quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cartas de Amor 114


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
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Nota de apresentação

Esta não é uma carta de conciliação.
Também não é um relato, nem um pedido, nem um ajuste de contas.

É um texto escrito a partir de um limite — quando o amor permanece, mas já não tem poder de impedir o caos, nem de reorganizar o mundo como antes. Não há aqui tentativa de justificar acontecimentos, muito menos de romantizá-los. O que se oferece é apenas o registro de uma experiência extrema, narrada com a única honestidade possível naquele instante.

Algumas cartas nascem para aproximar.
Outras, como esta, nascem para não mentir.
Que a leitura seja feita com calma.
E, se necessário, com silêncio.
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Querida, o amor não acaba por decreto.

O amor não se acaba às três horas da manhã, num ato repentino de agressividade impulsiva, desproporcional à situação. Até o presente momento não sei quem seria a mulher. A única certeza que tenho é que não parecia você. 

O amor não acaba quando os vizinhos chamam, com razão, a polícia. Eu ainda não tinha a menor ideia de quem seria a mulher, se é que existe uma explicação lógica sob seu frágil corpo. Nunca vi algo sequer parecido. É inenarrável.

O amor não acaba com eletrônicos destruídos, cortinas e moveis cortados e vidros pelo chão. Passou uma tempestade violenta por dentro do apartamento, atormentando todo o prédio.

O amor não acaba quando, num ataque de fúria com força desproporcional ao seu tamanho e peso, de posse de um objeto na mão avançou contra os representantes da segurança pública. O amor não tem como intervir num lance de segundos, para protegê-la e mostrar quanto você é frágil.

O amor não acaba na delegacia, pagando fiança de perturbação do silêncio. Não acaba ali. É apenas parte do processo. Neste momento, frente à autoridade, você lançou dois olhares para mim emblemáticos, um olhar de pedido de socorro e a mulher que desconheço, cortou-me os pensamentos com um olhar de ódio.

O amor não acaba no hospital para tratar dos seus ferimentos  e sedar sua fúria. Nem na conversa com o psiquiatra e a psicóloga. Não acaba quando seus pais foram ao hospital, me abraçaram e pediram, com abraço forte e lágrimas nos olhos  para eu continuar a minha vida. 

O amor não acaba com você me expulsando da sua existência. Isto não faz sentido. Tentei conversar e negociar a paz entre nós, mas vez em quando a mulher olha para mim. Confesso que bate uma sensação ruim.

Eu amo você. Esta carta é para dizer que sinto uma profunda e perturbadora dor. Hoje eu não estou perdido, estou juntando os cacos para seguir adiante. 




Cartas de Amor 113


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Saiba, minha amada, que um pedido de perdão será sempre uma tentativa de justificar a você o injusticável, uma vez que minhas ações e decisões não podem ser explicados à luz da realidade binária. Nunca serei capaz de defender-me ou justificar-me de maneira satisfatória,
onde estarei quase sempre carecendo de fundamentação moral, lógica ou legal. Sei que do seu ponto de vista meus erros exigem desculpas documentadas, já que referem-se a atos indefensáveis, imperdoáveis ou infundados, cuja razão válida é sempre existente.

Não é fácil escrever-lhe esta carta sem os fundamentos que criaram os pilares do nosso grande amor equilibrando-me feito um malabarista na tênue corda cujo equilíbrio dá-se entre a minha percepção da verdade e a sua posição diante de uma possível não verdade.

Antes de você existir como meu grande amor, andei pelos desertos das emoções, perambulei sobre o enigma do Não como benesse e do Sim quanto Mácula. Guardei comigo o que a vida me ensinou às duras penas: "às vezes, o amor pede razão. Outras, pede um bom álibi." O que estou vendo aqui são duas pessoas adultas, centradas, que se amam pedindo razão para o inefável.

Não posso pedir perdão, e que esta carta guarde este testemunho por toda nossa jornada, porque além de não ter errado, não conseguirei paz para outra vez enfrenta-la neste tribunal de princípios,


Você foi, é e será para sempre o meu amor.

Cartas de Amor 112

 


Cartas de Amor 112
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, não sou poeta, somos o que somos!

Foi com esta frase que amanheci o dia. Não sei ser o tradutor deste sentimento que tanto nos envolve. Há no meu entorno carnal e sobretudo no etéreo esta certeza do nosso entrelaçamento sem amarras. Não somos postos de vigília um do outro; somos o que somos, dois corpos numa só personalidade, num só pertencimento e na mesma candura.

Tantas forem as palavras que se aproximam deste evento, quer seja nas nossas experiências diretas de união com o divino, quer seja nos processos de contemplação profunda, sempre fortalecerão as graças de um pelo outro, com carinho e dedicação natural ao nosso legado.

Querida, hoje atravessamos o deserto com muita resiliência. Já passamos os períodos mais áridos da vida — embora dolorosos — que foram necessários para nos conduzir a este  novo lugar, interno ou externo. Sinto sua falta, sinto muito, sinto tudo, queria que esta carta chegasse a você com coisas alegres e belas, pois saiba que em determinado momento, sobre determinada duna, avistaremos um ao outro e retornaremos nosso caminho natural

A sua ausência evoca tanto sofrimento quanto esperança, lembrando que, no silêncio e na aridez, muitas vezes escutei sua voz, profunda e terna a dar sentido aos nossos caminhos. 

Afinal, de onde vem tanto amor?

Não sei, sinceramente não sei

mas desejo que nunca pare de vir.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Cartas de Amor 111


Cartas de Amor 110

Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, vamos falar de desamor.

Sei que assusta falarmos de tema tão indigesto como este que proponho enquanto o tempo vai paulatinamente me desapegando desta existência. Poderíamos rodear a beleza do Ágape, este amor incondicional e altruísta. Mas este amor é você, nunca tive dúvida, nunca imaginei ou cogitei sequer a menor possibilidade de não sermos uma única harmonia.

Quantos sonhos sonhamos acordados na varanda da sala, vendo o dia amanhecer só para admirarmos o quão lindo era aquele espetáculo da estrela tocando nossa atmosfera e explodindo em luz. Adorava ver sua entrega ao novo dia. Sempre linda, ali, ao meu lado.

