domingo, 13 de setembro de 2026

Vai ser carinhoso?



—Para, Beto, pode parar.

Espera Claudinha, está quase lá.

—Para, Beto. Tem alguma coisa errada aqui, e precisamos conversar.

Caramba, conversar agora, Claudinha?

—É, Beto, conversar agora.

Pronto, parei, o que você quer conversar?

—É sobre você, Beto, e sobre nós.

Sei, sobre nossa vida e nosso relacionamento.

—Sim e não, olha Beto, eu sei que você tem outra, e não mente pra mim.

Claudia, de onde você tira estas ideias? Outra! Que outra?

—Outra mulher, uma amante, uma vadia, uma putinha vulgar, e não se faça de desentendido.

Você está louca.

—Isto mesmo, louca para acabar com esta farsa.

Tem provas disto? De onde tirou esta piração?

Tenho evidências, Beto, e elas podem me levar aos fatos. Mas prefiro ouvir de você.

Tudo bem, cita aí estas tais de evidências.

—O seu celular, por exemplo. De uns meses para cá só fica no silencioso. Como explica isto? Com certeza não deve ser para que eu ouça quando a galinha te liga.

O Celular só passou a ficar no silencioso por que você danou a reclamar que não tinha mais sossego em casa ao meu lado. Só por isto.

—Será Beto? Será mesmo? E o computador? Hein? E o computador que você passou a deletar o histórico dele toda vez que usa? Explica esta agora, hein!? dr. Explicadinho.

Como nosso computador é antigo, com pouca memória, e estava travando muito, passei a deletar os históricos para eliminar cookies, e pode ver que melhorou.

—Tem desculpa para tudo mesmo, hein? E o carro, Beto, o carro nunca foi lavado nestes três anos que estamos juntos, nem antes. Nem o carro do seu pai você lavava.

E daí?

—E daí que de uns tempos para cá só anda limpo e com aquele perfumezinho barato de rodoviária que você pendura no painel. Está limpando para que? Hein? Para esconder o perfume da piranha?

Você está doida, isto não está acontecendo. Como sabe, passei a dar carona para um casal que trabalha no escritório e moram aqui ao lado, O Franklin e a Rosália. Daí achei que pegava mal ficar dando desculpa o tempo todo da sujeira do carro, até mesmo poque eles bancam a gasolina.

—Doida, é? E quer saber mais? E a missa, Beto? Você nunca foi à igreja para nada, desde quando a gente só ficava. De repente vira beato de carteirinha.

Isto quer dizer apenas que encontrei minha fé.

—Encontrou o cacete. Ela deve ir também. Olha só, vê estas fotos da missa? Eu tirei escondida de você, mas nunca está ao lado de uma piriguete suspeita. Você sabia que eu iria investigar.

Claudinha, você está tomando alguma coisa diferente?

—Diferente é a sua cara de pau. E as quartas-feiras? O que está acontecendo nas quartas-feiras?

Nada, ué! Eu tive uma distensão e parei de jogar bola com a turma, foi só isto.

—Só isto, Beto? Tem a coragem de dizer que é só isto? Você e os meninos jogam bola juntos desde a adolescência, no mesmo horário, toda maldita quarta-feira. Sabe o que isto significa?

Não significa nada, e além disto chego cedo em casa toda quarta-feira, se você ainda não percebeu.

—Percebi, claro que percebi, não sou burra. É porque você e a cachorra saem na quarta-feira e aí como passou a atrasar para o jogo, inventou este estiramento falsificado.

Claudinha, pelo amor de Deus, para com isso. Não tem nada de errado acontecendo.

—É, Beto? Não tem nada disso? É sério? E as suas taras, ou melhor sua intenção de taras?

Que tem isto agora?

—Desde que começamos a ter uma vida sexual ativa, você, com suas taras primitivas e seu jeito troglodita sempre forçou a barra para eu ceder seu desejozinho idiota de me possuir por completo, meu bem. Esqueceu disto? Tem seis meses que nem um tapinha você dá em mim, Beto.

Claudinha!? Taras primitivas e jeito troglodita? Tem nada disso. Na real, eu cheguei à conclusão que insistir não levaria a lugar algum. Cansei de insistir. Preferi deixar que o tempo resolvesse isto e passei a respeitar seus princípios.

—Passou a respeitar o cacete. Você fazia de tudo para que eu cedesse, e quando eu até que comecei a achar que talvez isto poderia —talvez, hein!? — ser útil em nossa relação, você abandona o processo sem sequer perguntar ou procurar saber se eu queria pensar em tentar, sei lá, afinal deve ser pelo menos tão ruim pra ter tanta gente fazendo, mas não, parou de vez. Sabe o que eu acho? A prostituta deve estar satisfazendo esta sua tara.

Tem nada disto. Você está delirando.

