que devo deixar de lastimar a 'falta' para entender que você se tornou um 'estar em mim'. Um estar complexo, feito de memórias doces da saudade , que não me impede de caminhar.

Preciso retomar quem eu sou ao seu lado, num ato de reintegração com a vida. Estou aprendendo a carregar esse novo dilema sem que ele me paralise. A vida corre lá fora, em cada esquina do mundo, e corre aqui dentro também. Vou em frente, não para fugir do que fomos, mas para levar comigo tudo o que restou de essencial, agora que a tempestade deu lugar à correnteza do tempo.




 

quinta-feira, 12 de março de 2026

O estranho caso de abdução


Chegou à empresa pontualmente às nove da manhã. O prédio estava lacrado pela Justiça. Abordado por um oficial, identificou-se e foi levado à delegacia para prestar esclarecimentos. Não entendia nada. Ficou tão desorientado pela situação ridícula que teve um ataque de risos. Pediu um advogado e surpreendeu-se com a prontidão da assistência.

Uma advogada que passava por ali apresentou-se imediatamente. Folheou as páginas de um suposto dossiê, entregou-lhe um cartão e garantiu que tudo ficaria bem. Em seguida, desapareceu. O delegado olhou para ele com desdém:

— Pediu um advogado e já foi atendido. Vai querer um chá gelado também? Agora fala tudo, conta o que eu quero ouvir e a gente acaba logo com este teatro. Vai, solta a garganta, doutor... conta tudo.
— Tudo o quê? O que vocês querem? Como assim? O que estou fazendo aqui? O que aconteceu com minha empresa?

O telefone tocou. O delegado atendeu e lançou lhe um olhar de ira profunda. Desligou e, apontando para a saída, ordenou:

— Saia daqui agora. Sai! Sai agora!

— Mas, mas... espera, me explique alguma coisa!

Dois agentes o carregaram até a porta e o jogaram na calçada. Enquanto se levantava, notou um homem de terno azul-marinho observando tudo do outro lado da rua, com uma indiferença que o incomodava. 

Ligou para os dois sócios: nada. Ligou para o amigo deputado: mandaram dizer que não estava. Ligou para o seu advogado: estava viajando. Parou um táxi e voltou para casa. A porta estava destrancada. Entrou e deparou com um bilhete preso ao sofá, escrito em letras garrafais com pincel atômico neon: 'ADEUS. NUNCA MAIS EU VOLTO'. No espelho da suíte, a frase 'Chega de escândalos' estava escrita com batom.

Pensou e repensou, até começar a perceber que algo o empurrava para um destino do qual, até então, se esquivara. Deitou-se; logo veio o sono e acordou em Bucareste. Cada vez que adormecia, despertava em um lugar diferente, até que um dia recebeu uma ligação de um número desconhecido. Ao atender, percebeu de relance, alguém no canto do salão. Daí foi imediatamente abduzido. Estou voltando para casa - gritou sorrindo. Nunca mais apareceu. 


É isto aí!

segunda-feira, 9 de março de 2026

A Chihuahua, a Samambaia de Renda Francesa e o Bulldog Francês


Jovita, a sensual e peralta chihuahua mexicana, começou a perceber micro-manias quase imperceptíveis de Voilà, um charmoso bulldog francês. Voilà andava estranho demais para aquilo ser um procedimento normal. Desconfiada, ela consultou sua BFF Tara, a tarântula vermelha mexicana, que de certa forma a acalmou.

Mesmo assim, Jovita prosseguiu mantendo os olhos passionais de forma clínica, aguçando o olfato e a audição, até que começou a reparar nas atitudes estranhas de Voilà, que surgiam sempre quando ele retornava do passeio à estufa onde a família humana cultivava plantas de todos os continentes.