Hoje trago comigo dias mais curtos e noites mais longas. Ainda aprecio as teias da aranhas. Acho fantástica a trama que tecem, com os orvalhos da manhã  a provocar ali naquele pequeno planeta Teia o espectro da luz inabalável. Um da haveremos de nos reencontrar como nos encontramos a primeira vez, dois adolescentes com coragem e com medo de amar e ser livre para ser um do outro.

Querida, quando a vida é preenchida por estes pilares, o desamor é só uma palavra no dicionário, nem cabe o desconforto de dar-lhe palco.

Não sei o dia de amanhã, talvez bilhões de neutrinos ainda passem pelo meu corpo, talvez eu vá com eles até o insofismável infinito. Se por acaso não estivermos mais aqui amanhã, que esta carta seja nossa declaração de amor eterna.

É isto aí!


Cartas de Amor 110



Cartas de Amor 110
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, este é a nosso pacto com a Eternidade

Querida, há em mim uma solidão cósmica sem você ao meu lado nesta tarde de chuvas torrenciais. Penso em Adão, recentemente expulso do Jardim do Paraíso diante de uma enorme tempestade, ocorrendo de uma forma estranha, com aquele material fluido a dançando ao léu dos ventos, por todas as direções, os trovões, os raios e a desorientação.

As primeiras gotas seriam uma curiosidade. Mas conforme o céu escurecesse, o vento aumentasse e as primeiras cortinas de água descessem, viria uma sensação de impotência absoluta. Era uma água que não surgia pacificamente da terra, mas atacava do céu. Para eles, esse céu era agora a morada de um Deus distante e, em seu imaginário, possivelmente irado, e ao fim o arco-íris oferecendo o que há de belo na luz.

Lembra quando corremos no parque nestas condições climáticas? Nós dois entregues um ao outro, buscando exatamente o contrário, numa busca inenarrável pelo nosso paraíso? Hoje, distante do seu calor, olhando as estrelas e sentindo a brisa fria, a solidão soçobra a esperança da brevidade. Estou longe e triste.

Não era intenção inicial vincular você à Eva, mas de certa forma me contemplou saber que muito além do figurativo, está ali, ao meu lado, pro que der e vir. Meu bem, esta contenda profética um ia terá fim e nós dois vamos viver a eternidade que merecemos.

Eu amo você para todo o sempre!

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Carta sobre o dia que eu queria me devolver para você.


 Planeta Terra, 25 de abril de 2019

Tem dia que sinto a sua falta. Tem dia que sinto muito a sua falta. Hoje mesmo quis pular umas etapas da memória e ir direto ao seu encontro. Dói, não é? Dói prá caramba. Não tenho mais seu telefone, perdi o contato com seus olhos. Sabe, ainda sei a data do seu aniversário, isto mesmo, eu sei o dia que comemoro sozinho o  seu nascimento.

Tem dia que sinto ausência. É uma ausência tão dolorida, tão ruim, toda ausência é criminosa. Nestes dias eu choro. Não é a sua falta, a saudade, é você não estar preenchendo este imenso vazio que habita minha vida. Deveriam existir regras claras para ausências. Se eu olho e você não está, não está e pronto, mas fica muito ruim ... muito ruim.

Hoje eu fiquei feliz, queria te contar como fiquei feliz, queria ver seus olhos sorrindo, em festa, olhando meus olhos felizes e eu sei que seria assim. Eu sei, a merda toda é esta. Eu sei! Mas você, claro, não estava, eu errei, você errou, eu errei de novo e pronto, perdi você e ganhei o prêmio de ser e estar triste em presídio de segurança máxima..

Amanhã eu vou ficar triste, já sei disto. Depois de amanhã vou ficar triste também. Tudo por que hoje tive este lúmen de felicidade, mas não era felicidade, não era você, não era pra te contar isto. Não era. Não era. Não, não era. Na verdade, e seja lá o que for a verdade, que mundo maluco é este? Como pude ser tão capaz de chegar  até aqui?

Como sabe, eu amo sua boca falando palavras proparoxítonas, articulando músculos, ligamentos, movendo os lábios, seus lábios, tão bonitos são seus lábios. Como sabe, eu amo seus olhos, o sorriso deles, a alegria reluzente deles. Um dia eu queria te encontrar, já sei que você vai brigar comigo, não ligo, um dia eu queria me devolver para você.  

Desculpe, não sei escrever cartas, não sei falar sem ter você no conteúdo. Não sei, não sei, não sei mesmo. Ontem quase que, gente, que doideira, ontem eu arquitetei um plano de fuga para te ver. Sabe, ainda tenho aquele retrato do seu rosto triste sob uma arco de flores, seu olhar está triste, vago, despido de alegria. Seu olhar não estava naquela órbita terrestre. Então é isto.

É isto aí!

sábado, 31 de janeiro de 2026

Manual doméstico de ressurreição


Assim que clareou o dia, senti uma dor imensa tomando o lado direito do corpo. Aquilo não era normal. Tentei me levantar, mas o corpo não obedeceu. Apesar da dor unilateral, todo o meu ser parecia conspirar contra mim. Pensei em muitas coisas que se pode fazer numa situação dessas — e nenhuma tinha o aval do corpo para ser executada.

Estou sozinho, pensei. Não alcanço o celular — carregando ou já carregado — sobre a estante, do lado adverso da cama. A moça da limpeza não virá hoje. Quem daria falta da minha existência nesta manhã? Tentei voltar a dormir, mas a ansiedade, o medo e a tensão superavam qualquer desejo de repouso.

Vejamos coisas para se fazer… casar, talvez, evitaria esta situação. “Não, não, melhor que não — isto aqui passa e casamento tem essa tese pétrea de que é para sempre, enquanto dure.”. E então o despertador do celular faz o que sabe fazer de melhor: tocar. Tocar. Tocar.

Preciso me lembrar de parar com essa mania de desligar o alarme dormindo e, algum tempo depois, acordar assustado e atrasado, seja lá qual for o destino da manhã. Da cozinha, escuto o som da torradeira liberando duas fatias de pão integral e, logo em seguida, a cafeteira fazendo o que sempre faz — indiferente à minha possível morte, fazem a sua parte.

Pensei na Candinha, na Fernanda e numa especial que não posso citar, por recomendação do meu analista, e que eu daria tudo agora para ter dormido comigo esta noite. Acho que morri — ou estou próximo disso. Engraçado: não sinto o coração, não sinto a respiração. Agora está ficando tudo escuro. Maldito vinho.