—Delirando, Beto? E quando você vinha com aquela coisa pavorosa na minha direção, eu quase fazia um pânico, desviava, saia da situação, e você ficava rindo. Nem esta tentativa faz mais. Com certeza a vagabunda deve ser uma exímia atriz pornô. Olha, Beto, quem nasceu pra ter chifre é a vaca da sua amante. Eu tenho seios e ela, sim, é que deve ter tetas.

Claudinha, meu amor, o que você quer? Onde você quer chegar com isto?

—Eu quero ser sua, Beto, mas do meu jeito, mas querendo que você insista, mas sem nunca permitir, mas tendo o carro sujo, mas eu ficando com raiva por que está sujo, eu quero que desligue seu celular, mas que eu possa saber se está tocando, e que compre um computador novo, destes com muita memória, e que faça tudo comigo, desde que eu deixe, mas eu não quero que faça tudo e quero que você não fique com raiva. Eu quero confiar em você, Beto. Pode tocar em todo meu corpo, dar tapinhas, mas com limite pode tentar suas taras, mas sabendo que não deixo acontecer, mas...

Só falta você contratar um detetive para vigiar minha vida.

—Não falta, Beto. E é uma detetive. Ficou um mês na sua cola, seguiu todos os seus passos e nada. Ela nunca encontrou nada de errado na sua conduta. Que ódio, todas as evidências te incriminam, mas não consegui as provas.

Você é louca. Vou embora. E vou agora. Me larga, você é mesmo uma maluca, desmiolada, doida com algum delírio predominante. Larga - já falei - solta meu braço. Não tem amor que resista a uma piração desta. Estou saindo, fui, cansei, depois de colocar uma detetive para me investigar, acabou, Cláudia. Acabou.

—Você vai embora? Espera, desculpa, sei lá, foi doideira mesmo. Eu errei por amor.

- Muita doideira, mas e agora o que você vai fazer para consertar este estrago na nossa relação? Acha que vai ser fácil reconstruir uma história a dois com toda esta piração?

—Tudo... faço tudo.

Tem certeza? É o que quer?

—Não sei se é exatamente o que quero. Não, quer dizer, sim, humm, não, é ... promete ser carinhoso?

Prometo.

—Então, e se eu arrepender, Beto? E se doer? E se eu ficar doente? E se eu gritar muito? E se eu chorar, você para? E se você tiver um caso de verdade, já sei, deve ser isto, ela trabalha no escritório ao lado, e deve ter uma porta secreta entre os dois ...

- Puxa vida, Claudinha. Chega, bateu no fim.

—Beto, espera, Beto ... só me responde mais uma coisa. Por favor! Por favor! Por favor!

Fala, Claudinha.

- Você tem uma amante mesmo? E você faz tudo tudo tudo com ela? Ela é maisnovamaisbonitamaisgostosaque eu? Eu conheço?

Adeus!

—Espera, volta aqui, ainda não acabamos ...

Tem certeza, Cláudia Magalhães Albuquerque Cardoso Motta?

—Tenho, Adalberto D'ávila Almeida Peixoto de Algarves

Então, antes, tenho uma pergunta, Cláudia.

—Pode perguntar, Adalberto.

Quem pagou ou bancou os custos da tal da detetive?

—Sua mãe.

Você está brincando, não é?

—Beto, eu estava desesperada, aí procurei a sua mãe e falei com ela que eu estava grávida e pedi um empréstimo para a gente começar o enxoval, aí ela deu mais do que eu pedi, então foi assim que contratei a detetive.

Vo você está grávida?

—Lógico que não, Beto, e você acha que eu iria pedir a sua mãe para descobrir se você tem outra para colocar no meu lugar? Ela ia dar gargalhada.

Você é louca varrida, Claudinha. Onde você estava com a cabeça? Nesta altura minha mãe já contou prá toda a família, até pra vovó, meu Deus, você é doida. Precisamos fazer algo a respeito, Claudinha.

—Eu sou burra mesmo (chorando). Estraguei tudo. E agora, o que eu faço?

Você fica quieta, por que você mentir não é o problema, mas minha mãe mentir não é sequer cogitado como possibilidade. E tem mais, para prenhar comigo tem que ser no jeito troglodita, senão vai ter que pagar dobrado.

—Tá bem, mas vai ser carinhoso?

É isto aí!
PS - Publicada originariamente neste blog em 15 setembro 2014

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O cara esquisito


 — E aí, Carminha? Deu bem na festa da Odete?

— Sei lá, ainda tenho dúvidas. Conheci um sujeito lá, mas o cara é meio estranho. Esquisito, sabe? Sei lá...

— Ficou e gostou?

— Fiquei, gostei, adorei, descabelei, gritei, amei, enlouqueci, mas o cara é esquisito.

— Ele é feio?

— É lindo, maravilhoso, forte...

— Ele é fraquinho na hora H?

— Viril, potente, másculo, insaciável e dominante.

