quarta-feira, 5 de agosto de 2026

82 - Odete, a Coach de Alta Performance do Povo Job

 

A última vez que vi Odete foi em janeiro do corrente ano. Estávamos em contenção de problemas e Odete preferiu tomar café puro de origem, no interior do interior da antiga República Guarani. Mas não quer dizer que perdemos o contato, afinal nossa amizade com benefícios é reconhecida desde tempos remotos. Deu que dia destes sonhei com a moça.

Como sempre, mesmo nos sonhos, nossos diálogos são discretos e cifrados, feito uma música em alta frequência.

— Odete, puxa vida, você nunca muda.

— Diga meu bem, se isto é um elogio ou uma constatação que sou uma pedra?

— Um diamante, querida, um diamante.

— Uau, fiquei sem palavras agora. Mas a que devo esta sua presença tão sedutora.

— Sedutora? Como assim?

— Considerando que você traja uma camisola sensualíssima, transparente e voraz, sim, posso dizer que está sedutora.

— Hum, ainda sente aquele arrepio diante da sua Odete, querido?

— Mais que isto, querida, sinto sua falta. Quando você retornará ao Reino da Pitangueira?

— Gostei disto, carinhoso e direto ao tema. Como sabe, refugiei na República de Fulano, mas Brasília me chamou em chamas, de maneira que tenho que regressar, já que fui nomeada pelo Comitê das Mulheres de Bem da Quinta Coluna do Centro Oeste Pacificado, como a Coach de Alta Performance do Povo Job, para a liberação das taxas Pix de Job para Job.

— Entendi errado ou você falou uma palavra mudando ... caramba... você...

— Não mexe, não comente, não desvie seu olhar de mim para saber se está me querendo, desejando ou querendo apossar das minhas filigranas e nem comentou que a injeção milagrosa redefiniu meu corpinho de miss. Vou trabalhar e já volto, meu bem.

— Espere, Odete, aguarde minha fase Beta ... Odete ... puxa vida, pelas barbas dos profetas ... Odete voltou! Pindorama ainda tem chance.

É isto aí!

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Frases bíblicas famosas que não estão na Bíblia


 

1. Se Deus fecha uma porta, Ele abre outra.  

2. O importante é ser feliz. 

3. Quem não vem pelo amor, vem pela dor.  

4. Siga o seu coração.  

5. Deus não dá um fardo maior do que você pode carregar 


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Daqui a poucas semanas faremos 16 anos de Blog



Carta aos leitores e às leitoras

Estamos no finalzinho de julho. Logo chega agosto e, naturalmente, depois setembro. Em setembro, mais precisamente em 10 de setembro, faremos 16 anos a bordo desta nau. Dez de setembro é uma data que engraça (revisor, não apague). Claro que revisores, editores, analistas de risco, censores e toda a equipe são, na realidade, formados pela equipe do Eu Sozinho.

Este blog, enquanto o Google permitir, vai aprendendo sobre isto ou aquilo e trazendo essas descobertas para você. Não é comissionado; quer dizer, não recebe qualquer vantagem para escrever e publicar por aqui.

Dezesseis anos é muita coisa. Neste julho acabamos de alcançar oitocentos mil acessos. Já pensou nisso? Em oitocentas mil ocasiões alguém esteve aqui para achar ridículo, bonzinho ou muito bom o que foi postado. Mas esteve. E talvez, vai saber o porquê, tenha voltado. Só para ampliar sua performance gramatical, é "porquê", assim, junto e com acento, pois funciona como um substantivo, cuja explicação deixarei para você descobrir.

Quero agradecer a todos vocês. Vamos rumo ao primeiro milhão de acessos. Muitas perguntas chegam, mas ninguém quer aparecer. Então, vamos responder àquelas mais generalistas.

Qual é o princípio de funcionamento deste blog?

— Ao Pé da Pitangueira funciona como um diário de bordo poético e pessoal na travessia da vida, registrando crônicas, reflexões e memórias.

Que proposta o Reino da Pitangueira, monocrático e democrático, apresenta à sua comunidade?

— Este blog é, com orgulho, um espaço de crônicas e registros íntimos que funcionam como um diário de bordo existencial.

Se você pudesse condensar numa frase o que faz para chegar até aqui, o que diria?