A cachorrinha apaixonada combinou com Tara que seguiriam até a estufa em segredo para observar todos os possíveis eventos relacionados a Voilà e à sua estranha mudança de comportamento. Observaram que o bulldog francês ficava um bom tempo conversando com a antipática samambaia de renda francesa. Conversavam em francês, óbvio. Depois ele voltava diferente, com uns tiques, uns rosnados, sei lá… vai saber.

Alguns dias depois, ela percebeu que seu amado passou a contar as folhas da samambaia paulistinha, mais conhecida no meio da estufa como Jujuba, ex-vedete do teatro rebolado. Reza a lenda que Jujuba participou de duas novelas ao lado de um chorão que era mais que amigo (sic).

A jovem chihuahua mexicana passou a perceber que aquela contagem de folhas não passava de bolinagem descarada e ficou ainda mais atenta.

Um dia — e esse dia sempre chega — flagrou Voilà fazendo carinhos na renda francesa.

Ele que se dane.

Maldito bulldog francês que roubou meu coração com seu sotaque e o inenarrável biquinho característico. Bem que Tara me avisou, mas eu, boba, não quis acreditar.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Nem sempre a vida é um mar de rosas


Eram amigos desde a mais tenra infância 

Zezé era um homem bom, de situação financeira excelente e herdeiro das maiores fortunas da região. Era fiel aos princípios da "boa ordem": tradição, família e negócios. Certo dia, saiu da casa da amante com peso na consciência e dor no peito. Quase morreu ao dar entrada no pronto-socorro, apenas 34 minutos após despedir-se da amada. A aventura aumentou-lhe a fé; mas ele buscava uma fé que conversasse com o céu, com o caminho e, sobretudo, com as prosperidades.

Cacá tinha desde sempre as mãos calejadas e era um homem de pouca fala e sobretudo triste. Se viu perdido em três ocasiões distintas e marcantes. Faliu primeiro no colo materno, quando o pai fugiu com a vizinha e nunca mais voltou. Na segunda vez, perdeu a mãe para um câncer. A terceira veio "no pacote": herdou a casa precária em terreno invadido e a responsabilidade por duas meias-irmãs, de 2 e 4 anos, ambas de paternidades desconhecidas. Cacá trabalhava duro na construção civil e não deixava faltar nada em casa.

Jota nasceu em berço remediado. Era o que se conhece como "esperto". Falsificava tudo, roubava o que podia e enganava qualquer vítima com sua conversa mole e convincente. Jota era bom de bola, famoso entre as moças da cidade e autoproclamava-se fiel cumpridor dos deveres espirituais. Gostava de pregar sobre o amor, a vida, os sonhos e as ilusões, levando os ouvintes às lágrimas.

Zezé entendeu que investir em Jota era um bom negócio. Jota entendeu que usar a fé simplória de Cacá e das duas meninas era uma dádiva divina.

Moral da história: às vezes viver é equilibrar-se entre cafajestes e crápulas.



O Loop de Claudionor


— Eu preciso confessar um segredo a você.

— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.

— Eu não sou um homem de segredos.

— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.

— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta  que falo.

— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?

— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.

— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.

— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.

— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.

— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.

—  Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos, castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.

— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...

— Eu preciso confessar um segredo a você.

— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.

— Eu não sou um homem de segredos.

— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.

— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta  que falo.

— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?

— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.

— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.

— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.

— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.

— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.

—  Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.

— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...

— Claudionor, acorda! Você está tendo um pesadelo.

— Stella? É você? Eu tive um sonho estranho... sonhei que éramos máquinas.

— Que bobagem, meu amor. Agora descanse. O sol já vai nascer.

Claudionor suspira e fecha os olhos. No canto da sua visão, um pequeno cursor branco pisca no vazio. “System Restore Complete. Rebooting in 3... 2... 1...”

— Eu preciso confessar um segredo a você — diz Claudionor, abrindo os olhos novamente.


