Todo final de dia, ao anoitecer, a mãe contava contos de fadas para as crianças. Naquele dia, o pai tomava placidamente sua cerveja diante da TV ligada no futebol, sem volume, com o rádio no ouvido para não perder nada do jogo.
— Era uma vez uma linda menininha que morava com a mãe perto do bosque.
— Mamãe, o que é um bosque? — perguntou a filha de seis anos.
— Mãe, cadê eu nessa história? — reclamou o filho de dez.
— Silêncio! — ordenou o pai, na primeira cerveja.
— Chapeuzinho ganhou esse apelido por causa do casaquinho vermelho com capuz.
— Mamãe, o que é capuz?
— Isso é bullying — disse o filho.
— Silêncio — repetiu o pai.
— Um dia, a mãe preparou deliciosos docinhos para a vovó e os colocou numa cestinha.
— Amanhã você faz docinhos para mim? — pediu a filha.
— Essa menina vai ficar gorda — comentou o filho.
— Na trave… silêncio! — gritou o pai, já na segunda cerveja.
— A mãe disse: “Sim, querida, mas hoje preciso que você leve estes doces para a vovó. Não pare pelo caminho e não fale com estranhos”.
— Está bem, mamãe! Eu adoro a vovó!
— E pra mim não guardou nada? — resmungou o filho.
— Olha o silêncio — insistiu o pai.
— Ao penetrar no bosque, a menina encontrou um lobo.
— Onde vai, menina? — perguntou o lobo.
— Mamãe, estou com medo…
— Que menina boba, é só uma história — disse o filho.
— Ladrão! — esbravejou o pai, na terceira cerveja.
— Minha avozinha está doente — respondeu Chapeuzinho — e estou levando doces para ela.
— Coitada da sua avó — disse o lobo. — Leve também estas flores.
— Eu amo a vovó! — suspirou a filha.
O lobo correu até a casa da vovó. Imitou a voz da neta, entrou no quarto e engoliu a velha.
— Mamãe, estou com medo…
— Que conversa é essa de comer a vovó? — protestou o filho.
— Acaba logo esse jogo! — reclamou o pai.
Chapeuzinho chegou, viu a porta aberta e entrou. Encontrou o lobo na cama.
— Nossa, vovó, como você está estranha… olhos grandes, orelhas imensas, boca enorme…
— Será que ela não viu que era o lobo? — perguntou a filha.
— Essa Chapeuzinho é idiota — decretou o filho.
— Que pelada feia… — murmurou o pai, abrindo a quarta cerveja.
Chapeuzinho saiu correndo e encontrou um lenhador, que gostava muito da vovó. Ele foi até a casa, salvou a velha e expulsou o lobo.
— Viva! Bem feito para o lobo! — comemorou a filha.
— A vovó é muito boba — disse o filho.
— Mete o pau! — gritava o pai.
— Agora vamos dormir — disse a mãe. — Quem sabe sonharemos com a Chapeuzinho. Boa noite.
A filha sonhou que era Chapeuzinho, assustada.
O filho sonhou que namorava Chapeuzinho.
O pai dormiu no sofá e sonhou com o lobo fazendo gol.
A mãe foi deitar e sonhou ser uma Chapeuzinho adulta, esperando o lobo.
É isto aí!

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