terça-feira, 6 de outubro de 2026

Foi assim




Foi assim,
com tanto
contato
do olhar,
no improviso
desavisado,
que enlouqueci.
foi sim, 
bem assim,
ela linda
nas idas 
e vindas
e eu a perdi

Nosso setembro


Querida, nosso setembro passou, 

agora somos nós e o futuro, 

a enamorar depois de outubro, 

depois da esquina, depois do jantar 

Eu, o candidato.


Sabe, você quer saber como estou. Na verdade, é mais assim, tipo normal em pessoas desenquadradas da normalidade, nas quais me incluo. Sobre meus sonhos, uns normais, outros nem tão normais assim. Mas já me vi mentindo num sonho — risos discretos ao confessar esta façanha.

Num outro sonho, pregando para uma multidão, na colina das Lavadeiras, perguntei aos aflitos, boias-frias, andarilhos, maltrapilhos, doentes, dementes, crentes, dependentes de ar contaminado, incoerentes entre o discurso e a ação. Perguntei, como quem cantasse uma ária, com a voz fluindo desembaraçada:

— Quem dentre vós nunca mentiu? Quem detém uma voz entre delírios e ilusões? Quem dentre vós, com a sua voz, nunca sonhou artimanhas pecaminosas?

Não sei se sabem. Nunca falamos sobre nossas libidinagens. Mas mentiras são verdades até que se prove o contrário, diferentes das hipóteses, que não são mentiras, uma vez que a hipótese é neutra e honesta e, além disso, pode ser apenas uma explicação provisória, criada dentro das nossas memórias, para responder a uma pergunta abstrata ou fundamentar uma linha de pensamento sobre a realidade.

Aí acordei, dei pela minha insignificância e toquei a andar rumo ao desconhecido, para ver onde vai dar isto. Pode ser que vá de encontro ao conhecimento ou depare com uma nova existência no meu delírio.


É isto aí!

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Bilhetes avulsos XI


Para o dia em que você reencontrar seu amor.  

O amor, ora ora, afinal, o que é isso? 

O amor, minha cara, é um istmo estreito, 

uma passagem restrita de mão dupla 

entre duas pessoas.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Você é doida demais II


Você é doida demais — II

Carta destinada à moça mais linda da Vila Pitanguinha, que tinha 15 anos quando fui embora. Achei esta foto no fundo da mala que trouxe comigo, herança da Vó Austera. Lembra dela? Lembra quando ela deu esta mala para nós dois irmos embora? Aí você me entregou esta foto, tirada pelo Zenóbio da Luz, para nunca mais te esquecer.

Flor, novamente esqueci seu nome.

Acho que lembrei seu nome. Estou na dúvida entre Branca ou Clara, mas eu te chamo de Flor Menina.

Seu endereço ainda me lembro bem: é a terceira casa voltada para o sol poente, depois da Ponte Quebrada, subindo pelo Córrego do Pato. Na frente, tem duas mangueiras centenárias e um pé de abacate.

Prezada Flor Menina,

Depois do nosso último encontro onírico, faltou ar e sobrou suor. Que maravilha foi aquela, hein? Dentre todas as vantagens de ter você assim, agarradinha ao meu corpo, travada, abraçada, uma delas é que, quando estou nos seus braços, eu sei que é real.

Dia destes, você vai acreditar, porque sou eu quem está narrando nossa história de amor. Do anoitecer de terça para a manhã de quarta, vi que você teve várias crises de enjoo. Matutei, matutei e logo pensei, num estalar de sonhos, que estava grávida. Aquilo foi um delírio para meus olhos.

Adormeci no seu colo e espia só minha alegria atravessando dois mundos e chegando com nossa menina. Sim, eu sei quando é menina, sei sabendo, ué. Aflito para provar minha teoria de que nós dois somos um só em tempo integral, metafisicamente — acho linda esta palavra —, não sei o que significa, mas me dá até arrepio. Espia os cabelinhos esticando.

