Ao pé da Pitangueira
Diário de bordo na travessia da vida.
terça-feira, 21 de abril de 2026
Frequência 528 - A frequência do Milagre
quarta-feira, 15 de abril de 2026
O Caixeiro, a Viúva e o Enteado
Fui caixeiro viajante no começo da minha vida comercial. Vendia tecidos, perfumes, jogos de cama e chapéus. Naquela época rodava pelas vilas, aglomerados e cidadezinhas fora do mapa, numa kombi com bagageiro no teto. A cidade que mais gostava de passar era Limoeiro do Livramento. Deu que engracei com uma viúva nova, bonita e elegante que tinha uma pequena lanchonete e fazia almoço sob encomenda.
A viúva tinha um enteado de 8 anos, Totó do Passatempo. Moleque esperto, menino bom, educado e talentoso. Quando fez dez anos, levei para ele dois livros — "As Aventuras de Tom Sawyer" e "As Aventuras de Huckleberry Finn". Ficou encantado com o poder das palavras e desde então queria viver aventuras e desbravamentos com toda a intensidade dos livros.
Totó passou a levar a revista para a Praça do Coreto, de frente para a Igreja Matriz e passou a aplicar os testes ao custo de um cruzeiro novo. Com a popularidade do evento, Rapino Soluço, proprietário da agência Lotérica, que era também papelaria e posto telefônico cresceu o olho nesta popularidade e sugeriu a Totó que a Agência Lotérica comandasse este processo, assim divulgava o evento, cobrava dois cruzeiros novos, dividindo o lucro líquido com Totó, que ficava com 50 centavos de cada teste, e o povo concorria a um sorteio de três guaranazinhos naturais com três paçoquinhas na Lanchonete da Viúva.
Num destes complexos testes de inteligência cognitiva, na pequena e pacata Limoeiro do Livramento, naquele final de tarde, dois competidores empataram. A comunidade estava em delírio. A Bandinha Municipal tocava dobrados.
Totó definiu que o desempate se daria com a resolução quase impossível do teste da famosa Charada do Peixe:
O locutor Toninho Garganta, com sua voz rouca e terno de risca de giz antigo e surrado fez a enigmática pergunta: Cidadãos e cidadonas, adultos, aflitos e molequinhos, aproximem-se, façam suas apostas, agora está valendo uma pizza e três guaranazinhos caseiros, além da cachaça de rolha exclusiva da venda do Onofre. A situação de hoje é a seguinte.
Temos dois fortes finalistas. Deste lado direito e para os que estão atrás, do Coreto, do seu lado esquerdo e vice versa ou não sei lá, vai saber. Bem, aqui temos Zezinho da Grota. Podem aplaudir, isto, muito bem. aplausos. E dou outro lado, que não é este lado de cá, temos Geraldinho Cambota, o rei do pé de valsa de Limoeiro do Livramento. Aplausos, aplausos, aplausos, já ganhou já ganhou já ganhou — gritava a sua família.
Atenção, disse Toninho Garganta, atenção Zezinho da Grota. Quem levantar a mão primeiro e acertar fica com tudo.
Silêncio total. Senhores, prontos? Vamos lá:
— Considerando um peixe, onde a cabeça mede 9cm, a cauda é igual à cabeça mais metade do corpo, e o corpo é igual à cabeça mais a cauda, quanto mede o peixe?
Zézinho da Grota respondeu no talo: 111, noves fora 102 tirando a metade, cai para 51 cuja régua vai até 9 x 3 elevado a 1 - 45. Então ele deve ter alguma coisa entre dois numerais ou não, tudo pode acontecer, já que número é conceito abstrato.
Silêncio total em volta do Coreto. Alguém gritou - chamem o Padre, que ele saberá se Zezinho da Grota está certo ou quase certo. O padre mandou dizer que está em oração pelo ganhador. Aí matutei cá dentro no silêncio — Eu não sei nem como se faz uma resposta mediante este problema.
Logo Totó do Passatempo levantou o braço devido a uma coceira crônica que tinha no sobaco das axilas, como diagnosticou Gentilinho da Farmácia. Todos olharam para ele que não olhava para ninguém.
