sábado, 28 de junho de 2014

A família, o poder e os segredos - Um capítulo de cada vez

Meu nome é Jailton Silva, tenho setenta e seis anos, nascido e criado em Córrego do Brechó, distrito de Lima Azul. Estou nos últimos dias da minha vida e tudo o que eu falar para o senhor, poderá ser confirmado nestes documentos que no final direi onde estão, se acreditar em mim. Eu vim aqui denunciar uma sequência de mortes, as quais umas testemunhei, outras produzi e outras determinei.

I - Minha história de dor começou em Lima Azul, uma pacata cidade de dez mil habitantes, no interior de Minas Gerais, no final da década de 50 do século XX. Orlando, com dezenove anos amava Esmeralda. Esmeralda, com dezoito anos amava Orlando. Sonhavam casar e viver felizes para sempre.

II - As famílias eram inimigas juramentadas. As famílias dividiam toda a riqueza da região, além de alternarem os mandatos políticos municipais e da Assembléia Legislativa. Os pais odiavam tudo um do outro. As mães eram proibidas de sequer cumprimentarem. Frequentavam a Igreja e a feira em horários diferentes, com capangas armados. Orlando amava Esmeralda desde o tempo da escola. Esmeralda amava Orlando. 

III - O casal apaixonado conversava por códigos, sinais, recados de amigos em comum, suspiravam pelos cantos da cidade. Dava dó ver a angústia que cada um trazia consigo. Orlando passou a planejar uma fuga com Esmeralda.

IV -  O plano consistia em esperá-la após a missa, atrás da igreja, onde estaria aguardando em um carro emprestado e dirigido pelo Artuzinho, primo de Gracinha, melhor amiga de Esmeralda, que os levaria até Manga Rosa, de onde embarcariam de trem para o Rio de Janeiro e de lá para o mundo.

V - No dia combinado, Esmeralda não apareceu, nem nos trinta dias seguintes. Artuzinho sumiu e Gracinha parou de frequentar as noites. Nenhum recado, nenhum sinal, e impossível aproximar-se da casa da moça. Orlando enlouqueceu. Ficou estranho, falava sozinho, chorava do nada e quase não saia mais.

VI - Trinta e cinco dias se passaram. Numa madrugada chuvosa, entre três e quatro horas da manhã, Orlando acorda com uma insistente campainha, ininterrupta. Abriu a porta e Esmeralda literalmente desabou aos seus pés e alguém saiu correndo, sem nenhuma palavra. Estava desmaiada e com características de espancamento.

VII - Chamou a polícia e a ambulância. Esmeralda foi para o hospital e Orlando para a delegacia, como suspeito pela tentativa de assassinato. O delegado havia recebido denúncia de que a moça estava em cárcere privado provocado por ele.

VIII - Com a intervenção da família, foi solto em três dias, proibido de aproximar-se da moça e naquela noite ela foi assassinada enquanto ainda corria risco de morte aos cuidados médicos. A autópsia revelou ferimento por um instrumento perfurante, que pelo diâmetro sugeria da chave de fenda, encontrada no lado externo da janela do apartamento, responsável pela ruptura da aorta.

IX - No julgamento, vários testemunhas corroboraram com a tese de cárcere privado, seguido do assassinato. O dono da loja de ferragens confirmou que vendeu a Orlando um jogo de chaves de fenda da mesma marca e cor da que vitimou Esmeralda.

X - O médico legista deu a notícia que praticamente incriminou sem defesa ao rapaz. Esmeralda estava grávida de seis semanas, que pode ter sido o motivo do assassinato, afinal Orlando poderia ter ido ao desespero, talvez nem a amasse tanto e só queria se divertir, enquanto a moça sofria com a gestação prematura.

XI - Orlando foi condenado a setenta anos - trinta anos pela morte de Esmeralda mais trinta anos pela morte do feto e mais dez anos por sequestro e cárcere privado. Na primeira noite na penitenciária, suicidou com um cinto, na grade da janela do cárcere.

XII - Em 1969 um delegado novo chegou à cidade. Despertado pela curiosidade do famoso episódio, começou a encontrar dezenas de lacunas no processo, provas sem consistência, enfim, o que encontrou indicava outro caminho. Em poucos dias foi preso como comunista e entrou para a lista dos desaparecidos da época.

XIII - Em 1981, passados vinte e dois anos, o promotor de justiça que foi indicado para a cidade, ouviu as histórias, analisou dados, datas, prontuários e veio a falecer em um estranho acidente de carro quando vinha sozinho da capital trazendo supostos documentos que promoveriam a abertura do inquérito.

XIV - Em 1995, já com os crimes prescritos, e os envolvidos falecidos, um mendigo, com aproximadamente setenta anos, morador do abrigo da Conferência dos Vicentinos, e que durante muitos anos foi  empregado na fazenda dos pais de Orlando, foi à delegacia e disse que tinha importantes revelações para fazer sobre o episódio conhecido como o caso Romeu&Julieta caipira. Segundo o escrivão, ao pedir para ir ao banheiro, escorregou, bateu com a cabeça na quina de uma banco de cimento e teve morte súbita.

XV - Senhor Jailton Silva, o senhor não me conhece, mas meu nome é Artur Monteiro, sou o delegado regional nomeado para esta cidade, e talvez o senhor não ligou uma coisa à outra, pois eu sou o Artuzinho da sua versão. Por favor, levante-se e saia pela porta pela qual entrou e eu esquecerei tudo o que disse, ou então fique e seja responsável pelas consequências dos seus atos...

Naquela madrugada, jovens saindo dos bares do centro encontraram um mendigo enforcado em uma árvore da praça central da cidade. Assim fechei o ciclo que teve início quando os dois mais temidos mandatários da região, donos de todos os negócios, da política e do destino das pessoas, encontraram-se para tramar a morte dos próprios filhos que unidos permitiriam o enfraquecimento do poder.

É isto aí.




quinta-feira, 26 de junho de 2014

Odete, a Rainha das Aspirações do Planalto Central

O telefone tocou na noite passada, por volta das vinte e uma horas. Era Odete, a moça apátrida em tempo de copa, que é destas pessoas que adoram futebol, embora apenas não entendem o que se passa sobre a grama. 

Conta a lenda que em determinada ocasião, levada por pequena insistência de certo senador, encantou-se com as bandeirinhas trêmulas nas mãos de simpáticos cidadãos em conjunto preto básico, contrastando com bandeirinhas fixas em tom amarelo-ouro, nos cantos. 

Achou aquilo fantástico, apesar de questionar o tom desafinado e agudo do instrumento de sopro do rapazinho de amarelo, que ficava correndo feito um louco atrás de homens que corriam atrás de uma bola, que não corria para ninguém.

Ligou para fazer um comentário que ouviu de Fafá, uma moça de família, cama e mesa, que serve no Congresso dos Homens de Bem. Fafá estava prestando seus serviços na casa de Maurinho, que confidenciou-lhe ter ouvido de Carminha, que estava no salão da Lena, que ouviu de Gustavinho, primo-irmão da vizinha do tio de Geléia, pródigo quarto assessor da sexta secretaria do quinto anexo do Congresso Nacional.

Geléia teria dito que as aspirações de carreira pública e púbica ficaram em alta nas margens do Paranoá desde que famoso diretor de filmes, Mr. Cabeção (sic - notório adepto do botox de Miami, e líder-pastor do Movimento da Entregação Nacional dos Homens de Bem) sugeriu que todas e todos que o desejarem, primeiro suguem e só depois promovam uma adesão ao seu latin lover.  

