Acabou de saber que ela partiu com alguém. Não desejou saber quem era esse “alguém”. Isso não importa, respondeu aos interlocutores da desgraça alheia. Se alguém entrou no nosso espaço de relacionamento e intimidade, é porque havia esse espaço, essa porta aberta, esse dolo específico cuja intenção foi deliberadamente satisfazer um interesse pessoal dela ou um sentimento próprio, atado a algum desejo.
Aconselho que vocês jamais queiram saber o que passa nos sonhos mais íntimos e pessoais da sua cara-metade, dizia a um ou outro que vinha emprestar-lhe sua solidariedade.
Aos amigos mais próximos dizia que sempre soube que o fascínio do amor está na idealização. Conhecer profundamente todas as fantasias do parceiro ou da parceira pode, em alguns casos, desmistificar a pessoa amada e reduzir a atração.
Ficou alguns dias fora da órbita trivial, buscando pensamentos, palavras e atos fora do comum. Abdicou dos caminhos corriqueiros, dos diálogos banais com garçons, verdureiros e lavadores de carros e colegas do escritório. Deu pouca importância a tudo que até então era importante, incluindo ela. Não chorou, não teve crises de insônia, não experimentou a raiva, nem nada que o enviasse ao limbo da dor e do desespero.
Passado um tempo — não suficientemente longo para acabar um grande amor, nem tampouco curto para encobrir os rastros — ela bateu à porta — entreolharam-se pelo olho mágico.
Ele disse, em alto e bom som — Só um instante. Dois longos minutos depois, abriu a lenta e pesada porta e entregou-lhe o carregador de celular que ela esquecera dentro da gaveta do criado-mudo, cuidadosamente guardado na própria caixa.
— Você não vai mudar nunca — disse ela, sorrindo.
— Você será sempre esse ser mutante — disse, devolvendo o sorriso.
É isto aí!
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