De repente — não mais que de repente — recebo uma chinelada na perna esquerda, seguida de outra, ainda mais forte.

— Mamãe? Como a senhora chegou aqui? Como abriu a porta? Como sabia…
Outra chinelada.

— Júnior, levanta, seu preguiçoso. Aqui não é hotel. Passa logo para o banho e se vira. E para com essa mania de se atrasar todo dia. Sai. Vaza daqui e corre atrás do seu serviço.

Levantei sem entender como. O corpo, antes falido, obedecia agora com a disciplina de quem teme uma nova chinelada. Tomei banho, me vesti e saí. O mundo seguia funcionando, apesar de mim.

Algumas pessoas acordam sozinhas.
Outras acordam com a mãe e uma chinelada.

Odeio as segundas-feiras...

É isto aí!

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Manual de Queda Livre


Menti muitas vezes quando me tranquilizava com o amanhã  e passava a olhar para um futuro promissor que nunca chegou. Sabe quando você está saltando de paraquedas e por uma fração de segundos tem medo dele não abrir? Naquele instante o seu futuro é o solo, e de uma forma ou de outra a chegada é inegociável.

Não sei guardar segredos, foi o que sempre disse para mim mesmo e isto, de certa forma, auxiliou no processo de só abrir a boca em raríssimas ocasiões. Na infância o médico que me examinou para ver se eu tinha algum problema, deu o diagnóstico mais preciso de toda a minha vida — este moleque não tem nada além de preguiça seletiva. 

Tudo ia bem até encontra-la numa destas esquinas da web, aí em vez de me escudar no diagnóstico clínico preciso, deixei o coração falar em alto e explícito som, e claro, deu merda. Ali senti a possibilidade do paraquedas não abrir e talvez fosse melhor assim. Viver deve ser mais do que isto, só que não sei bem onde abre a porta para achar este caminho certo. 

Garçom, desce mais uma! Hoje estou a fim de desassistir minhas preces. Viver é não ser normal em tempo integral e permitir a loucura eventualmente. Ou isso, ou a rigidez das normas e condutas. Viva a autarquia, a monarquia, as dinastias, a plutocracia. Garçom, outra — e saiba que não estou nada bem e não sei o que é esse sofrimento.

Antes de sair, o garçom fechou a conta e o diagnóstico: o senhor sofre de angústia existencial cotidiana.

É isto aí!


O Mago da Pitangueira e as Sextas-Feiras


 — Nunca abandone seu amor nas sextas-feiras, disse o Mago aos jovens que subiram a colina para aprender com sua sabedoria.

— Por que, Mestre, perguntou J.T.

— Jovem, a sexta-feira é sagrada. Romper um relacionamento neste dia requer gestão de crise e empatia para não contaminar o seu meio de convivência.

— Mas se for inevitável, Mestre?

— É verdade que não existe hora perfeita e terminar sempre será doloroso. A ideia não é encontrar um dia fácil, mas sim evitar o agravamento desnecessário do sofrimento.

— Então há riscos, Mestre?

— Viver é arriscar cada segundo durante 24 horas por dia. Terminar numa sexta-feira pode amplificar o sofrimento de risco e criar um "fim de semana de crise" ativando desnecessariamente o seu mecanismo de feedback negativo.

— Mago, seria a crise da ruptura na sexta-feira uma ausência não metabolizada?

— Sim, a sexta-feira vira símbolo do tempo insuficiente para digestão emocional.

— Mestre, aqui, aqui! — É possível romper-se na sexta-feira e chegar na segunda sem o vazio da ausência?

— Olha, mocinha, quando há um forte vínculo emocional pelo lado mais frágil da relação, ao sofrer o rompimento na sexta-feira, experimentará uma eternidade de dor até que a vida retorne na segunda-feira pela manhã e recomece o ciclo da rotina. 

Já o outro lado, o sujeito da ruptura, cria menos espaço para sedimentar-se nele  a ausência, já que é o elo mais impessoal. Assim, dificultará o retorno e aumentará a agonia da falta que aquela pessoa faz.

— Por hoje já basta. Agora podem ir! Bom final de semana!

É isto aí!


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A mulher do 301


Acordou cedo, como de costume. Sentou-se para ler o jornal no notebook e só então percebeu o silêncio estranho da mesa: o notebook não estava ali.

Levantou-se devagar, percorreu a estante, a mesa da sala de estar — que nunca fora usada —, abriu a porta da frente, espiou o corredor vazio, voltou. Pegou o interfone e ligou para a portaria.

— Ninguém desceu do seu apartamento esta manhã, doutor — informou a voz paciente.

Desligou com raiva.

Só podia ser aquela do 301… aquela mulher.

Voltou à mesa para iniciar o desjejum e, ao sentar-se, viu o notebook fechado ao lado da garrafa térmica, ainda morna, com café arábica sem açúcar, como mandava a tradição.

Tentou ler. As letras embaralhavam-se. Um suor frio lhe percorreu a testa.

— AVC… é isso… estou tendo um AVC…

O mundo girou lento, depois rápido, depois lento outra vez, até notar a ausência decisiva: faltavam os óculos.

Levantou-se tomado de fúria.

Só podia ser aquela maldita do 301.

Ligou novamente para a portaria.

— Aqui é o Dr. Almeida. Quero saber se alguém esteve no meu apartamento. O notebook mudou de lugar e o café está servido. Chame a polícia. É caso grave.

— Doutor, aqui é o Toninho… quem subiu hoje cedo foi a Dona Irene, como faz todos os dias. Deu uma arrumada enquanto o senhor descansava.

— Irene? Nunca ouvi falar nessa mulher. Deve ser sua cúmplice nesses furtos descarados.

Desligou bufando.

Foi ao banheiro para uma ducha fria. Ao entrar no box, percebeu que já estava nu. Parou, atônito.

— Mas… quando foi que tirei a roupa?

Viu as peças dobradas sobre a pia, ao lado da toalha ainda úmida. Passou a mão pelo queixo, desconfiado. Vestiu-se e, ao fechar os botões da camisa, sentiu o peso familiar no bolso: os óculos.

Saiu dali com os dentes cerrados.