Odete acha, e só acha mesmo, que Mr. Cabeção deve ter confundido o enredo dos filmes que pretende dirigir, e ao invés de pegar o script daqueles romances clássicos, onde o amor começa pelo olhar, passa pela admiração, chega à aproximação e finalmente ao êxtase, leu rapidamente estes interessantes scripts fast-food onde carnes humanas são expostas nas mais variadas formas, sem necessidade de conversa ou relações sociais mais profundas. 

É isto aí!

terça-feira, 24 de junho de 2014

O herdeiro real

O homem mais rico da região, dono de dezenas de empresas, líder político, benemérito de todas as obras sociais, religioso fervoroso, era casado com uma lindíssima ex-miss de fama internacional, e tinham apenas um filho, que aos trinta anos ainda não se casara, o que já os preocupava pela falta de herdeiros.

Carlos Eduardo nunca falou em casar, nem ao menos namorou em sua vida reta e sem-graça. Jamais sorria, vivia para a literatura, os jornais e os negócios. Era extremamente zeloso com suas obrigações. Considerado um dos maiores administradores do pais, culto, reservado, e metódico - extremamente metódico. 

Chegava à sua mansão pontualmente à 17 horas e 36 minutos, sendo recebido pelo mordomo que apanhava seu chapéu e sobretudo, acompanhando-o até o hall, onde aguardava instruções e em seguia servia um L'Esprit de Courvoisier, que era degustado com um Cohiba Robusto no jardim lateral.

Após este culto ao prazer solitário, pontualmente às 18 horas e dezessete minutos subia para o banho, se preparando para o cerimonial do jantar, ao som, preferencialmente, de Mozart. Dezenove horas seguia para a sala de jantar, onde independente da presença dos pais, sentava e servia-se, praticamente em silêncio.

Em seguida dava uma pequena volta pela propriedade, acompanhado novamente de um Cohiba Robusto. Recolhia-se aos seus aposentos às 21 horas e doze minutos, para acordar exatamente as cinco e dezenove da manhã, de segunda a segunda, preparando-se para mais um dia de trabalho.

Um dia, e este dia sempre chega, ao descer para jantar, deparou com uma moça lindíssima sentada à mesa. Não se cumprimentaram, apesar de tê-la notado no todo. No dia seguinte, no outro dia, e nos outros seis dias a mesma cena. Até que, sentindo-se mais confiante, dirigiu-lhe a palavra:

- Perdoa-me, mas nos conhecemos?
- Gostaria de fazê-lo?
- Sim, claro. Qual o seu nome?
- Cláudia Marie Versalhes e o seu?
- Carlos Eduardo Rambouillet. Muito prazer em conhecê-la.
- Obrigada. O prazer é todo meu.

Nas noites seguintes, passaram a se cumprimentar pelo nome, sem nenhum diálogo. Passaram-se quinze dias até que tomou a iniciativa de saber o que ela fazia ali.

- Perdoa-me, Cláudia Marie, se estou sendo indelicado, mas o que faz aqui?
- O admiro, Carlos Eduardo!
- (completamente enrubescido) Interessante.

Passaram-se mais sete noites e Carlos Eduardo tem a iniciativa de retornar ao diálogo.

- Considerando o motivo de sua presença, saiba que é admirável.
- Obrigada, Carlos Eduardo.

Quatro jantares depois, em uma noite de tempestade terrível, Carlos Eduardo procurou saber mais sobre a moça.

- Diga-me, Cláudia Marie, sabe o motivo pelo qual meus pais não jantam conosco desde a primeira vez que a vi?
- Sinceramente não sei, Carlos Eduardo.

Três noites depois, sentindo-se mais confiante.
- Você gosta de Mozart, Cláudia Marie?
- Sim, considero um dos maiores compositores clássicos do Ocidente.

Após duas noites passadas, ligeiramente empolgado.
- O que faz depois do jantar, Cláudia Marie?
- Aguardo a senhora sua mãe chegar, conversamos sobre atividades domésticas e responsabilidades do lar, e pontualmente às vinte e duas horas e onze minutos meu pai vem buscar-me.
- Muito bom, gostei de saber. No domingo eu aguardarei sua presença para o almoço.
- Com o maior prazer, Carlos Eduardo.

Domingo, com toda a pompa de um cerimonial de almoço, a convidada é recebida com flores pela governanta, na porta da residência. O mordomo a encaminha até o jardim lateral onde estão os pais e Carlos Eduardo. Este levanta-se, toma-a pela mão, leva de encontro aos dois e anuncia o noivado com data para o casamento em apenas trinta dias.

Comemoram, abraçam, e Carlos Eduardo sente-se o homem mais feliz do mundo. O pai olha com um sorriso enigmático para a mãe e segue o diálogo:

- Caramba, querida, que dificuldade para arrumar uma esposa para este rapaz.
- Mas eu te avisei que Claudinha era capaz disto. Eu a treinei em tudo.
- E nós dois, querida, como ficamos?
- Ora, amor, enquanto a gente não arruma outra caipirinha aí para nosso ménage à troi, Claudinha vai fazendo o meio de campo, até porque ninguém faz meio de campo melhor que ela...
- Eu te amo, querida!
- Eu também te amo, querido! Tudo pelo bem de nossa família!

É isto aí!


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Classificados do Amor.

Dia 26/maio
Classificados do Jornal da Cidade:
Procura-se uma mulher linda, de alma pura, que saiba ser feliz. As interessadas deverão enviar uma carta de próprio punho, à lápis 2HB, em folha formato A4, em envelope comercial, para a Caixa Postal 156 aos cuidados de Ávido por Missiva

Dia 27/maio
Cartas dos leitores para o Jornal da Cidade:
1 - Eu quero protestar contra este cavagesto deste tal de Havido aí, que está atazanado mulheres querendo coisas imorais com o punho. Seu redator - policia nele. Anonima do Sindicato.

2 - O que significa carta de próprio punho? Lindinha da Murta.

3 - Olha só, até que encacho bem neste perfel aí, mas tirando-se a palavra carta num intendi mais nada. Virgem da Lapa.

Dia 28/ maio
Única carta recebida na Caixa Postal 156:
Prezado Senhor Ávido por Missiva
Estou escrevendo, atendendo ao seu inusitado pedido, por intensa curiosidade. Traduza-me, por obséquio o que o senhor desejou de uma mulher ao querer que ela saiba ser feliz. Favor responder pelo setor de cartas do Jornal da Cidade. Atenciosamente, Srta. Graça Grafite.

Dia 29/maio
Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite no Jornal da Cidade:
Senhorita Graça Grafite. Emocionou-me sua escrita de grafia tão sublime. O que de espanto à indagação? Exponha seus sentimentos, seus desejos ocultos, suas vocações, seus sonhos, suas virtudes a serem demonstradas, seus defeitos a serem respeitados. Mostre-me sua mais íntima concepção de ser feliz. O quanto baste e o quanto falte para sê-lo.

Dia 30/maio
Carta aberta da senhorita Graça Grafite ao senhor Ávido por Missiva no Jornal da Cidade
Causa-me espécie suas investidas no mais íntimo do meu ser. Ao mesmo tempo que aquece meu coração, freia minha sã consciência. Como responder o que há de oculto em mim a alguém que não conheço?

