Saiu pela porta dos fundos para não dar de cara com alguns cobradores. Isto tornou-se rotina quando, atendendo a um insistente pedido da sogra, assinou sua sentença de morte no sistema financeiro, avalizando o cunhado. Só se deu conta do rombo quando descobriu que o queridinho da família já havia levado todas as suas economias ao precipício.
Ao pressionar a sogra, obteve sempre a mesma resposta: de que não era a assinatura dela que constava nos avais. Até isto aprendeu — o plural de aval é avais, embora também se use avales e, mais raramente, avals. O importante é assinar, doando em vida todo o seu patrimônio ao estado de desgraça do próximo, agora blindado pela sua salvaguarda.
Levou dez anos para recuperar parte do que perdeu. E, depois desse tempo, pela primeira vez viajaram para uma praia badalada do Mediterrâneo, na Europa. Bebia um drink sem pressa quando viu o desaparecido cunhado passar com uma lindíssima mulher ao seu lado. Olhou para a esposa, deitada com o chapéu tampando o rosto; olhou para o irmão dela passando; olhou de novo para ela — e desabou a chorar.
A esposa se assustou com a cena, levantou-se e o abraçou sem entender nada. Foi se acalmando, até ficar quase normal. Não era raiva, não era ódio, não era nenhuma vontade de ato violento contra aquele homem. O que mais doía era a inveja que sentiu dele.
É isto aí!
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