— Casado?

— Solteiro, solteiríssimo, desimpedido e desenrolado.

— Analfabeto funcional? Semiletrado?

— Que isso, não... Graduado, pós-graduado, experiência internacional...

— Ah, sei... É violento, grosso, mal-educado?

— Que isso! Educadíssimo, elegante, roupa fina, fala baixo e sem vícios de linguagem.

— Olha, Carminha, ele é real? Pode falar...

— Não, com certeza não. Tenho convicção. Mas ele é estranho, sabe... Sei lá, meio esquisito.

— Entendo. Mas o que faz ele ser esquisito?

— Ele... ele... Como falar... Ele...

— Fala, menina, sou sua amiga. Pode falar.

— Ele... ele... Bem, ele não tem tatuagem, não fuma, não fala palavrão, não bebe mais que uma dose, não usa drogas, não tem cárie nem restauração, não tem unha inflamada, o carro é limpo, não canta nem fala sozinho no banheiro, come de boca fechada, mastiga sem fazer barulho, não usa perfume, desligou o celular, não acessou a internet, pagou todas as contas, abriu a porta do carro para mim... Sabe... É muito certinho...

— Credo, Carminha! Que cara esquisito! Só pode ser um ET...

Publicada originalmente em 1 de junho de 2014

Manual de sobrevivência numa crise


 Manual de sobrevivência numa crise 

— Nunca fale o que realmente sente, mas se falar, negue que falou.

— Mantenha-se afastado num raio mínimo de cento e cinquenta milímetros

— Não desminta e nem confirme em hipótese alguma.

— Concorde com o concordável, mas faça isto só umas duas vezes.

— Nunca levante a voz e muito menos as mãos.

— Nunca grite, se gritar, evacuação total, pois aí perdeu.

— Se tiver certeza de que está certo, fique em silêncio.

— Se tiver convicção que está errado, fique em silêncio.

— Na medida do possível, evite comparações com ex.

— Não traga a família para dentro do círculo de discussão. 

— Nunca prometa algo dentro do ambiente da crise.

— Sempre que possível, olhos nos olhos. 

— Só mude de assunto se tiver argumento.

— Depois do vendaval, junte os cacos e reflita onde pode melhorar.

     Boa sorte!

.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O Reino da Pitangueira faz dezesseis anos


Fonte da imagem: 1930 : Un petit garçon chante et joue de l'accordéon dans les rues de Paris.

Photo : Henri Manuel

 Ao Pé da Pitangueira

Diário de bordo na travessia da vida

Prezados leitores e leitoras do Reino da Pitangueira


É com muita alegria que chegamos a 16 anos de Blog, iniciados em 2010.Era para ser um passatempo num longo períod0 acamado, e deu que não larguei mais. Hoje estamos com 900.000 visualizações. Se você colocar na balança de que este Blog não é monetizado, o que implica em mecanismos de busca reduzidos, novecentos mil acessos, distribuídos por quase quatro mil publicações é muito bom.

Neste ano ganhamos do Google o verbete para o Blog, que já postei aqui outro dia, e novamente o faço, dando um clique no link criado: Ao pé da Pitangueira

Eu havia pensado em colocar a relação da dez postagens mais vistas, o personagens mais visitados, mas desisti. Este trabalho é múltiplo. Enfim, estou muito feliz por chegar aqui.

Um abraço, gratidão simboraláviverfeliz


É isso aí!

sábado, 5 de setembro de 2026

Nada pessoal


Nada pessoal, diz ela quando perguntam o que tanto escreve na famosa Ata Paralela.

Do 103 — São tão felizes que são chatos.

Do 104 — Pensou tanto que perdeu o bonde da história.

Do 201 — Ela chegou só. Dizem que é tão infeliz que se escora na dor.

Do 202 — Mentem tanto que não acreditam em si.

Do 304 — Sabe muito de pouca coisa e se acha o máximo.

Do 301 — Sabe um pouco de cada coisa e não se acha.

Do 402 — São tão bons que sua face resplandece.

Do 403 — Fulana sempre foi um porre de 51 com bebe-cola.

Do 501 — Fulano sempre foi um falso sem pedigree.

Do 504 — A chata é tão chata que não tem rugas.

Do 201 — Ele chegou atrasado e só agora veio a do 203... Sei... rs.

Do 302 — Gostoso, gostoso, gostoso...


É isto aí!


sábado, 29 de agosto de 2026

Sobre o amor e as ausências matriciais

 


Dia sim, dia não, ele passava empurrando seu carrinho. Da janela da sala cumprimentava-o para seguir o dia, dava um sorriso largo e cada qual para sua batalha.

Todo dia ela passava, linda e sensual, pela calçada e nossos olhos se cruzavam cada vez mais ternos. Sorríamos discretamente e cada um seguia seu caminho.

Todos os dias, ao chegar no escritório, recebia um bom dia da zeladora do prédio. Acenava a cabeça para ela e seguia sem dar retorno ao agrado.

Toda quarta-feira tinha o encontro da turma no bar do Zé Gomes. Nunca cumprimentei o tal do Zé Gomes.

Todo dia chegava em casa cansado, a esposa estava de mal humor, como sempre. Entrava no banho, depois demorava nos documentos online que precisava do meu aval até as sete horas da manhã.

Todo dia chegava no quarto, ela dormindo e eu desejando a vizinha, o sexo era uma coisa mecânica, sem carinho, sem olhares sem nada, até ela dormir.

Todo dia tudo igual e eu ainda não reparava que estava morto há décadas.


É isto aí!

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lembranças húngaras


Aos sete anos comecei a desconfiar que era adotado quando descobri que minha irmã e meus dois irmãos não falavam nem compreendiam o húngaro. Tudo ia bem até o dia em que mamãe perguntou como eu sabia que aquilo que eu pronunciava era húngaro, se nunca estudara tal língua. Diante de tal indagação, que só as mães sabem realizar tão bem, silenciei.

Aos nove anos tracei um plano mirabolante para fugir de casa e, em apenas três semanas, alcançar minha pátria verdadeira. Não existiam os computadores de uso doméstico, não existiam os smartphones, mas, na Biblioteca Pública Municipal, a três quarteirões de minha casa, havia a fantástica Enciclopédia Barsa. Vocês não conseguem imaginar o poder que emanava daqueles enormes e pesados livros.

Aprendi na aula que as grandes navegações portuguesas utilizavam a rota cuja corrente cruza o oceano em direção ao continente africano, onde se conecta à Corrente de Benguela. Uma vez no continente africano, pedalando minha bicicleta Caloi, eu subiria rumo a Ceuta e, dali, seguiria para a Europa Oriental até chegar à minha pátria onírica. Mas antes era preciso, ainda no Brasil, ir para o sul e aproveitar a corrente marítima que me levaria à África. Desisti, pois do Paraná até o Rio Grande do Sul faz muito frio e eu detesto frio.

Aos onze anos bolei um plano para a fuga rumo à Hungria, por avião de caça Xavante, orgulho da Força Aérea Brasileira. Apenas duas coisas bloquearam a fuga, dada como certa em meus cálculos, sonhos e determinações. A primeira era a idade, que me impedia de entrar para a escola de formação de pilotos; a segunda, que descobri naquela época, era o pânico de altura.

Aos treze anos tive uma ideia surpreendente. Enviei uma carta à Embaixada da Hungria, narrando minha situação peculiar de exílio sem causa aparente. Nunca recebi resposta.

Aos quinze anos conheci Nandinha. Jamais tinha beijado assim, de uma maneira mais íntima e pessoal. Daquele dia em diante, convenci-me de que as húngaras não devem ser muito boas de beijo.

É isto aí!


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O que a vida quer da gente é coragem


Tem dia que escrever é uma longa história de amor em crise. Nada dá certo, nada está bom, nada está perfeito. Nada, compreende quando digo isto, um nada? Nem originalidade tenho nesta situação e ainda tem um negócio inegociável — não passa pelos meus princípios copiar textos produzidos por IA.

Não é preconceito, nenhuma restrição às IAs espalhadas pelo mundo digital — é verdade que faço consultas para enriquecer a crônica, mas sem plágio. Não me sinto bem fazendo isto. Aquilo ali não sou eu, não tem minhas ideias, mesmo as mais fracas, nem as piadas ridículas que teimo em colocar nos parágrafos intermediários. E isto fica entre mim e minha personalidade.

Escrever deveria ser automático, como andar, falar etc., mas tem dia que não sai nada do desejado. A mente está vazia, e você sabe o que dizem sobre isto — "mente vazia, oficina do diabo". Mas ela não se encontra vazia: passam milhares de coisas e não fazem sentido no meu sentido de busca.

Estou velho, um velho lobo cansado, a desejar atracar na terceira margem do rio, como contou — e me encanta sempre — Guimarães Rosa. Falando nele, é sua também a frase do dia de hoje: "O que a vida quer da gente é coragem."

É isto aí!


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Bilhetes Avulsos IX


Ainda não acordei e já são muitas horas de dia avançado. Sim, eu poderia apenas dizer adeus e nada mais, mas desejei explicar e aí foi o que vimos - chorei, mas que coisa difícil foi chorar diante da sua postura glacial. Escuta, chorar ainda está na minha lista de atos no altar dos sacrifícios ou você retirou também?


Espero amanhã, porque amanhã saberei quanto de mal causei a nós dois, já lúcido o suficiente para saber de que é feito este nosso amor. Falei com você que uma amiga perguntou por você? Respondi que não sabia. Ela sorriu, me abraçou e saiu feito criança que ganhou um doce. Se puder telefone, mande mensagem ou então saia dos meus sonhos. Adeus!


sábado, 22 de agosto de 2026

Deu B.O. na D.R. da fila



Cena 1 — No caixa

Estava tudo tranquilo, menos o grande movimento do supermercado, em razão do feriado do dia seguinte, emendando com o domingo. O povo fica excitado numa situação dessas, sei lá, vai saber... Melhor não peregrinar por esta via.

Cheguei à fila do caixa. Era o terceiro, tendo à minha frente um casal de idosos com dois carrinhos lotados. Lentamente, o senhor colocava as compras na esteira, numa longa e detalhada operação: pegava uma mercadoria do carrinho, conferia numa lista e, finalmente, entregava-a ao caixa, que rapidamente a repassava à senhora. Ela, por sua vez, reexaminava a qualidade da embalagem, a validade do produto e procurava a melhor posição para depositar a mercadoria no carrinho que ela havia colocado para montar a carga.

O segundo da fila era um homem de cerca de 40 anos, comum. Nada de excepcional que merecesse destaque. Atrás de mim, uma mulher imensa, com bobes no cabelo cobertos por um lenço verde-esmeralda, camiseta preta de algodão pima, tamanho extra G, e uma calça legging fitness, feita de suplex neon. Aos pés, uma indefectível e desgastada rasteirinha dourada, feita de tiras e nós. Unhas de gel douradas, também desgastadas. Os dedos, à velocidade da luz, percorriam uma rede social.

Cena 2 — Discutindo a relação na fila

— Alaor... Alaor, está surdo? — disse a mulher. — Ajuda estes velhinhos lerdos, senão não sairemos daqui hoje e ainda tenho que deixar estas comprinhas para a mamãe.

“Comprinhas” era uma forma educada de explicar o dobro das compras do homem à minha frente.

— A idosa logo gritou: — Alto lá! Sou idosa, mas não sou baranga. Além disso, estou dentro do meu direito, sua ridícula.

— Alaor, fala alguma coisa. Dá uma chamada neste estropício. Ela me ofendeu demais. Alaor... Alaor, merda, está surdo? Já não estou boa com você e ainda se faz de surdo, seu merdinha.

Alaor se virou no estreito corredor do caixa, esticou o braço direito na direção da esposa, colando-o ao meu ouvido.

— Olha aqui, Dagmara, vá à merda. Se não está satisfeita, fala logo. O que eu fiz para te deixar tão histérica?

— Histérica, eu? — gritou a esposa. — Olha só, seu marginal, você se derreteu quando estacionamos o carro neste mercadinho mequetrefe, só para que sua ex-pirata do job te cumprimentasse. Aquela vaca não merece nem pisar na poeira por onde eu passo. Uma desqualificada, uma sem-vergonha. Vontade de ter esmurrado ela.

Cena 3 — A causa aparece

— Agora entendi este enfezamento. Está com ciúme da Beatriz. Veja bem, Dagmara, ela é mãe dos meus filhos, trata-os com carinho e dedicação, e o fato de ser minha ex-esposa não me faz ser inimigo dela.

— Alaor, você é um idiota. Eu que faço você andar para frente. Se não fosse euzinha, aquela vaca já tinha te tocado de volta para o pasto dela. Alaor, espera! Alaor, onde você vai? Alaor, deixe pelo menos o cartão. Alaorzinho, volta... volta, seu merda.

É isto aí!




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Memórias de um vampiro entediado



É quase meia noite em algum lugar deste planeta. E isto pode parecer engraçado, mas não se torna processo de ritos contidos ou incontidos quando você sabe que morrerá à meia noite do dia tal. Não é fácil despedir das crianças, da solidão de um matrimônio engendrado para a quietude dos monólogos sobre temas banais do cotidiano doméstico.

Na verdade, comemoro minha morte todas as noites, por ter subtraído mais um dia da minha pouca, pobre, insegura e desnecessária existência. Nunca soube sobre a tal da felicidade e agora estou aqui, morto, lembrando das minhas incríveis derrotas, ali, estádio lotado e quando atacava, chutava para a lateral oposta, longe dos holofotes do êxito.

Esta autobiografia estará sendo lida no meu velório, pós cremação. Nada de velar o corpo, este corpo que nunca apoiou minhas iniciativas de ser um grande conquistador. É quase meia-noite e já estou aqui, alma desatada do cordão de prata que me unia ao ser humano que era um fracasso total de bilheteria e sucesso.

Para Himalaia, minha desalmada esposa, deixo a senha do cartão de crédito, desacreditado, já antecipo para não sofrer consequências legais de usura do sistema financeiro, nem mesmo da lei que nos rege e determina quem pode ter área vip e quem não pode nem apreciar fotografias das viagens aos monumentos heroicos de poucos seres ególatras. 

Para Sofia, Phillos e Solanácea, meus amados filhos, deixo a ilusão de que fui pai de cada um de vocês. Sua mãe teve todas através de experiências intergalácticas. Karon, Kajan e Karim são, pela ordem de poder hierárquico, os príncipes de Resus, um distante reino cósmico e respectivamente pais de vocês. 

Se estiver vivo na manhã de 30 setembro, será o sinal de que escolhi ser eterno e continuarei perturbando este planetinha de merda. Não peço desculpas de nada, peço água mineral com gás e bolinho da Jurema, aquela deliciosa bordadeira, costureira e cozinheira que já conheci no silêncio das nossas pulsões de desejo.

Até aqui, estou normal e sim, tomei meus remédios.  


É isto aí!

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Histórias para aquecer o coração - VII


— Será que chove? — perguntou o rapaz à moça no ponto de ônibus.

Educadamente, ela sorriu para o rapaz e continuou sem se manifestar sobre as probabilidades de chuva na região.

Ele olhou para o horizonte, meio azul, meio cinza; olhou para o alto, limpo, limpo, e finalmente olhou para a moça. Experimentou um leve sorriso, como quem tenta desarmar os alarmes de perigo, varreu o corpo dela com um olhar de conhecimento da área, para finalmente perguntar:

— Você ainda namora com o Oscarzinho da lanchonete?

Ela olhou sem virar o rosto, mantendo uma distância social segura.

— Olha, só estou querendo um sim ou não. Nada complicado.

Sem tirar o olhar enviesado do rapaz, deu um passo à esquerda, virando o rosto para verificar se o ônibus estava se aproximando. Deu sinal e embarcou para seu destino.

No dia seguinte, terça-feira, encontraram-se lado a lado, sem se olharem, sem se analisarem, sem nada.

O ônibus parou. Ele entrou, e ela ficou aguardando o que a levaria ao seu destino. Guardou consigo o horário e o rumo que o rapaz tomou.

Pela primeira vez, achou-o bonito, bem-apessoado e educado, mas ele poderia, ao menos, olhar para ela — e não o fez.

Nos cinco dias seguintes, a cena se repetiu.

A curiosidade aguçou-se na mocinha. Já se sentia segura com a companhia do rapaz. Resolveu tomar coragem.

Olhou diretamente para ele no ponto de ônibus e perguntou, de uma forma suave:

— Quem é o Oscarzinho?

É isto aí!

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Olhos Sanpaku

 


Notas prévias de esclarecimento

Olá! Meu nome é Teobaldo Aristarco de Samos. Pouquíssimas pessoas sabem disso. A verdade é que odeio Teobaldo. Isto sempre me deixa irado. Ideia do meu pai ter um filho ousado, audacioso, destemido, quando eu só queria ser milionário e ficar rico.

No meio jurídico, onde fiz fama, glória e fortuna, sou o Dr. Aristarco. E aí está o que sempre adorei: ser heliocêntrico em tempo integral.

Tenho 43 anos, três filhas — graças às preces, nenhum menino para chamar de Teobaldo. Não tenho deixado faltar nada a elas nem à mãe delas. A separação foi de comum acordo, numa trama fiduciária cujo risco calculado deu certo. Passados dez anos do divórcio, ainda temos um relacionamento respeitoso e ameno.

Um dia, depois de uma vitória considerada impossível — quando alguns desembargadores já haviam sinalizado um resultado adverso —, saí com minha equipe para comemorar.

Comemorávamos o impossível.

O Preço do Amor Sanpaku

Aviso de utilidade pública: cruzar o olhar de uma deusa sanpaku é assinar, em cartório, o termo de doação do próprio amor-próprio.

Naquela tarde, início da noite, já abusando do Martini, fui fisgado por um olhar que me absorveu por completo.

A partir daquele encontro, entreguei-me a uma mulher tão voluptuosa que a gravidade parecia curvar-se ao seu redor, mas com aquelas íris caídas que fitavam o horizonte como se eu fosse apenas um boleto vencido.

Perdi completamente minha autoestima, entregando-me integralmente ao seu frio e protocolar amor.

Ela não dizia “eu te amo”, mas exigia todo o meu amor.

Emitia um recibo de tolerância afetiva, com direito a carimbo e cópia autenticada. Seu abraço era um procedimento técnico de baixa caloria que durava segundos — tempo suficiente para desintegrar o resto da minha dignidade.

A Noite do Adeus

Numa noite, sóbrio, disse adeus.

Ela olhou-me furiosamente com seus olhos sanpaku.

Vivi uma experiência única. Travei todo o corpo, e ela, como se fosse desenhada por algum grande mestre da pintura em um dia de ódio, andava como quem pisa em baratas metafísicas.

Eu aplaudia cada pisada no meu ego.

Só que não sabia que quem recusa amar uma sanpaku fria acaba virando lenda urbana na boca dos amigos de bar.

