Querida, o amor não acaba por decreto.
O amor não se acaba às três horas da manhã, num ato repentino de agressividade impulsiva, desproporcional à situação. Até o presente momento não sei quem seria a mulher. A única certeza que tenho é que não parecia você.
O amor não acaba quando os vizinhos chamam, com razão, a polícia. Eu ainda não tinha a menor ideia de quem seria a mulher, se é que existe uma explicação lógica sob seu frágil corpo. Nunca vi algo sequer parecido. É inenarrável.
O amor não acaba com eletrônicos destruídos, cortinas e moveis cortados e vidros pelo chão. Passou uma tempestade violenta por dentro do apartamento, atormentando todo o prédio.
O amor não acaba quando, num ataque de fúria com força desproporcional ao seu tamanho e peso, de posse de um objeto na mão avançou contra os representantes da segurança pública. O amor não tem como intervir num lance de segundos, para protegê-la e mostrar quanto você é frágil.
O amor não acaba na delegacia, pagando fiança de perturbação do silêncio. Não acaba ali. É apenas parte do processo. Neste momento, frente à autoridade, você lançou dois olhares para mim emblemáticos, um olhar de pedido de socorro e a mulher que desconheço, cortou-me os pensamentos com um olhar de ódio.
O amor não acaba no hospital para tratar dos seus ferimentos e sedar sua fúria. Nem na conversa com o psiquiatra e a psicóloga. Não acaba quando seus pais foram ao hospital, me abraçaram e pediram, com abraço forte e lágrimas nos olhos para eu continuar a minha vida.
O amor não acaba com você me expulsando da sua existência. Isto não faz sentido. Tentei conversar e negociar a paz entre nós, mas vez em quando a mulher olha para mim. Confesso que bate uma sensação ruim.
Eu amo você. Esta carta é para dizer que sinto uma profunda e perturbadora dor. Hoje eu não estou perdido, estou juntando os cacos para seguir adiante.

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