Bom, corri à farmácia do senhor Boticário Erlenmeyer, um alemão gigante, mal-humorado e barrigudo, bem na Praça da Matriz. Contei para ele, revelei nosso romance, como foi, como é, como somos um dentro do outro, de modo que queria saber do tal teste de gravidez.

Seu Boticário cerrou os olhos de bicho assustado, deu dois passos para trás, pegou um porrete na prateleira e deu um taco tão grande no balcão de peroba-rosa que senti minhas tripas desfibrilarem. No segundo golpe, abaixei rápido, e o taco passou rente ao couro cabeludo. Saí de quatro, depressa, feito cachorro zangado.

Mas que homem mais ignorante, pensei cá comigo, dentro de mim. Quando dei com a avenida, disparei em direção ao coreto para me proteger do maluco do seu Boticário. Acabei adormecendo; acordava vez ou outra com você acariciando meus cabelos. Acabei em sono profundo e acordei naquela manhã linda de outono com uma neném no meu colo. Batizei-a ali mesmo de Folha do Outono.


É isto aí!

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Levigação


— Volta! — gritei à mocinha, no meio de um vendaval de conflitos passionais, suado, ofegante e triste. Sentei-me à mesa rústica, olhando para a mata, as vacas, o córrego serpenteando pelo campo, descendo preguiçoso pela encosta da serra.

Levantei-me e percebi que algo estava errado comigo e com tudo. Faltava Cristal, a fada dos ventos. Vai ser engraçado Cristal ver-se relacionada aos ventos. Acho que estou saindo de dentro de mim. Isto é estranho demais.

De súbito, comecei a subir rumo às estrelas. Vejo meu corpo abandonado, as colinas, a antiga casa de Cristal, a vila, a igrejinha. Vejo tudo, até o que nunca vi. Seres que presumo angelicais aproximam-se e levam-me até a entrada de uma caverna, toda iluminada.

Sinto uma levigação em meu corpo, agora etéreo, como se mãos celestiais lixassem minha superfície corporal, removendo riscos, manchas e cicatrizes, deixando-me com um aspecto brilhoso.

— Zé... Acorda, Zé!

— Cristal? Como você chegou aqui?

— Eu moro aqui. Acorda, levanta, que o trabalho nos espera.


É isto aí!


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Poema de Retrato



você de meia neon,

com sorrisos e graça

francesinha ton sur ton

num corpinho de gata

desfilando de batom

jeans e alpargatas

é tudo de bom

quando por mim 

você passa.


domingo, 20 de setembro de 2026

Bilhetes Avulsos X

 


Querida, já que, por motivos alheios às sentimentalidades, estou sendo retirado do lado da sua vida agitada e producente, solicito que me devolva uma foto 3X4 que ainda está no seu coração. É aquela que, no verso, tem um desenho seu para mim, onde dizia que seríamos eternamente enamorados.


É isto aí!

Confissões



A verdade é que nunca gostei de café com açúcar, adoçante ou leite, e isto, de certa forma, faz de mim um sujeito antipático, como afirmou Geraldinha, dizendo que aquilo era um ato antissocial. Rimos bastante, mas nunca mais voltei para vê-la.

Tem também os gatos. Detesto gatos, tenho ojeriza a gatos. Não gosto de gatos, nem de gatas, nem de filhotinhos lindinhos de gatos, nem de gatos persas, nem de gatos vira-latas, nem de pensar que, por alguma ocorrência maléfica, venha a Dedé me arrumar um maldito gato.

Não vou deixar de gostar da Dedé por isso. Sim, é verdade: ela é apaixonada por gatos, cachorros, orquídeas e passarinhos de qualquer espécie. Acho que Dedé não é deste mundo. Sei lá, vai saber. Um dia, não hoje, contarei histórias da natureza do nosso ajuntamento cárdio-romântico. Um dia, mas hoje não.

