Ao pé da Pitangueira
Diário de bordo na travessia da vida.
domingo, 13 de setembro de 2026
Vai ser carinhoso?
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
O cara esquisito
— Sei lá, ainda tenho dúvidas. Conheci um sujeito lá, mas o cara é meio estranho. Esquisito, sabe? Sei lá...
— Ficou e gostou?
— Fiquei, gostei, adorei, descabelei, gritei, amei, enlouqueci, mas o cara é esquisito.
— Ele é feio?
— É lindo, maravilhoso, forte...
— Ele é fraquinho na hora H?
— Viril, potente, másculo, insaciável e dominante.
— Casado?
— Solteiro, solteiríssimo, desimpedido e desenrolado.
— Analfabeto funcional? Semiletrado?
— Que isso, não... Graduado, pós-graduado, experiência internacional...
— Ah, sei... É violento, grosso, mal-educado?
— Que isso! Educadíssimo, elegante, roupa fina, fala baixo e sem vícios de linguagem.
— Olha, Carminha, ele é real? Pode falar...
— Não, com certeza não. Tenho convicção. Mas ele é estranho, sabe... Sei lá, meio esquisito.
— Entendo. Mas o que faz ele ser esquisito?
— Ele... ele... Como falar... Ele...
— Fala, menina, sou sua amiga. Pode falar.
— Ele... ele... Bem, ele não tem tatuagem, não fuma, não fala palavrão, não bebe mais que uma dose, não usa drogas, não tem cárie nem restauração, não tem unha inflamada, o carro é limpo, não canta nem fala sozinho no banheiro, come de boca fechada, mastiga sem fazer barulho, não usa perfume, desligou o celular, não acessou a internet, pagou todas as contas, abriu a porta do carro para mim... Sabe... É muito certinho...
— Credo, Carminha! Que cara esquisito! Só pode ser um ET...
Publicada originalmente em 1 de junho de 2014
Manual de sobrevivência numa crise
Manual de sobrevivência numa crise
— Nunca fale o que realmente sente, mas se falar, negue que falou.
— Mantenha-se afastado num raio mínimo de cento e cinquenta milímetros
— Não desminta e nem confirme em hipótese alguma.
— Concorde com o concordável, mas faça isto só umas duas vezes.
— Nunca levante a voz e muito menos as mãos.
— Nunca grite, se gritar, evacuação total, pois aí perdeu.
— Se tiver certeza de que está certo, fique em silêncio.
— Se tiver convicção que está errado, fique em silêncio.
— Na medida do possível, evite comparações com ex.
— Não traga a família para dentro do círculo de discussão.
— Nunca prometa algo dentro do ambiente da crise.
— Sempre que possível, olhos nos olhos.
— Só mude de assunto se tiver argumento.
— Depois do vendaval, junte os cacos e reflita onde pode melhorar.
Boa sorte!
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quarta-feira, 9 de setembro de 2026
O Reino da Pitangueira faz dezesseis anos
Photo : Henri Manuel
Ao Pé da Pitangueira
Diário de bordo na travessia da vida
Prezados leitores e leitoras do Reino da Pitangueira
sábado, 5 de setembro de 2026
Nada pessoal
Nada pessoal, diz ela quando perguntam o que tanto escreve na famosa Ata Paralela.
Do 103 — São tão felizes que são chatos.
Do 104 — Pensou tanto que perdeu o bonde da história.
Do 201 — Ela chegou só. Dizem que é tão infeliz que se escora na dor.
Do 202 — Mentem tanto que não acreditam em si.
Do 304 — Sabe muito de pouca coisa e se acha o máximo.
Do 301 — Sabe um pouco de cada coisa e não se acha.
Do 402 — São tão bons que sua face resplandece.
Do 403 — Fulana sempre foi um porre de 51 com bebe-cola.
Do 501 — Fulano sempre foi um falso sem pedigree.
Do 504 — A chata é tão chata que não tem rugas.
Do 201 — Ele chegou atrasado e só agora veio a do 203... Sei... rs.
Do 302 — Gostoso, gostoso, gostoso...
É isto aí!
sábado, 29 de agosto de 2026
Sobre o amor e as ausências matriciais
Dia sim, dia não, ele passava empurrando seu carrinho. Da janela da sala cumprimentava-o para seguir o dia, dava um sorriso largo e cada qual para sua batalha.
Todo dia ela passava, linda e sensual, pela calçada e nossos olhos se cruzavam cada vez mais ternos. Sorríamos discretamente e cada um seguia seu caminho.
