Estava desesperançado quando arrumou a namorada num site especializado. Vinha de uma experiência ruim, dolorida e desagradável. Apaixonou-se logo por um perfil falso. Um dia ela convidou-o para conhecer sua família num lugarejo próximo a Salvador, mais de mil quilômetros de onde residia. Convite aceito, foi encontrar seu grande amor numa cidade a qual nunca ouvira falar e num endereço falso, colocado ali por pura maldade ou por um estranho sentimento de divertir-se com a dor do outro.
Saiu do hotel todo arrumado, perfumado, elegante e de face glabra. Passou na padaria, tomou um café expresso duplo, atravessou a rua, entrou na loja de trecos & coisas e comprou uma lembrança vintage em alumínio, cafona, mas ainda resistente ao tempo. Dali, olhando compulsivamente para o relógio, chamou a florista da rua, que lhe vendeu um buquê de rosas vermelhas de tal intensidade que chamavam a atenção dos transeuntes.
Entrou no táxi e entregou o cartão com o destino, num local distante e totalmente desconhecido de sua vida. O motorista olhou para ele, olhou para o papel, tornou a olhar e indagou se tinha certeza de que aquele era o lugar onde queria chegar. Acenou que sim com a cabeça, combinaram o preço e, quarenta minutos depois, estava diante da casa.
A rua era uma ladeira estreita, com calçamento de pedra imperial; as casas, tristes, assobradadas e encostadas umas nas outras; as janelas de madeira em estilo guilhotina, com venezianas abrindo para a rua; e as imensas portas duplas davam um ar de século XIX à arquitetura local. Bateu solenemente na argola sobre uma chapa de aço, afixada no largo batente, e aguardou ser atendido.
A moça veio mansamente, abriu a porta sem nenhuma pressa, olhou para ele, olhou para a rua, olhou de novo para ele, olhou para as rosas, para o presente; sorriram mutuamente e alguém perguntou lá de dentro:
— Quem é, Maristela?
— Quem é, não sei ainda não, mãe. Mas bem que Dindinha falou — o danado é lindo!
E foram felizes para sempre
É isto aí!

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