E tem os malditos pernilongos, as abelhas, os cupins, os gafanhotos, os percevejos, as formiguinhas, as formigas e as formigonas. Todas do mesmo balaio dos marimbondos. Malditos sejam todos os criadores domésticos de marimbondos, menos Dedé.

Aranha? Engraçado, de aranha gosto. De todos os tipos, as variações, os estilos, as redes de teia, os hábitos etc. Tem também aqueles animais confinados em zoológicos. Acho triste isto: tirar o ser vivo do seu habitat natural para preservar a espécie em extinção.

Aqui cabe uma nota interessante. Dedé detesta aranhas. Nós nos amamos pelas adversidades.


É isto aí!

sábado, 19 de setembro de 2026

Cartas avulsas XXXIV- "Não é fácil amar e é impossível desamar."


Cartas Avulsas 34

Litterae solutae XXXIV


34ª Carta Avulsa

Reino da Pitangueira,

19 de setembro de 2026

 262º dia do calendário gregoriano.

Faltam 103 dias ou  2.480 horas para acabar o ano.


Dia Nacional do Teatro e o Dia do Ortopedista no Brasil.

A Igreja Católica comemora o dia de Nossa Senhora da Salete

Pôr do Sol às 17H:45min. 

 É início da Lua em fase crescente

A estação atual é o inverno.


Não é fácil amar e é impossível desamar.
 
Nesta tarde quase noite, com céu nublado, pós tempestade, depois de ventos a cerca de 70 km/h, deixarei esta carta, colocada numa inviolável garrafa PET, seguir por este turbulento canal que continua lavando meus passos de todos os dias, quando saio à sua procura, subindo escadas e descendo ladeiras feito Sísifo, condenado a repetir sua tarefa, mas capaz de assumir sua condição e encontrar nela uma forma de liberdade.

Prefiro pensar que sou um Sísifo feliz, a sair do recanto construindo esperanças e, quando retorno à solidão dos sonhos, você estará sorrindo entre lágrimas, a afagar as feridas doloridas de todos aqueles dias que não são malditos, já que todos, na completude de ser amor, promovem a validação do ser e do estar preenchido pelo tempo sem você.

Relembro a nossa bioquímica do amor, operando um conjunto de reações químicas, físico-químicas e bioquímicas, fluindo em frenesi, numa velocidade inimaginável, liberando neurotransmissores de elevada potência, coordenados pelo cérebro, que geravam a paixão, o afeto e o apego entre nós.

A "Loucura Pet-Náutica", esta embarcação que se torna personagem, levará a carta. Acompanho-a até desaparecer na curva do campo para entrar no riacho da agonia, seguindo até o ribeirão. Por fim, vejo-a, num aceno de adeus, atingir o rio; daí, chegará ao mar e acompanhará as correntes oceânicas no mesmo movimento de Sísifo.

Enquanto isso, no banco da varanda, minha existência fala quase sussurrando que:

“Se se morre de amor! — Não, não se morre,
quando é fascinação que nos surpreende".

Participaram desta carta:

O Mito de Sísifo — Albert Camus
Se se morre de amor — Gonçalves Dias

É isto aí!

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Você já viu um anjo,




Provavelmente você já viu um anjo, mas não se deu conta de que era um anjo celestial. Geralmente, acredita em asas, olhar cândido e frágil docilidade.

É bem possível que já tenham se encontrado nos sonhos, nas aflições, nas alegrias — sim, nas alegrias abençoadas, doadas pelo amor universal. Já se viram enquanto você caminhava e foi retirado de um evento de risco de qualquer natureza.

É interessante que, mesmo reconhecendo o perigo que superou ali, ao passar por uma circunstância que poderia trazer-lhe o infortúnio, não tenha percebido a natureza etérea daquele que estava ao seu lado.

Geralmente, você fica procurando no horizonte, por entre as estrelas, e, na maior parte das vezes, ele, seu amigo Anjo, está aí: forte e confiável, bem ao seu lado.

Fale com ele. Dê um alô para seu amigo eterno.

É isto aí!