Dia 31/maio
A pequena cidade está em alvoroço. Naquele domingo, missas e cultos transformaram-se em amplo cenário de discussão das cartas do jornal.
Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite no Jornal da Cidade:
Prezada senhorita Graça Grafite, a quem meu apreço e admiração multiplicara-se nestes dias. Sou um homem do bem, com razoável patrimônio rural e urbano, renda satisfatória para uma vida tranquila e sem problemas, ao lado de uma mulher que tenha esta percepção sobre a felicidade. A senhorita tem, confesso, feito progressos em minha inquietude.

Dia 02/junho
Segunda-feira, 01/06 o Jornal da Cidade não circulou em face ao tumulto na porta para receber cartas, daí a data da terça-feira.
Nota de Esclarecimento do Editor Chefe do Jornal da Cidade:
Prezados leitores e leitoras, hoje nosso Jornal da Cidade triplicou a tiragem e mesmo assim sabemos que não conseguirá atender à demanda da população, especificamente a feminina. Em face de termos recebido cerca de duas mil e trezentas cartas aceitando o pedido de casamento do Senhor Ávido por Missiva, não publicaremos todas por questão de espaço. Mas tomamos a liberdade de transcrever as cartas das leitoras que já haviam se manifestado anteriormente:

1 - Eu te amo-lo ocê e sou feliz só arceu lado! Anonima do Sindicato.

2 - Eu quero ser sua 2HP de A4, e ser feliz para sempre ao seu lado! Lindinha da Murta. 

3 - Seu perfel é meu pérfel! Vem cer meu! Virgem da Lapa.

4 - Senhor Ávido, estou ávida por ti! Graça Grafite.


E foi assim que mais de trezentas mulheres invadiram o Jornal da Cidade naquela fria manhã de dois de junho, quebrando tudo para poder encontrar o endereço e o nome do seu amado pretendente... 

Ah! Você quer saber como termina esta história? Deixe as coisas se acalmarem na Delegacia, que veremos o rumo do caso.

É isto aí!

domingo, 22 de junho de 2014

Doutrina das Plêiades Helênicas

Epitácio Junqueira era um chato. Certa feita teve uma experiência de contato imediato de quarto grau com o viajante inter-estelar Hamnym Kan, enquanto recebia um passe no terreiro de Mãe Aparecida. Abduzido, chegou à imensa nave, e lá recebeu a incumbência de criar um Templo de Cura, Libertação e Salvação na Terra.

Ao retornar, já haviam passados três dias desde seu desaparecimento, que ninguém percebeu na pensão e sequer fora notada a ausência no Departamento de Recursos Hídricos, onde ocupava o cargo de 3º Auxiliar da 2ª Secretaria do Gabinete Interino do Assessor Especial para Assuntos Regionais do Ministério das Cidades.

Em sua escrivaninha, cercado de papeis inúteis e arquivos mortos, transcreveu para o mundo a Doutrina das Plêiades Helênicas. Passadas algumas semanas sem conseguir avançar no Estatuto e no Organograma do Templo, eis que materializa-se em forma humana o Mestre Hamnym Kan, que passou então a promover todas as condições para que Epitácio construísse o Templo.

Segundo Kan, através das milenares gerações do saber, foram permitidas pelas fendas abertas pela Grande Consciência das Constelações, que os ensinamentos desta vertente espiritual promovesse uma nova concepção de mundo, onde os clãs nobres seriam responsáveis por nortear e conceder as determinações e doutrinas arcaicas simples, porém absolutas e transformadoras, que doravante seriam denominadas e conhecidas como “Oráculos do Amor”.

A salvação baseia-se na família, frisava Kan, e por família entendemos quaisquer aglomerações humanas por interesses comuns. São os Oráculos do Amor que nos enredam inconscientemente na repetição do destino de outros membros do grupo familiar, ensinou.

As ordens do amor são forças dinâmicas e articuladas que atuam nas famílias e necessitam dos relacionamentos íntimos, passionais ou espirituais para se manterem vivas. Percebendo a desordem dessas forças dinâmicas sob a forma de artífices transcendentais, através do Oráculo do Amor concederemos à ela (à desordem) um fluxo harmonioso como uma sensação de estar bem no mundo.

Desta forma, concedendo a harmonia aos quatro Clãs da Nobreza Cósmica, libertaremos seu mundo da escuridão do saber divino. Saiba, Epitácio, que existem quatro Clãs da Nobreza Cósmica na Terra, que são assim designadas: Clã das Plêiades Sarônicas; Clã das Plêiades Espórades Setentrionais; Clã das  Plêiades Jónicas e o Clã das Plêiades do Dodecaneso.

E eu, Kan, conheço cada uma delas e assim que construir o templo as enviarei para que se cumpram as profecias do destino da vida adâmica. Para iniciar seus trabalhos espiralizados em éter cósmico, será necessário um pequeno investimento inicial da ordem de alguns milhares de reais e tudo será ressarcido.

Assim, Epitácio endividou-se além do limite de suas posses construindo o Templo e recrutou as quatro cunhãs-poranga indicadas pessoalmente por Kan e que seriam as Fráteres da irmandade geradora da nova etnia salvítica.  

As novas Evas eram - Fráter Lúcia, do Clã das Plêiades Sarônicas; Frater Júlia, do Clã das Plêiades Espórades; Fráter Helena, do Clã das Plêiades Jónicas e a Frater Morena, do Clã das Plêiades do Dodecaneso.

E foi desta forma que detentores de grandes fortunas de origem desconhecida e não sabida passaram ao credo contínuo do Templo das Pleiades Helênicas. Na noite do grande culto, eis que foram iniciadas de forma didática as práticas da doutrina do Oráculo do Amor.

Fráter Lúcia, do Clã das Plêiades Sarônicas; Frater Júlia, do Clã das Plêiades Espórades foram ao púlpito e pregaram suas experiências místicas:

Fraternos e Fráteres, agradecemos aqui a noite da revelação que experimentamos com os noviços do Templo, que mostraram com muita consistência o verdadeiro caminho que uma Fráter necessita cruzar para alcançar o Ponto Andrômeda, único e exclusivo em nosso corpo material, como memória filogênica do Patriarca Hamnam Kan. Nós agradecemos ao nosso marido e pastor neste plano terrestre, Epitácio Junqueira por estarmos orgulhosas desta dádiva celestial.

Aplausos... gritos... aplausos... assovios... gritos...

O locutor, em lágrimas, fala - Vamos continuar nossos trabalhos espiralizados em éter cósmico ouvindo a Fráter Helena, do Clã das Plêiades Jónicas e a Frater Morena, do Clã das Plêiades do Dodecaneso.

Fraternos e Fráteres, repassamos aqui nesta noite a grande experiência da revolução que engrandeceu-nos, com os noviços do Templo, que penetraram com muita apetência o sentido da lascívia que uma Fráter necessita saber para compreender o Ponto Órion, introduzindo em nosso corpo material, a memória filogênica do Patriarca Hamnam Kan. Nós agradecemos e muito ao nosso marido telúrico Epitácio Junqueira, que permitiu termos vivenciado esta dádiva cósmica.

Aplausos... gritos... aplausos... assovios... gritos...

Epitácio viria a falecer pouco tempo depois, falido, triste e sobretudo virgem de relações carnais. O Templo manteve a ostentação do Oráculo do Amor e a vida seguiu seu destino com casos e acasos...

É isto aí!


Você me ama?

Você me ama?