Praga daquela desgraçada do 301.

Pegou novamente o interfone.

— Portaria.

— Toninho, tem alguém interceptando minha linha. Um sujeito se passa por você. Quero falar agora com o apartamento 301.

— Doutor… no 301 mora o senador. E ele está viajando.

— O senador… claro… mais um bandido metido nisso tudo… — murmurou, desligando sem se despedir.

Sentou-se na espreguiçadeira da varanda. Abriu com cuidado a caixa de charutos, serviu-se de um gole generoso de conhaque francês e acendeu o tabaco com solenidade.

Olhou o prédio da frente.

Pegou os binóculos.

E ali ficou, imóvel, acompanhando em silencioso deleite os gestos domésticos da mulher do 301 do edifício vizinho, que cruzava a sala, estendia roupas, ajeitava o cabelo diante do espelho.

Um sorriso lento, quase terno, desenhou-se em seu rosto.

Murmurou satisfeito:

— Minha vadia do 301…


Nota do autor: A mulher do 301 trabalha a angústia da solidão na velhice. Foi publicado aqui, pela primeira vez, numa sexta-feira, 20 de maio de 2016. Eu gosto muito desta crônica, e resolvi fazer uma revisão de atualização. Acredito que tenha ficado bom, com detalhes mais  focados na história de um homem revoltado com a solidão na sua velhice. Assim, refiz a crônica mais enxuta sem perder a proposta inicial. Espero que gostem!

É isto aí! 


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Casos do acaso


Estava desesperançado quando arrumou a namorada num site especializado. Vinha de uma experiência ruim, dolorida e desagradável. Apaixonou-se logo por um perfil falso. Um dia ela convidou-o para conhecer sua família num lugarejo próximo a Salvador, mais de mil quilômetros de onde residia. Convite aceito, foi encontrar seu grande amor numa cidade a qual nunca ouvira falar e num endereço falso, colocado ali por pura maldade ou por um estranho sentimento de divertir-se com a dor do outro.

Saiu do hotel todo arrumado, perfumado, elegante e de face glabra. Passou na padaria, tomou um café expresso duplo, atravessou a rua, entrou na loja de trecos & coisas e comprou uma lembrança vintage em alumínio, cafona, mas ainda resistente ao tempo. Dali, olhando compulsivamente para o relógio, chamou a florista da rua, que lhe vendeu um buquê de rosas vermelhas de tal intensidade que chamavam a atenção dos transeuntes.

Entrou no táxi e entregou o cartão com o destino, num local distante e totalmente desconhecido de sua vida. O motorista olhou para ele, olhou para o papel, tornou a olhar e indagou se tinha certeza de que aquele era o lugar onde queria chegar. Acenou que sim com a cabeça, combinaram o preço e, quarenta minutos depois, estava diante da casa.

A rua era uma ladeira estreita, com calçamento de pedra imperial; as casas, tristes, assobradadas e encostadas umas nas outras; as janelas de madeira em estilo guilhotina, com venezianas abrindo para a rua; e as imensas portas duplas davam um ar de século XIX à arquitetura local. Bateu solenemente na argola sobre uma chapa de aço, afixada no largo batente, e aguardou ser atendido.

A moça veio mansamente, abriu a porta sem nenhuma pressa, olhou para ele, olhou para a rua, olhou de novo para ele, olhou para as rosas, para o presente; sorriram mutuamente e alguém perguntou lá de dentro:

— Quem é, Maristela?

— Quem é, não sei ainda não, mãe. Mas bem que Dindinha falou — o danado é lindo!

E foram felizes para sempre

É isto aí!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Ensaio sobre a violência.


Naquela tarde abafada e quente, subimos juntos — eu e uma moça elegante — pelo diminuto elevador e, por estranha coincidência, entramos na sala de espera do mesmo consultório odontológico.

— Boa tarde, senhora. O doutor está atrasado, numa cirurgia. Se desejar, posso remarcar.

Voltou-se para mim e deu o mesmo recado. Olhei para aquela mulher por quem, talvez, morreria, e decidi ficar. Não tive como evitar observá-la: pela beleza, pela elegância, pelo corpo. Encaminhou-se à recepcionista, sussurrou algo que só as mulheres são capazes de ouvir e interpretar. A atendente respondeu no mesmo tom.

Pela primeira vez a mulher fatal olhou-me. Foi com desdém, em completo desalinho com minha querência. Sentou-se na poltrona frontal, condenando-me à inevitabilidade de observá-la enquanto navegava no mundo virtual de seu enorme smartphone.

Voltei ao meu livro — Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley — e, enquanto traçava paralelos entre a ficção e a realidade nacional em tempo vigente, devorava-a mental e discretamente em pensamentos alternados, entre luxúrias e fetiches que me sugavam todos os hormônios.

Quase duas horas sentados, os três em silêncio tenso e tépido. Ela levantou-se, foi novamente à recepcionista; mais uma vez conversaram em código feminino de curto alcance. Desta vez o assunto exigia réplicas e tréplicas. Sem olhar para mim, partiu ao desconhecido em movimentos cadenciados, harmoniosos, felinos. O rastro de seu perfume transtornou minha paz.

A atendente desapareceu e ouvi um toque de celular insistente. Estava esquecido na poltrona da deusa. Aproximei-me e toquei-o com cuidado, como se fosse extensão de sua pele. Resolvi atender para informar a alguém que ela havia esquecido o aparelho.

Passados trinta dias, recobrei a consciência na UTI do Hospital Municipal. Lembro vagamente um homem, em fúria, entrar no consultório. As imagens iam e vinham em flashes. Quando dormia, via-o falar coisas ininteligíveis.

Recebi alta quarenta e cinco dias depois. Saí do hospital e a principal enfermidade não fora sequer avaliada. Eu havia sido contaminado pela violência. Aquele homem que batera em mim já não existia mais. Em seu lugar crescia outro, feito de ódio, desejo de vingança e uma estranha lucidez perversa.

Não voltei ao trabalho. Não voltei a dormir. Passei a buscar brigas, provocar estranhos, assustar crianças e idosos, como se precisasse testar, diariamente, até onde ia a nova criatura que me habitava. Sabia perfeitamente onde aquilo me levaria.

Resolvi cortar o mal pela raiz. Voltei ao consultório odontológico.

