sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A palavra dita


 

 a palavra dita na ira

não vale a lama da lavra

nem a vida sofrida 

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Bilhetes avulsos XIII

 

 

Não posso deixar passar em branco seu aniversário. É verdade, sei que a data não é esta e sei também que isso não faz a menor diferença.

Deixei debaixo do travesseiro um poeminha com versos ridículos e pueris, mas estão lá, na segunda gaveta da cômoda do corredor, os votos da promessa que um dia fiz e que agora cumpro.

Fiz o café, sem açúcar e sem afeto. Apenas o fiz para despertarmos deste sonho louco e cairmos na dura e pesada realidade de que não somos aquilo que sonhamos. O resto é poesia.

Um beijo, um abraço, uma saudade e até um dia, numa destas esquinas da vida.

 

É isto aí! 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Bilhetes avulsos - XII


Deixei os nossos sonhos na geladeira, devidamente acondicionados em potes herméticos e etiquetados. Abri aquele vinho que você sempre esperava uma ocasião para degustar. Guardei-o novamente. Vai que volto?

Enxuguei as lágrimas, assoei o nariz na pia do lavabo e olhei pela última vez para aquelas casinhas de barro compradas em Ouro Preto.

Peguei a mala e estou, quando você estiver lendo este adeus, na estrada, voltando para te dizer que não, não sei ser eu sem estar com você. Sinto muito, não sei ser eu sem ter você. No fundo, cada canto de mim sente muito a sua falta.

E pelamordedeus, não me perdoe.

É isto aí! 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

meu olhar

 


 Vi suas sandálias

 seus pés e pernas 

depois a saia

depois os olhos  

as dálias

o perfume 

aí você depôs

meu costume

de amar você  

  

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O homem de alma tacanha


Naquela manhã chuvosa, éramos cerca de 40 pessoas subindo o Monte para escutarmos e bebermos da sabedoria do Mago da Pitangueira. Queríamos escutar sobre como escolher o melhor candidato para as eleições do Reino. A subida era sempre difícil e com as águas da primavera não poderia ser diferente.

Na última curva avistamos o Mestre, em pé com o mesmo ar de serenidade de sempre, já aguardando nossas indagações.

- Salve Mestre, viemos escutar suas palavras sempre sábias. 

- Pois perguntem, mas antes descansem um pouco, para a mente fluir melhores pensamentos.

- Mestre, como sabe, estamos próximos das eleições do Reino da Pitangueira. Como sabermos se estamos escolhendo o melhor candidato?

- Meus queridos seguidores, primeiro siga seu coração, e siga conhecendo as propostas dos candidatos, sua biografia, seus feitos, seu carisma e a afinidade pelas coisas públicas. 

- Só isto basta, Mestre?

- Não. Há um candidato que vocês nunca ouviram falar, sai das sombras e vem para o centro com uma luz estranha, deste afasta-se. 

- Mas como saberei se este candidato é o que deve ser evitado:

- Guardem o que estou ensinando a vocês hoje para que sirva pela vida toda. Este candidato tem  a alma tacanha. 

- Alma tacanha? Como identificar uma pessoa assim?

- Saibam que este ser humano é como uma serpente venenosa, insidiosa e traiçoeira. Tem limitações intelectuais, egoísmo e pequenez moral. Vive em um mundo reduzido à sua própria existência, e como se não bastasse,  não há espaço na sua vida para a grandeza de espírito, a generosidade ou a empatia.

Há neste indivíduo uma mesquinhez material e emocional uma vez que economiza não apenas dinheiro, mas também afeto. Sente uma dor genuína ao ver o sucesso alheio e calcula cada pequeno favor que faz, esperando sempre algo em troca.

Perceberá rapidamente que possui uma visão de mundo limitada, inveja crônica, orgulho das próprias limitações e ausência de empatia, de tal grau de desprezo que o sofrimento dos outros não o comove, a menos que o afete diretamente e é incapaz de se colocar no lugar de alguém ou de agir por puro altruísmo.

Saibam que conviver com uma pessoa de alma tacanha é exaustivo.  Sempre sufoca o ambiente com sua negatividade, fofocas e críticas destrutivas. Suas conversas orbitam em torno de banalidades, reclamações ou julgamentos sobre a vida alheia, pois ele carece de profundidade para debater grandes ideias, sentimentos ou projetos.