Olha, eu...

Fiz uma pergunta simples, direta, por que não responde simples e objetivamente?

Não. Eu não te amo. Não amo desta forma passional que deseja, quase doentia.

Você ama outra, não é?

Não! Não é.

Ela já se foi e você continua acreditando neste sentimento, como uma lenda pessoal.

Não tem nada disto.

Sabe o mais engraçado? Devem ter feito um rompimento prematuro, onde o amor que os unia não conseguiu consolidar a ruptura por algum motivo fútil, um orgulho débil.

Onde você quer chegar com isto?

Em você! Quero chegar em você, quero você em mim, inteiro e não comprometido com um passado morto.

Nenhum passado é morto, faz parte da memória e a memória faz o mosaico da vida. Você já me tem, o que mais quer?

Já tenho? Eu verdadeiramente tenho você?

Sim. Estou aqui e esta é a prova viva de que me tem.

Nunca tive você e sempre me deixei enganar pela sua presença física. Mas quero o que está aí dentro - meu Deus! Isto me destrói, queria entrar dentro do seu coração e fechar esta ferida aberta por outra que nem conheço, nem sei como é...

Será que é possível continuarmos as nossas vidas com a paz que nos pertence?

Não sei se ela é gorda ou magra, negra ou branca, se fala gritando, que rebola enquanto anda. Quer saber? Nem ao menos uma foto dela você tem - já revirei sua vida buscando esta mulher, mas ela não está aqui fora. (batendo no peito com os punhos cerrados) Sai daí, saí agora, larga o que é meu agora... (chorando)

Para com isto. Temos uma história bonita, de harmonia, prosperidade e respeito. Para de se comportar como uma colegial.

Talvez ela tenha seios grandes como você queria que eu tivesse. deve ser isto. Deve ter também coxas grossas, cheias de celulite e estrias na barriga até chegar ao joelho. Bunda caída, isto, e fuma também. Deve dar vexame quando bebe...

Basta! Não chegará a lugar nenhum desta forma.

Não vou parar (gritando)! Não tenho como competir com uma lenda (chorando)! Não tenho razões para te abandonar. Mas vou embora assim mesmo - chega! Não dá mais! Eu não sei amar sozinha...

Eu não sei mais o que dizer.

Então não diga. Guarde suas palavras para o dia que nunca virá e neste dia há de perceber que ela nunca seria a razão e o único motivo da sua felicidade. Adeus... vou para nunca mais voltar.

(silêncio tenso)

E se eu partir e você a encontrar? Te perderei para sempre, não é? Se ficar, ela ficará atormentada. Quer saber? Eu não vou mais. Que aquela vaca se exploda. Não vou mesmo. Me dá um abraço?!

(silêncio contemplativo)

Fala a verdade... você me ama?

(silêncio)

É isto aí!


sexta-feira, 20 de junho de 2014

O que lhe custa me ter?



Marinalva e Mariana eram irmãs inseparáveis, apesar da diferença de cinco anos entre elas. Marinalva, mais nova, casou aos quatorze anos e logo engravidou de uma menina, Virginia, e a tia, Mariana, foi madrinha.

Alguns meses depois, ao leito de morte, a mãe das duas fez Marinalva prometer que entregaria sua filha, Virgínia, à clausura para que Mariana conseguisse um bom casamento.

Três anos depois Mariana fugiu da cidade com o anão do circo mambembe que passara no vilarejo. Neste mesmo ano nascia a segunda filha de Marinalva, Marina. Como havia feito uma promessa à mãe que não se cumprira, procurou o padre da cidade, que imediatamente transferiu as suas filhas - Marina seria enclausurada aos quinze anos para garantir um casamento de excelência à Virginia.

Deu-se que Virginia foi tratada com mimos e graciosidades, enquanto Marina recebeu o tratamento das prendas domésticas, da cozinha ao corte e costura, passando pela lavagem de roupa e limpeza geral. Cresceram como duas princesas bem educadas dentro de um sistema de castas.  

Anos depois, deus-se que Orlando Tavarez, um frequentador assíduo do bordel local, cantor e dançarino de tango e bolero, tirado a galã portenho, com seu tipo branquelo longilíneo, de pernas longas e arqueadas, fumante compulsivo, voz grave e rouca, vestindo sempre um terno de linho de risca de giz enamorou-se da prometida ao convento - Virgínia.. Deu-se que num dia de outono cruzou um olhar de desejo com a moça aos seus dóceis quatorze anos, quando ela atravessava a avenida em direção à Igreja.

Seguiu-a, abordou-a no interior do templo e com sua sedução em nível profissional, transbordou o coraçãozinho ingênuo da moça de fé, esperança e amor. Encontraram-se mais de uma dezena de vezes no mesmo local. A mãe passou a desconfiar do inesperado movimento de fé da filha, e foi atrás para descobrir que sua família estava praticamente caindo em desgraça, com a graciosa pérola entregue a um mau caráter desprovido de emoção e principalmente de dinheiro e futuro.

Naquela noite, após explicar ao marido que passaria a noite com uma parturiente do circulo bíblico, partiu para o bordel, onde, exuberante, arrancou o desejo de Orlando Tavarez. Dançaram, roçaram, alisaram, gemeram, e em momento caliente, sussurrou-lhe ao ouvido - Marinalva , o que lhe custa me ter? Afastar-se da minha filha é meu preço, Orlando Tavarez ...

Assim, mais uma vez Marianalva salvou a reputação da família toda, da irmã, das filhas e o pagamento da promessa à mãe que subiu aos céus. Manteve por algum tempo o romance com Orlando. Virgínia casou-se com Epaminondas Marcos Felício, um próspero novo-rico da cidade, Marina mudou-se para São Paulo e a tia Mariana, cansada da vida mambembe, acabou num Convento, depois de provar das experiências de mais um anão de outro circo que a abrigava.

É isto aí!


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Carminha na Copa

Abrem as cortinas e começa o espetáculo. Armando avança pela lateral, sobe sem pressa, a esquerda está livre, avança sem contenção, passa pela ala, alcança o flanco, dribla, procura o gol, tem o montinho artilheiro na frente, mas prefere o ataque frontal e ... falta, falta ...

Calma, Carminha.

Ah, vai Armandinho, bate logo, o campo já está todo alagado, a bola está pesada...

Olha só, Carminha, com você narrando não tem artilheiro que marca. É muito complicado.

Qual é, Armando? Entra no clima da Copa...

Copa, Carminha? Não podíamos ser iguais aos casais normais, na cama ... no quarto ...?

Caramba, você é muito conservador. Parece até a Inglaterra! O mesmo jogo desde 1950.

Ah, não... ah, não!!! Conservador não! Você sabe que por muitas vezes apresentei táticas diferenciadas  e várias delas fizeram sucesso.

Sim, é verdade, apresentou muitas táticas, mas sempre no começo do segundo tempo faltava técnica, talento e folego ...

Agora fiquei com raiva.

Isto, Armandinho, põe prá fora esta adrenalina e parte prá cima com seu potencial de destruição da zaga...

Para com isto, Carminha, vamos voltar ao tradicional...

Tradição é tudo, Armando, mas sem uma revolução no plantel, não sobe no podium, nem beija a taça.

Como assim? Revolução?

Não se faça de bobo, um doping discreto, azulzinho...

Nunca precisei e não faço uso, só jogo limpo. E com esplendor...

