Lá vai a vaca mocha
rodando o rabo
espantando mosca
A vaca desequilibra
no barranco molhado
anda meio tonta
e cai para o lado
levanta chacoalhando
cabeça, tronco e sinete
e o leite da meiga
vira manteiga
e o leite que curte
vira iogurte
Diário de bordo na travessia da vida.
Lá vai a vaca mocha
rodando o rabo
espantando mosca
A vaca desequilibra
no barranco molhado
anda meio tonta
e cai para o lado
levanta chacoalhando
cabeça, tronco e sinete
e o leite da meiga
vira manteiga
e o leite que curte
vira iogurte
Os alunos ficaram entreolhando quem havia entendido, mas não ocorreu manifestação. Então, virando para a classe, cumprimentou-os e disse:
— Meus queridos alunos, hoje temos uma convidada muito especial: Com vocês, a Tia Gramática (aplausos).
— Olha só, fico comovida em estar aqui para falar da Língua. Você que levantou a mão pode perguntar, mas antes diga seu nome.
— Meu nome é Cândida Alva. Esta aula é sobre sexo?
— Sexo? Como assim? Qual é a ligação entre a estrutura, o funcionamento e as regras gramaticais de uma língua e o sexo?
— Ah, Professora... todo mundo aqui sabe disto.
— Todo mundo? Quem é todo mundo?
— Todos levantaram a mão.
— Humm. Não, a aula não se refere ao sexo. Não necessariamente, mas se vocês dominarem a Língua, portas se abrirão com maior facilidade na sua vida.
— A garotada foi ao delírio. Nunca mais outra vez Tia Gramática conseguiria tamanho êxito numa aula onde a estrutura, o funcionamento e as regras de uma língua foram, em tese, avidamente assimiladas e compreendidas. Foi da Fonologia à Semântica e a moçada saiu convencida de que dominar a Língua era mesmo um dos maiores talentos da humanidade.
— Você que levantou a mão pode perguntar, mas antes diga seu nome.
— Herbert Glauber de Windsor.
— Pois não, Herbert, faça a sua pergunta.
— Professora, considerando que a senhora afirmou que a língua é polissêmica, o que vem a ser exatamente a palavra polissêmica? Seria relacionada à poli sexualidade?
— Delírio total na sala.
— A professora pediu calma. Gente, não é nada disso. Polissêmica significa que uma palavra possui múltiplos significados que se relacionam pelo mesmo campo semântico anatômico e sensorial.
— Uau, então isto explica muito, já que, até aqui. nas suas palavras, a língua tem subterfúgios...
— A professora agradeceu pela participação, fechou o livro, recolheu o material e saiu da sala sem responder aos pelo menos quatro braços que ainda permaneciam levantados.
Crônica "Carminha na Copa" - quinta-feira, 19 de junho de 2014
— Abrem as cortinas e começa o espetáculo. Armando avança pela lateral, sobe sem pressa, a esquerda está livre, avança sem contenção, passa pela ala, alcança o flanco, dribla, procura o gol, tem o montinho artilheiro na frente, mas prefere o ataque frontal e ... falta, falta ...
— Calma, Carminha.
— Ah, vai Armandinho, bate logo, o campo já está todo alagado, a bola está pesada...
— Olha só, Carminha, com você narrando não tem artilheiro que marca. É muito complicado.
— Qual é, Armando? Entra no clima da Copa...
— Copa, Carminha? Não podíamos ser iguais aos casais normais, na cama ... no quarto ...?
— Caramba, você é muito conservador. Parece até a Inglaterra! O mesmo jogo desde 1950.
— Ah, não... ah, não!!! Conservador não! Você sabe que por muitas vezes apresentei táticas diferenciadas e várias delas fizeram sucesso.
— Sim, é verdade, apresentou muitas táticas, mas sempre no começo do segundo tempo faltava técnica, talento e folego ...
— Agora fiquei com raiva.
— Isto, Armandinho, põe pra fora esta adrenalina e parte pra cima com seu potencial de destruição da zaga...
— Para com isto, Carminha, vamos voltar ao tradicional...
— Tradição é tudo, Armando, mas sem uma revolução no plantel, não sobe no podium, nem beija a taça.
— Como assim? Revolução?
— Não se faça de bobo, um doping discreto, azulzinho...
— Nunca precisei e não faço uso, só jogo limpo. E com esplendor...