— Boa pergunta. Crio personagens, situações e histórias; falo de amor e de desamor; arrisco-me tangenciando a filosofia. Enfim, escrevo e publico textos literários, reflexões sobre o cotidiano e passagens da vida comparadas a uma viagem ou travessia.

Gratidão, gratidão, gratidão, do fundo da minha existência.

É isto aí!

terça-feira, 28 de julho de 2026

Qual é sentido da vida?

O Sentido da Vida em Eclesiastes

A fugacidade: Mostra que tudo passa rápido e que tentar achar sentido apenas nas riquezas ou no trabalho é como correr atrás do vento.

O tempo certo: Ensina que há um momento determinado para cada coisa debaixo do céu, como nascer, morrer, chorar e rir.

Alegria simples: Orienta a desfrutar as pequenas dádivas cotidianas, como comer, beber e aproveitar o fruto do próprio trabalho com alegria

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Vadia, minha cachorra manca


Parece mentira, eu sei que vocês ficam rindo e zombando da Vadia pelas costas. Deu que ganhei da comadre Antônia, filhote ainda. Duas ou três semanas passaram e, logo, logo a gente se afeiçoou. Com três meses já dava conta de passear e brincar com as galinhas, além de fazer guarda na porta. Dormia num colchão velho de palha, no canto da sala.

Próximo de fazer um ano, baixou uma luz branca, densa, em volta da casa toda. Aquilo era mistério de Belzebu, pensei. Tinha um barulho de carro novo aumentando e diminuindo. Quando dei por conta da falta de Vadia, ouvi seu latido do lado de fora. Tomei coragem e saí.

Vadia estava tocaiada por três coisas que pareciam meio gato, meio lobo guará, e seus olhos brilhavam ora verdes, ora azuis. Apanhei o machado e fui rodando na direção dos bichos, até que apareceu um sujeito — vocês tinham que ver —, devia dar dois de mim de altura e de largura. Entreolhamo-nos e nos assustamos no mesmo intervalo de tempo.

O Coiso Ruim apitou, e as três coisinhas voltaram para trás dele. Mas a danada da Vadia estava pilhada demais e pulou no Coiso Bitelo, que rebateu forte, ainda no ato do salto. Vadia caiu chorando e se estorcendo. Um dos três bichos, parecia fêmea, foi andando para o lado de Vadia.

Naquela hora as pernas tremeram, mas Vadia foi mais macho que eu. Ficou quietinha, quietinha. O bicho lambeu a pata traseira esquerda dela, e a danadinha dormiu. Também tive muito sono. Sonhos esquisitos surgiram com estrelas, a Lua, e uma mulher grande aparecia e desaparecia da minha visão. Foi assim que ela ficou manca, e eu fiquei com esta marca na mão e atrás da orelha esquerda.


É isto aí!

O Pregador na Praça da Matriz


Eu, do alto da minha magnificência,  autorizo, disse o homem longilíneo e maltrapilho diante da estátua de bronze, antiga e esquecida tanto quanto o personagem de vestes sacerdotais e mão direita apontando para o céu. 

Lentamente atravessou a praça da Matriz, conversando, perguntando e respondendo às partes envolvidas no seu sermão panteísta para explicar aos ouvintes a motivação por trás daquela obra. Ali habitam a ciência e a contradição, bradava ao atento pipoqueiro. Subiu ao coreto, saudou o homem cego, a mulher surda  e o mudinho da pamonha.

Meu povo, bradou. Meu dileto povo ... com voz  embargada de emoção dou a vocês o que há de melhor ... como vou explicar isto? 

Safrinha?! Você está aqui? Safrinha? 

Silêncio total. 

Mudinho, vai buscar água com groselha. Verifique se Safrinha já chegou.

Senti um certo mal estar no Coreto, pois era Lua Cheia com Mercúrio Retrógrado. Esta combinação sempre me deixa atordoado.

Tenso e  cabisbaixo, desci e segui rumo à outra estátua posicionada diante do  centenário templo Dionisíaco para despertar a alegria, as paixões e a própria alma.

Povo da minha terra, assim falou Zaratustra, se não falou, deveria: Busquem dentro de sua mente a verdade e nela estará a resposta para suas dúvidas milenares: de onde vim, onde estou, para onde irei. 