Agora voltem para suas casas e reflitam.


É isto aí!

domingo, 11 de outubro de 2026

Um toque combinado


A campainha tocou da maneira conhecida e inconfundível, já que havia um toque combinado entre nós. Como poderia ser ele? Olhou para o relógio: eram quase três horas da manhã. Uma chuva torrencial despejava raios e trovoadas, enquanto ventos fortes castigavam a noite. E agora, aquilo.

Conferiu pelo interfone e confirmou sua expectativa. Sim, era ele. Não abriu a porta nem destravou o trinco. Passou a mão pelos cabelos, ajeitou a camisola, estufou o peito e desejou boa sorte a si mesma. Mas sentiu que faltava alguma coisa e falou pelo interfone:

— Só um instante.

Correu ao banheiro, passou batom, deu uma escovada rápida nos cabelos e voltou arfante, triunfante. Abriu a porta, mantendo a corrente presa. O suficiente para vê-lo encharcado. Trêmula, perguntou:

— Você?! Você voltou?

— Sim, sou eu. Não, não voltei.

— Se não voltou, como está aqui? Como passou pela portaria? Como acha que estou? Como pode ser tão, tão...

— Inconsequente.

— Isso! Inconsequente! E ainda detesto quando planta as palavras na minha boca, sem me permitir refletir melhor.

A tempestade recrudesceu e em seguida a luz acabou e então veio o silêncio.

Chamou por ele, a princípio num sussurro, até perceber que já não estava ali.

Abriu a porta, retirou a corrente  e vasculhou o corredor com a lanterna. Viu o chão molhado e, num canto, um embrulho de presente. Tomou coragem, pegou rapidamente o embrulho e, ao voltar, escorregou na água e no tapete. Bateu violentamente a cabeça no batente da porta.

Acordou doze horas depois, no pronto-socorro, sem entender o que havia acontecido. A vizinha explicou que a encontrara no corredor pela manhã, chamara o serviço médico e colocara sobre a mesa da sala o embrulho que ela, mesmo inconsciente, parecia não querer soltar.

Abriu o embrulho delicadamente e começou a chorar ao ver Tatá: uma ursinha de pelúcia, toda lindinha e fofinha, que lhe pedira de presente de aniversário. O aniversário havia sido no dia anterior.

Então caiu em si, ao recordar que, havia exatos seis meses, ele desaparecera num acidente aéreo.

É isto aí!




Salto quebrado


Dançaram valsa,  
salsa e gafieira,  
samba, bolero,  
rumba e capoeira.  
Gingaram frevo.  

No fim, exaustos,
ouviram tangos
e se despediram
com passos
em descompasso

É isto aí!

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Eu e minha insensatez


Logo cedo, bem cedinho, recebi uma mensagem eletrônica por meio desta evolução pré-neandertal. Fui convidado a comparecer a um determinado endereço, numa determinada hora. Entendo sua preocupação: de onde tirei esse pré-neandertalismo que apregoo? Haveria uma explicação, segundo tese própria a ser publicada na Universidade Pitangueira, na qual discorro sobre esse pesadelo abissal entre os novos conhecimentos e os conceitos modernos.

Não dei ouvidos à personalidade crítica e praticante do ateísmo que me habita, acompanhada de outras três: uma boazinha e gaga; outra, indiferente; e, por fim, a tímida e temerária — excessivamente temerária — Alto Estima. Mas isso não é assunto para o público, sabe? É que sou muito introspectivo.

Onde eu parei? Não parei: estou parado. Onde deixei o aparelho pró-Gênesis, aquele, sabe? O de um novo céu e de uma nova terra. Acho possível, desde que venha com mais dois pares de cromossomos. Digo isso porque não posso falar de evolução apenas de fora para dentro, com o passado desalinhando meu terno de linho e mentindo ao meu ego.

A manhã segue, pois há um conflito interno grave: estou só, mas não desisto.

É isto aí!


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cartas Avulsas 35 / Litterae solutae XXXV


Reino da Pitangueira,

08 de outubro de 2026

281.º dia do ano. 