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Histórias para aquecer o coração - VIII


— Você tem aroma de cupuaçu maduro — disse o enamorado diante da moça que, pela terceira vez, entrara em seu sonho.

— Eu gosto de vir aqui, sabe. Há um frescor de outono, com pitadas de primavera.

— Sério? Você vem aqui muitas vezes?

— Só quando você me chama.

— E quando isso acontece?

— Quando, por exemplo, você ouve incansavelmente nossa música e fecha os olhos.

— Mais alguma ocasião para estar aqui?

— Muitas. Como quando você se desliga do mundo ou viaja pelos seus pensamentos de maior candura. Todos esses caminhos fazem você chegar até mim.

— Interessante. Então é você que vejo atravessando a casa e cobrindo-me com um olhar de pertencimento?

— Exatamente. Saio da dimensão dos seus sonhos e materializo o desejo das suas vontades.

— Um dia estaremos juntos?

— Nunca fomos e nunca seremos separados. Não há maldição, feitiçaria, maldade e tantas outras coisas que falam sem saber. Há o amor, e isso basta.

É isto aí!

domingo, 13 de setembro de 2026

Vai ser carinhoso?



—Para, Beto, pode parar.

Espera Claudinha, está quase lá.

—Para, Beto. Tem alguma coisa errada aqui, e precisamos conversar.

Caramba, conversar agora, Claudinha?

—É, Beto, conversar agora.

Pronto, parei, o que você quer conversar?

—É sobre você, Beto, e sobre nós.

Sei, sobre nossa vida e nosso relacionamento.

—Sim e não, olha Beto, eu sei que você tem outra, e não mente pra mim.

Claudia, de onde você tira estas ideias? Outra! Que outra?

—Outra mulher, uma amante, uma vadia, uma putinha vulgar, e não se faça de desentendido.

Você está louca.

—Isto mesmo, louca para acabar com esta farsa.

Tem provas disto? De onde tirou esta piração?

—Tenho evidências, Beto, e elas podem me levar aos fatos. Mas prefiro ouvir de você.

Tudo bem, cita aí estas tais de evidências.

—O seu celular, por exemplo. De uns meses para cá só fica no silencioso. Como explica isto? Com certeza não deve ser para que eu ouça quando a galinha te liga.

O Celular só passou a ficar no silencioso por que você danou a reclamar que não tinha mais sossego em casa ao meu lado. Só por isto.

—Será Beto? Será mesmo? E o computador? Hein? E o computador que você passou a deletar o histórico dele toda vez que usa? Explica esta agora, hein!? dr. Explicadinho.

Como nosso computador é antigo, com pouca memória, e estava travando muito, passei a deletar os históricos para eliminar cookies, e pode ver que melhorou.

—Tem desculpa para tudo mesmo, hein? E o carro, Beto, o carro nunca foi lavado nestes três anos que estamos juntos, nem antes. Nem o carro do seu pai você lavava.

E daí?

—E daí que de uns tempos para cá só anda limpo e com aquele perfumezinho barato de rodoviária que você pendura no painel. Está limpando para que? Hein? Para esconder o perfume da piranha?

Você está doida, isto não está acontecendo. Como sabe, passei a dar carona para um casal que trabalha no escritório e moram aqui ao lado, O Franklin e a Rosália. Daí achei que pegava mal ficar dando desculpa o tempo todo da sujeira do carro, até mesmo poque eles bancam a gasolina.

—Doida, é? E quer saber mais? E a missa, Beto? Você nunca foi à igreja para nada, desde quando a gente só ficava. De repente vira beato de carteirinha.

Isto quer dizer apenas que encontrei minha fé.

—Encontrou o cacete. Ela deve ir também. Olha só, vê estas fotos da missa? Eu tirei escondida de você, mas nunca está ao lado de uma piriguete suspeita. Você sabia que eu iria investigar.

Claudinha, você está tomando alguma coisa diferente?

—Diferente é a sua cara de pau. E as quartas-feiras? O que está acontecendo nas quartas-feiras?

