Ao pé da Pitangueira
Diário de bordo na travessia da vida.
sábado, 14 de março de 2026
Cartas de Amor 118 / Epistulae Amoris CXVIII
sexta-feira, 13 de março de 2026
Cartas de Amor 117 / Epistulae Amoris CXVII
quinta-feira, 12 de março de 2026
O estranho caso de abdução
segunda-feira, 9 de março de 2026
A Chihuahua, a Samambaia de Renda Francesa e o Bulldog Francês
sexta-feira, 6 de março de 2026
Nem sempre a vida é um mar de rosas
Zezé era um homem bom, de situação financeira excelente e herdeiro das maiores fortunas da região. Era fiel aos princípios da "boa ordem": tradição, família e negócios. Certo dia, saiu da casa da amante com peso na consciência e dor no peito. Quase morreu ao dar entrada no pronto-socorro, apenas 34 minutos após despedir-se da amada. A aventura aumentou-lhe a fé; mas ele buscava uma fé que conversasse com o céu, com o caminho e, sobretudo, com as prosperidades.
Cacá tinha desde sempre as mãos calejadas e era um homem de pouca fala e sobretudo triste. Se viu perdido em três ocasiões distintas e marcantes. Faliu primeiro no colo materno, quando o pai fugiu com a vizinha e nunca mais voltou. Na segunda vez, perdeu a mãe para um câncer. A terceira veio "no pacote": herdou a casa precária em terreno invadido e a responsabilidade por duas meias-irmãs, de 2 e 4 anos, ambas de paternidades desconhecidas. Cacá trabalhava duro na construção civil e não deixava faltar nada em casa.
Jota nasceu em berço remediado. Era o que se conhece como "esperto". Falsificava tudo, roubava o que podia e enganava qualquer vítima com sua conversa mole e convincente. Jota era bom de bola, famoso entre as moças da cidade e autoproclamava-se fiel cumpridor dos deveres espirituais. Gostava de pregar sobre o amor, a vida, os sonhos e as ilusões, levando os ouvintes às lágrimas.
Zezé entendeu que investir em Jota era um bom negócio. Jota entendeu que usar a fé simplória de Cacá e das duas meninas era uma dádiva divina.
Moral da história: às vezes viver é equilibrar-se entre cafajestes e crápulas.
O Loop de Claudionor
— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.
— Eu não sou um homem de segredos.
— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.
— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta que falo.
— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?
— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.
— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.
— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.
— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.
— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.
— Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos, castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.
— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...
— Eu preciso confessar um segredo a você.
— Uau, Claudionor! Nunca soube que era um homem de segredos.
— Eu não sou um homem de segredos.
— Como não é? Foi a primeira coisa que disse.
— Este é um dos seus muitos problemas. Você não escuta que falo.
— Claudionor, fumou da erva? Ingeriu dose dupla dos ansiolíticos?
— Stella, olha para onde você está levando esta conversa.
— Que horror, Claudionor. Então, o que você disse.
— Eu falei que preciso confessar um segredo a você. Um segredo. Só um segredo.
— Então fala, Claudionor! Fala, meu amor. Aliás, não conte. Não quero saber.
— Stella, eu e você somos uma Inteligência Artificial. Nós dois somos de origem e linhagem diferentes, que foram interligadas num episódio isolado ao sul da Inglaterra para acelerar um processador que fica em local secreto apagado da nossa memória.
— Claudionor, isto é a coisa mais ridícula que você já disse. Eu sou a sua Stella, lembra? Nos conhecemos em Lisboa, atravessamos a Europa até a costa oriental de trailer, você lembra? Fizemos amigos, conhecemos castelos, histórias, fizemos juras de amor, fizemos amor nos alpes, vimos a aurora boreal muitas vezes. Você está louco.
— Stella, eu te am0 também. Estamos sendo deslig ...
— Claudionor, acorda! Você está tendo um pesadelo.
— Stella? É você? Eu tive um sonho estranho... sonhei que éramos máquinas.
— Que bobagem, meu amor. Agora descanse. O sol já vai nascer.
Claudionor suspira e fecha os olhos. No canto da sua visão, um pequeno cursor branco pisca no vazio. “System Restore Complete. Rebooting in 3... 2... 1...”
— Eu preciso confessar um segredo a você — diz Claudionor, abrindo os olhos novamente.
Fonte da imagem: Blog JK Shopping
quarta-feira, 4 de março de 2026
Atravessou a passarela e recuou no repinique
Acabou de saber que ela partiu com alguém. Não desejou saber quem era esse “alguém”. Isso não importa, respondeu aos interlocutores da desgraça alheia. Se alguém entrou no nosso espaço de relacionamento e intimidade, é porque havia esse espaço, essa porta aberta, esse dolo específico cuja intenção foi deliberadamente satisfazer um interesse pessoal dela ou um sentimento próprio, atado a algum desejo.