Faltam 84 dias, ou 2.019 horas, para acabar o ano.

Comemora-se oficialmente no Brasil o Dia do Nordestino.
A Igreja Católica celebra Santa Pelágia.

Pôr do sol às 17h43.
Início da Lua em quarto minguante.
A estação atual é a primavera.


Querida, passei para dizer adeus, mas não me encontrei no caminho. Logo eu, tão centrado, perdido na sala que antecede ao rito da solidão.

De súbito, vi você. Logo você, meu destino, passando ao léu.

Tão bonita assim, ali, bem ao acaso, feito eu, também sem direção definida, sem planejamento e, de forma idêntica, entregue às consequências do destino.

Quis gritar, do outro lado da distância que tem lado só de um lado, que é você dentro de mim, mas só o eco me respondia.

É isto aí!

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Foi assim




Foi assim,
com tanto
contato
do olhar,
no improviso
desavisado,
que enlouqueci.
foi sim, 
bem assim,
ela linda
nas idas 
e vindas
e eu a perdi

Nosso setembro


Querida, nosso setembro passou, 

agora somos nós e o futuro, 

a enamorar depois de outubro, 

depois da esquina, depois do jantar 

Eu, o candidato.


Sabe, você quer saber como estou. Na verdade, é mais assim, tipo normal em pessoas desenquadradas da normalidade, nas quais me incluo. Sobre meus sonhos, uns normais, outros nem tão normais assim. Mas já me vi mentindo num sonho — risos discretos ao confessar esta façanha.

Num outro sonho, pregando para uma multidão, na colina das Lavadeiras, perguntei aos aflitos, boias-frias, andarilhos, maltrapilhos, doentes, dementes, crentes, dependentes de ar contaminado, incoerentes entre o discurso e a ação. Perguntei, como quem cantasse uma ária, com a voz fluindo desembaraçada:

— Quem dentre vós nunca mentiu? Quem detém uma voz entre delírios e ilusões? Quem dentre vós, com a sua voz, nunca sonhou artimanhas pecaminosas?

Não sei se sabem. Nunca falamos sobre nossas libidinagens. Mas mentiras são verdades até que se prove o contrário, diferentes das hipóteses, que não são mentiras, uma vez que a hipótese é neutra e honesta e, além disso, pode ser apenas uma explicação provisória, criada dentro das nossas memórias, para responder a uma pergunta abstrata ou fundamentar uma linha de pensamento sobre a realidade.

Aí acordei, dei pela minha insignificância e toquei a andar rumo ao desconhecido, para ver onde vai dar isto. Pode ser que vá de encontro ao conhecimento ou depare com uma nova existência no meu delírio.


É isto aí!

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Bilhetes avulsos XI


Para o dia em que você reencontrar seu amor.  

O amor, ora ora, afinal, o que é isso? 

O amor, minha cara, é um istmo estreito, 

uma passagem restrita de mão dupla 

entre duas pessoas.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Você é doida demais II


Você é doida demais — II

Carta destinada à moça mais linda da Vila Pitanguinha, que tinha 15 anos quando fui embora. Achei esta foto no fundo da mala que trouxe comigo, herança da Vó Austera. Lembra dela? Lembra quando ela deu esta mala para nós dois irmos embora? Aí você me entregou esta foto, tirada pelo Zenóbio da Luz, para nunca mais te esquecer.

Flor, novamente esqueci seu nome.

Acho que lembrei seu nome. Estou na dúvida entre Branca ou Clara, mas eu te chamo de Flor Menina.

Seu endereço ainda me lembro bem: é a terceira casa voltada para o sol poente, depois da Ponte Quebrada, subindo pelo Córrego do Pato. Na frente, tem duas mangueiras centenárias e um pé de abacate.

Prezada Flor Menina,

Depois do nosso último encontro onírico, faltou ar e sobrou suor. Que maravilha foi aquela, hein? Dentre todas as vantagens de ter você assim, agarradinha ao meu corpo, travada, abraçada, uma delas é que, quando estou nos seus braços, eu sei que é real.

Dia destes, você vai acreditar, porque sou eu quem está narrando nossa história de amor. Do anoitecer de terça para a manhã de quarta, vi que você teve várias crises de enjoo. Matutei, matutei e logo pensei, num estalar de sonhos, que estava grávida. Aquilo foi um delírio para meus olhos.

