Nunca estou disponível para mim, e isso me irrita — de certa forma. A questão aqui é analisar, ou ao menos fingir que se analisa com neutralidade, essa expressão que se infiltra no meu cotidiano como uma desculpa educada: a famosa, onipresente e covarde “de certa forma”.
Desde priscas eras sei — ou deveria saber — que a negação de uma proposição não é um detalhe estilístico. Proposição, meus amigos e minhas amigas, é aquilo que se afirma e se submete a exame: algo que pode ser verdadeiro ou falso. Simples assim, embora doa.
Entendeu? Anota aí se precisar: dedução, indução, abdução. Isso cai na prova da vida todos os dias, mas você prefere passar cola sem ler o enunciado.
Na lógica, a negação é uma operação precisa: se a afirmação é verdadeira, sua negação é falsa — e vice-versa. Não há “mais ou menos”, não há penumbra confortável.
Já na linguagem ordinária, essa mesma operação reaparece travestida de gentileza. “De certa forma” não confronta, não nega frontalmente, não assume o risco do não. Ela sorri, concorda com a cabeça e, ao mesmo tempo, esvazia o conteúdo do que acabou de aceitar.
Em termos práticos, prezado leitor, graciosa leitora, “de certa forma” é a negação que não se assume: uma sabotagem elegante da proposição inicial. Concorda-se para não concordar. Afirma-se para não afirmar. Vive-se — de certa forma.
É isto aí!
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