quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A mulher do 301


Acordou cedo, como de costume. Sentou-se para ler o jornal no notebook e só então percebeu o silêncio estranho da mesa: o notebook não estava ali.

Levantou-se devagar, percorreu a estante, a mesa da sala de estar — que nunca fora usada —, abriu a porta da frente, espiou o corredor vazio, voltou. Pegou o interfone e ligou para a portaria.

— Ninguém desceu do seu apartamento esta manhã, doutor — informou a voz paciente.

Desligou com raiva.

Só podia ser aquela do 301… aquela mulher.

Voltou à mesa para iniciar o desjejum e, ao sentar-se, viu o notebook fechado ao lado da garrafa térmica, ainda morna, com café arábica sem açúcar, como mandava a tradição.

Tentou ler. As letras embaralhavam-se. Um suor frio lhe percorreu a testa.

— AVC… é isso… estou tendo um AVC…

O mundo girou lento, depois rápido, depois lento outra vez, até notar a ausência decisiva: faltavam os óculos.

Levantou-se tomado de fúria.

Só podia ser aquela maldita do 301.

Ligou novamente para a portaria.

— Aqui é o Dr. Almeida. Quero saber se alguém esteve no meu apartamento. O notebook mudou de lugar e o café está servido. Chame a polícia. É caso grave.

— Doutor, aqui é o Toninho… quem subiu hoje cedo foi a Dona Irene, como faz todos os dias. Deu uma arrumada enquanto o senhor descansava.

— Irene? Nunca ouvi falar nessa mulher. Deve ser sua cúmplice nesses furtos descarados.

Desligou bufando.

Foi ao banheiro para uma ducha fria. Ao entrar no box, percebeu que já estava nu. Parou, atônito.

— Mas… quando foi que tirei a roupa?

Viu as peças dobradas sobre a pia, ao lado da toalha ainda úmida. Passou a mão pelo queixo, desconfiado. Vestiu-se e, ao fechar os botões da camisa, sentiu o peso familiar no bolso: os óculos.

Saiu dali com os dentes cerrados.

Praga daquela desgraçada do 301.

Pegou novamente o interfone.

— Portaria.

— Toninho, tem alguém interceptando minha linha. Um sujeito se passa por você. Quero falar agora com o apartamento 301.

— Doutor… no 301 mora o senador. E ele está viajando.

— O senador… claro… mais um bandido metido nisso tudo… — murmurou, desligando sem se despedir.

Sentou-se na espreguiçadeira da varanda. Abriu com cuidado a caixa de charutos, serviu-se de um gole generoso de conhaque francês e acendeu o tabaco com solenidade.

Olhou o prédio da frente.

Pegou os binóculos.

E ali ficou, imóvel, acompanhando em silencioso deleite os gestos domésticos da mulher do 301 do edifício vizinho, que cruzava a sala, estendia roupas, ajeitava o cabelo diante do espelho.

Um sorriso lento, quase terno, desenhou-se em seu rosto.

Murmurou satisfeito:

— Minha vadia do 301…


Nota do autor: A mulher do 301 trabalha a angústia da solidão na velhice. Foi publicado aqui, pela primeira vez, numa sexta-feira, 20 de maio de 2016. Eu gosto muito desta crônica, e resolvi fazer uma revisão de atualização. Acredito que tenha ficado bom, com detalhes mais  focados na história de um homem revoltado com a solidão na sua velhice. Assim, refiz a crônica mais enxuta sem perder a proposta inicial. Espero que gostem!

É isto aí! 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gratidão!