Mudinho, traga pamonha para as meninas, que vou adentrar no recinto.


É isto aí!


 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cartas avulsas 33 - Ela não era uma mulher comum


Cartas Avulsas 33
Litterae solutae XXXIII

33ª Carta Avulsa
Reino da Pitangueira,
23 de Julho de 2026
204º dia do calendário gregoriano.
Faltam 161 dias ou 3.896 horas para acabar o ano.

Dia de Santa Brígida
Pôr do Sol às 17H:19min. 
A fase da Lua do dia 23 é Crescente
A estação atual é o inverno


Cartas ao vento costumam chegar nos locais mais secretos do universo, por isso creio que o vento e o tempo se encarregarão de fazer chegar de maneira intacta até aquela mulher, porque ela não era uma mulher comum.
 
Engraçado isto ser um mantra na minha escassa capacidade de entender as mulheres. Mas esta, especificamente, é real, tangível e linda. A verdade é que tudo tem um começo que não dói. Quando o caminho começa a oferecer espinhos, pedras e um desconforto permanente, capaz de destruir até a autoestima, a dor torna-se quase insuportável.

Morri pelo menos umas três vezes. Engraçado que a primeira morte não foi pela experiência dela com outro ser humano. Poderia entender, havia algo nele que não existia em mim, e tudo bem, vida que segue. A tristeza veio quando os termos de ajustamento de conduta passaram  a coexistir com minha nova realidade.

Não era uma mulher comum, destas que fazem questão de que esqueçamos delas. O que machucou, o que maculou, o que transtornou sua existência dentro de mim em tempo integral foi saber que nos amávamos mais do que antes, do que sempre, do que somos e eu não soube administrar o tempo, ficando preso ao continuum.

Hoje, passados séculos, é o mesmo dia de sempre, as mesma horas, a mesma primavera chuvosa. Já não sei mais onde termino e onde ela começa em mim. Queria saber escrever cartas de amor, enviá-las pelo vento até chegar ao tempo de relevar o que passa continuamente em cada sinapse que libero para manter este momento eterno.

Tudo valeu  pena.

É isto aí!


Somos todos nautas


Dificilmente voltaria a falar sobre este assunto, mas já que estou aqui, tenho a impressão que isto poderá fazer algo dentro de mim, apesar de não me sentir confortável em dizer as coisas que preciso dizer, mas não quero dizer. 

Senhor ...

Tenho medo, sabe? Tenho medo de não poder mais chorar. É isto. Tenho receio de extravasar todas as minhas sentimentalidades. Desculpe ... já estou a lacrimejar, feito um orvalho no mato da roça. É que às vezes tenho pena de mim.   

Albertinho ...

Pois não?

Acorda, Albertinho. Está dentro de um sonho, e não sou doutor, sou o pipoqueiro do parque.

Sonho? Pipoqueiro? Papai? É você, papai?

Sim, Albertinho, sou eu, seu pai.

Eu morri? 

Não, meu filho. Você está preso neste sonho.

E por onde é a saída?

Feche os olhos, Albertinho.

Acordei numa imensa Caravela medieval, a navegar em mar aberto. Agora me perdi, pensei. Parece que sou eu a caravela indo contra o vento, em um novo caminho que me levará ao próximo sonho. Creio, no fundo, no fundo, que somos todos argonautas, astronautas ou simplesmente nautas.


É isto aí!



sexta-feira, 17 de julho de 2026

Conto da palavra perdida

 

Era uma vez uma palavra perdida 

que caminhava sem pressa 

rumo às análises morfológicas. 

Veio um verbo irregular

que não se manifestou 

enquanto sujeito da ação.

Passou por um substantivo, 

mas era abstrato demais.

Viu de longe um adjetivo 

que mudava tudo ao seu redor; 

escondeu-se porque achou-o perigoso.

Continuou vagando ávida

até que seus olhos correram 

para uma reluzente Preposição,

Era o seu complemento mágico

E foram felizes até que 

os versos e os reversos se acabem.

Uanga, meu Ego Groenlandês.



Numa calorosa tarde de verão, enterrei o corpo do meu pai no jazigo perpétuo da família. Aquilo sempre me incomodou: *jazigo perpétuo* não seria um pleonasmo?

