Depois de muitos anos, parti para as tão sonhadas férias. Eu precisava de um intervalo — um tempo suspenso para ouvir o que em mim pedia silêncio — e escolhi um resort no interior do estado, remoto, quase fora do mapa. Os dias acomodaram-se na calma até a terceira noite, quando o extraordinário irrompeu.
Estava eu a percorrer distraído o YouTube — política, esportes, trivialidades — quando tive a sensação de ser tragado pela tela. Não foi um puxão brusco; antes, uma aspiração suave, progressiva, como se a própria luz me convidasse a atravessar o vidro. Soltei o fone, fixei o brilho. O mundo conhecido rarefez.
Num instante, eu já estava do outro lado: um pequeno solarium, claro e silencioso. Olhei para trás. A sala apagava-se como fotografia antiga — móveis, sombras, tudo se dissolvendo até restar apenas o vazio.
Sentei-me numa poltrona confortável, diante de um jardim vasto, à espera de alguém que não chegava. O tempo passava — eu sabia —, mas perdera a medida de sua marcha. Então surgiu um homem de passos curtos, sandálias arrastando o chão, uma penca de chaves a tilintar no bolso da túnica.
Vestia linho azul-celeste, do ombro ao tornozelo, preso por um cinto. Quando ergueu a chave, seus olhos atravessaram os meus. Não foi um olhar: foi um mergulho. Senti escoarem, como poeira antiga, pesos, dores, angústias, mágoas, erros, mentiras. Um esvaziamento tão pleno que beirou o pânico — e, logo depois, um sossego profundo.
Despertei numa sala de conforto espartano. Ali estavam meus pais, dois irmãos e amigos muito próximos que já haviam partido. Abraçamo-nos em roda. Não houve palavras: seus pensamentos chegavam a mim como maré serena. Eu era luz — pura energia — navegando num mar de afetos. Chorei, sem pudor.
Dois homens altos entraram e, um de cada lado, conduziram-me a um grande salão. Havia centenas de recém-chegados como eu. No ponto mais alto, um palco; ao redor, um silêncio tão denso que parecia audível. Sentei-me. A poltrona moveu-se lentamente. Diante de mim, desenrolou-se o filme da minha vida. Tudo estava ali, sem cortes nem disfarces.
Então o chão faltou. Caí no vácuo, a velocidade crescendo até que os sentidos se apagaram. Acordei na manhã seguinte, na cama do hotel. Permaneci alguns instantes imóvel, como quem retorna de um lugar sem nome.
O quarto era o mesmo, o mundo também — mas algo em mim se havia tornado mais leve, quase transparente. Não procurei explicações. Havia viagens que não pedem destino nem relato; apenas permanecem, silenciosas, como um sopro que nos acompanha pelo resto do dia.
É isto aí!

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