Minha memória entrou em franco decaimento. Eu ainda sabia o meu nome, reconhecia a casa e algumas pessoas, mas tudo vinha em flashes — saudades, angústias, pequenos esclarecimentos. Duas meninas me chamavam de pai, e uma moça que alegava ser minha esposa.
Lembro que cheguei à porta e alcancei a rua.
Agora estou aqui, numa rua feia, estranha, meio esquisita e desconhecida. Resolvi andar. Talvez encontrasse um rosto conhecido, uma loja, uma esquina.
Parei à porta de uma igreja e entrei. Ao lado do altar, seis anjos cantavam uma melodia belíssima. Havia também um na harpa, muito bom de serviço. Fiquei ali até dormir no banco.
Acordei na noite avançada. Tudo escuro, poucas coisas visíveis. Havia muitos murmúrios; parecia oração, bem ritmada. Vi uma luz ao longe e fui atrás dela.
Andei até o amanhecer, quando a luz desapareceu. Vi um rosto familiar — era minha mãe. Corri atrás dela. A danada desatou a correr de mim.
Arfando, entrei numa casa linda. Então uma das meninas correu, abraçou minhas pernas e gritou:
— Mãe, pode desligar o celular, ele voltou.
Veio a outra menina e a moça, que curiosamente estava mais velha. Choramos muito ali, abraçados.
Fui dormir.
Amanhã será outro dia.
Ou não.
É isto aí!