Eu não virei lenda.

Virei mobília.

Rota de Fuga

Havia algo neandertal nos meus pensamentos. Eles passaram a alucinar com vários fetiches diante daquela deusa exuberante. Até hoje me pergunto se aquilo foi real.

Vi nós dois dividindo uma coxa de mamute crua diante da fogueira sagrada. Achei que seria sacrificado para agradá-la, linda e sensual, vestida com peles de grandes felinos.

Abriu-se, de súbito, um portal para o túnel de escape de pensamentos. Saltei para dentro dele e fugi dali.

Saltei de um penhasco enquanto, ao mesmo tempo, naufragava em um mar de curvas tempestuosas, numa indiferença jurássica.

Ainda não sei como saí, mas me senti seguro deitado no sofá da minha sala.

Os Efeitos Colaterais da Fuga

Aí começaram a acontecer coisas estranhas.

Primeiro veio a gagueira.

Aquilo foi o princípio da ruína para um bem-sucedido advogado.

Eu, que raramente perdia causas complexas, dono de enorme poder de persuasão e de uma capacidade mnemônica ímpar, amanheci estranho e, no decorrer do dia, virei um gago trêmulo.

Imagine o melhor advogado de toda a história forense acometido por uma gagueira psicogênica.

Seria motivo de riso e escárnio.

E isso significaria a destruição da credibilidade.

Toda vez que eu pensava no olhar sanpaku daquela deusa, minha língua travava como um motor sem óleo.

Desesperanças e Consequências

Desesperado, fui ao terreiro de Mãe Dorinha.

Ela me aconselhou a pular a fogueira três vezes no sentido norte-sul e três vezes no sentido leste-oeste; andar descalço sobre as brasas e, por fim, tomar um banho de descarrego.

Pulei o fogo, andei na brasa e me senti melhor.

O banho de ervas levou embora o lodo da humilhação.

Virei um novo homem.

A gagueira sumiu, e minha língua voltou a ser uma máquina de fechar contratos de milhões.

Quando levantei os olhos, deparei-me com aquele olhar de ódio, acompanhado de palavras de maldição.

Dessa vez, o feitiço não bateu.

Eu estava curado.

Nervos de Aço e Ingenuidade Infantil

Um dia, acordei num acampamento romani.

Eu conhecia aquele lugar. Não sei por qual motivo, mas havia uma estranha sensação de pertencimento.

Minha alma de advogado parecia ter encontrado sua verdadeira vocação ancestral.

Foi então que ela entrou na tenda, sorriu, despiu-se dos véus e começou a esmurrar meu tórax.

Foi direto no esterno, com uma sequência de ganchos e cruzados, para me lembrar de que o amor dói.

Foi quando o cenário mudou.

Passei a sentir contrações. Minha boca estava travada, e ela gritava:

— Volte! Volte!

Ao mesmo tempo, alguém pressionava um desfibrilador contra meu peito.

Eu estava numa ambulância.

Enquanto lutava contra seres disformes, as descargas elétricas de um paramédico tentavam reanimar meu coração parado.

Minha boca travada era o tubo de oxigênio na garganta.

Eu havia sofrido um baita infarto fulminante.

Minha autoestima caiu tanto que meu coração resolveu parar de bater só para não passar mais vergonha.

Acordava vez ou outra numa UTI, entre bipes e silêncios sepulcrais.

Nos raros momentos em que meus olhos se abriam naquele ambiente estéril, a imagem dela surgia através do vidro embaçado.

Os olhos sanpaku continuavam me fitando.

Mas agora estavam cheios de cansaço e pânico de me perder.

Eu precisei quase morrer para entender o tamanho do espaço que ocupava na vida dela.

Depois da alta, voltei ao apartamento.

Quando a equipe saiu e a porta se fechou, o suspense voltou.

Ela se aproximou devagar, com aquela presença voluptuosa.

Mordiscando os lábios, sorriu maliciosamente e perguntou:

— Querido, foi bom para você?

Gargalhou.

E desapareceu num piscar de olhos.

A porta continuava fechada.

O quarto continuava vazio.

Só o perfume exótico dela ainda flutuava no ar.

Olhei para o lado e vi o papel da alta médica.

Ela se foi, pensei, mas deixou a conta do hospital e o preço da minha humilhação para eu pagar sozinho.

Espero que vocês nunca entreguem seu coração a quem tem olhos sanpaku, a menos que você tenha um ótimo plano de saúde.




É isto aí!

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Mago da Pitangueira e o continuum espaço-tempo


Naquela manhã de densa neblina, subimos ao Monte da Sabedoria, para bebermos do conhecimento do Mago da Pitangueira. Jovens, idosos, mães com filhos menores, todos ávidos pelo que aprenderiam naquela quinta-feira.

Alguém dentre vocês quer sugerir o tema?