Todos os dias, ao chegar no escritório, recebia um bom dia da zeladora do prédio. Acenava a cabeça para ela e seguia sem dar retorno ao agrado.
Toda quarta-feira tinha o encontro da turma no bar do Zé Gomes. Nunca cumprimentei o tal do Zé Gomes.
Todo dia chegava em casa cansado, a esposa estava de mal humor, como sempre. Entrava no banho, depois demorava nos documentos online que precisava do meu aval até as sete horas da manhã.
Todo dia chegava no quarto, ela dormindo e eu desejando a vizinha, o sexo era uma coisa mecânica, sem carinho, sem olhares sem nada, até ela dormir.
Todo dia tudo igual e eu ainda não reparava que estava morto há décadas.
É isto aí!
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Lembranças húngaras
Aos nove anos tracei um plano mirabolante para fugir de casa e, em apenas três semanas, alcançar minha pátria verdadeira. Não existiam os computadores de uso doméstico, não existiam os smartphones, mas, na Biblioteca Pública Municipal, a três quarteirões de minha casa, havia a fantástica Enciclopédia Barsa. Vocês não conseguem imaginar o poder que emanava daqueles enormes e pesados livros.
Aprendi na aula que as grandes navegações portuguesas utilizavam a rota cuja corrente cruza o oceano em direção ao continente africano, onde se conecta à Corrente de Benguela. Uma vez no continente africano, pedalando minha bicicleta Caloi, eu subiria rumo a Ceuta e, dali, seguiria para a Europa Oriental até chegar à minha pátria onírica. Mas antes era preciso, ainda no Brasil, ir para o sul e aproveitar a corrente marítima que me levaria à África. Desisti, pois do Paraná até o Rio Grande do Sul faz muito frio e eu detesto frio.
Aos onze anos bolei um plano para a fuga rumo à Hungria, por avião de caça Xavante, orgulho da Força Aérea Brasileira. Apenas duas coisas bloquearam a fuga, dada como certa em meus cálculos, sonhos e determinações. A primeira era a idade, que me impedia de entrar para a escola de formação de pilotos; a segunda, que descobri naquela época, era o pânico de altura.
Aos treze anos tive uma ideia surpreendente. Enviei uma carta à Embaixada da Hungria, narrando minha situação peculiar de exílio sem causa aparente. Nunca recebi resposta.
Aos quinze anos conheci Nandinha. Jamais tinha beijado assim, de uma maneira mais íntima e pessoal. Daquele dia em diante, convenci-me de que as húngaras não devem ser muito boas de beijo.
É isto aí!
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
O que a vida quer da gente é coragem
É isto aí!
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Bilhetes Avulsos IX
sábado, 22 de agosto de 2026
Deu B.O. na D.R. da fila
Cena 1 — No caixa
Estava tudo tranquilo, menos o grande movimento do supermercado, em razão do feriado do dia seguinte, emendando com o domingo. O povo fica excitado numa situação dessas, sei lá, vai saber... Melhor não peregrinar por esta via.
Cheguei à fila do caixa. Era o terceiro, tendo à minha frente um casal de idosos com dois carrinhos lotados. Lentamente, o senhor colocava as compras na esteira, numa longa e detalhada operação: pegava uma mercadoria do carrinho, conferia numa lista e, finalmente, entregava-a ao caixa, que rapidamente a repassava à senhora. Ela, por sua vez, reexaminava a qualidade da embalagem, a validade do produto e procurava a melhor posição para depositar a mercadoria no carrinho que ela havia colocado para montar a carga.
O segundo da fila era um homem de cerca de 40 anos, comum. Nada de excepcional que merecesse destaque. Atrás de mim, uma mulher imensa, com bobes no cabelo cobertos por um lenço verde-esmeralda, camiseta preta de algodão pima, tamanho extra G, e uma calça legging fitness, feita de suplex neon. Aos pés, uma indefectível e desgastada rasteirinha dourada, feita de tiras e nós. Unhas de gel douradas, também desgastadas. Os dedos, à velocidade da luz, percorriam uma rede social.
Cena 2 — Discutindo a relação na fila
— Alaor... Alaor, está surdo? — disse a mulher. — Ajuda estes velhinhos lerdos, senão não sairemos daqui hoje e ainda tenho que deixar estas comprinhas para a mamãe.
“Comprinhas” era uma forma educada de explicar o dobro das compras do homem à minha frente.