Adormeci no seu colo e espia só minha alegria atravessando dois mundos e chegando com nossa menina. Sim, eu sei quando é menina, sei sabendo, ué. Aflito para provar minha teoria de que nós dois somos um só em tempo integral, metafisicamente — acho linda esta palavra —, não sei o que significa, mas me dá até arrepio. Espia os cabelinhos esticando.

Bom, corri à farmácia do senhor Boticário Erlenmeyer, um alemão gigante, mal-humorado e barrigudo, bem na Praça da Matriz. Contei para ele, revelei nosso romance, como foi, como é, como somos um dentro do outro, de modo que queria saber do tal teste de gravidez.

Seu Boticário cerrou os olhos de bicho assustado, deu dois passos para trás, pegou um porrete na prateleira e deu um taco tão grande no balcão de peroba-rosa que senti minhas tripas desfibrilarem. No segundo golpe, abaixei rápido, e o taco passou rente ao couro cabeludo. Saí de quatro, depressa, feito cachorro zangado.

Mas que homem mais ignorante, pensei cá comigo, dentro de mim. Quando dei com a avenida, disparei em direção ao coreto para me proteger do maluco do seu Boticário. Acabei adormecendo; acordava vez ou outra com você acariciando meus cabelos. Acabei em sono profundo e acordei naquela manhã linda de outono com uma neném no meu colo. Batizei-a ali mesmo de Folha do Outono.


É isto aí!

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Levigação


— Volta! — gritei à mocinha, no meio de um vendaval de conflitos passionais, suado, ofegante e triste. Sentei-me à mesa rústica, olhando para a mata, as vacas, o córrego serpenteando pelo campo, descendo preguiçoso pela encosta da serra.

Levantei-me e percebi que algo estava errado comigo e com tudo. Faltava Cristal, a fada dos ventos. Vai ser engraçado Cristal ver-se relacionada aos ventos. Acho que estou saindo de dentro de mim. Isto é estranho demais.

De súbito, comecei a subir rumo às estrelas. Vejo meu corpo abandonado, as colinas, a antiga casa de Cristal, a vila, a igrejinha. Vejo tudo, até o que nunca vi. Seres que presumo angelicais aproximam-se e levam-me até a entrada de uma caverna, toda iluminada.

Sinto uma levigação em meu corpo, agora etéreo, como se mãos celestiais lixassem minha superfície corporal, removendo riscos, manchas e cicatrizes, deixando-me com um aspecto brilhoso.

— Zé... Acorda, Zé!

— Cristal? Como você chegou aqui?

— Eu moro aqui. Acorda, levanta, que o trabalho nos espera.


É isto aí!


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Poema de Retrato



você de meia neon,

com sorrisos e graça

francesinha ton sur ton

num corpinho de gata

desfilando de batom

jeans e alpargatas

é tudo de bom

quando por mim 

você passa.


domingo, 20 de setembro de 2026

Bilhetes Avulsos X

 


Querida, já que, por motivos alheios às sentimentalidades, estou sendo retirado do lado da sua vida agitada e producente, solicito que me devolva uma foto 3X4 que ainda está no seu coração. É aquela que, no verso, tem um desenho seu para mim, onde dizia que seríamos eternamente enamorados.


É isto aí!

Confissões



A verdade é que nunca gostei de café com açúcar, adoçante ou leite, e isto, de certa forma, faz de mim um sujeito antipático, como afirmou Geraldinha, dizendo que aquilo era um ato antissocial. Rimos bastante, mas nunca mais voltei para vê-la.

Tem também os gatos. Detesto gatos, tenho ojeriza a gatos. Não gosto de gatos, nem de gatas, nem de filhotinhos lindinhos de gatos, nem de gatos persas, nem de gatos vira-latas, nem de pensar que, por alguma ocorrência maléfica, venha a Dedé me arrumar um maldito gato.

Não vou deixar de gostar da Dedé por isso. Sim, é verdade: ela é apaixonada por gatos, cachorros, orquídeas e passarinhos de qualquer espécie. Acho que Dedé não é deste mundo. Sei lá, vai saber. Um dia, não hoje, contarei histórias da natureza do nosso ajuntamento cárdio-romântico. Um dia, mas hoje não.