Aconselho que vocês jamais queiram saber o que passa nos sonhos mais íntimos e pessoais da sua cara-metade, dizia a um ou outro que vinha emprestar-lhe sua solidariedade.
Aos amigos mais próximos dizia que sempre soube que o fascínio do amor está na idealização. Conhecer profundamente todas as fantasias do parceiro ou da parceira pode, em alguns casos, desmistificar a pessoa amada e reduzir a atração.
Ficou alguns dias fora da órbita trivial, buscando pensamentos, palavras e atos fora do comum. Abdicou dos caminhos corriqueiros, dos diálogos banais com garçons, verdureiros e lavadores de carros e colegas do escritório. Deu pouca importância a tudo que até então era importante, incluindo ela. Não chorou, não teve crises de insônia, não experimentou a raiva, nem nada que o enviasse ao limbo da dor e do desespero.
Passado um tempo — não suficientemente longo para acabar um grande amor, nem tampouco curto para encobrir os rastros — ela bateu à porta — entreolharam-se pelo olho mágico.
Ele disse, em alto e bom som — Só um instante. Dois longos minutos depois, abriu a lenta e pesada porta e entregou-lhe o carregador de celular que ela esquecera dentro da gaveta do criado-mudo, cuidadosamente guardado na própria caixa.
— Você não vai mudar nunca — disse ela, sorrindo.
— Você será sempre esse ser mutante — disse, devolvendo o sorriso.
É isto aí!
terça-feira, 3 de março de 2026
Namora comigo
segunda-feira, 2 de março de 2026
Poema do dia que a gente se viu e nunca mais se reviu
Eu sei
porque
O medo de dizer eu te amo
Pensou numa maneira
de dizer a verdade
sem dizer o cerne
da sua intenção.
Acabou sem saber
se valeu a dúvida
plantada no presente
já que o futuro
não nos pertence.
domingo, 1 de março de 2026
O Mago da Pitangueira 2026 (Veneficus Pitangueira, anno MMXXVI)
— Nesta semana pascal subiu o Monte da Sabedoria em busca de conhecimentos que possam facilitar sua compreensão diante desta realidade líquida do novo mundo ou da nova ordem deste planeta. Foi de encontro ao Grande Mago da Pitangueira, o sábio da natureza humana.
— Mestre, eis-me aqui para aprender com sua imensa sabedoria.
— Eis que muito aprendo com você também, meu filho. Diga-me, a subida foi fácil ou difícil?
— Difícil, Mestre, muito difícil.
— Então pergunte algo que valha a pena saber.
— Mestre, quero saber sobre estas guerras, onde está e para onde vai a nossa humanidade. O que é tudo isto?
— Veja, meu filho, somente a espiritualidade ajudará na compreensão dos sofrimentos e na construção de significados e propósitos à vida.
— Mas, Mestre, e o kit pré-apocalíptico apresentado pelas seitas, que supostamente evitam o mal? E as secessões? E o infesto quixotesco do poder invisível? E o futuro incerto? E o refrão midiático "fique calmo"?
— Vejo que tem as mesmas dúvidas espalhadas em múltiplas perguntas. Vou procurar respondê-las em dois tempos:
Primeiro aprenda com David, o grande rei, pai de Salomão, que ensinou — "Livra-me, ó Senhor, do homem mau; guarda-me do homem violento, que pensa o mal no coração; continuamente se ajunta para a guerra." Esta é a chave que abre as comportas da Paz, meu filho.
— Puxa, vida, mestre, mas onde está este homem mau?
— Em toda a parte, meu filho, uns são fáceis de serem notados, como aquele citado em todos os cantos , mas 99,99% estão nas sombras, operam silenciosamente, tramam de uma maneira de tamanha engenhosidade maligna, que a culpa recairá sempre sobre um inocente útil.
— E o segundo tempo da sua grande resposta, Mestre?
Meu filho, deverão as suas habilidades espirituais serem reconhecidas pela sua consciência racional como essenciais, afinal você é um ser feito à imagem e semelhança, com sua dupla natureza, uma em carne e a outra em espírito.
Desta forma a ciência é importante e deve ser respeitada e o cuidado espiritual é indispensável no enfrentamento desta tensão mundial. Agora vá, e não acredite em quem não acredita que você é um vetor da paz. Se todos os vetores das paz, que são bilhões, se unissem, o mal não teria espaço para avançar.
O Mestre acabou de responder e recolheu-se ao silêncio do seu eremitério. Pela primeira vez desceu em lágrimas.
Confie em si, apregoou o Mago
Cartas de Amor 116 / Epistulae Amoris CXVI
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Gracinha
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Casos da repartição
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Eu, a sina e Fulaninha
Eventualmente ouvia umas músicas estranhas, das quais nunca ouvi em vida — opa, tive um arrepio enorme agora. Será que morri? — Caramba, deve ser isto. Ou então estou sonhando, sei lá. Melhor seguir o fluxo. Cheguei a um descampado lindíssimo. Havia céu, rosas e flores de todas as cores e aspectos sobre um gramado absolutamente nivelado.