Armandinho, queridinho, lindinho, amorzinho, não quero saber de esplendor, quero bolas na trave por noventa minutos e o artilheiro entrando sem humildade no gol, meu bem, e o jogo é meu, o campo é meu, a rede é minha e aceito doping, querido, ninguém vai saber...

Jura?

Juro. Agora faz que nem bandeirinha e levanta logo o mastro da bandeira e vem prá banheira, que não estou impedida...

Puxa vida, Carminha, você sabe tudo de futebol...

Tudo e mais um pouco, meu bem... tudo e mais um pouco...

É isto aí!



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Laurinha, a lenda da paixão








Albertinho conheceu Laurinha na escola aos treze anos. Foi amor à primeira vista, daqueles que destroem a adolescência e se arrastam para a vida. Laurinha era a mais bonita das mais bonitas meninas da escola. Tinha tudo que uma moça precisa ter para ser apaixonante e ele apaixonadíssimo. 








Tudo era mágico e encantador. Carregava sua mochila, fazia seus deveres e trabalhos, trocava as provas e em troca ela deixava que ficasse próximo dela na fila de entrada das aulas.









Albertinho, aos quinze anos, fazia parte do pequeno grupo dos melhores amigos de Laurinha. Festas, bailes, baladas, bebedeiras, passeios no parque, viagens com a turma, praia, montanha, cinema, shows imperdíveis, etc. e tal. Laurinha estava lindíssima, corpo se formando em graça e harmonia.









As dezessete anos Laurinha enfrentou a disputa por uma vaga universitária, acompanhada de Albertinho, seu escudeiro, confessor, ombro amigo, e cúmplice nas coisas boas e doidas da juventude. Naquele tempo Laurinha enamorou-se de Cacaso, rompendo assim uma amizade que juraram nunca terminar. Em função disto, Albertinho tomou outro rumo, outra cidade, outro curso e outros sonhos.









Oito anos depois, na fila de entrada do "The Eugene O'Neill Theater", no coração de New York, encontram-se para surpresa e felicidade, ainda que contida. Estavam solitários em busca de um encontro consigo. Depois do espetáculo, saíram conversando, jantaram juntos e despediram jurando um encontro na manhã seguinte, que não ocorreu, dado a ausência de Laurinha no local marcado.









Aos trinta e dois anos encontraram-se no velório do pai dela, numa estranha coincidência de estarem na cidade na mesma época, quando um infarto fulminante e inesperado levou o progenitor da amada. Trocaram olhares, afagos, abraços e não teve como não notar que estava casada. Albertinho sentiu-se mortalmente ferido. Chorou convulsivamente no enterro e trancou-se na casa dos pais até o dia da partida.









Aos quarenta anos, Albertinho já havia perdido todas as esperanças, era um homem rico, realizado, triste e solitário. Laurinha fora o seu único e grande amor platônico. Vivia apenas para o trabalho, sem amigos e sem vida social, sempre discreto e contido. Um dia recebe um pedido de amizade no Facebook - era Laurinha dando sinal de vida e levantando a bandeira da paz.









Laurinha estava divorciada, perdera tudo, desde o patrimônio construído até a autoestima. Mas Albertinho viu ali a oportunidade de reconquistar a amizade e quem sabe, conquistar seu coração. Trouxe-a para dentro da sua casa, e imediatamente deu-lhe uma suite ampla, um carro do ano, cartão de crédito e conforto.









Naquela noite, em uma provocante lingerie, Laurinha caminhou exuberante aos aposentos de Albertinho. Ao abrir a porta, deparou com seu objeto de desejo sentado confortavelmente em uma poltrona imensa, com um pijama de seda verde fluorescente sob um roupão escarlate de veludo 100% algodão com gola xale e aplicação de
renda guipure.









Mas o que é isto, Albertinho? 




- Laurinha, eu sempre desejei me vestir igual a você, ter um corpo igual ao seu e um cabelo igual ao seu...









E foram felizes para sempre!









É isto aí!














  



Laurinha, a lenda da paixão


Albertinho conheceu Laurinha na escola aos treze anos. Foi amor à primeira vista, daqueles que destroem a adolescência e se arrastam para a vida. Laurinha era a mais bonita das mais bonitas meninas da escola. Tinha tudo que uma moça precisa ter para ser apaixonante e ele apaixonadíssimo. 

Tudo era mágico e encantador. Carregava sua mochila, fazia seus deveres e trabalhos, trocava as provas e em troca ela deixava que ficasse próximo dela na fila de entrada das aulas.

Albertinho, aos quinze anos, fazia parte do pequeno grupo dos melhores amigos de Laurinha. Festas, bailes, baladas, bebedeiras, passeios no parque, viagens com a turma, praia, montanha, cinema, shows imperdíveis, etc. e tal. Laurinha estava lindíssima, corpo se formando em graça e harmonia.

As dezessete anos Laurinha enfrentou a disputa por uma vaga universitária, acompanhada de Albertinho, seu escudeiro, confessor, ombro amigo, e cúmplice nas coisas boas e doidas da juventude. Naquele tempo Laurinha enamorou-se de Cacaso, rompendo assim uma amizade que juraram nunca terminar. Em função disto, Albertinho tomou outro rumo, outra cidade, outro curso e outros sonhos.

Oito anos depois, na fila de entrada do "The Eugene O'Neill Theater", no coração de New York, encontram-se para surpresa e felicidade, ainda que contida. Estavam solitários em busca de um encontro consigo. Depois do espetáculo, saíram conversando, jantaram juntos e despediram jurando um encontro na manhã seguinte, que não ocorreu, dado a ausência de Laurinha no local marcado.

Aos trinta e dois anos encontraram-se no velório do pai dela, numa estranha coincidência de estarem na cidade na mesma época, quando um infarto fulminante e inesperado levou o progenitor da amada. Trocaram olhares, afagos, abraços e não teve como não notar que estava casada. Albertinho sentiu-se mortalmente ferido. Chorou convulsivamente no enterro e trancou-se na casa dos pais até o dia da partida.

Aos quarenta anos, Albertinho já havia perdido todas as esperanças, era um homem rico, realizado, triste e solitário. Laurinha fora o seu único e grande amor platônico. Vivia apenas para o trabalho, sem amigos e sem vida social, sempre discreto e contido. Um dia recebe um pedido de amizade no Facebook - era Laurinha dando sinal de vida e levantando a bandeira da paz.

Laurinha estava divorciada, perdera tudo, desde o patrimônio construído até a autoestima. Mas Albertinho viu ali a oportunidade de reconquistar a amizade e quem sabe, conquistar seu coração. Trouxe-a para dentro da sua casa, e imediatamente deu-lhe uma suite ampla, um carro do ano, cartão de crédito e conforto.

Naquela noite, em uma provocante lingerie, Laurinha caminhou exuberante aos aposentos de Albertinho. Ao abrir a porta, deparou com seu objeto de desejo sentado confortavelmente em uma poltrona imensa, com um pijama de seda verde fluorescente sob um roupão escarlate de veludo 100% algodão com gola xale e aplicação de renda guipure.

Mas o que é isto, Albertinho? 
- Laurinha, eu sempre desejei me vestir igual a você, ter um corpo igual ao seu e um cabelo igual ao seu...

E foram felizes para sempre!

É isto aí!