Aqui, Mestre! Fale sobre a chegada do homem à  5a Dimensão.

Excelente escolha. Há muito venho querendo falar deste tema fascinante. A 5a Dimensão é a primeira fora do nosso conhecimento astronômico e físico, já que conhecemos desde eras remotas a altura, a largura e a profundidade, e no início do século XX incorporamos o Tempo. Bem, vamos lá 

O Peso da Bagagem: O que levamos quando cruzamos a Quinta Dimensão?

Imagine-se no comando de uma nave espacial. No painel, os marcadores indicam uma velocidade inimaginável. Você corre lado a lado com as partículas elementares do universo. Mas surge o destino e, com ele, a pergunta mais mundana e mecânica possível: como parar?
No vácuo do espaço, não há vento para criar atrito. Não há freios mecânicos. Parar uma máquina que desafia as leis de Einstein exige virar a própria estrutura ao contrário e disparar uma força equivalente contra o próprio caminho. Exige energia, cálculo e paciência. Se a física nos ensina que desacelerar dá o mesmo trabalho que acelerar, a filosofia nos sussurra algo ainda mais profundo: o verdadeiro desafio de uma jornada nunca é a partida, mas o pouso.

A Ilusão da Fuga Espacial

Recentemente, brinquei com a física teórica imaginando o combustível perfeito. Descartei a fantasia da energia infinita — que destruiria o tecido do universo por excesso de ambição — e me aconcheguei na elegância de uma reação controlada de oxirredução no vácuo total. Uma bateria exótica alimentando um motor de Dobra Espacial. Encolher o espaço na frente, esticá-lo atrás. Uma bolha de Alcubierre cruzando o vazio.
O objetivo final? Romper as correntes das nossas três dimensões conhecidas e alcançar a Quinta Dimensão.
De início, o vislumbre do hiperespaço parece a promessa da libertação definitiva de todas as nossas amarras terrenas. Na quinta dimensão, a geometria vira mágica. Você enxerga o lado de dentro e o lado de fora de um objeto ao mesmo tempo. O tempo se desdobra em uma teia de possibilidades. Rompe-se a miopia tridimensional. É o cenário perfeito para o nascimento de uma nova humanidade — um novo Adão e uma nova Eva adaptados pela filogênese e pelas mutações silenciosas da nossa evolução.
Mas a ficção, assim como a vida real, ganha corpo quando a povoamos de gente.

Seis Casais e o Velho Teatro da Dor

Imagine que não temos apenas um par de fundadores, mas seis casais. Doze indivíduos que conseguiram sobreviver ao choque cognitivo do hiperespaço. Cada um com sua particularidade biológica, sua forma única de traduzir o impossível em processos concretos.
É exatamente aí, na abundância de perspectivas, que a utopia espacial desmorona e o continuum nos devolve à nossa velha e conhecida realidade.
O que acontece quando os humanos ganham um universo inteiro de novas dimensões.
  • Novas Teologias: Aqueles que enxergam as cores exóticas da quinta dimensão criam a religião da luz pura, julgando-se os únicos profetas verdadeiros.
  • Novos Conflitos: A disputa deixa de ser por pedaços de terra e passa a ser pela definição da própria realidade. Se um casal enxerga um obstáculo dimensional e o outro não, quem tem o direito de guiar a nave?
  • Velhos Traumas: O preconceito e a rejeição ganham uma nova escala. Aqueles que não se adaptam perfeitamente são vistos como geneticamente puros ou impuros, repetindo as castas e as segregações que deixamos na Terra.
A física quântica nos diz que o continuum nos empurraria inevitavelmente para a sexta dimensão e além, até que o infinito se curve tanto sobre si mesmo que volte a parecer o vácuo total. Mas a psicologia nos avisa que, não importa para qual dimensão a nave aponte, nós sempre levaremos a nossa própria escuridão na mala.

Os Novos Nefilins

Mitologias antigas falam dos Nefilins, gigantes que cruzaram os céus e interferiram na nossa história, gerando caos e tirania. Talvez esses monstros do passado fossem apenas nativos da quinta dimensão projetando suas sombras monumentais no nosso mundo plano.
Ao olharmos para os seis casais da nossa nave teórica, percebemos que eles estão condenados a se tornarem os novos Nefilins. Seres com habilidades divinas, mas com o coração ainda atado aos dramas humanos. O novo mundo não é uma página em branco; é apenas um palco maior, com mais direções para errar, mais ângulos para sofrer e mais espaço para sangrar.
Cruzamos o universo para descobrir que o motor mais complexo não é o de dobra espacial, mas a nossa mente. E que a viagem mais longa não é em direção à sexta dimensão, mas aquela que tenta, sem sucesso, nos fazer deixar para trás os nossos próprios fantasmas.
No final, parar a nave é a parte fácil. Difícil é pacificar quem está dentro dela.
É isto aí!