No outono, perdi mamãe e despedi-me da sua existência física, da sua alegria, da sua amizade e de tudo o que ela representava para mim, no jazigo da família. Daí vieram as angústias e os tropeços.

Naqueles dias, recorri à minha voz interior, a quem sempre chamei de Uanga. Foi ele quem me disse que, com o poder da retórica, faria de mim um ser invencível, insensível e inabalável. Errei nos desejos, mas acertei na companhia.

Então batizei-o como **Uanga Takuneqarsinnaanngilanga**.

Traduzido para a culta e bela língua pátria, significa: **"Eu sou invisível."** Aos poucos, fui tateando sua presença e descobrindo suas ações dentro da minha existência.

— Diga-me, Uanga, quais são as vantagens de existir e ser invisível?

— Uanga sabe, mas não diz. Uanga é quem manda, com ou sem cerimônia sacra.

— Caramba! Como assim você é o mandatário da minha existência e dos meus problemas?

— Alto lá, *Homo sapiens*, alto lá! Desde os primeiros átomos da sua longa existência, eu já estava presente, executando o que há de melhor em você. Sou eu quem, por meio de uma desproporcional força silenciosa, molda quem você é. Sou eu quem dita suas resistências e seus apegos sem que a sua frágil consciência perceba.

"Além disso, sempre fui eu, invisível, a impulsionar sua ridícula luta pela aprovação entre seus pares e ímpares. E saiba, filho de Adão, que serei sempre eu quem insistirá em seus próprios julgamentos e, pasme, grácil ser, quem o fará evitar a vulnerabilidade a todo custo."

— Mas, Uanga, e o meu livre-arbítrio? E a minha capacidade de escolha?

— Ora, ora... Então você acredita na liberdade das escolhas? Crê na ilusão de que sempre decidiu em favor da verdade ou do bem, individual ou coletivo? E acredita, ainda, que é eternamente responsável por todas as suas decisões?

— Espera... Você está brincando, não é? E esse negócio de ser da Groenlândia também é ilusão? Qual é o sentido simbólico disso? Quando serei livre?

— Calma, rapaz. Uma dor a cada passo, ou um passo de cada vez. Guarde isto: a liberdade autêntica começa quando **Eu** deixo de ser invisível e passo a ser observado.

Mas como acontecerá isso?

Uanga...?

Nenhuma resposta.

É isto aí!

terça-feira, 14 de julho de 2026

A Vaca triste


A vaca triste

A vaca parou no pasto,
travou, pensou, mugiu,
olhou para o lado de cá
e abanou o rabo para lá.

Chamou seu bezerro
com bramidos do mar,
com bramidos do vento
e expressou lamentos.

Berrou com medo,
deu por falta, ainda cedo,
do seu filhote peralta
e chorou de soluçar.



segunda-feira, 13 de julho de 2026

Cartas de Amor 125


Reino da Pitangueira,

Planeta Terra & Lua,

3º do Sistema Solar,

Via Láctea, Zona Sul


Cartas de Amor 125

Epistulae Amoris CXXV


Querida,

Jurei que não voltaria e acabei desconjurando o dane-se. O caso é que não há mais como frear este cérebro em movimento acelerado, ladeira abaixo, no presente contínuo.

Tudo bem. Disse a mim mesmo que a vida é isto que se vê em 15% e aquilo que não se vê em 84%. O restante, esse intrigante 1%, deve ser a força que faz girar a vida e que não joga os dados, como dizia Einstein.

Quantas vezes morri sem saber que estava convicto de haver errado e, no fundo, no fundo, duvidava disso. Quando me reencontrava, ressuscitava com aquele terrível sentimento de que fizera uma enorme besteira.

Saiba, meu bem, que, falando em fundo, há dias em que minha vida entra nas vagas de Nazaré, aquelas ondas gigantes ao norte de Portugal, formando paredões que podem ultrapassar os 25 metros de altura. E só então, no desespero da luta, vejo você, eu e tanta gente tentando manter o equilíbrio para não se afogar nas próprias mágoas.

É inútil fugir desses paredões para abdicar dos problemas, pois isso apenas piora as coisas, provoca novas tempestades e potencializa a ondulação desse imenso oceano de seres e problemas vivos. A solução para uma vida sem sentido não é fugir, mas encará-la e vivê-la em sua totalidade, lutando contra o absurdo com revolta.

