quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Gracinha


Lindomar Dito estava noivo de Gracinha desde a primavera passada. Fez as contas, preparou as papeladas de ofício e fugiu com Mariana, uma menina que conhecera numa tarde chuvosa e fria. Gracinha deu de ombros. No fundo, no fundo, sofreu muito, mas não poderia demonstrar fraqueza. Cidade pequena, povo ferino e outras coisas mais.

Gracinha enamorou-se de Augusto Lento, um professor da rede pública, envolvido com causas sociais. Um dia, Augusto fez o trivial: pediu a mão da moça em casamento e, enquanto corriam os proclames, deu de arrastar asa para Sofia Loira, uma enrolada mocinha nos vieses da malvada comunidade local.

Gracinha jurou vingança, mas logo, logo seu coração foi tomado pelo apaixonante sentimento recíproco por Ari Matéria, um bom moço de andar elegante, palavras ditas com eloquência, gosto fino e saber erudito. Como era de costume, entraram com os proclames e o tempo — ora, o tempo voa quando estamos desligados dele.

Gracinha entrou linda na igrejinha. E nada do moço refinado desistir, fugir ou desaparecer.

Aquilo foi dando um embrulho nas entranhas da moça, foi cegando seus quereres um a um; foi sentindo a igrejinha transformar-se numa catedral, de tão longe estava do fim aquele sofrimento. Correu até a rua, entrou na charrete de Caquinho Gomes e sumiu na poeira da estrada, enquanto a Banda Municipal tocava músicas de casamento no Coreto da Praça.

É isto aí!

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