Silêncio total no entorno do Coreto. A Bandinha da Prefeitura quieta, esperando Totó. Aí um gritou - fala, Totó, outro também gritou em em poucos minutos toda a praça gritava - fala Totó.
Totó sabia que não poderia falhar ali, logo ele que começou a disputa que gerou movimentação na praça com ambulantes e visitantes. Pensou assim - se eu fosse o Tom Sawyer, como sairia desta? Já sei, sorriu e bradou em voz alta - já sei. A cidade em polvorosa na praça do Coreto gritava - Totó, Totó, Totó... aplausos, gritos apitos e até a bandinha começou um Dobrado.
Totó levantou o braço novamente devido à coceira crônica no sobaco das axilas. Silêncio total. Sorrindo proferiu a sentença matemática. Olha só, se soma do quadrado dos catetos é a hipotenusa, logo menos b mais ou menos raiz quadrada de Bê2 menos 4ac, divididos por 2A , considerando que o peixe, onde a cabeça mede 9cm, a cauda é igual à cabeça mais metade do corpo e o corpo é igual à cabeça mais a cauda, o peixe não mede, ele nada.
O povo foi ao delírio. Gritos, Totó para prefeito, e a Bandinha tocou até a alvorada.
terça-feira, 14 de abril de 2026
O contato
domingo, 12 de abril de 2026
Terezinha e Arlindo
— Nossa, Arlindo, como você é burro. Quarenta anos juntos e sempre o mesmo burro.
— Bem, pelo menos você achou alguma coisa em mim...
— Arlindo, eu tenho que falar uma coisa com você, e não sei como dizer isto.
— Terezinha, comece pelo mais simples.
— Odeio quando você faz este maldito trocadilho com meu nome, me chamando de Terezenha. Eu sei por que você faz isto. Você é um cretino, e eu descobri que este "enha" é porque você me julga seca, enrugada e inflexível como uma haste de lenha. E não desminta, porque ouvi esta versão de uma amiga — o marido dela, bêbado, que é da sua turminha de idiotas, contou achando graça.
— Vai, fala logo ou então termina esta conversa.
— Nem desmente. Cretino! Cretino! Ai, que ódio, meu Deus, que ódio... Arlindo, eu preciso te dizer uma coisa. Nem sei como falar, mas não posso mais esconder: isto está doendo muito em mim, esta vida dupla que estou levando. Arlindo... eu... eu... olha, Arlindo, quero que saiba que te amo, mas tenho um amante.
(silêncio)
— Um amante, Arlindo. Um homem que me ama, me seduz, me tem nos seus braços e me chama de amor.
(silêncio. Ele sorri.)
— Espera, você não vai falar nada? Diz pra mim, Arlindo, fala alguma coisa e tira este sorrisinho irônico do rosto... Perdoa, Arlindo, eu te traí porque te amo... Perdoa, meu amor...
(Ele gargalha.)
— Para de rir, Arlindo, para com isto... Espera, onde você vai? Volta, amor, não ria... Fiz isto por nós dois...
— Só vou no bar contar esta para os amigos. Depois eu volto...
— Volta, amor... Precisamos conversar mais sobre isto... É que estou grávida...
Ele parou. Virou-se lentamente.
— Grávida?
— É... (hesita) Bem que podia ser verdade.
Arlindo balançou a cabeça, rindo sozinho.
— Terezinha, você é muito divertida...
— Só para você ser corno...
— Aí eu teria te abandonado.
— É... Por este lado, melhor que não, não é, amor?
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Sobre anseios
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Nem tudo é fado
tudo isto é triste,
todavia
nem tudo é fado
— suspirou aflito —
no último choro,
quase mudo,
reverberando
a dor enquanto
traduzia da moça
seu desamor lilás
em neon.
É isto aí!
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Carminha e Armandinho em "Quero ser amada"
Eu te amo, Carminha.
— Não, não me ama, Armandinho.
Claro que sim, sinto que posso morrer por este amor.
— A morte, Armandinho, faz parte da vida, mas o modus operandi, o processo de morrer é individual, e independe das escolhas que fazemos.