  

Ao Amor Antigo




http://500px.com/photo/1778766/junge-liebe-alte-liebe-(young-love-old-love)-by-susanne-g%C3%BCttler





Autor: Carlos Drummond de Andrade: 


Poema: Ao Amor Antigo 


Fonte: http://pensador.uol.com.br/frase/MTcwOTI/





Ao Amor Antigo


O amor antigo vive de si mesmo,


não de cultivo alheio ou de presença.


Nada exige nem pede. Nada espera,


mas do destino vão nega a sentença.





O amor antigo tem raízes fundas,


feitas de sofrimento e de beleza.


Por aquelas mergulha no infinito,


e por estas suplanta a natureza.





Se em toda parte o tempo desmorona


aquilo que foi grande e deslumbrante,


a antigo amor, porém, nunca fenece


e a cada dia surge mais amante.





Mais ardente, mas pobre de esperança.


Mais triste? Não. Ele venceu a dor,


e resplandece no seu canto obscuro,


tanto mais velho quanto mais amor.

Ao Amor Antigo

http://500px.com/photo/1778766/junge-liebe-alte-liebe-(young-love-old-love)-by-susanne-g%C3%BCttler

Autor: Carlos Drummond de Andrade: 
Poema: Ao Amor Antigo 
Fonte: http://pensador.uol.com.br/frase/MTcwOTI/

Ao Amor Antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Um conto da Luz


Acordei cansado, com aquela sensação de uma noitada intensa, apesar do frio e da solidão do quarto. Levantei com dores espalhadas em músculos até então discretos e solidários. No criado mudo um bilhete em papel amarelo, com grafia Voynich, em tinta verde escuro.

Confuso, caminhei até o banheiro, todo molhado, duas toalhas no chão, a banheira ainda cheia e uma necessaire na bancada, com aquelas dezenas de utilidades femininas.

Após o banho, mente vazia, caminhei ao closet, e tudo estava estranho, as roupas eram minhas, e apesar de saber que estava em casa, estavam rigorosamente arrumadas.

Na cozinha uma garrafa vazia de um legítimo pinot noir da Borgonha, ao lado de duas taças de cristal que desconheço a origem. Fiz um expresso duplo, que bebi devagar, sem açúcar, tentando lembrar de algo referente ao que via. Nada... nem sequer uma réstia de lembrança.

Na sala havia uma foto, como um desenho, em tons lilás, e eu com minha favorita camisa azul. Não vejo rostos, estamos nos beijando e atrás há um facho de luz intenso. A princípio achei que era uma fonte, mas minha memória fez referência a este processo luminoso. 

Saí aturdido, entrei no elevador, alcancei o hall, onde seu Joãozinho estava sentado como sempre ficou, olhei para o relógio da portaria, que marcava sete e quinze da manhã. Procurei a chave do carro no bolso, e não a encontrei. Voltei ao apartamento. A porta não abria. Conferi o andar e o número. Voltei ao hall, e havia uma pessoa diferente na recepção.

Fui para a rua e percebi que estava em um local incerto e não sabido. Não reconheci o ambiente externo e em desespero, ao ver que uma moça passava ao meu lado, segurei-lhe firmemente pelo braço, olhou assustada para mim e gritou. Vieram dois policiais e imediatamente me prenderam. Na delegacia ninguém acreditou ou entendeu a minha história.

Não tinha documentos, os endereços e telefones que forneci não existiam, as pessoas que indiquei eram desconhecidas e meu endereço residencial não era meu.  O delegado olhava com aquele jeito duro que os policiais olham as pessoas - queria entender o que passava. Eu não havia cometido nenhum crime, mas a minha versão era no mínimo estranha.

Um moça educada e simpática encaminhou-me para uma sala de conforto espartano, onde acabei cochilando. Mergulhei numa cascata de luz e acordei novamente em casa. Desta vez ela estava presente, linda, perfumada. Não sei se morri ou viajei em um deslocamento espaço-temporal, mas não estou muito preocupado com isto agora.

É isto aí!


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Carminha discutindo a ciranda da relação

Então, Carminha, o que de fato ocorreu?

- Como assim, de fato, Armando?

Responde com uma pergunta por não ter respostas?

- Ter respostas?

Mantém o instinto de preservação da sua versão, mantendo questionamentos nas respostas.

- Ando contemplativa, sei lá, estou misteriosa demais comigo mesma.

Sinistro isto daí!

- Não, tem nada de sinistro, Armando, eu explico ou não explico, não sei.

Carminha, você está saindo do foco da questão.

- Foco? Um ponto para onde convergem os raios luminosos? Não existe isto.

O que não existe, Carminha?

- Como eu, uma pessoa iluminada, sem modéstia, gostosa e sedutora, abandono o foco?

Entendo, mas agora diga o que de fato ocorreu.

- Não vai mais perguntar? Será imperativo agora?

Não! Não vou mais perguntar. Quero a verdade.

- Quero isto, quero aquilo, quem você pensa que sou?

Vai falar ou terei que buscar as respostas em outra fonte?

- Ah! Voltaram as indagações... então tem dúvidas...não confia mais em mim.

Eu não tenho dúvidas. Eu não sei o que você fez, mas quero ouvir de você por que está estranha!

- Nervosinho, hem... demorou!!!

Não estou nervosinho, nem doido, há algo, mas não sei o que é....

- Humm, então está atento aos meus mínimos erros, como suspeitei.

Do que você suspeitou, Carminha?

- Não falo...

Fala Carminha, pelo amor de Deus, fala o que sabe...

- Não falo!!

Olha, vou dar uma volta, refrescar as ideias e na volta você fala?

- Pode ser...

Carminha, eu te amo, e quando eu voltar não poderá existir segredos entre nós...

- Sim, amor, claro... -  Alô? Beto??? Ele saiu para espairecer. Não se preocupe, amor, ele não sabe de nada entre nós...

Então, Carminha, o que de fato ocorreu?

- Como assim, de fato, Beto?

Responde com uma pergunta por não ter respostas?

- Ter respostas?

Está bom, então, Carminha...

- Como assim, que bom? Você está com alguém aí, Beto? Beto??Fala a verdade, Beto, quero a verdade...

Que isto, amor, estou sozinho...


É isto aí!

domingo, 15 de junho de 2014

Mia Couto - Prostituição auditiva

Alto lá, este texto não é meu!
Copiei e colei:
Autor - Mia Couto
Conto - Prostituição auditiva
(in Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Caminho)
Fonte - http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/271016.html


O português gostava era de ouvir as pronúncias dela. Pagava notas só para a ficar escutando a noite inteira. Mariana não tinha que fazer mais nada: só divagar, devagar, sem sexo nem nexo. O tuga, mili­tar até aos botões, só queria que a prostituta falas­se.

—  Mas falar o quê?

A primeira noite ainda a moça perguntou. Depois, entendeu que ele gostava era de nenhumices, simples perfume de sílabas. O homem estaria ali por livre e não espontânea vontade? Enfins, coisa de branco.

—   Vocês, as pretas, não são como as nossas mu­lheres.

—  Como não somos?

—  Vocês falam com o sangue.

Mariana ainda insistiu namoriscar, remexendo as carnes, toda ela oferecível. Mas ele nada. Ficava quieto, só os olhos desembarcavam no corpo dela. A prostituta até se ofendia com aquela inactuância do macho. Seria porque ela não apresentava tatuagens, como os homens de sua raça requeriam? Mulher sem riscos na flor da pele é mulher escorregadiça. Esse é o mandamento da tradição. Mas parece não era.

—   É escusado, Mariana, Eu não toco em preta. Fui educado assim.