Cansei. Envelheci. Enfrentei árduos combates; alguns venci, muitos me machucaram. Hoje tomei uma decisão que, por enquanto, apenas toca um dos pontos mais sensíveis da minha existência.

Querida, descobri que não sei escrever cartas de amor. Não sei explicar esta luta que me habita. Não sei dizer coisas fáceis, escrever coisas óbvias, ler livros chatos, assistir a filmes hipócritas... 

Não sei. Não, não sei mesmo.

Só sei que você é esta profusão de amor em mim.


É isto aí!


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Sobre Picles e o sentido da vida


 — Amor, quando você me beija, o que você sente?

— Querida, sabia que já viajei de trem bala?

— Amor, você está tergiversando.

— Querida, nunca usei e jamais recorro a subterfúgios para com você.

— Amor, dar desculpas e fazer rodeios é mister da sua existência. 

— Querida, nunca evitei dar uma resposta direta e clara sobre quaisquer assuntos levantados por você.

— Amor, você, com esta voz macia e este tom melodioso, está está a evasivar para evitar uma resposta clara.

— Querida, longe de mim  ganhar tempo ou enganar você com ferramentas de fuga de diálogos que nos alimentam.

— Amor, Onde você gosta mais de me beijar? Fala a verdade. 

— Querida, gosto de toda a sua pela, suas mucosas, seus relevos, sua doçura ...

— Amor, onde você não gosta de me beijar. Fala a verdade ou...

— Querida, tudo bem, não faltarei com a verdade. Não gosto de beijar a sua boca em tempo integral.

— Amor, está brincando, não é?

— Querida, não estou brincando.

— Amor... é brincadeira, não é? (choramingando).

— Querida ... (silêncio)

— Amor, fala o motivo, diz a verdade, pelamordedeus (gritando e chorando)

— Querida, sua boca tem gosto de picles.

— (Silêncio sepulcral entre as partes.)

— Cafajeste, monstro, insensível, adeus, nunca mais outra vez terá meu gosto na sua boca de sapo.

 — Boca de sapo quem tem é sua mãe, sua chata.

— Chata é a mocreia da sua irmã.

— Aposto que você nunca beijou outra menina, nem sabe o gosto das minhas amigas.

— Celeste tem sabor de framboesa, Chiquinha tem gosto de glacê e Dadá,  tem gosto de cereja.

— Você é um monstro insensível, um pusilânime, só resta o adeus.

—  Querida, antes de partir poderíamos ...

— Posso entender o sentido disto?

— Adoro picles na língua...

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O Analista da Pitangueira e a Sombra interativa


 — Senhor Lindolfo, pode entrar — disse placidamente a secretária.

— Sente-se onde estiver mais confortável, Lindolfo. Vamos conversar.

— Doutor, eu preciso que o senhor acredite em mim — disse, com a voz trêmula.

—  Procure ficar calmo. Conte-me o que está ocorrendo com o senhor.

— Começou comigo achando que aquilo era estranho, uma aberração, uma anormalidade. Tinha vergonha de falar para as pessoas; tinha medo de ser mal interpretado. Procurei vários especialistas e já estava desistindo quando me informaram sobre o senhor. Afinal, aquilo já estava passando dos limites.

— (silêncio contemplativo)

— Não sei como dizer isto... (lágrimas)

— (silêncio interrogativo)

— Sabe, as pessoas me acham esquisito...

— (silêncio investigativo)

— Mas eu não sou esquisito. Não me entendem...

— Quem não entende?

— Eles... as pessoas, a família... ninguém compreende.

— Pessoas da família ou pessoas estranhas e a família?

— Faz diferença para o senhor ser incompreendido?

— Não, para mim, não. Mas, para você, parece que isso é importante.

— Como assim, "para mim"?

— Quem o trouxe aqui, Lindolfo?

— Vim sozinho. Por quê? Você acha que ela me trouxe? Como soube?

— Não sou o oráculo das suas dúvidas, Lindolfo. As respostas estão em algum lugar dentro de você.

— Não! Não... Não está dentro de mim...

— O que não está dentro de você?

— Essa sombra. Não percebe? Ela... ela... Meu Deus! Você não vê?

— O que você vê que eu deveria ver, Lindolfo?

— Meu Deus, você não vê essa sombra?