Ao entrar na antessala, a atendente levantou-se e me abraçou com uma candura desconcertante. Afastei-a com delicadeza e desci as escadas tomado por sudorese, taquicardia e ódio.

Foi na saída que vi o assalto. Dois rapazes de capacete cercavam um idoso. Um deles empunhava uma arma.

Não me lembro do que fiz.

Quando voltei a mim, havia um corpo no chão e sangue nas minhas mãos.

No dia seguinte fui chamado de herói.

Pela primeira vez compreendi como a violência se perpetua.

À noite sonhei com o homem do consultório. 

Ele sorria.


É isto aí!



O Estafeta da Memória I


— Sabe, senhor… senhor… como é mesmo seu nome?

— Eu não sou um nome, sou uma função, da qual muito me enobreço. Sou mais conhecido como o Estafeta da Memória.

— Uma função, não é? Uma função… Diga-me pelo menos quem o enviou.

— Ninguém me enviou. Foi o senhor mesmo que solicitou minha presença.

— Eu? Isto é algum pacto com o subsolo? Porque, se for, não fui eu quem encomendou as oferendas.

— É bem verdade que toda a situação que o fez chegar a este ponto foi interessante, mas não foi daí que fui enviado ao senhor. Eu sou parte da sua existência, a qual o senhor não pode tocar, nem alterar, nem subestimar.

— O senhor está de sacanagem comigo, só pode ser isto.

— Escute: você e mais dois outros do mesmo naipe estão imbuídos no processo de criação de uma Filosofia Única, que seria conhecida pela posteridade como o Pensamento de Deus. Ouvi dizer, nos ecos da memória, que a obsessão de vocês por esta tese chega — ou talvez se inicie, dependendo do ponto de referência — a unir Wittgenstein com Stephen Hawking, o Talmude com Sidarta Gautama, Confúcio com os patriarcas da crença ocidental, além de Carl Jung com Reich.

— Olha só, quem repassou essas fontes para o senhor deixou pelo menos uns sete de fora.

— Então você crê que o fato de unir vários conceitos filosóficos e física quântica faz desta compilação um Pensamento de Deus?

— Agora que o senhor clareou minhas ideias — deixa eu ver — Pensamento de Deus… É. Não vai dar certo. Existem os ateus, os não ateus, os teo-alguma-coisa, os tao… melhor achar outro nome. Já sei: A Chave da… a chave da… a chave… que saco. Chave lembra fechadura, fechadura lembra porta. Enfim, preciso canalizar tudo num só caminho. Caramba, é isto — O Caminho. Eureka! Eureka!

— Sairá correndo nu pelos becos e ruas estreitas de Alexandria, feito Arquimedes?

— Arquimedes? Quem é este sujeito na fila do pão? E esta Alexandria, é bonita, pelo menos? Como você sabe dessas coisas?

— Eu estava presente e era estafeta do rei de Siracusa, Hiero. Veja só você como é a vida. Hoje estou aqui, diante da sua medíocre sabedoria, tentando fazer o melhor de mim para que a humanidade siga sua peregrinação por este planeta.

— Dane-se. Agora já tenho o nome da maior descoberta de grandeza universal. Nada de teoria do caos, da relatividade, das cordas, do Big Bang, do criacionismo. Enfim, tudo será englobado — O Caminho não é apenas uma teoria: é A Teoria. Uau, já vejo o Nobel, o sucesso, o dinheiro, as mulheres, a fama, o poder, a inveja dos idiotas de sempre… enfim, serei muito, muito fodástico.

— Diga-me, ignóbil mestre, o que fará com toda esta sabedoria?

— Bem, uma vez achado o Caminho, vou traçar em linhas gerais o amplo conceito da Teoria de Pós-Tudo. Os pares irão babar de inveja da minha imortal teoria. Espere… estou começando a ficar estranho. Vejo um turbilhão de tempestades de ideias… isto, tempestades… mas não consigo guardar nenhuma palavra.

— O que o senhor está vendo? É importante falar. Fale agora.

— Então, no princípio havia… havia, humm… uma, ou será um? Fator de geração é ela e gerador é ele? Mas isto é na sexta dimensão; as pessoas só poderão vivenciar uma experiência vital em dimensões ímpares. Isto. No princípio havia tempestades em sete dimensões.

Não! Como haveria algo se nada foi criado? No princípio havia um silêncio absoluto. Isto — este é o Caminho. Mas aí Ukulelê, o rei das quatro cordas… mas o que é isto? Alô… alô… sintonizei uma ideia pirata e ridícula aqui. Mas o importante é a ideia do Caminho. Aguardem — serei rico, famoso e nem aí para a choldra.

E cessou a luz sobre meus olhos, e agora sigo rumo à inevitável morte com uma espessa escuridão sobre minha alma.

— Meirinho, que fique registrado no Livro dos Impropérios Avassaladores da Loucura que, neste caso, evitamos a hecatombe ritualística daqueles que, um dia, acreditarão ter encontrado um Caminho baseado nesta tese.

Mais uma coisa, Meirinho: registre em ata que, com o intuito de preservarmos as memórias do futuro, chegamos a tempo de comprovar mais uma vez o aforismo do Mestre Ibrahim:

Os cães ladram, mas a caravana passa.

Registre, por fim, que, por enquanto, a humanidade está salva.

O serviço está feito.


É isto aí!

sábado, 24 de janeiro de 2026

Notas de rodapé


 — Cerimonial:

Senhoras e Senhores, com a palavra o Doutor Estafeta da Memória, nobre pró sub vice da terceira secretaria de Gestão Acadêmica deste Palácio do Saber.

— Estafeta da Memória:

Prezados discentes, docentes e convidados, hoje estamos marcando uma transição fundamental do pensamento universal ao futuro que merecemos, para o bem do ser humano. Essa ação foi impulsionada por fatores como a expansão imaterial da superficialidade, a invenção da moeda eletrônica, a inteligência emocional, dentre outros avanços, além da imbatível homework. Este processo criou um ambiente propício para o debate público. Grato e... boa sorte no caminho!

— Cerimonial:

Senhoras e Senhores, Eis aqui a nossa nova diretora, Doutora Adelaida Horvathda, de extenso e grandiloquente currículo, como consta na plataforma onde integra bases de dados da sua experiência acadêmica.

— Burburinhos

Graduada em Bacharelado das Ciências da Pós-Verdade da Natureza Humana, Inumana e Cooptantes, pela famosa Instituição de Ensino Superior de Pindorama e fez pós graduação em Metodologia do Ensino Decente, em Metodologia do Ensino Decente pelo Instituto Online de Decência na Educação Pindoramesca.

— Aumentam os burburinhos

Possui também Mestrado sob o tema - Fases Análogas de Homólogos Mútuos - onde naquela ocasião desenvolveu a ideia de que há uma realidade tangencial a ser percebida ao redor da sua realidade oblíqua. Neste Mestrado, foi condecorada com o título de Master et Orbe.

— Aumentam os burbúrios, murmúrios e gargalhadas esparsas

Doutorado cursado na magnânima Instituição da Pós Verdade Pan-Ameríndia do Hemisfério Norte, onde apresentou e defendeu a Tese sobre as Percepções Oníricas Pós-Fases Homólogas de Análogos Mútuos.

— Elevam-se os murmúrios e os burbúrios. Iniciam as vaias.

— Doutora Adelaida Horvathda tomada de ira, vai ao microfone e solta o ódio visceral sobre a plebe rude:

O problema é terem lado. Não conseguem confrontar esta revolução acadêmica, com o novo, com a neo docência predestinada a pós-revolucionar o mundo digital. Saibam que esta razão, este logos, esta filosofia estão mortos e ainda assim se recusam a enterrar o corpo das ideias.

Estão enganados. Não passam de canalhas ineptos em Moral, Costumes e Temas sociais. Ainda consideram que somente o logos pode guiar a humanidade no caminho do progresso. 

Nossa Bandeira, nossos costumes, nossas elucubrações e reflexões veementes em caráter constante, são as ferramentas contrárias aos atos de adversidade da filosofia que ainda insistem em chamar de força motriz da humanidade. Nosso Não Partido opera apenas com a única verdade do nosso Lado, sem questionamentos, sem revisões, sem nada. 

A plateia começa a avançar para o palco, aos gritos, louca, alucinada e compassada.

A Doutora fala suas últimas palavras antes de ser salva da multidão descontrolada: Fora, todos vocês que ainda se apegam ao iluminismo. Saibam que aqui e agora a educação não tem partido, tem lado sem reversibilidade e saibam, energúmenos insensíveis ao desenvolvimento do planeta amado, idolatrado, Salve Salve que nós viemos para ficar.

— Estafeta da Memória:
Senhor Meirinho, considerando que foram cumpridas todas as prerrogativas estabelecidas na ata — como quórum, pauta, registros legais e procedimentos de diálogo— a nomeação da Doutora Adelaida Horvathda torna-se formalmente válida e produz efeitos imediatos. Estão revogadas todas as disposições em contrário.

Silêncio Tático

O Auditório esvaziou rapidamente em paz, enquanto apenas um pequeno grupo aguardou para pedir autógrafo à nova diretora.

É isto aí!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Carta de Amor de Victor Hugo para sua amada, Juliette Drouet


JULIETTE DROUET


Carta de Amor de Victor Hugo para sua amada, Juliette Drouet


Victor Hugo, autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, conheceu Juliette Drouet, uma atriz, em 1833. Ela abandonou sua carreira para dedicar-se inteiramente a ele, tornando-se sua musa, secretária e companheira fiel, mesmo durante seus exílios políticos. Esta carta foi escrita em 1835, na manhã de aniversário de Juliette.

Ela é um exemplo sublime de devoção romântica e literária. Hugo escreveu milhares de cartas para Juliette ao longo de quase 50 anos de relacionamento.


Por que esta carta é tão famosa e poderosa?

Intensidade Romântica: Ela captura a essência do amor romântico do século XIX: devoção absoluta, fusão de almas e elevação do amado à condição de divindade.

Contraste com a Vida Real: Hugo, embora profundamente apaixonado por Juliette, era infiel e tinha uma família. A carta revela a complexidade do coração humano, capaz de uma paixão avassaladora e, ao mesmo tempo, de contradições.

Testemunho de Durabilidade: Apesar dos altos e baixos, o relacionamento deles durou quase cinco décadas, até a morte de Juliette em 1883. Hugo ficou devastado. Esta carta é a semente de um amor que resistiu ao tempo.


Paris, 16 de fevereiro de 1835.

Minha adorada Juliette,

Escrevo-te estas poucas linhas, que certamente não conseguirás ler hoje, sobre esta mesinha que tem estado tantas vezes sob os meus olhares e sob as minhas mãos enquanto eu escrevia.

O dia de hoje é um dos mais gloriosos e importantes da minha vida. Faz precisamente três anos, minha querida alma, que tu pertences a mim. Três anos! São três séculos de felicidade! Tu tens-me dado três anos de um amor constante, profundo, terno, devotado, encantador, delicioso.

Desde esse dia bendito em que te possuí, todo o meu ser gravita em torno do teu. A minha vida tem o teu coração como centro, o teu amor como único horizonte.

Antes de ti, não tinha vivido. És tu que fazes a minha grandeza, a minha força, a minha coragem, o meu gênio. Por ti, sou bom e sou grande. Tu és a minha vida e a minha alegria.

Como é belo, sublime e terno este longo compromisso das nossas duas almas! Amar, ser amado, é a felicidade suprema. Tu tens-me tornado o mais feliz dos homens desde o dia em que te disse: "És a minha" e tu me respondeste: "Sou tua".

Nestes três anos, a tua fidelidade tem sido inabalável, a tua dedicação sem limites, a tua ternura sem mácula. Tu és a minha fortuna, a minha esperança, a minha consolação.

Que Deus te abençoe, minha Juliette! Que Ele te conceda os anos que me conceder a mim! Que possamos viver e morrer juntos! Que a morte, quando vier, não seja para nós senão um novo e mais íntimo abraço no céu!

Enquanto isso, amo-te, adoro-te, bendigo-te. Coloco-te acima de tudo. Os meus beijos cobrem os teus lindos pés que tanto têm caminhado para mim, as tuas mãos abençoadas que tanto têm trabalhado para mim, os teus olhos divinos que tantas lágrimas têm derramado por mim, a tua testa sublime, os teus lábios que tantas vezes têm sorrido para mim, a tua alma que não vive senão para mim.

Amo-te! Nunca deixes de amar-me, minha muito amada. Sê sempre a minha Juliette.

Teu, para sempre,

Victor.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Aquele rosto não era eu



Acordei escutando em algum lugar dentro de mim uma música que sabiamente minha alma cantava em italiano. Gostava de lembrar minha infância, na casa dos meus avós, quando da vitrola saiam saudades, historias e lágrimas de um passado desafiante e dolorido. Toda aquela passionalidade era tônica da harmonia de estarmos todos ali. Eu era feliz!

Ainda meio acordado e sonolento, comecei a perceber que não estava bem. Engraçado isto, porque até pouco tempo atrás era um sujeito normal. Senti uma sensação de tristeza, uma dor profunda no peito, vindo das memórias, das conquistas e da vida desregrada. 

Cheguei no banheiro com uma vertigem infortuita. Deu que ao me postar frente ao espelho, com espanto e um misto de náusea com medo e taquicardia, eu vi, revi, vi de novo que aquele reflexo não era o meu. A sensação era real, e minha percepção lógica gritava lá do fundo da minha existência que aquilo não significava que eu não fosse aquele que via. poderia ser uma ilusão, uma pareidolia. Confuso e assustado procurei me tranquilizar. 

Se for um problema físico, raciocinei, existem tratamentos que poderão ajudar a resgatar o reconhecimento. No fundo, bem lá no fundo havia uma dor difusa. Sabia que aquilo era rota de fuga que operavam minhas centelhas de sentimentalidades. Fugir das paixões e evitar entender o que todas com as quais relacionei sentiam sobre mim, minha vida interior e romântica era impossível. Há muito tempo já estava blindado destas aventuras da adolescência.  

Mas havia algo ali e minha nova aparência poderia ser pode ser um mais do que um sintoma de problemas existenciais. Nunca acreditei nesta balela de amar e ser amado, e sempre trouxe comigo que não existe amor na minha realidade e predomina no meu peito uma ausência completa e consciente de contato com os reclames supostamente pertencentes ao relacionamento.

Voltei os olhos ao rosto que me olhava com muitas emoções. Vi meu pai nos olhos do espelho. Sabe aquele olhar que o pai dava na adolescência ensinando sem precisar falar. Rolou uma lágrima na minha face. Vi seus cabelos sempre penteados, sua sobrancelha direita arqueada perguntando como eu iria tratar deste problema que não era só meu. Neste momento gritei com todas as minhas forças que não podia ser verdade, meus sentimentos são exclusividade da minha vida e ninguém mais pertence o que sinto ou desabito dentro do meu existência.

Você é ainda luta para ser jovem e livre isto faz de você uma pessoa limitada, disse o velho. Seu lábio inferior estava mordido e oculto demonstrando não raiva, mas ansiedade do que eu iria enfrentar. Meu pai estava ali passando o bastão da maturidade para mim e eu não sabia nada sobre amar e ser amado. Tampei a face com as duas mãos e chorei até exaurir a saudade dele, dos tempos sem riscos, das múltiplas possibilidades e agora? Eu estava entrando num mundo completamente desconhecido.  

Guardei em prantos o silêncio, por longos e infinitos minutos, mirando minha face refletida no espelho que não me repreendia, mas mostrava que algo estava errado comigo.  Andei pensativo pela casa e nem a pouco amistosa lhasa apso, do alto dos seus 3Kg reclamou da minha nova aparência.

Saí dali ofegante, pensando que o episódio era cisma ou, numa remota hipótese, fosse uma brincadeira hostil dos meus nervos ópticos, cuja hostilidade passou a ser um tanto gratuita desde que reclamei que estavam reprimindo meu olhar quando ela passava por mim. Ela tem nome e carteira de identidade, tem CPF e cartão de crédito, tem indo e vindo aos meus sonhos e eu nunca a havia percebido assim. 

Deu que meus nervos olfatórios tomaram minhas dores e com um exército composto por aproximadamente 10 milhões de neurônios sensoriais olfatórios que de longe captavam o seu cheiro natural em forma de perfume, aguçou a inveja e a animosidade fez chegar aqui, onde não estou me reconhecendo.

Tive que recorrer ao coração, já que é o único órgão autônomo e independente que gera seu próprio impulso elétrico para bater nos dois, e manter-me vivo e apaixonadamente encantado por ela.

Por umas duas ou três vezes tentei isolar os dois sentidos em cada canto dos meus neurônios, apenas por medo de que o conflito crescesse. Havia desejos e tensões silenciosas, pequenas guerras internas que fingia não perceber.

Foi então que compreendi que a música que sempre tocou dentro de mim apaziguava tudo — e, pela primeira vez, aceitei isso sem resistência.

Talvez fosse apenas o despertar de um sentimento que até hoje eu desconhecia. Gostar de alguém não me transformará em outro homem: apenas me revelará um rosto que eu ainda não sabia reconhecer.
        
É isto aí!



domingo, 18 de janeiro de 2026

Cartas Avulsas XXIX


Reino da Pitangueira,
18 de Janeiro de 2026
18.º dia do ano no calendário gregoriano.
Faltam 348 dias para acabar o ano.

Dia Internacional do Riso.
Por do Sol às 18h35 min
Lua Nova às 16h51
Estação Verão

A última vez que escrevi uma carta avulsa foi na terça-feira, 27 de maio de 2025 — pouco mais de um ano se passou, e envelhecemos nesse ínterim. O fato é que me invadiu a saudade — saudade profunda, multiplicada. Um trecho de um poema de Gonçalves Dias passou pela minha memória, insistente e vívido. Ainda não sei se posso publicá-lo aqui… sabe como é, talvez haja crianças lendo.

Despertei com uma música diferente na cabeça, fixa e persistente por mais de treze horas. Lembrei-me de tantas coisas. Tenho certeza de que, por sua curiosidade — tão aguçada quanto gentil — você não repousará enquanto não falarmos de música. Creia: você adoraria as escolhas que me vieram à mente. Assim como você gosta de Giuseppe Verdi e Giacomo Puccini, eu ouvi no pensamento o virtuosismo barroco de Antonio Vivaldi, Arcangelo Corelli e Domenico Scarlatti, e a sensibilidade dos renascentistas Giovanni Pierluigi da Palestrina e Claudio Monteverdi.

