domingo, 15 de março de 2026

O segredo de família

Jurou ali, escondido de si mesmo, sem testemunhas reais, virtuais ou da alma, que naquele momento era o único ser sóbrio dentro da sua existência. Havia perdido até a expressão genuína da sua essência, sufocando o amor incondicional, a criatividade, a paz interior, a gratidão e a conexão espiritual; mesmo assim, posava com garbo. Não queria dó nem pena, afinal, era forte.

Naquele dia e naquela hora, nada mais o movia, fosse a inteligência, a consciência ou as emoções profundas. Cego pela dor, apenas abrigava desejos passageiros do corpo, acreditando que bastariam para promover nele uma transformação duradoura e balsâmica.

Recusou-se a chorar. Negou o sofrimento até que este tomasse todo o seu sistema de alerta contra a pressão extrema, aceita sem pedir licença. "Um homem não gasta lágrimas com lamentos e tropeços", dizia para si mesmo. Voltou do velório sem saber como chegar em casa.

Sentou na poltrona e ficou ali, sem estar em lugar algum. Quarenta e dois anos, seis meses e quinze dias... quarenta e dois anos, seis meses e quinze dias... "Você me traiu", disse, olhando zangado para o retrato dela sobre a cômoda. Palhaçada, não foi este o combinado. A dor começou a bater no peito, ainda a tempo de ligar para o hospital. Não morreu naquele dia, nem mesmo após outros dois infartos, sendo o derradeiro doze anos, cinco meses e três dias depois.

Ao chegar ao departamento de recepção dos mortos, deu de cara com ela, linda e sorridente. Olhou com fúria, seguido de um sorriso apaixonado. Aproximou-se e disse:

— Tudo bem, está perdoada. Mas custava ter deixado por escrito a receita do molho secreto do bife

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