—   Ao menos, me espalhe um creme, mezungo.

—   Um creme?

—   É que nós, pretas, secamos mais que lagartos. É nossa raça, assim. Me esfregue um creme, me faça um favor.

Mas ele recusava, nem pele nem óleo. Alergia a gorduras, justificava já em antecipado arrepio. Ela, então, a si mesma se besuntava. Demorava os finos dedos nas intimidades, escorria sensualidade pelas reentrâncias. Depois, já bem bem abrilhantinada, ela se rebolinava à frente do militar lusitano.

— Ainda você não me quer?

Negativo. Mariana, já sem fogo, deitava em esteira e palavreava sem fim. No colchão rasteiro, o portuga adormecia. Ela ainda ficava falando por um tempo, até se certificar de que ele descera às fundezas.

Horas depois, ele se apressava a sair. Pagava os variáveis honorários. Ela armafanhava os dinheiros no soutien. Já sabia o seguinte: antes de sair, o branco lhe pedia para cheirar as notas, tomava-as como se fossem delicadas flores e nelas aspirava fundamente o cheiro do suor dela. Depois, tocava as notas e di­zia:

— Eu transpiro para as ter, tu tem-las transpira­das.

Ela sorria, sem entender o repuxado português, quem sabe era uma simples lusofolia. Ao despedir-se, a mulher sempre insistia em lhe perguntar o nome, apelido de sua existência. Mas ele suavemente se desleixava: nunca, nem jamais.

— Meu nome? Não interessa, não te interessa.
Ele não queria, não podia, não devia. Branco que frequenta as negras não leva sobrenome. É um sol­dado, ponto final. E colocando um dedo ríspido so­bre os lábios de Mariana chegou mesmo a ameaçar: que nunca mais ela se atrevesse a querer saber da identidade dele.

Até que certa noite a prostituta se apresentou afónica, enguiçada nas cordas.

—  Hoje não tenho palavra para lhe dar, soldado.

Foi murmúrio único. Ele se sentou. Sentiu, ante­cipada, a carência da voz dela. Nunca concebeu que a falta desse reconforto lhe viesse a doer tanto. Olhou para Mariana, estranhando. Canoa se inventou antes do rio? O militar se aprontou em serviço de cozinha. Instantaneou um chá, desses curadouros de gargan­tas. Mariana se consolou mais com o gesto dele que com o remédio. Rodou a chávena de alumínio en­quanto olhava para nada:

-  É que bateram em Helena. Mataram ela!

—  Quem é essa, a Helena?

—  Era uma outra... colega.

Ela dobrou as costas, chorando. O militar se sen­tou por trás dela e lhe falou. Com voz de mar, suas palavras eram vagas que nunca encontravam praia. E contou-lhe da sua tristeza. Sim, ele também sabia o que era ver morrer um colega. E se perguntava, tal como ela:

-  Que faço eu no meio disto tudo? Esta guerra, de quem é esta guerra?

A prostituta deu por ele limpando o rosto na man­ga. Uma furtiva tristeza, véspera de lágrima? Entendeu tocar-lhe o cabelo, esse cabelo fino que faz com que os brancos aparentem bonecos de brincar. Mas já o português pegava a caixinha do creme.

—  Deixa, eu te esfrego, Mariana.

Ela sobrancelhou uma surpresa. Ele aceitava tocar-Ihe?! Voltou a sentar, oferecendo as costas. A mão dele sonhou, divagante e devagarosa. Os dedos re­cheados de óleo pareciam chuva escorrendo sobre água. Mariana sentia o aconchego dele.

E eles, muito ambos, aconteceram-se. O soldado escutou, pela primeira vez, o sotaque do corpo dela. O mundo a perder de vistas, o rio perdendo as mar­gens. No final, bem no fim de tudo, ele se estendeu na esteira e, olhando para além do tecto, disse:

—  Sou Raimundo, o major Raimundo!



Odete, a moça da elite do Planalto e o R47

Odete, como se sabe, não se dá com as verborragias da endinheirada elite bandeirante. Conta a lenda que, de certa feita, foi testemunha de um episódio às margens do Ipiranga, onde um famoso cardeal de plumagem azul da política local deu a falar compulsivamente sobre buracos, desvios e pobres, no discurso que ficou conhecido como o Blefe do Metrô. Neste dia ela entendeu que o buraco do Metrô paulista é mais embaixo.

Bem, meu imortal Nokia 2128i monocromático tocou e era Odete, a moça da elite do Planalto. Sua voz macia, envolvente e sedutora, inconfundível, foi logo enebriando meus mais íntimos desejos oníricos.

Olá querido... (sussurrando)

- Olá Odete, puxa vida, quanto tempo.

- Pois é, tanto tempo, me lembra o Paulinho da Viola...

- É mesmo. Sinal fechado, clássico, assim como você, uma moça clássica de Brasília.

- Então, amor, tenho tantas coisas para te dizer.

- Então diga, Odete, sou todo ouvidos para você.

- Uau, que romântico. Bem, o fato é que minha prima Creuzinha contou-me que soube por Flavinha, amante de Nestor, que ouviu de Telinha, esposa de Jajá, que escutou da sua namorada Mariinha, que captou em uma conversa entre o marido e seu sócio em uma empresa que presta altos serviços às plumagens bandeirantes, que o episódio de euforia que a massa cheirosa pensou traduzir em um estado de completa, artificial e patológica satisfação e felicidade no estádio do Itaquerão, não passou de um sintoma de transtorno mental coletivo com uma fala ininterrupta onde as palavras foram ministradas seguindo uma lógica subjetiva durante um surto psicótico.

- Mas quer dizer então...

- Quer dizer que a massa cheirosa está diagnosticada com R47, que no CID 10 refere-se aos transtornos da fala e comunicação.

- Meu Deus do céu, Odete, que horror...

- E olha que ainda vão querer tratar no SUS... falando nisto, em SUS, sei lá, você todo ouvidos, vem prá Brasília que eu quero ser sua otorrino...

- Caramba, isto sim é que é convite...

- Então vem, vem mesmo, que vai ouvir coisas que farão nunca mais querer sair daqui...

- Nossa, Odete... alô... alô... Odete... esta minha audição cada vez mais fraca....

É isto aí!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

E a Copa chegou


Bem, o assunto é Copa do Mundo, porque seria inevitável recusar o tema. Aconteceu o esperado, e o Brasil vendeu a Croácia por 3X1. Aí os analistas deitaram a falação em um erro do juiz, que marcou um penalti em cima do Fred, forçado no melhor estilo Fred.





Erros acontecem no futebol de todas as formas e um erro deste em um clima hostil por parte da imprensa hostil não será perdoado. Li e ouvi comentaristas remunerados na casa dos seis dígitos deitarem falação. Um deles, tirado a intelectual, com formação universitária na elite do ensino bandeirante, bateu pesado. Logo ele, que se diz o baluarte da integridade e que em recente recepção da presidente foi indelicado ao extremo, em uma pergunta idiota, desqualificada e má.



Teve no decorrer do espetáculo de hoje o xingamento à presidente, vindo da Ala Vip, conforme denuncia do site da maior e mais poderosa rede de mídia do país - bem, isto também foi comentado pelos senhores da razão perpétua, como uma vingança pessoal, e não como um ponto negativo. 





