segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O Estafeta da Memória I


— Sabe, senhor… senhor… como é mesmo seu nome?

— Eu não sou um nome, sou uma função, da qual muito me enobreço. Sou mais conhecido como o Estafeta da Memória.

— Uma função, não é? Uma função… Diga-me pelo menos quem o enviou.

— Ninguém me enviou. Foi o senhor mesmo que solicitou minha presença.

— Eu? Isto é algum pacto com o subsolo? Porque, se for, não fui eu quem encomendou as oferendas.

— É bem verdade que toda a situação que o fez chegar a este ponto foi interessante, mas não foi daí que fui enviado ao senhor. Eu sou parte da sua existência, a qual o senhor não pode tocar, nem alterar, nem subestimar.

— O senhor está de sacanagem comigo, só pode ser isto.

— Escute: você e mais dois outros do mesmo naipe estão imbuídos no processo de criação de uma Filosofia Única, que seria conhecida pela posteridade como o Pensamento de Deus. Ouvi dizer, nos ecos da memória, que a obsessão de vocês por esta tese chega — ou talvez se inicie, dependendo do ponto de referência — a unir Wittgenstein com Stephen Hawking, o Talmude com Sidarta Gautama, Confúcio com os patriarcas da crença ocidental, além de Carl Jung com Reich.

— Olha só, quem repassou essas fontes para o senhor deixou pelo menos uns sete de fora.

— Então você crê que o fato de unir vários conceitos filosóficos e física quântica faz desta compilação um Pensamento de Deus?

— Agora que o senhor clareou minhas ideias — deixa eu ver — Pensamento de Deus… É. Não vai dar certo. Existem os ateus, os não ateus, os teo-alguma-coisa, os tao… melhor achar outro nome. Já sei: A Chave da… a chave da… a chave… que saco. Chave lembra fechadura, fechadura lembra porta. Enfim, preciso canalizar tudo num só caminho. Caramba, é isto — O Caminho. Eureka! Eureka!

— Sairá correndo nu pelos becos e ruas estreitas de Alexandria, feito Arquimedes?

— Arquimedes? Quem é este sujeito na fila do pão? E esta Alexandria, é bonita, pelo menos? Como você sabe dessas coisas?

— Eu estava presente e era estafeta do rei de Siracusa, Hiero. Veja só você como é a vida. Hoje estou aqui, diante da sua medíocre sabedoria, tentando fazer o melhor de mim para que a humanidade siga sua peregrinação por este planeta.

— Dane-se. Agora já tenho o nome da maior descoberta de grandeza universal. Nada de teoria do caos, da relatividade, das cordas, do Big Bang, do criacionismo. Enfim, tudo será englobado — O Caminho não é apenas uma teoria: é A Teoria. Uau, já vejo o Nobel, o sucesso, o dinheiro, as mulheres, a fama, o poder, a inveja dos idiotas de sempre… enfim, serei muito, muito fodástico.

— Diga-me, ignóbil mestre, o que fará com toda esta sabedoria?

— Bem, uma vez achado o Caminho, vou traçar em linhas gerais o amplo conceito da Teoria de Pós-Tudo. Os pares irão babar de inveja da minha imortal teoria. Espere… estou começando a ficar estranho. Vejo um turbilhão de tempestades de ideias… isto, tempestades… mas não consigo guardar nenhuma palavra.

— O que o senhor está vendo? É importante falar. Fale agora.

— Então, no princípio havia… havia, humm… uma, ou será um? Fator de geração é ela e gerador é ele? Mas isto é na sexta dimensão; as pessoas só poderão vivenciar uma experiência vital em dimensões ímpares. Isto. No princípio havia tempestades em sete dimensões.

Não! Como haveria algo se nada foi criado? No princípio havia um silêncio absoluto. Isto — este é o Caminho. Mas aí Ukulelê, o rei das quatro cordas… mas o que é isto? Alô… alô… sintonizei uma ideia pirata e ridícula aqui. Mas o importante é a ideia do Caminho. Aguardem — serei rico, famoso e nem aí para a choldra.

E cessou a luz sobre meus olhos, e agora sigo rumo à inevitável morte com uma espessa escuridão sobre minha alma.

— Meirinho, que fique registrado no Livro dos Impropérios Avassaladores da Loucura que, neste caso, evitamos a hecatombe ritualística daqueles que, um dia, acreditarão ter encontrado um Caminho baseado nesta tese.

Mais uma coisa, Meirinho: registre em ata que, com o intuito de preservarmos as memórias do futuro, chegamos a tempo de comprovar mais uma vez o aforismo do Mestre Ibrahim:

Os cães ladram, mas a caravana passa.

Registre, por fim, que, por enquanto, a humanidade está salva.

O serviço está feito.


É isto aí!

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