— Armandinho, queridinho, lindinho, amorzinho, não quero saber de esplendor, quero bolas na trave e na rede por noventa minutos e o artilheiro entrando sem humildade no gol, meu bem, e o jogo é meu, o campo é meu, a rede é minha e aceito doping, querido, ninguém vai saber...
— Jura?
— Juro. Agora espera o bandeirinha, correr para o canto, agitar a bandeira e bater para o gol, para não ficar impedido ...
— Puxa vida, Carminha, você sabe tudo de futebol...
— Tudo e mais um pouco, meu bem... tudo e mais um pouco...
inverno elegante
promete ser tenso,
intenso e extenso.
A falta das palavras tem incomodado o equilíbrio por sobre a minha bicicleta e o passado que alonga mas nunca acaba. Saudade é um elemento elástico. Quando entrar setembro, pouco antes da primavera, vou plantar menos saudade.
Tem dia que escrever é uma ferramenta de descaso para com a realidade.
Esta é apenas uma postagem desconectada da minha racionalidade vigente. Para você que não sonha, não delira, não sai dos trilhos, saiba que viver é mais fácil do que parece.
Na dúvida, irei me debruçar sobree este assunto. Hummm, pode ser perigoso, mas aí chamo o Bruce Wayne para explicar a duplicidade pacífica do ser e estar da pessoa perdida dentro de si.
Meu pai me ensinou a crença de que o homem só tem três lágrimas, uma quando nasce, outra quando é batizado e a terceira é quando perde a mãe.
Ficou a repetir o pensamento, unhas provocando dor nos cantos das falanges distais. Quando do fechamento da urna, sentindo o mundo ruir ao seu redor pela perda da amada, sussurrou segurando as lágrimas: Eu não vou chorar, sua vadia.
O cortejo adentrou ao cemitério, cachorros latindo, mulheres cantando hinos religiosos, homens saindo do ambiente rumo ao bar do Zé do Bar.
Crianças corriam em volta da capelinha, atrás de uma bola que apareceu do nada no meio deles. As meninas reparavam nas roupas das outras meninas e vice-versa.
Quando chegaram ao túmulo, ele gritou para esperar. Queria dar a última olhada. Abriram o caixão, aproximou-se e sentiu que ela o segurou pela lapela do paletó, e sussurrou: Vadia é a puta que o pariu!
Levantou-se lentamente e chorou por dias até ser encontrado morto sobre a sepultura da companheira.
É isto aí!
Chegará logo o dia de rever você, quando tudo será melhor, mais bonito, mais doce, mais delicado, mais envolvente, mais feliz. É isto então — tudo indo e vindo em todos os vértices da felicidade, feito ondas apaixonadamente lindas.
Serão como sempre foram — românticas e reluzentes, em todas as formas concêntricas e excêntricas de amar você. Tudo incidirá no ponto de encontro entre nós dois, ora em ondas retas, ora em linhas; dezenas, centenas, milhares delas, em curvas que aqui denomino você: a razão da existência do amor.
Daquele dia, daquela hora que virá, o impacto das nossas vidas. Gritarei como um guerreiro defendendo nossa integralidade, batendo com a mão fechada sobre o coração, gritando impropérios contra o... puxa vida, isto é tão estranho, pois nos meus sonhos funcionavam muito bem estas ações e estes eventos primevos.
De repente, ainda bradando, mas abaixando o tom e deixando cair o tacape, não vejo mais você. Não que não esteja aqui, pois está em todos os lugares e dentro de mim, feito a mais perfeita pérola. Percebo estar, verdadeiramente, numa outra dimensão que não tangencia meu querer. Tudo é tão lindo quanto exótico ou inefável, e todas as coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Pássaros ou algo do tipo, em plena cantoria, sobrevoam para um ponto infinito. Sinto um frio glacial. E seres indescritíveis, como se estivessem dobrando o universo, seguem no mesmo rumo das aves, como se todos soubessem para onde ir, menos eu. Há medo, e agora lágrimas que aparecem do nada preenchem um imenso vazio em mim. Acho que morri.
Este silêncio, os olhares alhures de pessoas que não são exatamente pessoas. Mas minha consciência ainda me banca; ainda posso ver minhas mãos. Não, espera, não posso ver minhas mãos, mas posso senti-las. Então é aqui a Eternidade. Vou caminhar para ver onde dará esta estrada.
É isto aí!