Nada, ué! Eu tive uma distensão e parei de jogar bola com a turma, foi só isto.

—Só isto, Beto? Tem a coragem de dizer que é só isto? Você e os meninos jogam bola juntos desde a adolescência, no mesmo horário, toda maldita quarta-feira. Sabe o que isto significa?

Não significa nada, e além disto chego cedo em casa toda quarta-feira, se você ainda não percebeu.

—Percebi, claro que percebi, não sou burra. É porque você e a cachorra saem na quarta-feira e aí como passou a atrasar para o jogo, inventou este estiramento falsificado.

Claudinha, pelo amor de Deus, para com isso. Não tem nada de errado acontecendo.

—É, Beto? Não tem nada disso? É sério? E as suas taras, ou melhor sua intenção de taras?

Que tem isto agora?

—Desde que começamos a ter uma vida sexual ativa, você, com suas taras primitivas e seu jeito troglodita sempre forçou a barra para eu ceder seu desejozinho idiota de me possuir por completo, meu bem. Esqueceu disto? Tem seis meses que nem um tapinha você dá em mim, Beto.

Claudinha!? Taras primitivas e jeito troglodita? Tem nada disso. Na real, eu cheguei à conclusão que insistir não levaria a lugar algum. Cansei de insistir. Preferi deixar que o tempo resolvesse isto e passei a respeitar seus princípios.

—Passou a respeitar o cacete. Você fazia de tudo para que eu cedesse, e quando eu até que comecei a achar que talvez isto poderia —talvez, hein!? — ser útil em nossa relação, você abandona o processo sem sequer perguntar ou procurar saber se eu queria pensar em tentar, sei lá, afinal deve ser pelo menos tão ruim pra ter tanta gente fazendo, mas não, parou de vez. Sabe o que eu acho? A prostituta deve estar satisfazendo esta sua tara.

Tem nada disto. Você está delirando.

—Delirando, Beto? E quando você vinha com aquela coisa pavorosa na minha direção, eu quase fazia um pânico, desviava, saia da situação, e você ficava rindo. Nem esta tentativa faz mais. Com certeza a vagabunda deve ser uma exímia atriz pornô. Olha, Beto, quem nasceu pra ter chifre é a vaca da sua amante. Eu tenho seios e ela, sim, é que deve ter tetas.

Claudinha, meu amor, o que você quer? Onde você quer chegar com isto?

—Eu quero ser sua, Beto, mas do meu jeito, mas querendo que você insista, mas sem nunca permitir, mas tendo o carro sujo, mas eu ficando com raiva por que está sujo, eu quero que desligue seu celular, mas que eu possa saber se está tocando, e que compre um computador novo, destes com muita memória, e que faça tudo comigo, desde que eu deixe, mas eu não quero que faça tudo e quero que você não fique com raiva. Eu quero confiar em você, Beto. Pode tocar em todo meu corpo, dar tapinhas, mas com limite pode tentar suas taras, mas sabendo que não deixo acontecer, mas...

Só falta você contratar um detetive para vigiar minha vida.

—Não falta, Beto. E é uma detetive. Ficou um mês na sua cola, seguiu todos os seus passos e nada. Ela nunca encontrou nada de errado na sua conduta. Que ódio, todas as evidências te incriminam, mas não consegui as provas.

Você é louca. Vou embora. E vou agora. Me larga, você é mesmo uma maluca, desmiolada, doida com algum delírio predominante. Larga - já falei - solta meu braço. Não tem amor que resista a uma piração desta. Estou saindo, fui, cansei, depois de colocar uma detetive para me investigar, acabou, Cláudia. Acabou.

—Você vai embora? Espera, desculpa, sei lá, foi doideira mesmo. Eu errei por amor.

- Muita doideira, mas e agora o que você vai fazer para consertar este estrago na nossa relação? Acha que vai ser fácil reconstruir uma história a dois com toda esta piração?

—Tudo... faço tudo.

Tem certeza? É o que quer?