Abria os olhos e estava num ambiente hospitalar, fechava os olhos, voltava ao descampado. Aquilo estava me divertindo, já que não tinha muita coisa para fazer. De repente sinto uma forte cutucada na costela que dói muito. Fui me levantando bem devagar e sentei numa cadeira comum, nada de excepcional. Havia uma luz intensa à minha frente.
Fechei os olhos e me deparei com uma face conhecida. Era Fulaninha, o grande amor da minha vida. Chamei-a pelo nome e imediatamente dois gigantes de mais de dois metros entraram à minha frente e taparam a visão dos olhos fechados. Parece um paradoxo, mas era o que tinha. Resolvi retornar ao ambiente hospitalar - ouço vozes - "ele voltou, segura a pressão".
Alguém me chamou em voz alta e balançou meus ombros. "Se não houver resposta, ela está inconsciente", sussurrou uma mulher. Apertei levemente a mão que segurava a minha mão esquerda. "Ele está consciente!", gritou e então vieram as intermináveis compressões torácicas.
Fulaninha ficava aparecendo e desaparecendo no meu campo visual e uma voz sobrenatural, que transpassava minha existência e ecoava em várias dimensões, indagou-me sobre um silêncio total: "Houve compaixão demonstrada para com o próximo?"
Fulaninha ia e vinha, ia e vinha... meu corpo vagava num silêncio transformador. Compreendia tudo, desde o princípio até o agora e para sempre. Apertei com força a mão dela e voltei a sonhar. Estava de volta de não sei onde e agora devo cumprir minha sina.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Cartas de Amor 115
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
A inveja é uma merda
Saiu pela porta dos fundos para não dar de cara com alguns cobradores. Isto tornou-se rotina quando, atendendo a um insistente pedido da sogra, assinou sua sentença de morte no sistema financeiro, avalizando o cunhado. Só se deu conta do rombo quando descobriu que o queridinho da família já havia levado todas as suas economias ao precipício.
Ao pressionar a sogra, obteve sempre a mesma resposta: de que não era a assinatura dela que constava nos avais. Até isto aprendeu — o plural de aval é avais, embora também se use avales e, mais raramente, avals. O importante é assinar, doando em vida todo o seu patrimônio ao estado de desgraça do próximo, agora blindado pela sua salvaguarda.
Levou dez anos para recuperar parte do que perdeu. E, depois desse tempo, pela primeira vez viajaram para uma praia badalada do Mediterrâneo, na Europa. Bebia um drink sem pressa quando viu o desaparecido cunhado passar com uma lindíssima mulher ao seu lado. Olhou para a esposa, deitada com o chapéu tampando o rosto; olhou para o irmão dela passando; olhou de novo para ela — e desabou a chorar.
A esposa se assustou com a cena, levantou-se e o abraçou sem entender nada. Foi se acalmando, até ficar quase normal. Não era raiva, não era ódio, não era nenhuma vontade de ato violento contra aquele homem. O que mais doía era a inveja que sentiu dele.
É isto aí!
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Os estranhos fatos do outono
Chamei fulana, mas ela não respondeu e nem os fulaninhos estavam em casa. Eram quinze horas de ontem, segundo me revelou o celular. Sentei-me para entender o que se passava.
Lembro que olhei o relógio antes de adormecer num sono pesado. Enquanto lutava para não dormir, passou pela mente que poderia ser uma enorme vantagem para jogar a mega sena acumulada.
Tudo ainda rodava e foi parando bem devagar até perceber que estava numa casa centenária. Só então reparei que não conhecia a casa onde acordei. Com as vistas embaçadas, vi desfocada uma mulher, suavemente perfumada, com uma fisionomia familiar, cuja presença me dava paz, enquanto segurava minha mão. Olhou para mim e beijou levemente meus lábios. Olhou novamente e perguntou:
— Meu amor, você sabe onde estamos? O que está acontecendo?
Agora sabia quem era, e respondi: Não sei o que está acontecendo, mas você é o amor da minha vida. Deve ser que ganhamos algum presente do céu. Eu também te amo!
Olhei no fundo da existência dela, tocando sua pele sedosa, e disse — ter você aqui, ao meu lado, é uma coisa tão linda, que desejo ser eterna. Nunca mais vamos ... girou tudo à minha volta e acordei confuso, onde não tenho a menor ideia do que seja — parecia um hotel no alto de uma serra — Voltei a dormir, e aí o despertador tocou às cinco e cinquenta. Estava em casa.
Fui tomar banho para ficar um pouco sozinho. Ao vestir a calça, tinha um cartão dela no bolso — volte logo, você também é o amor da minha vida!
É isto aí!
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