— Fale-me mais sobre isso. O que há nessa sombra?

— Não é o que há... Meu Deus... Como explicar? Olha, eu não sou doido...

— Sim, prossiga. Sei que você não é doido. Fique à vontade para falar o que o aflige.

— Sabe... puxa vida... como falar? Ela... essa sombra... Olha, eu não sou maluco, mas a minha sombra é uma mulher...

— Entendo... prossiga...

— Entende? Você entende? Entende mesmo? Olha, ela... ela... É incrível... ela... ela... (lágrimas escorrem).

— (silêncio estarrecedor)

— Ela é ninfomaníaca. É insaciável. Quer sexo o tempo todo, me provoca, me deixa louco, fico excitado, e ela nunca se sacia.

— Veja bem: essa imagem é um arquétipo, uma projeção do seu subconsciente, composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autônoma e dissociada do eu consciente.

— Você disse que entende, mas não sabe de nada. Não tem nada disso de arquétipo.

— Ouça, Lindolfo. Essa sombra feminina constitui apenas uma "subpersonalidade", comparável a uma personagem de uma peça de teatro: autônoma, independente de você e dotada de personalidade própria, projetada por você.

— Doutor, o senhor está excitando ela com esse papo.

— É? E como você acredita que isso seja possível? Lindolfo? Lindolfo? Cadê você?

— Aqui, embaixo do divã, com meu arquétipo...

— Caramba! Que sombra sedutora é essa? É real? O que é isso? Nunca vi nada parecido.

— Tira o olho, doutor! Tira o olho! É minha. Isso! Mexe, sua doida! Ai, que loucura! Ela ficou excitada demais com essa conversa.

— Bem, vamos seguir o trajeto dessa sombra desde a origem, nas próximas sessões, Lindolfo.

— O senhor acha que ela tem cura?

— Ela? Sessão dupla. Isso vai ser interessante. Terminou. Semana que vem quero ver os dois, no mesmo horário.


É isto aí!

Sobre faltas e ausências .


Estou sentado no improvisado escritório, onde outrora fora o quarto das crianças, que jurei que jamais cresceriam e acabaram partindo cada qual para seu canto. Contemplativo diante da tela do computador, penso na engenhosidade científica que faz surgir, em sua superfície, as imagens, textos e vídeos formados por milhares de pequenos pixels que emitem luz e cor para formar o que acredito ver.

As crianças se comunicam por meio destes aplicativos onde se fala, se vê, se escuta, se expressa, e pronto, nada de abraçar o pai, nada de sentar no colo para contar sobre as travessuras na escolinha. Há pelo menos 15 anos migraram para seus sonhos e um dia também estarão divagando que tempos bons eram aqueles.

De repente dou por falta do celular, este aparelho que virou o terceiro membro superior, cibernético e mágico da existência humana. Sei pouco sobre ele, mas já li que parece vincular-se quase imediatamente ao córtex cerebral, associado a funções como memória, linguagem, raciocínio e controle motor. Por enquanto estes aparelhos ainda não têm o mesmo DNA da nossa existência ... por enquanto.

De repente dou por falta do aparelho. Corro os olhos na mesa de trabalho, dou uma volta de 360 graus na cadeira, levanto para verificar no banheiro (sim, existem pessoas que o levam ao sanitário). E nada. Saio em direção ao quarto, onde a patroa ainda dorme. Tateio o criado mudo, passo a mão sob o travesseiro e nada. Desço para a sala de visitas, corro os olhos em todos os cantos neste ambiente que raramente utilizo na casa e nada. 

Começo a ficar preocupado, logo vai dar quatro horas da manhã e ainda estou à procura do aparelho. Sigo para a sala de estar, revisto as prateleiras, o sofá, as poltronas e nada. O tempo vai passando. Dirijo-me à cozinha, busco até dentro da geladeira, e nada. Talvez na copa, quem sabe? Nada, nada, nada.

Sabe a Rádio Cabeça, aquela que vive compondo a trilha sonora da nossa vida, em tempo integral? Ela mesmo vai e resgata Ronda, do Paulo Vanzolini - Volto pra casa abatido, desencantado da vida, o sonho, alegria me dá, nele você está ...