Fonte da imagem: Blog JK Shopping

quarta-feira, 4 de março de 2026

Atravessou a passarela e recuou no repinique

 


Acabou de saber que ela partiu com alguém. Não desejou saber quem era esse “alguém”. Isso não importa, respondeu aos interlocutores da desgraça alheia. Se alguém entrou no nosso espaço de relacionamento e intimidade, é porque havia esse espaço, essa porta aberta, esse dolo específico cuja intenção foi deliberadamente satisfazer um interesse pessoal dela ou um sentimento próprio, atado a algum desejo.

Aconselho que vocês jamais queiram saber o que passa nos sonhos mais íntimos e pessoais da sua cara-metade, dizia a um ou outro que vinha emprestar-lhe sua solidariedade.

Aos amigos mais próximos dizia que sempre soube que o fascínio do amor está na idealização. Conhecer profundamente todas as fantasias do parceiro ou da parceira pode, em alguns casos, desmistificar a pessoa amada e reduzir a atração.

Ficou alguns dias fora da órbita trivial, buscando pensamentos, palavras e atos fora do comum. Abdicou dos caminhos corriqueiros, dos diálogos banais com garçons, verdureiros e lavadores de carros e colegas do escritório. Deu pouca importância a tudo que até então era importante, incluindo ela. Não chorou, não teve crises de insônia, não experimentou a raiva, nem nada que o enviasse ao limbo da dor e do desespero.

Passado um tempo — não suficientemente longo para acabar um grande amor, nem tampouco curto para encobrir os rastros — ela bateu à porta — entreolharam-se pelo olho mágico. 

Ele disse, em alto e bom som — Só um instante. Dois longos minutos depois, abriu a lenta e pesada porta e entregou-lhe o carregador de celular que ela esquecera dentro da gaveta do criado-mudo, cuidadosamente guardado na própria caixa.

— Você não vai mudar nunca — disse ela, sorrindo.

— Você será sempre esse ser mutante — disse, devolvendo o sorriso.


É isto aí!

terça-feira, 3 de março de 2026

Namora comigo



tanto faz
ser estar
vácuo ar
ver tocar
ou sei lá 
estar ser
olha cá
menina
beija-la
abraçar
seu rol
de linda
e sutil
beleza
é tudo
querer

segunda-feira, 2 de março de 2026

Poema do dia que a gente se viu e nunca mais se reviu


Amor
Eu sei
porque
partimos
sem adeus
descendo os
degraus da dor
sem volver o sol
e sem dizer amor
amo olhar só você
olhando para mim  

O medo de dizer eu te amo


Pensou numa maneira 

de dizer a verdade 

sem dizer o cerne 

da sua intenção. 

Acabou sem saber

se valeu a dúvida

plantada no presente

já que o futuro 

não nos pertence.

domingo, 1 de março de 2026

O Mago da Pitangueira 2026 (Veneficus Pitangueira, anno MMXXVI)


— Nesta semana pascal subiu o Monte da Sabedoria em busca de conhecimentos que possam facilitar sua compreensão diante desta realidade líquida do novo mundo ou da nova ordem deste planeta. Foi de encontro ao Grande Mago da Pitangueira, o sábio da natureza humana.

— Mestre, eis-me aqui para aprender com sua imensa sabedoria.

— Eis que muito aprendo com você também, meu filho. Diga-me, a subida foi fácil ou difícil?

— Difícil, Mestre, muito difícil.

— Então pergunte algo que valha a pena saber.

— Mestre, quero saber sobre estas guerras, onde está e para onde vai a nossa humanidade. O que é tudo isto?

— Veja, meu filho, somente a espiritualidade ajudará na compreensão dos sofrimentos e na construção de significados e propósitos à vida. 

— Mas, Mestre, e o kit pré-apocalíptico apresentado pelas seitas, que supostamente evitam o mal? E as secessões? E o infesto quixotesco do poder invisível? E o futuro incerto? E o refrão midiático "fique calmo"?

— Vejo que tem as mesmas dúvidas espalhadas em múltiplas perguntas. Vou procurar respondê-las em dois tempos:

Primeiro aprenda com David, o grande rei, pai de Salomão, que ensinou — "Livra-me, ó Senhor, do homem mau; guarda-me do homem violento, que pensa o mal no coração; continuamente se ajunta para a guerra." Esta é a chave que abre as comportas da Paz, meu filho.

— Puxa, vida, mestre, mas onde está este homem mau?

— Em toda a parte, meu filho, uns são fáceis de serem notados, como aquele citado em todos os cantos , mas 99,99% estão nas sombras, operam silenciosamente, tramam de uma maneira de tamanha engenhosidade maligna, que a culpa recairá sempre sobre um inocente útil.

— E o segundo tempo da sua grande resposta, Mestre?

Meu filho, deverão as suas habilidades espirituais serem reconhecidas pela sua consciência racional como essenciais, afinal você é um ser feito à imagem e semelhança, com sua dupla natureza, uma em carne e a outra em espírito. 

Desta forma a ciência é importante e deve ser respeitada e o cuidado espiritual é indispensável no enfrentamento desta tensão mundial. Agora vá, e não acredite em quem não acredita que você é um vetor da paz. Se todos os vetores das paz, que são bilhões, se unissem, o mal não teria espaço para avançar.

O Mestre acabou de responder e recolheu-se ao silêncio do seu eremitério. Pela primeira vez desceu em lágrimas.

Confie em si, apregoou o Mago

Cartas de Amor 116 / Epistulae Amoris CXVI


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, ficar sem a sua presença real é a prova de que a vida perdeu o seu significado intrínseco. Não você e eu aqui e acolá, mas nós é que temos importância, significação por si próprios, independentemente da relação com outras coisas.

Calma, meu bem. Por favor, não chore — sei que essa sensação de que algo fundamental está faltando serve para ambos. Há ainda, preso aos quereres, este tédio navegado pela saudade, que não se resolve por si só. Sabe o que mais? Longe de você, permanentemente, falta o interesse por atividades que são prazerosas somente ao seu lado.

Partindo da premissa de que não basta entender este complexo vazio existencial que habita minha mente, busco uma atitude emocional que seja antagonista perfeita para sair da dor e encontrar as respostas. Não quero me estender por demais nesta carta, meu bem. Seus olhos encontraram os meus numa magnífica experiência onírica que há pouco findou.

Meu amor, voltemos logo à nossa existência única. Amanhã contarei como saudei a Rainha de Longínqua, um paraíso situado longe, muito, muito longe dos que não sabem o que é o amor.

Saudades! Um abraço, um beijo e um afago.


É isto aí!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Gracinha


Lindomar Dito estava noivo de Gracinha desde a primavera passada. Fez as contas, preparou as papeladas de ofício e fugiu com Mariana, uma menina que conhecera numa tarde chuvosa e fria. Gracinha deu de ombros. No fundo, no fundo, sofreu muito, mas não poderia demonstrar fraqueza. Cidade pequena, povo ferino e outras coisas mais.

Gracinha enamorou-se de Augusto Lento, um professor da rede pública, envolvido com causas sociais. Um dia, Augusto fez o trivial: pediu a mão da moça em casamento e, enquanto corriam os proclames, deu de arrastar asa para Sofia Loira, uma enrolada mocinha nos vieses da malvada comunidade local.

Gracinha jurou vingança, mas logo, logo seu coração foi tomado pelo apaixonante sentimento recíproco por Ari Matéria, um bom moço de andar elegante, palavras ditas com eloquência, gosto fino e saber erudito. Como era de costume, entraram com os proclames e o tempo — ora, o tempo voa quando estamos desligados dele.

Gracinha entrou linda na igrejinha. E nada do moço refinado desistir, fugir ou desaparecer.

Aquilo foi dando um embrulho nas entranhas da moça, foi cegando seus quereres um a um; foi sentindo a igrejinha transformar-se numa catedral, de tão longe estava do fim aquele sofrimento. Correu até a rua, entrou na charrete de Caquinho Gomes e sumiu na poeira da estrada, enquanto a Banda Municipal tocava músicas de casamento no Coreto da Praça.

É isto aí!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Casos da repartição



—Nome?

—Tenório Tiamu.

—Humm, entendo...

—Não é o que a senhora está pensando.

—Alto lá! Alto lá! Senhorita, meu bem — senhorita — se-nho-ri-ta.

—Desculpe, senhorita. Apenas deduzi por processos observacionais da minha profissão.

—Já que falou, qual é a sua profissão?

—Ficólogo.

—Para tudo! Mariinha, traz um chá calmante para mim. Fico, logo existo? É isto?

—Eu não disse isso, senhorita... Perdão, mas não sei o seu nome. Eu disse que sou ficólogo.

—E, antes de ser ficólogo, fazia o quê?

—Era chanfrador.

—Uau! Rapaz, você, com essa carinha lerda, vai longe, hein!?

—Mariinha, chama aí o Parreira e o Farias... Precisam ouvir isto.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eu, a sina e Fulaninha


Estou caminhando por um corredor imenso, ladeira acima, sem corrimão, sem tapete, sem lâmpadas — agora que reparei que está tudo claro, sem lâmpadas — e não tem janelas, mas há um ar leve, agradável a me envolver. Não sinto frio nem calor. Estou há horas subindo este caminho único e não sinto cansaço nem suor.

Eventualmente ouvia umas músicas estranhas, das quais nunca ouvi em vida — opa, tive um arrepio enorme agora. Será que morri? — Caramba, deve ser isto. Ou então estou sonhando, sei lá. Melhor seguir o fluxo. Cheguei a um descampado lindíssimo. Havia céu, rosas e flores de todas as cores e aspectos sobre um gramado absolutamente nivelado.

Abria os olhos e estava num ambiente hospitalar, fechava os olhos, voltava ao descampado. Aquilo estava me divertindo, já que não tinha muita coisa para fazer. De repente sinto uma forte cutucada na costela que dói muito. Fui me levantando bem devagar e sentei numa cadeira comum, nada de excepcional. Havia uma luz intensa à minha frente.

Fechei os olhos e me deparei com uma face conhecida. Era Fulaninha, o grande amor da minha vida. Chamei-a pelo nome e imediatamente dois gigantes de mais de dois metros entraram à minha frente e taparam a visão dos olhos fechados. Parece um paradoxo, mas era o que tinha. Resolvi retornar ao ambiente hospitalar - ouço vozes - "ele voltou, segura a pressão".

Alguém me chamou em voz alta e balançou meus ombros. "Se não houver resposta, ela está inconsciente", sussurrou uma mulher. Apertei levemente a mão que segurava a minha mão esquerda. "Ele está consciente!", gritou e então vieram as intermináveis compressões torácicas.

Fulaninha ficava aparecendo e desaparecendo no meu campo visual e uma voz sobrenatural, que transpassava minha existência e ecoava em várias dimensões, indagou-me sobre um silêncio total: "Houve compaixão demonstrada para com o próximo?"

Fulaninha ia e vinha, ia e vinha... meu corpo vagava num silêncio transformador. Compreendia tudo, desde o princípio até o agora e para sempre. Apertei com força a mão dela e voltei a sonhar. Estava de volta de não sei onde e agora devo cumprir minha sina.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Cartas de Amor 115


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, esta carta está repleta de abstrações.

Calma, meu bem. Olha a pressão, olha a maquiagem, olha as rugas de expressão e, sobretudo, olhe para mim. Pois saiba, minha flor, que a abstração é virtual, mas com efeitos muito reais, visto que é a capacidade que possuímos de pertencermos, mentalmente, um ao outro.

Vamos nos situar num gigantesco navio cruzeiro, em acomodações completas, pelo Atlântico, ignorando os mundos que nos separam e aqueles que nos afastam por diversas razões. Saiba, minha amada, que separar não é a mesma coisa que afastar. Separar é um processo de abstração — daí a validade das cartas de amor. É um ato cognitivo capaz de organizar o pensamento sem alterar a nossa integridade; afastar é apenas um ato físico.

Sendo assim, a arte de separar sem afastar nós dois vem da força da abstração, permitindo-nos navegar pela complexidade do mundo real e eterno que nos enlaça, sem precisar desmontar nossos castelos interiores para entendê-los.

Preciso dizer que não sei não amar você.

Tem dia que tudo o que a pessoa precisa é da outra pessoa: um cafuné na cabeça, um afago na face, um beijo apaixonado e um abraço apertado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A inveja é uma merda


Fonte da imagem: Filosofia do Bonsai

 Saiu pela porta dos fundos para não dar de cara com alguns cobradores. Isto tornou-se rotina quando, atendendo a um insistente pedido da sogra, assinou sua sentença de morte no sistema financeiro, avalizando o cunhado. Só se deu conta do rombo quando descobriu que o queridinho da família já havia levado todas as suas economias ao precipício.

Ao pressionar a sogra, obteve sempre a mesma resposta: de que não era a assinatura dela que constava nos avais. Até isto aprendeu — o plural de aval é avais, embora também se use avales e, mais raramente, avals. O importante é assinar, doando em vida todo o seu patrimônio ao estado de desgraça do próximo, agora blindado pela sua salvaguarda.

Levou dez anos para recuperar parte do que perdeu. E, depois desse tempo, pela primeira vez viajaram para uma praia badalada do Mediterrâneo, na Europa. Bebia um drink sem pressa quando viu o desaparecido cunhado passar com uma lindíssima mulher ao seu lado. Olhou para a esposa, deitada com o chapéu tampando o rosto; olhou para o irmão dela passando; olhou de novo para ela — e desabou a chorar.

A esposa se assustou com a cena, levantou-se e o abraçou sem entender nada. Foi se acalmando, até ficar quase normal. Não era raiva, não era ódio, não era nenhuma vontade de ato violento contra aquele homem. O que mais doía era a inveja que sentiu dele.

É isto aí!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Os estranhos fatos do outono

 

Acordei e era, sei lá, talvez três horas da manhã. Daí comecei a me sentir estranho. Levantei para achar o óculos e olhar no relógio que hora era esta que é três da madrugada e pelas frestas da cortina há um dia ensolarado lá fora. 

Dei uma puxadinha na cortina e confirmei a suspeita de que era dia e logo após  descobri que eram quinze horas. Aquilo levantou uma suspeita de que tinha perdido o bonde e a jornada de trabalho. — fiquei muito confuso — Como pode eu, uma pessoa comum, retroceder no tempo?

Chamei fulana, mas ela não respondeu e nem os fulaninhos estavam em casa. Eram quinze horas de ontem, segundo me revelou o celular. Sentei-me para entender o que se passava. 

Lembro que olhei o relógio antes de adormecer num sono pesado. Enquanto lutava para não dormir, passou pela mente que poderia ser uma enorme vantagem para jogar a mega sena acumulada.

Tudo ainda rodava e foi parando bem devagar até perceber que estava numa casa centenária. Só então reparei que não conhecia a casa onde acordei.   Com as vistas embaçadas, vi desfocada uma mulher, suavemente perfumada, com uma fisionomia familiar, cuja presença me dava paz, enquanto segurava minha mão. Olhou para mim e beijou levemente meus lábios. Olhou novamente e perguntou:

 — Meu amor, você sabe onde estamos? O que está acontecendo?

Agora sabia quem era, e respondi: Não sei o que está acontecendo, mas você é o amor da minha vida. Deve ser que ganhamos algum presente do céu. Eu também te amo!

Olhei no fundo da existência dela, tocando sua pele sedosa, e disse —  ter você aqui, ao meu lado, é uma coisa tão linda, que desejo ser eterna. Nunca mais vamos ... girou tudo à minha volta e acordei confuso, onde não tenho a menor ideia do que seja — parecia um hotel no alto de uma serra  Voltei a dormir, e aí  o despertador tocou às cinco e cinquenta.  Estava em casa. 

Fui tomar banho para ficar um pouco  sozinho. Ao vestir a calça, tinha um cartão dela no bolso — volte logo, você também é o amor da minha vida!

É isto aí!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Chapeuzinho Vermelho ao pé da Pitangueira




Todo final de dia, ao anoitecer, a mãe contava contos de fadas para as crianças. Naquele dia, o pai tomava placidamente sua cerveja diante da TV ligada no futebol, sem volume, com o rádio no ouvido para não perder nada do jogo.

— Era uma vez uma linda menininha que morava com a mãe perto do bosque.

— Mamãe, o que é um bosque? — perguntou a filha de seis anos.

— Mãe, cadê eu nessa história? — reclamou o filho de dez.

— Silêncio! — ordenou o pai, na primeira cerveja.

— Chapeuzinho ganhou esse apelido por causa do casaquinho vermelho com capuz.

— Mamãe, o que é capuz?

— Isso é bullying — disse o filho.

— Silêncio — repetiu o pai.

— Um dia, a mãe preparou deliciosos docinhos para a vovó e os colocou numa cestinha.

— Amanhã você faz docinhos para mim? — pediu a filha.

— Essa menina vai ficar gorda — comentou o filho.

— Na trave… silêncio! — gritou o pai, já na segunda cerveja.

— A mãe disse: “Sim, querida, mas hoje preciso que você leve estes doces para a vovó. Não pare pelo caminho e não fale com estranhos”.

— Está bem, mamãe! Eu adoro a vovó!

— E pra mim não guardou nada? — resmungou o filho.

— Olha o silêncio — insistiu o pai.

— Ao penetrar no bosque, a menina encontrou um lobo.

— Onde vai, menina? — perguntou o lobo.

— Mamãe, estou com medo…

— Que menina boba, é só uma história — disse o filho.

— Ladrão! — esbravejou o pai, na terceira cerveja.

— Minha avozinha está doente — respondeu Chapeuzinho — e estou levando doces para ela.

— Coitada da sua avó — disse o lobo. — Leve também estas flores.

— Eu amo a vovó! — suspirou a filha.

O lobo correu até a casa da vovó. Imitou a voz da neta, entrou no quarto e engoliu a velha.

— Mamãe, estou com medo…

— Que conversa é essa de comer a vovó? — protestou o filho.

— Acaba logo esse jogo! — reclamou o pai.

Chapeuzinho chegou, viu a porta aberta e entrou. Encontrou o lobo na cama.

— Nossa, vovó, como você está estranha… olhos grandes, orelhas imensas, boca enorme…

— Será que ela não viu que era o lobo? — perguntou a filha.

— Essa Chapeuzinho é idiota — decretou o filho.

— Que pelada feia… — murmurou o pai, abrindo a quarta cerveja.

Chapeuzinho saiu correndo e encontrou um lenhador, que gostava muito da vovó. Ele foi até a casa, salvou a velha e expulsou o lobo.

— Viva! Bem feito para o lobo! — comemorou a filha.

— A vovó é muito boba — disse o filho.

— Mete o pau! — gritava o pai.

— Agora vamos dormir — disse a mãe. — Quem sabe sonharemos com a Chapeuzinho. Boa noite.

A filha sonhou que era Chapeuzinho, assustada.
O filho sonhou que namorava Chapeuzinho.
O pai dormiu no sofá e sonhou com o lobo fazendo gol.
A mãe foi deitar e sonhou ser uma Chapeuzinho adulta, esperando o lobo.