E tem os malditos pernilongos, as abelhas, os cupins, os gafanhotos, os percevejos, as formiguinhas, as formigas e as formigonas. Todas do mesmo balaio dos marimbondos. Malditos sejam todos os criadores domésticos de marimbondos, menos Dedé.

Aranha? Engraçado, de aranha gosto. De todos os tipos, as variações, os estilos, as redes de teia, os hábitos etc. Tem também aqueles animais confinados em zoológicos. Acho triste isto: tirar o ser vivo do seu habitat natural para preservar a espécie em extinção.

Aqui cabe uma nota interessante. Dedé detesta aranhas. Nós nos amamos pelas adversidades.


É isto aí!

sábado, 19 de setembro de 2026

Cartas avulsas XXXIV- "Não é fácil amar e é impossível desamar."


Cartas Avulsas 34

Litterae solutae XXXIV


34ª Carta Avulsa

Reino da Pitangueira,

19 de setembro de 2026

 262º dia do calendário gregoriano.

Faltam 103 dias ou  2.480 horas para acabar o ano.


Dia Nacional do Teatro e o Dia do Ortopedista no Brasil.

A Igreja Católica comemora o dia de Nossa Senhora da Salete

Pôr do Sol às 17H:45min. 

 É início da Lua em fase crescente

A estação atual é o inverno.


Não é fácil amar e é impossível desamar.
 
Nesta tarde quase noite, com céu nublado, pós tempestade, depois de ventos a cerca de 70 km/h, deixarei esta carta, colocada numa inviolável garrafa PET, seguir por este turbulento canal que continua lavando meus passos de todos os dias, quando saio à sua procura, subindo escadas e descendo ladeiras feito Sísifo, condenado a repetir sua tarefa, mas capaz de assumir sua condição e encontrar nela uma forma de liberdade.

Prefiro pensar que sou um Sísifo feliz, a sair do recanto construindo esperanças e, quando retorno à solidão dos sonhos, você estará sorrindo entre lágrimas, a afagar as feridas doloridas de todos aqueles dias que não são malditos, já que todos, na completude de ser amor, promovem a validação do ser e do estar preenchido pelo tempo sem você.

Relembro a nossa bioquímica do amor, operando um conjunto de reações químicas, físico-químicas e bioquímicas, fluindo em frenesi, numa velocidade inimaginável, liberando neurotransmissores de elevada potência, coordenados pelo cérebro, que geravam a paixão, o afeto e o apego entre nós.

A "Loucura Pet-Náutica", esta embarcação que se torna personagem, levará a carta. Acompanho-a até desaparecer na curva do campo para entrar no riacho da agonia, seguindo até o ribeirão. Por fim, vejo-a, num aceno de adeus, atingir o rio; daí, chegará ao mar e acompanhará as correntes oceânicas no mesmo movimento de Sísifo.

Enquanto isso, no banco da varanda, minha existência fala quase sussurrando que:

“Se se morre de amor! — Não, não se morre,
quando é fascinação que nos surpreende".

Participaram desta carta:

O Mito de Sísifo — Albert Camus
Se se morre de amor — Gonçalves Dias

É isto aí!

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Você já viu um anjo,




Provavelmente você já viu um anjo, mas não se deu conta de que era um anjo celestial. Geralmente, acredita em asas, olhar cândido e frágil docilidade.

É bem possível que já tenham se encontrado nos sonhos, nas aflições, nas alegrias — sim, nas alegrias abençoadas, doadas pelo amor universal. Já se viram enquanto você caminhava e foi retirado de um evento de risco de qualquer natureza.

É interessante que, mesmo reconhecendo o perigo que superou ali, ao passar por uma circunstância que poderia trazer-lhe o infortúnio, não tenha percebido a natureza etérea daquele que estava ao seu lado.

Geralmente, você fica procurando no horizonte, por entre as estrelas, e, na maior parte das vezes, ele, seu amigo Anjo, está aí: forte e confiável, bem ao seu lado.

Fale com ele. Dê um alô para seu amigo eterno.

É isto aí!