Retorno ao improvisado escritório, que teimo em chamar de provisório, vai que as crianças voltam? Sento diante do monitor e não desisto, a busca não pode ser inútil. Olho para as horas e ... (maestro, música de suspense) lá está ele onde esteve o tempo todo, acomodado na mão esquerda.

Música Incidental: Ronda - Paulo Vanzolini

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Papo de Esquina - O gerente enfezado

O gerente foi se aproximando da minha mesa e, assustadoramente, mirava os olhos sobre um ponto fixo, que parecia ser eu. Logo eu, mudo, calado, reservado e sempre tentando ser invisível. Por experiências anteriores pensei que, nos segundos seguintes, ele se aproximaria e faria da minha vida um caos em queda contínua.

Andava apressado, corpo rígido e ereto, feito um recém nomeado chefe da turma do batalhão de choque, sendo que aqui é a sala da turma de análise de mercado. Mas ele é um imbecil e sempre confunde alhos com bugalhos da mãe dele.

Para evitar o dano causado por não saber, você, sim, você que por agora lê este inventário não profano, saiba que, desde as eras primeiras da criação da nossa pátria-mãe, a querida Portugal, reza a lenda que a analogia entre alhos e bugalhos deu-se por ser o alho bem conhecido, de bulbo em gomos, e bugalho, uma excrescência em formato de bola que se forma nos ramos de certas árvores.

Bem, pelo menos agora você já tem assunto para quando estiver conversando consigo sobre o número que sonhou, mas não jogou, e, para aumentar o sofrimento, e o que é pior, recusa-se a buscar o resultado oficial.

Voltando ao beócio: cada vez mais perto, cada vez mais próximo, até que, diante da minha mesa, foi direto para a caixa da chave do banheiro de uso restrito, mantido sempre limpo. Correu para lá, impulsionado por gases fétidos terrivelmente tóxicos. A contar pelos gemidos e sons diversos, literalmente esvaziou-se em si mesmo.

Moral da História: nem tudo é o que parece. O gerente era um cagão contumaz, e eu, tenso e assustado, havia esquecido disto.


É isto aí!

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Vaca da Pitangueira

Lá vai a vaca mocha

rodando o rabo

espantando mosca

 A vaca desequilibra

no barranco molhado

anda meio tonta

e cai para o lado

levanta chacoalhando

cabeça, tronco e sinete

e o leite da meiga

vira iogurte

e o leite que curte

vira manteiga

Esta aula é sobre sexo?


—  Naquela fria manhã de inverno, como de hábito, a professora escreveu no quadro o tema que seria discutido no decorrer da aula, precedido da seguinte expressão —  Pensamento do dia:  Não é fácil viver com tantas proparoxítonas se ainda temos que entender a Semântica de quem fala e de quem escuta.

Os alunos ficaram entreolhando quem havia entendido, mas não ocorreu manifestação. Então, virando para a classe, cumprimentou-os e disse:

— Meus queridos alunos, hoje temos uma convidada muito especial: Com vocês, a Tia Gramática (aplausos).

— Olha só, fico comovida em estar aqui para falar da Língua. Você que levantou a mão pode perguntar, mas antes diga seu nome.

— Meu nome é Cândida Alva. Esta aula é sobre sexo?

— Sexo? Como assim? Qual é a ligação entre a estrutura, o funcionamento e as regras gramaticais de uma língua e o sexo?

— Ah, Professora... todo mundo aqui sabe disto.

— Todo mundo? Quem é todo mundo?

— Todos levantaram a mão.

— Humm. Não, a aula não se refere ao sexo. Não necessariamente, mas se vocês dominarem a Língua, portas se abrirão com maior facilidade na sua vida.

— A garotada foi ao delírio. Nunca mais outra vez Tia Gramática conseguiria tamanho êxito numa aula  onde a estrutura, o funcionamento e as regras de uma língua foram, em tese,  avidamente assimiladas e compreendidas. Foi da Fonologia à Semântica e a moçada saiu convencida de que dominar a Língua era mesmo um dos maiores talentos da humanidade.

— Você que levantou a mão pode perguntar, mas antes diga seu nome.

— Herbert Glauber de Windsor. 

— Pois não, Herbert, faça a sua pergunta.

— Professora, considerando que a senhora afirmou que a língua é polissêmica, o que vem a ser exatamente a palavra polissêmica? Seria relacionada à poli sexualidade?