—Não sei se é exatamente o que quero. Não, quer dizer, sim, humm, não, é ... promete ser carinhoso?

Prometo.

—Então, e se eu arrepender, Beto? E se doer? E se eu ficar doente? E se eu gritar muito? E se eu chorar, você para? E se você tiver um caso de verdade, já sei, deve ser isto, ela trabalha no escritório ao lado, e deve ter uma porta secreta entre os dois ...

- Puxa vida, Claudinha. Chega, bateu no fim.

—Beto, espera, Beto ... só me responde mais uma coisa. Por favor! Por favor! Por favor!

Fala, Claudinha.

- Você tem uma amante mesmo? E você faz tudo tudo tudo com ela? Ela é maisnovamaisbonitamaisgostosaque eu? Eu conheço?

Adeus!

—Espera, volta aqui, ainda não acabamos ...

Tem certeza, Cláudia Magalhães Albuquerque Cardoso Motta?

—Tenho, Adalberto D'ávila Almeida Peixoto de Algarves

Então, antes, tenho uma pergunta, Cláudia.

—Pode perguntar, Adalberto.

Quem pagou ou bancou os custos da tal da detetive?

—Sua mãe.

Você está brincando, não é?

—Beto, eu estava desesperada, aí procurei a sua mãe e falei com ela que eu estava grávida e pedi um empréstimo para a gente começar o enxoval, aí ela deu mais do que eu pedi, então foi assim que contratei a detetive.

Vo você está grávida?

—Lógico que não, Beto, e você acha que eu iria pedir a sua mãe para descobrir se você tem outra para colocar no meu lugar? Ela ia dar gargalhada.

Você é louca varrida, Claudinha. Onde você estava com a cabeça? Nesta altura minha mãe já contou prá toda a família, até pra vovó, meu Deus, você é doida. Precisamos fazer algo a respeito, Claudinha.

—Eu sou burra mesmo (chorando). Estraguei tudo. E agora, o que eu faço?

Você fica quieta, por que você mentir não é o problema, mas minha mãe mentir não é sequer cogitado como possibilidade. E tem mais, para prenhar comigo tem que ser no jeito troglodita, senão vai ter que pagar dobrado.

—Tá bem, mas vai ser carinhoso?

É isto aí!
PS - Publicada originariamente neste blog em 15 setembro 2014

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O cara esquisito


 — E aí, Carminha? Deu bem na festa da Odete?

— Sei lá, ainda tenho dúvidas. Conheci um sujeito lá, mas o cara é meio estranho. Esquisito, sabe? Sei lá...

— Ficou e gostou?

— Fiquei, gostei, adorei, descabelei, gritei, amei, enlouqueci, mas o cara é esquisito.

— Ele é feio?

— É lindo, maravilhoso, forte...

— Ele é fraquinho na hora H?

— Viril, potente, másculo, insaciável e dominante.

— Casado?

— Solteiro, solteiríssimo, desimpedido e desenrolado.

— Analfabeto funcional? Semiletrado?

— Que isso, não... Graduado, pós-graduado, experiência internacional...

— Ah, sei... É violento, grosso, mal-educado?

— Que isso! Educadíssimo, elegante, roupa fina, fala baixo e sem vícios de linguagem.

— Olha, Carminha, ele é real? Pode falar...

— Sim, com certeza sim. Tenho convicção. Mas ele é estranho, sabe... Sei lá, meio esquisito.

— Entendo. Mas o que faz ele ser esquisito?

— Ele... ele... Como falar... Ele...

— Fala, menina, sou sua amiga. Pode falar.

— Ele... ele... Bem, ele não tem tatuagem, não fuma, não fala palavrão, não bebe mais que uma dose, não usa drogas, não tem cárie nem restauração, não tem unha inflamada, o carro é limpo, não canta nem fala sozinho no banheiro, come de boca fechada, mastiga sem fazer barulho, não usa perfume, desligou o celular, não acessou a internet, pagou todas as contas, abriu a porta do carro para mim... Sabe... É muito certinho...