— A idosa logo gritou: — Alto lá! Sou idosa, mas não sou baranga. Além disso, estou dentro do meu direito, sua ridícula.
— Alaor, fala alguma coisa. Dá uma chamada neste estropício. Ela me ofendeu demais. Alaor... Alaor, merda, está surdo? Já não estou boa com você e ainda se faz de surdo, seu merdinha.
Alaor se virou no estreito corredor do caixa, esticou o braço direito na direção da esposa, colando-o ao meu ouvido.
— Olha aqui, Dagmara, vá à merda. Se não está satisfeita, fala logo. O que eu fiz para te deixar tão histérica?
— Histérica, eu? — gritou a esposa. — Olha só, seu marginal, você se derreteu quando estacionamos o carro neste mercadinho mequetrefe, só para que sua ex-pirata do job te cumprimentasse. Aquela vaca não merece nem pisar na poeira por onde eu passo. Uma desqualificada, uma sem-vergonha. Vontade de ter esmurrado ela.
Cena 3 — A causa aparece
— Agora entendi este enfezamento. Está com ciúme da Beatriz. Veja bem, Dagmara, ela é mãe dos meus filhos, trata-os com carinho e dedicação, e o fato de ser minha ex-esposa não me faz ser inimigo dela.
— Alaor, você é um idiota. Eu que faço você andar para frente. Se não fosse euzinha, aquela vaca já tinha te tocado de volta para o pasto dela. Alaor, espera! Alaor, onde você vai? Alaor, deixe pelo menos o cartão. Alaorzinho, volta... volta, seu merda.
É isto aí!
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Memórias de um vampiro entediado
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Histórias para aquecer o coração - VII
Educadamente, ela sorriu para o rapaz e continuou sem se manifestar sobre as probabilidades de chuva na região.
Ele olhou para o horizonte, meio azul, meio cinza; olhou para o alto, limpo, limpo, e finalmente olhou para a moça. Experimentou um leve sorriso, como quem tenta desarmar os alarmes de perigo, varreu o corpo dela com um olhar de conhecimento da área, para finalmente perguntar:
— Você ainda namora com o Oscarzinho da lanchonete?
Ela olhou sem virar o rosto, mantendo uma distância social segura.
— Olha, só estou querendo um sim ou não. Nada complicado.
Sem tirar o olhar enviesado do rapaz, deu um passo à esquerda, virando o rosto para verificar se o ônibus estava se aproximando. Deu sinal e embarcou para seu destino.
No dia seguinte, terça-feira, encontraram-se lado a lado, sem se olharem, sem se analisarem, sem nada.
O ônibus parou. Ele entrou, e ela ficou aguardando o que a levaria ao seu destino. Guardou consigo o horário e o rumo que o rapaz tomou.
Pela primeira vez, achou-o bonito, bem-apessoado e educado, mas ele poderia, ao menos, olhar para ela — e não o fez.
Nos cinco dias seguintes, a cena se repetiu.
A curiosidade aguçou-se na mocinha. Já se sentia segura com a companhia do rapaz. Resolveu tomar coragem.
Olhou diretamente para ele no ponto de ônibus e perguntou, de uma forma suave:
— Quem é o Oscarzinho?
É isto aí!
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Olhos Sanpaku
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
O Mago da Pitangueira e o continuum espaço-tempo
Alguém dentre vocês quer sugerir o tema?
Aqui, Mestre! Fale sobre a chegada do homem à 5a Dimensão.
Excelente escolha. Há muito venho querendo falar deste tema fascinante. A 5a Dimensão é a primeira fora do nosso conhecimento astronômico e físico, já que conhecemos desde eras remotas a altura, a largura e a profundidade, e no início do século XX incorporamos o Tempo. Bem, vamos lá
O Peso da Bagagem: O que levamos quando cruzamos a Quinta Dimensão?
A Ilusão da Fuga Espacial
Seis Casais e o Velho Teatro da Dor
- Novas Teologias: Aqueles que enxergam as cores exóticas da quinta dimensão criam a religião da luz pura, julgando-se os únicos profetas verdadeiros.
- Novos Conflitos: A disputa deixa de ser por pedaços de terra e passa a ser pela definição da própria realidade. Se um casal enxerga um obstáculo dimensional e o outro não, quem tem o direito de guiar a nave?
- Velhos Traumas: O preconceito e a rejeição ganham uma nova escala. Aqueles que não se adaptam perfeitamente são vistos como geneticamente puros ou impuros, repetindo as castas e as segregações que deixamos na Terra.





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