— Delírio total na sala.

— A professora pediu calma. Gente, não é nada disso. Polissêmica significa que uma palavra possui múltiplos significados que se relacionam pelo mesmo campo semântico anatômico e sensorial.

— Uau, então isto explica muito, já que, até aqui. nas suas palavras, a língua tem subterfúgios...

—  A professora agradeceu pela participação, fechou o livro, recolheu o material e saiu da sala sem responder aos pelo menos quatro braços que ainda permaneciam levantados. 

domingo, 14 de junho de 2026

Carminha na Copa - quinta-feira, 19 de junho de 2014

Crônica  "Carminha na Copa" - quinta-feira, 19 de junho de 2014



— Abrem as cortinas e começa o espetáculo. Armando avança pela lateral, sobe sem pressa, a esquerda está livre, avança sem contenção, passa pela ala, alcança o flanco, dribla, procura o gol, tem o montinho artilheiro na frente, mas prefere o ataque frontal e ... falta, falta ...

— Calma, Carminha.

— Ah, vai Armandinho, bate logo, o campo já está todo alagado, a bola está pesada...

— Olha só, Carminha, com você narrando não tem artilheiro que marca. É muito complicado.

— Qual é, Armando? Entra no clima da Copa...

— Copa, Carminha? Não podíamos ser iguais aos casais normais, na cama ... no quarto ...?

— Caramba, você é muito conservador. Parece até a Inglaterra! O mesmo jogo desde 1950.

— Ah, não... ah, não!!! Conservador não! Você sabe que por muitas vezes apresentei táticas diferenciadas  e várias delas fizeram sucesso.

— Sim, é verdade, apresentou muitas táticas, mas sempre no começo do segundo tempo faltava técnica, talento e folego ...

— Agora fiquei com raiva.

— Isto, Armandinho, põe pra fora esta adrenalina e parte pra cima com seu potencial de destruição da zaga...

— Para com isto, Carminha, vamos voltar ao tradicional...

— Tradição é tudo, Armando, mas sem uma revolução no plantel, não sobe no podium, nem beija a taça.

— Como assim? Revolução?

— Não se faça de bobo, um doping discreto, azulzinho...

— Nunca precisei e não faço uso, só jogo limpo. E com esplendor...

— Armandinho, queridinho, lindinho, amorzinho, não quero saber de esplendor, quero bolas na trave e na rede por noventa minutos e o artilheiro entrando sem humildade no gol, meu bem, e o jogo é meu, o campo é meu, a rede é minha e aceito doping, querido, ninguém vai saber...

— Jura?

— Juro. Agora espera o bandeirinha correr para o meio do gramado, agitar a bandeira e bater para o gol, e ... Armandinho, cuidado para não ficar impedido.

— Puxa vida, Carminha, você sabe tudo de futebol...

— Tudo e mais um pouco, meu bem... tudo e mais um pouco...


É isto aí!

A moça do voil rosa



Acordo angustiado pelo desejo de, mais uma vez, admirar a extrema leveza, fluidez e graça que desfilam sob meu olhar.

Toda manhã, sobre a passarela da calçada, lá vem ela, a beleza da rua, que passa hoje, sensualmente, num vestido de voil de algodão, amplo e esvoaçante, suavemente rosa, ao caminhar sozinha pela rua dourada pelo outono, permitindo a entrada suave da luz natural em seu corpo divino, sob a privacidade de um forro discreto e liso.

Naquele instante, solitário, observo e absorvo seu andar dengoso, que, em seu natural deslocamento, deixa no ar um perfume gozoso enquanto desfila anônima, imprevisível, secretamente amada; segue linda ao encontro do destino e passa afeita à bruma da natureza solidária.

Abraçada pelo outono, esvoaçante bailarina que ainda não sabe, mas já cabe inteira no meu abandono, deixa a rua iluminada e arejada por existir desde sempre dentro de mim.

Nisso, num ímpeto primitivo, falo:

— Moça, moça!

— Pois não?

— Você quer namorar comigo?

— Sim.

— Sim? Você disse sim?

— Sim — respondeu, sorrindo. — Eu aceito seu pedido.

— E agora, o que eu faço?

— Desça aqui, e vamos conversar.

E foram felizes para sempre!