Lembro de uma crônica lida a poucos anos, apaixonante, em defesa do infrator, quando o time querido pelo padrão platinado teve um penalti safado, provocado pelo El Gordo, que tirou o título nacional do Cruzeiro, em nome da boa intenção e dos interesses maiores da nação fiel.





Ah, ia esquecendo - os argentinos também deitaram falação... logo eles que ganharam a Copa de 78 e a de 86 com  a lisura de um cleptomaníaco em surto.





Bem, o texto acima ficou ruim, chato, mas precisava documentar isto.





É isto aí!

E a Copa chegou

Bem, o assunto é Copa do Mundo, porque seria inevitável recusar o tema. Aconteceu o esperado, e o Brasil vendeu a Croácia por 3X1. Aí os analistas deitaram a falação em um erro do juiz, que marcou um penalti em cima do Fred, forçado no melhor estilo Fred.

Erros acontecem no futebol de todas as formas e um erro deste em um clima hostil por parte da imprensa hostil não será perdoado. Li e ouvi comentaristas remunerados na casa dos seis dígitos deitarem falação. Um deles, tirado a intelectual, com formação universitária na elite do ensino bandeirante, bateu pesado. Logo ele, que se diz o baluarte da integridade e que em recente recepção da presidente foi indelicado ao extremo, em uma pergunta idiota, desqualificada e má.

Teve no decorrer do espetáculo de hoje o xingamento à presidente, vindo da Ala Vip, conforme denuncia do site da maior e mais poderosa rede de mídia do país - bem, isto também foi comentado pelos senhores da razão perpétua, como uma vingança pessoal, e não como um ponto negativo. 

Lembro de uma crônica lida a poucos anos, apaixonante, em defesa do infrator, quando o time querido pelo padrão platinado teve um penalti safado, provocado pelo El Gordo, que tirou o título nacional do Cruzeiro, em nome da boa intenção e dos interesses maiores da nação fiel.

Ah, ia esquecendo - os argentinos também deitaram falação... logo eles que ganharam a Copa de 78 e a de 86 com  a lisura de um cleptomaníaco em surto.

Bem, o texto acima ficou ruim, chato, mas precisava documentar isto.

É isto aí!

terça-feira, 10 de junho de 2014

O golfinho



Quando eu penso que o presente está corrompido, leio no site do Yahoo a notícia de que a NASA financiou um projeto onde uma mulher fazia sexo com um golfinho, para análise de comportamento, aulas de inglês e comunicação com extra-terrestres.

O fato ocorreu em 1963/1964, segundo revelações da cientista envolvida no experimento. O golfinho não fez nenhum pronunciamento (ainda).

Se quiser ler a reportagem logo, ela está aqui, e o vídeo documentário atual, por favor - nada de zoofilia na rede,  onde a mulher relata a experiência está aqui.

Também chamou minha atenção - sim, prezados leitores, não bastou o relacionamento passional técnico-científico para comprometer minha humanidade, continuando - foi o comentário que você poderá ler na íntegra logo abaixo da sinopse do documentário da BBC, indicado acima, no segundo "aqui". É de uma cientista elogiando e desejando ter feito parte ativa do projeto.

É isto aí!

domingo, 8 de junho de 2014

Esquinas e contra-esquinas.

http://napiwhistler.cafeblog.hu/2014/02/ 

Souza era o poeta parnasiano da vila. Suspirava entre vielas e colunas pela amada distante, recitando Olavo Bilac em torrentes de paixão - mal a via e declamava:

"Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh´alma se consome De te exaltar aos olhos do universo..."

Stella era bonita, muito bonita, na realidade era linda. Nasceu e cresceu numa simplicidade espartana, tinha ares de nobreza e olhos de humildade, como dizia o Souza. Passava nas estreitas ruas arrancando sorrisos fáceis de toda a vizinhança - gente, tão linda e tão educada, que coisa, dizia o Souza.

Souza também dizia que o modo de Stella caminhar, ou estar parada em pé, indicava muito sobre a sua educação, além das dicas que fornecia para o conhecimento da sua personalidade e do seu estado de ânimo. Tinha uma postura natural e sem afetação, traduzindo sempre atenção e consideração às pessoas com quem interagia socialmente.

Foi Souza que sacou que Stella caminhava com o corpo disposto na sua posição natural de caminhar, a cabeça levemente inclinada para a frente, com o olhar posto alguns metros adiante, evitando tropeços e esbarros em pessoas e objetos e oscilava minimamente os quadris, sem as contorções do rebolado.

Certa vez Souza falou sobre o olhar de Stella. Dizia que ela, ao olhar à sua direita ou à sua esquerda, distribuía o giro progressivamente valendo-se em primeiro lugar do movimento dos próprios olhos. E ainda segundo Souza, dado o grande poder estético que tinha o modo de olhar de Stella, este movimento não era muito acentuado. 

Observe, dizia Souza, observe Stella em pé. Enquanto conversa, não se põe a balançar o corpo, para frente e para trás, nem apóia o corpo em apenas uma perna e estende a outra displicentemente para frente com o risco de fazer alguém tropeçar na ponta do seu pé. 

Após minuciosa análise, Souza descobriu como os músculos do rosto de Stella se contraiam suavemente para sinalizar sentimentos e significados. A sua expressão facial era suave e sempre ornada com um sorriso sincero.  

Stella nunca soube sequer da existência de Souza. 

É isto aí!


O velho estilo golpista nunca foi embora.






Inimigo político de Getúlio Vargas, Carlos Lacerda foi o
grande coordenador da oposição à campanha de Getúlio à presidência em 1950 e
durante todo o mandato constitucional do presidente, até agosto de 1954. 





Uniu-se a militares golpistas e aos partidos oposicionistas - principalmente a
UDN, num esforço conjunto para derrubar o presidente Vargas através de
acusações que publicava em seu jornal, Tribuna da Imprensa.





Lacerda participou ainda de nova tentativa de golpe de
estado em 1955, quando se uniu aos militares e à direita udenista para impedir
a eleição e a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e seu
vice-presidente, João Goulart.





As manobras golpistas começaram já no período eleitoral,
quando ocorreu o episódio da Carta Brandi, uma notícia supostamente falsa
plantada pelos opositores no jornal de Lacerda que envolvia João Goulart num
pretenso contrabando de armas da Argentina para o Brasil.





Após a eleição de Juscelino, Carlos Luz, presidente interino
à época, aliado aos militares e a Carlos Lacerda, tramaram um novo golpe. A
bordo do Cruzador Tamandaré, fizeram a resistência, mas foi alvejado (o navio)
a tiros pela artilharia do exército a mando do General Teixeira Lott, que tinha
pretensões de se candidatar à presidência. Foi o último tiro de guerra
disparado na Baía da Guanabara no Rio de Janeiro. Durante anos, o episódio
ficou conhecido como o golpe de Lott.





Em 1961 fez um discurso atacando, pela televisão, o
presidente Jânio Quadros, antigo aliado. A renúncia de Jânio ocorreu em
seguida, em 25 de agosto.





Foi um dos líderes civis do golpe militar de 1964, porém
voltou-se contra ele em 1966, com a prorrogação do mandato do presidente
Castelo Branco. Segundo Lacerda, a prorrogação do mandato de Castelo Branco
levaria à consolidação do governo revolucionário numa ditadura militar
permanente no Brasil, o que realmente aconteceu. Confiava no sucesso do governo
que tinha realizado no estado da Guanabara para enfrentar o candidato de
oposição Juscelino Kubitschek.





Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda