— Boa tarde, senhora. O doutor está atrasado, numa cirurgia. Se desejar, posso remarcar.
Voltou-se para mim e deu o mesmo recado. Olhei para aquela mulher por quem, talvez, morreria, e decidi ficar. Não tive como evitar observá-la: pela beleza, pela elegância, pelo corpo. Encaminhou-se à recepcionista, sussurrou algo que só as mulheres são capazes de ouvir e interpretar. A atendente respondeu no mesmo tom.
Pela primeira vez a mulher fatal olhou-me. Foi com desdém, em completo desalinho com minha querência. Sentou-se na poltrona frontal, condenando-me à inevitabilidade de observá-la enquanto navegava no mundo virtual de seu enorme smartphone.
Voltei ao meu livro — Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley — e, enquanto traçava paralelos entre a ficção e a realidade nacional em tempo vigente, devorava-a mental e discretamente em pensamentos alternados, entre luxúrias e fetiches que me sugavam todos os hormônios.
Quase duas horas sentados, os três em silêncio tenso e tépido. Ela levantou-se, foi novamente à recepcionista; mais uma vez conversaram em código feminino de curto alcance. Desta vez o assunto exigia réplicas e tréplicas. Sem olhar para mim, partiu ao desconhecido em movimentos cadenciados, harmoniosos, felinos. O rastro de seu perfume transtornou minha paz.
A atendente desapareceu e ouvi um toque de celular insistente. Estava esquecido na poltrona da deusa. Aproximei-me e toquei-o com cuidado, como se fosse extensão de sua pele. Resolvi atender para informar a alguém que ela havia esquecido o aparelho.
Passados trinta dias, recobrei a consciência na UTI do Hospital Municipal. Lembro vagamente um homem, em fúria, entrar no consultório. As imagens iam e vinham em flashes. Quando dormia, via-o falar coisas ininteligíveis.
Recebi alta quarenta e cinco dias depois. Saí do hospital e a principal enfermidade não fora sequer avaliada. Eu havia sido contaminado pela violência. Aquele homem que batera em mim já não existia mais. Em seu lugar crescia outro, feito de ódio, desejo de vingança e uma estranha lucidez perversa.
Não voltei ao trabalho. Não voltei a dormir. Passei a buscar brigas, provocar estranhos, assustar crianças e idosos, como se precisasse testar, diariamente, até onde ia a nova criatura que me habitava. Sabia perfeitamente onde aquilo me levaria.
Resolvi cortar o mal pela raiz. Voltei ao consultório odontológico.
Ao entrar na antessala, a atendente levantou-se e me abraçou com uma candura desconcertante. Afastei-a com delicadeza e desci as escadas tomado por sudorese, taquicardia e ódio.
Foi na saída que vi o assalto. Dois rapazes de capacete cercavam um idoso. Um deles empunhava uma arma.
Não me lembro do que fiz.
Quando voltei a mim, havia um corpo no chão e sangue nas minhas mãos.
No dia seguinte fui chamado de herói.
Pela primeira vez compreendi como a violência se perpetua.
À noite sonhei com o homem do consultório.
Ele sorria.
É isto aí!

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