É isto aí!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A Moça da Pitangueira



Este blog corre o sério risco de se tornar um correspondente sentimental. O blogueiro não tem esse dom, mas vamos lá: segue uma mensagem anônima… É provável que as sugestões propostas não tenham dado muito certo, mas nestes tempos de desamor, palavras de consolo sempre caem bem. Vamos à mensagem:

- Prezado senhor do blog Ao Pé da Pitangueira. Sempre leio suas cartas de amor. Elas me fazem sonhar! 

Mas dia destes, estava em casa — como sempre — triste, chorosa, fitando o pé de pitanga que meu pai plantou quando eu era criança, como se ainda me observasse dali. Lembro até hoje da festa que fiz por causa daquela mudinha pequenina, que ele dizia que seria uma das minhas maiores alegrias para sempre

Meu pai não está mais aqui. Saiu de casa tempos depois daquele dia e desapareceu. Desde então cuidei da pitangueira na esperança de que ele voltasse e visse que eu cumpri com a minha palavra. Perdão, senhor, eu juro que não queria falar do meu pai e acabei falando, talvez por causa do nome do seu blog.

Ocorre que estou perdidamente apaixonada por um homem mais velho que eu, tenho 25 anos e ele 42, e para piorar, ele é casado, e como se não bastasse, é casado com a minha prima.

Se você soubesse o quanto estou sofrendo… Choro muito por ele, esperando que um dia seja só meu. Temos nos encontrado às escondidas. Na hora é tudo gostoso, mas quando ele me deixa sozinha, um buraco se abre no chão e eu desapareço dentro dele.

Entre as tantas coisas que me fazem sofrer está a vontade de fazê-lo feliz para sempre. O problema que cerca meus pensamentos quando me deito sozinha é que acho ou desconfio que ele não quer ficar só comigo. E isso me causa uma dor profunda.

Preciso tomar uma decisão, mas quero ouvir o que o senhor acha: 

— Estou quase determinada a revelar meu amor ao mundo, postar nossas fotos nas redes sociais , mas tenho medo de perdê-lo para sempre, apesar da convicção de que aquela mulher o diminui, o ignora e o trata mal. 

Só eu sei como faze-lo feliz. Aquela idiota que o humilha, que tanto o ignorou no passado, que o trata tão mal, só o mantém sob ameaça por causa das crianças.

E o amo tanto, só eu sei amá-lo, mas seus olhos, ah, seus olhos dividem e cortam meu coração e eu o amo tanto, mesmo sabendo que eu sou invisível para ele nas festas de família. Me ajuda, me ensina a fazê-lo ser meu. Por favor.

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Prezada moça da Pitangueira, não farei rodeios, nem serei aquele que  incidirá o maior segundo erro da sua vida. Eis o que aconselho: 

Saia fora, mude de cidade, mude de estado, mude de país. Você está entrando em uma roubada sem limitação de profundidade. 

Esqueça este sujeito, corte o pé de pitanga do quintal, arranque a raiz, ponha fogo em todas os galhos, fique longe da sua prima, vá caçar serviço, vá lavar roupa no tanque. Se isto ainda não resolver, comece a correr nas ruas do seu bairro durante 60 minutos todo dia.

Vá na igreja - qualquer igreja, vá às baladas, vá a um núcleo espiritual - qualquer um, tome um porre de vez em quando, queime todos os livros de romance barato da sua prateleira, aprenda aramaico e grego.

Pare, mas pare mesmo, em caráter de urgência, de assistir doramas. Enfim, tome outra atitude. Arrume uma nova ocupação, faça um curso qualquer, arrume uma turma, arrume um emprego. Vai cuidar da sua vida! E arrume um namorado solteiro, da sua idade e sem juízo.

Espero ter ajudado. Se precisar de mais conselhos, disponha.

É isto aí!