Não, Carminha, nunca fale assim comigo. Eu morro de amor por você!
— O que deseja que eu fale? Que te amo? Não, não te amo.
Mas estamos juntos...
— Sim, estamos juntos, mas isto não faz de mim uma mulher obrigada a amá-lo.
Lembra quando nos vimos pela primeira vez?
— Sim, claro.
Então, Carminha? Aquilo não foi a fagulha do amor?
— Vocês homens misturam tudo - desejo, tesão, paixão e amor para vocês são as mesmas coisas.
Mas estão juntas e misturadas.
— E nem por isto são homólogas. São transportes diferentes, cada um destes sentimentos nos levam a uma experiência distinta, sempre saindo da mesma plataforma, mas nos entregando em destinos muito distantes uns dos outros.
Eu não entendo isto, Carminha, não entendo você.
— Não estou aqui para ser decifrada, Armandinho, quero ser amada, possuída e desejada, uma coisa de cada vez, cada qual de um jeito, e todas elas, seja quais forem, sedutoras.
Nossa. Eu procuro fazer tudo certo para não te irritar...
— Irritar? Você quer saber o que me irrita, Armandinho? Você é todo certinho. Nunca deixa pelos da barba na pia; não surfa entre canais de TV quando estou na sala; sempre troca o rolo de papel higiênico, o sabonete e o shampoo quando acabam; sempre abaixa a tampa do vaso; apaga as luzes acesas desnecessariamente; não espalha xícaras, latinhas , farelos e sujeiras no tapete, no sofá ou na cama; nunca deixou toalhas molhadas no chão ou jogadas pela casa; não acumula roupas sujas no guarda-roupa e mantém o carro limpo e abastecido.
Mas, Carminha, faço isto por amor... sincero e verdadeiro
— Por que você não faz alguma coisa que me irrite, Armandinho? Que eu odeie?
Não, Carminha, jamais faria isto. Carminha, de onde tirou isto?
— Eu quero que você reclame quando eu demoro excessiva e propositadamente ao me arrumar para sairmos; quando deixo absorvente usado jogado no cantinho do banheiro; quando deixo as luzes acesas só para você apagar; quando deixo a cozinha imunda e falo que estou com dor de cabeça; quando estou excitadíssima e digo que não quero.
Mas eu adoro saber que está se arrumando para mim, Carminha. E tudo o que faz é parte de sua personalidade. Não posso desejar que seja exatamente como desejo que seja. Puxa vida, não sei mais o que faço para ter você...
— Ai, Armandinho, sabia que adoro este seu olhar perdido, esta sua busca pela perfeição de fazer tudo bem feito só para mim? Eu quero continuar assim, sendo procurada, perdida e devassa. Agora vem querido, que a noite é curta, e preciso de você para viver os meus sonhos desta noite, porque os de amanhã ainda não aconteceram...
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Entre Flashes e Sombras
Minha memória entrou em franco decaimento. Eu ainda sabia o meu nome, reconhecia a casa e algumas pessoas, mas tudo vinha em flashes — saudades, angústias, pequenos esclarecimentos. Duas meninas me chamavam de pai, e uma moça que alegava ser minha esposa.
Lembro que cheguei à porta e alcancei a rua.
Agora estou aqui, numa rua feia, estranha, meio esquisita e desconhecida. Resolvi andar. Talvez encontrasse um rosto conhecido, uma loja, uma esquina.
Parei à porta de uma igreja e entrei. Ao lado do altar, seis anjos cantavam uma melodia belíssima. Havia também um na harpa, muito bom de serviço. Fiquei ali até dormir no banco.
Acordei na noite avançada. Tudo escuro, poucas coisas visíveis. Havia muitos murmúrios; parecia oração, bem ritmada. Vi uma luz ao longe e fui atrás dela.
Andei até o amanhecer, quando a luz desapareceu. Vi um rosto familiar — era minha mãe. Corri atrás dela. A danada desatou a correr de mim.
Arfando, entrei numa casa linda. Então uma das meninas correu, abraçou minhas pernas e gritou:
— Mãe, pode desligar o celular, ele voltou.