— Credo, Carminha! Que cara esquisito! Só pode ser um ET...

Publicada originalmente em 1 de junho de 2014

Manual de sobrevivência numa crise


 Manual de sobrevivência numa crise 

— Nunca fale o que realmente sente, mas se falar, negue que falou.

— Mantenha-se afastado num raio mínimo de cento e cinquenta milímetros

— Não desminta e nem confirme em hipótese alguma.

— Concorde com o concordável, mas faça isto só umas duas vezes.

— Nunca levante a voz e muito menos as mãos.

— Nunca grite, se gritar, evacuação total, pois aí perdeu.

— Se tiver certeza de que está certo, fique em silêncio.

— Se tiver convicção que está errado, fique em silêncio.

— Na medida do possível, evite comparações com ex.

— Não traga a família para dentro do círculo de discussão. 

— Nunca prometa algo dentro do ambiente da crise.

— Sempre que possível, olhos nos olhos. 

— Só mude de assunto se tiver argumento.

— Depois do vendaval, junte os cacos e reflita onde pode melhorar.

     Boa sorte!

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O Reino da Pitangueira faz dezesseis anos


Fonte da imagem: 1930 : Un petit garçon chante et joue de l'accordéon dans les rues de Paris.

Photo : Henri Manuel

 Ao Pé da Pitangueira

Diário de bordo na travessia da vida

Prezados leitores e leitoras do Reino da Pitangueira


É com muita alegria que chegamos a 16 anos de Blog, iniciados em 2010.Era para ser um passatempo num longo períod0 acamado, e deu que não larguei mais. Hoje estamos com 900.000 visualizações. Se você colocar na balança de que este Blog não é monetizado, o que implica em mecanismos de busca reduzidos, novecentos mil acessos, distribuídos por quase quatro mil publicações é muito bom.

Neste ano ganhamos do Google o verbete para o Blog, que já postei aqui outro dia, e novamente o faço, dando um clique no link criado: Ao pé da Pitangueira

Eu havia pensado em colocar a relação da dez postagens mais vistas, o personagens mais visitados, mas desisti. Este trabalho é múltiplo. Enfim, estou muito feliz por chegar aqui.

Um abraço, gratidão simboraláviverfeliz


É isso aí!

sábado, 5 de setembro de 2026

Nada pessoal


Nada pessoal, diz ela quando perguntam o que tanto escreve na famosa Ata Paralela.

Do 103 — São tão felizes que são chatos.

Do 104 — Pensou tanto que perdeu o bonde da história.

Do 201 — Ela chegou só. Dizem que é tão infeliz que se escora na dor.

Do 202 — Mentem tanto que não acreditam em si.

Do 304 — Sabe muito de pouca coisa e se acha o máximo.

Do 301 — Sabe um pouco de cada coisa e não se acha.

Do 402 — São tão bons que sua face resplandece.

Do 403 — Fulana sempre foi um porre de 51 com bebe-cola.

Do 501 — Fulano sempre foi um falso sem pedigree.

Do 504 — A chata é tão chata que não tem rugas.

Do 201 — Ele chegou atrasado e só agora veio a do 203... Sei... rs.

Do 302 — Gostoso, gostoso, gostoso...


É isto aí!


sábado, 29 de agosto de 2026

Sobre o amor e as ausências matriciais

 


Dia sim, dia não, ele passava empurrando seu carrinho. Da janela da sala cumprimentava-o para seguir o dia, dava um sorriso largo e cada qual para sua batalha.

Todo dia ela passava, linda e sensual, pela calçada e nossos olhos se cruzavam cada vez mais ternos. Sorríamos discretamente e cada um seguia seu caminho.

Todos os dias, ao chegar no escritório, recebia um bom dia da zeladora do prédio. Acenava a cabeça para ela e seguia sem dar retorno ao agrado.

Toda quarta-feira tinha o encontro da turma no bar do Zé Gomes. Nunca cumprimentei o tal do Zé Gomes.

Todo dia chegava em casa cansado, a esposa estava de mal humor, como sempre. Entrava no banho, depois demorava nos documentos online que precisava do meu aval até as sete horas da manhã.

Todo dia chegava no quarto, ela dormindo e eu desejando a vizinha, o sexo era uma coisa mecânica, sem carinho, sem olhares sem nada, até ela dormir.

Todo dia tudo igual e eu ainda não reparava que estava morto há décadas.


É isto aí!

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lembranças húngaras


Aos sete anos comecei a desconfiar que era adotado quando descobri que minha irmã e meus dois irmãos não falavam nem compreendiam o húngaro. Tudo ia bem até o dia em que mamãe perguntou como eu sabia que aquilo que eu pronunciava era húngaro, se nunca estudara tal língua. Diante de tal indagação, que só as mães sabem realizar tão bem, silenciei.

Aos nove anos tracei um plano mirabolante para fugir de casa e, em apenas três semanas, alcançar minha pátria verdadeira. Não existiam os computadores de uso doméstico, não existiam os smartphones, mas, na Biblioteca Pública Municipal, a três quarteirões de minha casa, havia a fantástica Enciclopédia Barsa. Vocês não conseguem imaginar o poder que emanava daqueles enormes e pesados livros.

Aprendi na aula que as grandes navegações portuguesas utilizavam a rota cuja corrente cruza o oceano em direção ao continente africano, onde se conecta à Corrente de Benguela. Uma vez no continente africano, pedalando minha bicicleta Caloi, eu subiria rumo a Ceuta e, dali, seguiria para a Europa Oriental até chegar à minha pátria onírica. Mas antes era preciso, ainda no Brasil, ir para o sul e aproveitar a corrente marítima que me levaria à África. Desisti, pois do Paraná até o Rio Grande do Sul faz muito frio e eu detesto frio.

Aos onze anos bolei um plano para a fuga rumo à Hungria, por avião de caça Xavante, orgulho da Força Aérea Brasileira. Apenas duas coisas bloquearam a fuga, dada como certa em meus cálculos, sonhos e determinações. A primeira era a idade, que me impedia de entrar para a escola de formação de pilotos; a segunda, que descobri naquela época, era o pânico de altura.

Aos treze anos tive uma ideia surpreendente. Enviei uma carta à Embaixada da Hungria, narrando minha situação peculiar de exílio sem causa aparente. Nunca recebi resposta.

Aos quinze anos conheci Nandinha. Jamais tinha beijado assim, de uma maneira mais íntima e pessoal. Daquele dia em diante, convenci-me de que as húngaras não devem ser muito boas de beijo.

É isto aí!


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O que a vida quer da gente é coragem


Tem dia que escrever é uma longa história de amor em crise. Nada dá certo, nada está bom, nada está perfeito. Nada, compreende quando digo isto, um nada? Nem originalidade tenho nesta situação e ainda tem um negócio inegociável — não passa pelos meus princípios copiar textos produzidos por IA.

Não é preconceito, nenhuma restrição às IAs espalhadas pelo mundo digital — é verdade que faço consultas para enriquecer a crônica, mas sem plágio. Não me sinto bem fazendo isto. Aquilo ali não sou eu, não tem minhas ideias, mesmo as mais fracas, nem as piadas ridículas que teimo em colocar nos parágrafos intermediários. E isto fica entre mim e minha personalidade.

Escrever deveria ser automático, como andar, falar etc., mas tem dia que não sai nada do desejado. A mente está vazia, e você sabe o que dizem sobre isto — "mente vazia, oficina do diabo". Mas ela não se encontra vazia: passam milhares de coisas e não fazem sentido no meu sentido de busca.

Estou velho, um velho lobo cansado, a desejar atracar na terceira margem do rio, como contou — e me encanta sempre — Guimarães Rosa. Falando nele, é sua também a frase do dia de hoje: "O que a vida quer da gente é coragem."

É isto aí!