Antecipando o maestro e simplificando a partitura de minhas memórias, digo o seguinte: enquanto Vivaldi, com ousadia e maestria, elevava aos céus As Quatro Estações, o mensageiro da lembrança me alcançou — sempre viajando em turnê clássica — e trouxe-me a última estrofe de “Se se morre de amor”. Não demorei nada… Era você o tempo todo:

Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Seja esta — em sua intensidade e revelação — a definição que meu coração encontrou para nomear o que sinto.
É isto aí!

A conta não fecha.



Esqueci as palavras na ordem corrente. Mas sabe quando a gente era pequeno e não sabia fazer barco de papel para brincar no barro e se encantava com a terra tocando nossa alma? Aí as folhas da castanheira se tornavam navios, as formigas seus marinheiros e os sonhos flutuavam de uma maneira tão elegante, tão amiga e a gente não era mais feliz pela ignorância benta de não saber o que era não ser feliz.

Na infância, navegávamos sem entender os números que viriam depois — como se fosse possível, depois, simplificar o mundo em contas que fecham.

Quantas vezes são setenta vezes sete? Esse número mágico — maior que a velocidade da luz — parece simbolizar a extensão do amor e do perdão que buscamos, mesmo quando não conseguimos alcançá-lo plenamente. Perdoar é isto, um gesto de amor na velocidade da luz. Quanto bem faz perdoar e ser perdoado? E as folhas da castanheira desciam o oceano  revolto das chuvas de verão como devem sair de nós estas dores por toda a vida.

“Perdoar-se é um dos desafios mais duros que enfrentamos: falamos isso sem rodeios porque negar a dureza não nos aproxima da cura. é uma luta desigual, nossos erros são fortes, altos, pletóricos e nossa alto-estima é uma bosta quando estamos no campo do perdão. Os olhos marejados, os lábios contraídos, o ar preso, e a dor ... a dor violentamente cruel a nos lembrar de que nunca vamos aprender a lição de que é o único caminho.

Não existe uma fórmula mágica até que um dia você emagrece, rejuvenesce e transcende tudo de repente ao mesmo tempo e seu corpo dolorido vai em direção a uma experimentação única, que trás consigo a resposta de quanto dá setenta vezes sete.

Se cuida. Ué? Acabou? Quanto dá esta conta se tentarmos eleva-la ao quadrado, multiplicá-la pela gravidade de Júpiter, elevar tudo a X! (X fatorial…), ainda assim nunca terá um resultado claro — porque a conta é sua. É por isto que você não entendeu nada. 

Você é o X e é por isto a conta não fecha. Você é a única pessoa que segura peido, medo e lágrimas tudo junto e misturado só para sorrir e os outros acharem que está bem. Por isto a conta não fecha. 

É isto aí!

sábado, 17 de janeiro de 2026

Cartas de Amor C


Cartas de Amor C
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, esta é a nossa centésima carta de Amor

Tudo bem se amanhã é sexta, eu até entendo isto. Tudo melhor ainda se meu bem estiver comigo. E ainda tem gente que reclama cantando aquela música que acho ridícula, mas prefiro não abusar da sorte. Vai que hoje não é meu dia e o santo que me protege entrou de licença celestial? Para minha surpresa suprema, amanhã é domingo.

Você já chorou neste 2026? Já rolaram lágrimas inexplicáveis nesta sua face doce e combatente? Pensou em fugir enquanto ia ao banheiro na noite do réveillon? Pensou em chutar o pau da barraca? Experimentou um transe neuro psicodélico transitando entre o mar e as montanhas? Em algum momento deste 2026 sentiu-se segura?

E amanhã é domingo, deveria ser minha infância agora. Alguém aí na frente fala para o timoneiro desta grande nau, aquele que um dia me aportará em solo fértil, para que eu possa descer em algum lugar do passado. Se o futuro ainda não existe e o presente é apenas uma grande represa de sonhos, vou-me embora para o passado.

Acho que não estou bem. Vi seu nome hoje num documento confidencial que estava protegendo dados sensíveis. Pensa bem, sua maluca, somos dois errantes com confidências restritas um para com outro. 2026, já disse isto, não existe e posso provar, pois no momento em que o definimos, ele já se tornou um longínquo passado, sendo um ponto vesgo e sem duração na linha do tempo, ou uma construção do cérebro para organizar a experiência, não um instante objetivo com volume zero.

Mudamos tanto, mudamos muito, mudamos porque nos amamos. Queria mudar ao seu lado, mas mudamos para dentro. Eu nunca saberia mudar sem você, absoluta, na minha jornada até o dia que os mundos se separem. 

Gonçalves Dias perpetuou a nossa história e nossa verdade neste trecho do poema "Se se morre de amor não se morre":

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

É isto aí!


"De certa forma"


Nunca estou disponível para mim, e isso me irrita — de certa forma. A questão aqui é analisar, ou ao menos fingir que se analisa com neutralidade, essa expressão que se infiltra no meu cotidiano como uma desculpa educada: a famosa, onipresente e covarde “de certa forma”.

Desde priscas eras sei — ou deveria saber — que a negação de uma proposição não é um detalhe estilístico. Proposição, meus amigos e minhas amigas, é aquilo que se afirma e se submete a exame: algo que pode ser verdadeiro ou falso. Simples assim, embora doa.

Entendeu? Anota aí se precisar: dedução, indução, abdução. Isso cai na prova da vida todos os dias, mas você prefere passar cola sem ler o enunciado.

Na lógica, a negação é uma operação precisa: se a afirmação é verdadeira, sua negação é falsa — e vice-versa. Não há “mais ou menos”, não há penumbra confortável.

Já na linguagem ordinária, essa mesma operação reaparece travestida de gentileza. “De certa forma” não confronta, não nega frontalmente, não assume o risco do não. Ela sorri, concorda com a cabeça e, ao mesmo tempo, esvazia o conteúdo do que acabou de aceitar.

Em termos práticos, prezado leitor, graciosa leitora, “de certa forma” é a negação que não se assume: uma sabotagem elegante da proposição inicial. Concorda-se para não concordar. Afirma-se para não afirmar. Vive-se — de certa forma.

É isto aí!