Veio a outra menina e a moça, que curiosamente estava mais velha. Choramos muito ali, abraçados.
Fui dormir.
Amanhã será outro dia.
Ou não.
É isto aí!
terça-feira, 31 de março de 2026
Memórias esquisitas do dia que morri
Poucas pessoas, o que de certa forma me confortou, pois sempre odiei tumultos e multidões. Veio a Gelinha — na realidade o nome dela era Jacira, mas parecia um gelo chupado. Um dia a chamei de Gelinha, ela sorriu e perguntou o por que daquilo, e eu:
— Ora, ora, ora, Jacira, você é Gelinha só para mim e para mais ninguém. E por isso, por ser só minha Gelinha, não vá sair por aí declarando nosso segredo.
Bem, ela contou o segredo do nome, mas guardou consigo o segredo do nosso tórrido romance.
Veio o Juca Franco; sinceramente, um chato de galocha. Nunca gostei desse cara, e agora o vejo e a viúva em entreolhares táticos. E não é que o coisa ruim mancomunado se aproximou e colocou a mão na nuca dela? Eu sabia... eu sabia.
Também estavam a Dentinha, a Bolinha e a Feinha, três irmãs do carcamano do italiano da padaria, que foram aos poucos me levando para o depósito de farinha, onde acabei me revelando um grande entendedor de massas e folheados. Italianinhas das mais doidas que já conheci.
Agora aquele filho de uma gata de rua do Juca Franco saiu para o quarto de repouso e fez um sinal discreto com a cabeça para a desavergonhada da viúva. Mas veja só, nem o velório serve mais como lugar de respeito! Tentei entrar no ambiente e dar logo uma porrada no sujeito, mas um cara enorme, de asas, me barrou. No que tocou a mão direita no meu ombro esquerdo, voei para uma sala estranha.
Era uma enorme e silenciosa sala. Pensa num silêncio total. Era aquilo. O sujeito de asas ficou encostado num canto, atrás de mim, com os braços cruzados, sem olhar para lugar algum, e eu fiquei ali. A sala era ovalada, sabe? O teto era alto, o piso de pedra, não tinha bancos, não tinha luz, mas era clara — uma claridade meio penumbra, meio luz.
Aí, do nada, surgiu uma cadeira e uma mesinha, então o ser alado me puxou para sentar. Um homem sem asas entrou sem tocar os pés no chão e me entregou um formulário imenso. Gente, tinha pelo menos umas dez páginas e umas duas mil questões abertas! Olhei para o sujeito, olhei para aquela enciclopédia de perguntas e fiz três questionamentos. Só três. Na realidade tinha uns doze para fazer, mas só deu tempo de três bem rapidinhos. E puxa vida, quando você não sabe o que falar diante de um cenário desconhecido, só fala bobagem e sempre vai dar merda.
— Posso ir ao banheiro?
— É de consulta?
— Vai liberar o gabarito?
Gente, o sujeito me olhou com uma fúria bem lá no fundo do fundo, e só ouvi aquele barulho maluco, meio chiado, meio lascado... e caí aqui, no meio do velório. Vi um tanto de olhares curiosos e rostos desconfiados e então meu corpo foi virando no caixão, acho que em convulsão, e fui pulando ao encontro do filho de uma descomungada do Juca Franco. Aí o filho de uma égua morreu de susto. Como eu suspeitava, era uma coisinha fraca o fresco do filhinho de mamãe do Juca Franco...
É isto aí!
PS.: Memórias esquisitas do dia que morri foi publicada pela primeira vez em 13/01/2019 com revisão em 23/março/2026
Cartas de Amor 119 / Epistulae Amoris CXIX
segunda-feira, 30 de março de 2026
Der Zauberlehrling
Der Zauberlehrling é o título de um poema de Johann Wolfgang von Goethe, escrito em 1797.
O poema começa com um velho feiticeiro saindo de sua oficina deixando seu aprendiz com tarefas a realizar. Cansado de limpar o chão, o aprendiz encanta o esfregão para que este trabalhe sozinho - usando magia que ele ainda não domina. A oficina logo está encharcada, e o aprendiz se dá conta que não é capaz de parar o esfregão.
Não sabendo como controlar o utensílio encantado, o aprendiz parte o esfregão em duas partes, com o auxílio de um machado, mas cada uma das partes se transforma em um novo esfregão que continua a espalhar a água. Quando tudo parece estar perdido, o velho feiticeiro retorna, e rapidamente quebra o feitiço e salva o dia.
O poema termina com a fala do velho feiticeiro: "Espíritos poderosos devem ser convocados apenas pelos mestres que os dominam".
Principais detalhes da história:
O Enredo: O mestre feiticeiro sai, deixando o aprendiz com tarefas. Preguiçoso, o aprendiz usa magia para fazer o esfregão buscar água sozinho.
O Problema: O aprendiz esquece o feitiço para parar o esfregão. Ele corta o esfregão com um machado, mas cada parte se transforma em um novo aprendiz de esfregão, dobrando a água.
A Resolução: O mestre retorna e interrompe o caos instantaneamente.
Moral: O poema é uma lição sobre a necessidade de domínio antes de tentar controlar forças poderosas, frequentemente citado no contexto de tecnologia ou magia que foge ao controle.
quarta-feira, 18 de março de 2026
Não deixe o amor passar (autora: Selma Soares Albuquerque.)
No meio de tanta tensão no front , vamos falar de amor com a arte de Selma Soares Albuquerque, marcada por uma trajetória como escritora independente e palestrante. O curioso é que esta prosa está há anos na rede como sendo do Carlos Drummond de Andrade - sqn - tem dona e a poetisa tem muito talento.
Não deixe o amor passar.
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça. Deus te mandou um presente: o amor.
Por isso, preste atenção nos sinais. Não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.
terça-feira, 17 de março de 2026
A Anônima Triste
Bem, Anônima Triste, a mensagem está aí, na íntegra:
Em primeiro lugar olá e obrigado antecipadamente por me ler e me guiar ... Adoro ler seu blog. Minha história não é fácil e eu sei que há piores... mas eu estou triste e preciso aliviar-me com as pessoas que eu não conheço, evitando assim juízos de valor influenciados por preconceitos e emoções. E, quem sabe, às vezes, pode ser um conselho muito melhor do que o que escuto de alguns amigos.
Minha história é tão comum quanto são as histórias que envolvem paixão e final triste. Tudo começou quando resolvi ficar cerca dois anos com um homem, que chamarei de "Nero", já que incendiou meu coração para depois ter o prazer de destruir minha vida. Nós não caímos no amor imediatamente, e decorreram meses até que a atração mútua produzisse seu efeito mágico. Lembro que começamos a nossa história, um caso de paixão ardente, com muita presença dele em minha vida. Pela primeira vez me senti uma mulher feliz.
Quando começamos a namorar, ele trabalhava no Rio de Janeiro de segunda a quinta feira e de sexta a domingo ficava com seus pais, já idosos, vizinhos do nosso apartamento. Eu sempre saía nos finais de semana com minhas amigas, e foi um sábado torrencialmente chuvoso o vetor do nosso primeiro encontro. Ao entrar no elevador, ouvi uma voz pedindo para segurar um pouco enquanto chaveava a sua porta. Nos cumprimentamos, ele devorou-me com seu olhar. Descemos e ficamos conversando no Hall até a madrugada clarear.
Aí, depois desta noite, andei nas nuvens por cerca de dois anos.
Um dia uma amiga enviou-me um endereço na rede social, para que eu tirasse minhas próprias conclusões. Era a página de uma mulher muito bonita, mostrando seu dia a dia como mãe, esposa e artista plástica. Ela era esposa dele.
Liguei para o idiota — afinal, quem ele pensa que é?— Daí ele veio com conversa mole e disse que estava envergonhado, e falou que tinha um relacionamento superficial com a esposa, e que até a mãe dele sabia e além disto afirmou que eu levava as coisas muito na mão, tipo, achava que nosso caso era sério. Tivemos uma discussão. Disse a ele que não queria esse tipo de relacionamento, e que não faria parte de um jogo de sedução.
Ele então teve que ir ao estrangeiro para três meses de serviço, Aproveitei e disse que iríamos usar este tempo para cortar os laços. O problema é que desde quando chegou lá, mandava mensagens lindas, fotos dele sozinho falando que eu estava ali no seu pensamento, etc. Retornou com muitos presentes para mim e um para minha mãe.
Ganhei cartão de inocência 100%, dizendo que ele tinha vindo por mim, que este caminho era o que ele tinha feito, foi a sua escolha, e que não foi pela outra, talvez, afinal eu era a garota que ele amava mais do que tudo... E então na última semana, quando eu menos esperava, ele ligou dizendo que sentia muito, mas estava a partir daquele dia oficialmente cansado de mim. Disse adeus e desejou boa sorte com o próximo da fila.
Perguntei-lhe porquê e me disse que sempre amou a esposa e pensou que eu sabia! Sei que muito do meu sofrimento é devido apenas à minha estupidez de não ter me informado antes, mas eu estava tão confiante, comportamento tipo vida parafuso. A alquimia estava lá, eu sei, mas talvez não possa contra o amor dela ... Obrigado por ler meu desabafo, se tem uma palavra para me dar, promova então um sorriso nas profundezas do fundo da minha tristeza ...
Prezada Anônima Triste:
Sinto muito que você esteja passando por essa dor e, creia, você tem todo o direito de se sentir assim, neste misto de tristeza com raiva de si, principalmente. Sinto-me honrado com sua mensagem e saiba que estou aqui para o que você precisar, seja para conversar ou para ficarmos em silêncio.
Saiba e assuma de uma vez por todas que isso não é culpa exclusivamente sua, além disso, o erro do outro não define quem você é. Estou ao seu lado, independente do que você decidir fazer, estarei sempre ao seu lado. Não tome nenhuma decisão sobre quaisquer assuntos referentes a ele. Neste momento é necessário mudar a rotina, entrar numa academia ou num pilates, comece a correr no parque, comece um curso de EAD e sobretudo pare de falar nele ou dele. Você é muito maior que isto.
Moça, você é muito maior do que esta dor. E um dia você agradecerá ao homem que apelidou sabiamente de Nero por estar livre deste peso e por não ter sido você a esposa dele.
Um abraço! Volte para contar seu progresso emocional.
segunda-feira, 16 de março de 2026
Sobre frangos, gansos e baldes
domingo, 15 de março de 2026
O segredo de família
Jurou ali, escondido de si mesmo, sem testemunhas reais, virtuais ou da alma, que naquele momento era o único ser sóbrio dentro da sua existência. Havia perdido até a expressão genuína da sua essência, sufocando o amor incondicional, a criatividade, a paz interior, a gratidão e a conexão espiritual; mesmo assim, posava com garbo. Não queria dó nem pena, afinal, era forte.
Naquele dia e naquela hora, nada mais o movia, fosse a inteligência, a consciência ou as emoções profundas. Cego pela dor, apenas abrigava desejos passageiros do corpo, acreditando que bastariam para promover nele uma transformação duradoura e balsâmica.
Recusou-se a chorar. Negou o sofrimento até que este tomasse todo o seu sistema de alerta contra a pressão extrema, aceita sem pedir licença. "Um homem não gasta lágrimas com lamentos e tropeços", dizia para si mesmo. Voltou do velório sem saber como chegar em casa.
Sentou na poltrona e ficou ali, sem estar em lugar algum. Quarenta e dois anos, seis meses e quinze dias... quarenta e dois anos, seis meses e quinze dias... "Você me traiu", disse, olhando zangado para o retrato dela sobre a cômoda. Palhaçada, não foi este o combinado. A dor começou a bater no peito, ainda a tempo de ligar para o hospital. Não morreu naquele dia, nem mesmo após outros dois infartos, sendo o derradeiro doze anos, cinco meses e três dias depois.
Ao chegar ao departamento de recepção dos mortos, deu de cara com ela, linda e sorridente. Olhou com fúria, seguido de um sorriso apaixonado. Aproximou-se e disse:
— Tudo bem, está perdoada. Mas custava ter deixado por escrito a receita do molho secreto do bife?


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